domingo, 31 de outubro de 2010

Deus para presidente

Os tios de uma amiga defenderam, convictos, à mesa da cozinha:

— Não votamos em Dilma. Ela mata crianças e fechará as igrejas.

Outro amigo justificou seu voto, em outra ocasião:

— Jamais votarei em Serra. A mulher dele fez aborto.

Pouco importa o resultado: o próximo presidente do Brasil será um mistério. Não sabemos o que pensa. Desconhecemos suas propostas e programas de governo. O projeto de país ainda é peça de ficção. Não há um olhar de longo prazo. Sugestões de infra-estrutura não foram cogitadas nos comícios, horário eleitoral gratuito ou debates de TV. Os grupos de interesses em torno do candidato sobreviveram com sobras nas sombras.

Convivemos com os personagens Dilma e Serra, seus moralismos e valores hipócritas, focalizados para atender uma parcela do eleitorado, que deseja confirmar pontos de vista alheios à administração pública. De ambientalistas a religiosos, ambos compareceram a missas, falaram em Jesus e até assinaram compromissos para atender aos radicalismos religiosos.

Dilma e Serra são personagens que se submeteram ao fundamentalismo religioso e aos interesses de pequenos grupos que mesclam política e religião como se fossem irmãos univitelinos em um processo eleitoral.

O aborto se transformou no pré-requisito básico para o próximo presidente. A saúde pública virou badulaque na estante da sala, enquanto o moralismo e a leviandade se instalaram na mesinha de centro. Todos mentem, ninguém se posiciona. Apostam no esquecimento do eleitorado para mudar a correnteza ou enterrar a temática de vez.

Bispos e pastores remontaram a argumentos medievais, no sentido violento do termo. São irresponsáveis quando descartam o olhar político a partir da consciência coletiva de problemas e soluções. Preferem enganar suas ovelhas, que se mantém inertes no currais, a partir do reforço da doutrina e dos interesses eleitoreiros de seus candidatos.

O aborto se aproximou do moralismo barato, que ignora o tema como ferida social e problema familiar. Como engodo, a construção de família idealizada como publicidade de margarina. Religiosos e fiéis fazem vistas grossas para mulheres que, mesmo religiosas e de bom poder aquisitivo, são obrigadas a se esconder como se vivessem sempre dentro de clínicas.

As mulheres, desta forma, são desumanizadas em prol da sede de poder de quem opera pela intolerância. O Sistema Único de Saúde faz 118 mil curetagens anuais. Uma em cada cinco mulheres de 20 a 50 anos já abortou, por exemplo. Parte delas é evangélica ou católica. A necessidade do aborto as afastaria de Deus? Estas mulheres deveriam queimar na fogueira ou descer ao inferno sem escalas?

Por trás do diálogo de surdos, esconde-se outro aspecto sócio-econômico. As mulheres ricas freqüentam clínicas caras, higienizadas conforme normas internacionais de saúde pública e sem riscos de morte. As mulheres pobres, por outro lado, encaram açougues com homens de branco, lugares onde sobreviver pode representar um jogo de dados.

Infelizmente, a relação política e, por vezes, promíscua e perversa entre Estado e religião existe desde o início da história brasileira. A colonização começou e se solidificou com a parceria. Os portugueses montaram o Estado antes da nação e relegaram o suporte ideológico aos jesuítas.

No período imperial, os dois monarcas mantiveram conexões profundas com a Igreja. Os religiosos interferiram em questões políticas como fim da escravidão, republicanismo e imigração.

A República apenas reforçou o relacionamento. Nenhum presidente jamais questionou dogmas religiosos cristãos. Ou ressaltou o sincretismo brasileiro, relegado ao segundo plano em exercícios contínuos de cinismo. Hoje, as bancadas religiosas – nas variadas vertentes – batem no peito, com orgulho, quando atendem seus currais eleitorais em nome de Deus.

Em Santos, onde nasci e resido, um ex-secretário de saúde quase perdeu o emprego porque determinou que a imagem de Nossa Senhora Aparecida fosse retirada de um pronto-socorro. O argumento oficial era o respeito ao Estado laico, mas o secretário era líder de uma Igreja protestante. Nem o secretário ou os revoltosos pensaram, em momento algum, nas filas ou nas faltas dos médicos nos postos de saúde, apenas para resumir a lista de obstáculos.

