sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O mistério de Ricardo



Por Delson Gomes e Roberta Pisco

— Bom-dia, tá subindo? — pergunto ao senhor sentado no banco do elevador.

Nenhuma resposta.

— O que há de errado com ele?, pensei.

Mesmo depois de tanto tempo, sempre a mesma coisa. Chego, entro no elevador, digo bom-dia e nada. Absurdo essa gente mal-educada!

O que ele tem contra mim? É a minha roupa? O meu cabelo? O meu perfume? Não importa. Preciso descobrir.

No dia seguinte coloquei a mochila nas costas e respirei fundo. O mistério teria de ser solucionado. Lá pelas sete da manhã fiquei atenta esperando sua chegada. O que não tardou muito. Logo ele chegou e cumprimentou os outros funcionários. Droga! Com certeza o problema é comigo!

Espera... Outro aluno o cumprimentou e não obteve resposta. Sorrateiramente comecei a segui-lo. Sua vitalidade me espantou, precisei correr para acompanhá-lo. Ele foi direto em direção à cantina e lá deixou o seu tão amado jornal, que traz todos os dias embaixo do braço para ler no elevador.

Depois, ele se locomoveu para um lugar obscuro que eu nunca tinha percebido existir antes na Universidade. Uma porta. Ele entrou e após alguns segundos um homem bem mais novo saiu de lá com o mesmo jornal debaixo do mesmo braço.

— Bom-dia, Ricardo! — ouvi cumprimentá-lo.

Era ele!

O que é isso? Seria essa uma máquina do tempo? Segui o jovem rapaz, menos quando ele entrou no banheiro. Não demorou muito para o velho senhor sair da primeira porta em que havia entrado. Estou confusa.

O que está acontecendo? O mesmo homem mais velho e mais novo ao mesmo tempo, no mesmo local? Voltei a segui-lo. Dessa vez, ele se dirigiu ao seu posto, o banco do elevador principal. Entrei com ele disposta a pôr tudo em pratos limpos.

Quando abri a boca para falar, o elevador parou no primeiro andar e a porta abriu. Aquele homem — o sr. Ricardo mais novo! — entrou e se dirigiu ao sr. Ricardo mais velho. “Ó meu Deus! Será isso um sonho?”

Foi então que a voz do homem interrompeu o meu pensamento.

— Oi, papai!

Nem com o próprio filho ele tinha educação, ignorou-o como sempre faz comigo.

— Papai? — repetiu, dessa vez sacudindo a mão na frente de seus olhos. — Ah, papai, esse aparelho auditivo fajuto! Sempre desregulado.

Obs.: Texto produzido na Oficina Conto/Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

Ilustração: Kitty Yoshioka

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