A presença do aborto na agenda político-eleitoral está impregnada de duas ironias. A primeira delas é que somente Marina Silva, entre os principais presidenciáveis, incluiu o assunto no programa de governo. Logo ela que, publicamente, jogou com a proposta de plebiscito para não se arriscar. Transitou no mundo do politicamente correto. Três em cada quatro brasileiros é contra o aborto, conforme pesquisas de opinião.

A segunda ironia é que a candidata do PV, no documento, defendeu um programa de assistência pública a mulheres. Uma ideia parecida com aquela assinada por José Serra, quando era ministro da Saúde, no governo de FHC.

Ambos – Marina se omite e Serra renega – fizeram teoricamente a opção correta. Trataram o tema como um problema social e cidadão, pelo menos no papel. Mas ambos se beneficiaram do obscurantismo e da voracidade inquisitória dos fundamentalistas que, cegos de repulsa, votam nos boatos e se agarram nos preconceitos e na desinformação.

Candidatos e eleitores, neste ponto, se parecem. Vestem as máscaras, desprezam o interesse público. E digitam o nome de quem não deveria ser um messias – ou um simples sacerdote -, com voz política para pormenorizar as habilidades de administrador público.

sábado, 30 de outubro de 2010

O rodeio dos selvagens

Os rodeios, no Brasil, são uma indústria bilionária. Peões são estrelas que alimentam segmentos da economia como mídia, vestuário, alimentação e entretenimento. Os críticos discutem o universo dos rodeios pela perspectiva ambiental, na qual colocam como problema a dualidade entre homens e animais, a linha tênue entre a civilidade e bestialidade.

Cerca de 50 universitários da Unesp, uma das três principais instituições de ensino público do Estado de São Paulo, assumiram o lado animal. Elite do ensino superior, o grupo resolveu praticar o “rodeio das gordas”, ideia imbecil nascida na Internet e praticada no InterUnesp 2010, os jogos da instituição, em Araraquara, no interior de São Paulo.

A brincadeira – na justificativa dos organizadores – consistia em se aproximar de uma garota gorda e fingir interesse por ela. Assim, poderia derrubá-la no chão e montá-la por até oito segundos. O tempo garantiria pontos para o “peão”. Caso a garota se revoltasse, seria classificada como “bandida”, referência a um touro famoso numa novela de TV. Se a “montaria” fosse bastante gorda, a pontuação também crescia.

Um dos organizadores do “rodeio” é Roberto Negrini, estudante no campus de Assis e criador de uma comunidade no Orkut sobre o tema. Para ele, a história representou uma “brincadeira”.

Depois da repercussão na mídia, o Ministério Público de Araraquara resolveu investigar o caso. A Unesp também saiu da inércia e abriu processo disciplinar contra dois alunos, após protestos de estudantes, professores e outros funcionários. Somente dois alunos entre 50 participantes, como se fosse uma missão de espionagem descobrir os envolvidos.

A história representa, no mínimo, a sobreposição de preconceitos e de um olhar intolerante que transforma o outro em objeto. Mulheres que, em metamorfose, viram gado, capazes de serem domadas, domesticadas pelo homem. Mulheres-coisas, tão bestiais, primitivas e inferiorizadas como os homens que se julgam no direito de tê-las como propriedade, ainda que por oito segundos.

O “rodeio das gordas” é uma metáfora da visão masculina ainda sólida sobre as relações de gênero. O rodeio poderia ser trocado por ambientes de trabalho, por residências, por espaços educativos e religiosos. Nestes endereços, homens “montam” em mulheres por exercício de poder, perversidade fruto da crença cega de que questões de gêneros estabelecem graus de superioridade e/ou inferioridade.

Além do machismo inerente ao “rodeio”, é reproduzido o preconceito conectado à ditadura da estética. Mulheres gordas seriam, no olhar boçal, uma sub-espécie. A inferioridade multiplicada ao quadrado. Mulheres gordas seriam, por premissa, uma aberração aos padrões, passíveis de punição por sua condição física. Se as mulheres equivalem à gado, por que os estudantes da Unesp levariam em consideração aspectos intelectuais ou afetivos?

A sociedade contemporânea odeia os gordos, um dos inúmeros paradoxos deste homem individualista, imediatista e intolerante. É um ódio que cresce a partir de um espelho. Uma sociedade que prega com fundamentalismo o discurso da vida saudável mascara – na prática – a própria enfermidade, de mente e corpo. Somos cada vez mais obesos e dependentes de coquetéis químicos para suportarmos os outros e, acima de tudo, a nós mesmos.

O ódio – traduzido pelo “rodeio das gordas” – é a tentativa de expurgar a repulsa pela própria imagem e semelhança. Gordos são retratados como incapazes mentais, preguiçosos e negligentes. Em muitos círculos sociais, a gordura traduz desvio de comportamento e de caráter. O diferente – na verdade, a regra – traz em si a vergonha de nos contar, pela aparência, a essência de nós mesmos.

Os estudantes universitários, que o senso comum indicaria como sujeitos sensatos pela proximidade do conhecimento, apenas engrossam e – ao mesmo tempo – simbolizam como muitos entendem o papel da mulher. Neste foco doentio, a mulher não seria diferente de um pedaço de carne, enquadrado em padrões de qualidade e exposto, por exemplo, em programas de televisão.

Caso se recuse ou não se esforce para se adequar aos limites, esta mulher se transforma em personagem digno de humilhação pública. O processo é inquisitório, com condenação antecipada e carrasco a postos. É preciso punir e excluir aquilo que incomoda, gera temor e, principalmente, escancara nos rostos destes animais o que eles são ou o que deverão se tornar em breve.

Conversei sobre o “rodeio das gordas” com vários grupos de pessoas, todos universitários. O que você, leitor, esperaria como reação? A reflexão posterior não conta, já que permite o esconderijo das convenções sociais e culturais.

Observei as reações instantâneas. A minoria reagiu, de pronto, com indignação e pediu mais detalhes da história. A maioria caiu no riso, ainda que nervoso. Uma parte foi às gargalhadas. Entre os falsos contentes, muitas mulheres. Fiquei em dúvida: de qual lado da cerca está o gado?

A vida na biblioteca



Por Oscar Valeriano da Silva Júnior

Qual é a idéia que se faz de uma biblioteca? Silêncio reinante, livros empoeirados, a cara de poucos amigos da bibliotecária. Em se tratando de uma biblioteca universitária, a coisa muda por completo. Os sons e a diversidade de pessoas criam um universo único, como diria Spock – “infinitas diversidades em infinitas combinações”.

Eu vejo isso atrás do balcão todos os dias. Perco a conta dos tipos que aparecem por lá ou passam rumo à sala de estudos. Posso listar um pequeno grupo dessa diversidade.

Comecemos pelo confortável: o aluno que senta no pufe para conversar ou estudar. No fundo, prefere mesmo dormir.

Há também o paraquedista,que aparece na biblioteca por acaso, procurando um livro que nem sabe quem escreveu ou seu título. O diálogo é mais ou menos assim:

- Moço, preciso de um livro de anatomia bem fininho.

- Certo, mas que livro você procura?

- Ah, um bem fininho.

Como explicar para esse aluno que existem mais de 20 títulos que se encaixam no que ele quer?

O aluno solidário é o verdadeiro amigo. Ele só vai à biblioteca para acompanhar os amigos.

Outro é o distraído, que esquece o livro em algum lugar, ou entra com bolsa ou mala no acervo.

Outro tipo é o halterofilista, que sempre está carregando livros grandes e pesados.

Há ainda o aluno amigo, que sempre para no balcão para bater um papo. Não posso esquecer o meu favorito: o aluno sócio, que sempre paga multa.

Mas nem tudo é alegria na biblioteca porque alguns tipos de alunos que não são tão legais, como o nervoso, que anda sempre estressado com as coisas. É quando temos que ter mais jogo de cintura para lidar. Um exemplo são os barulhentos, que esquecem onde estão e ficam falando alto, e o vagaroso, que espera o último instante para sair da biblioteca antes dela fechar.

A biblioteca é um mundo diferente, único no seu dia-a-dia, nunca é igual, mas quando chega a hora de fechar que o silêncio reina novamente, só ecoando o som de seus alunos que percorreram os corredores, até recomeçar tudo de novo no dia seguinte.

Obs.: Texto produzido na Oficina Conto/Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

Ilustração: Kitty Yoshioka

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Moça, tem um alien no seu rosto!



Por Pepi Katsuyami e Kitty Yoshioka

Algumas coisas não passam despercebidas... De verdade. Não tem como não ver. Uma questão de força maior e, de repente, você não consegue parar de olhar.

Monocelha, por exemplo. A palavra não existe no dicionário, mas a coisa em questão, sim. E como existe. Aquela junção de pêlos no meio do cenho que não faz parte da sobrancelha “normal” e também não faz parte de nenhum outro conjunto natural de pêlos que existem no corpo humano. Isso, para quem não sabe, define a palavra MONOCELHA.

Por falar em pêlos, você pode dizer que não, mas, no fundo, nós sabemos que também repara neles. Aquele fio saindo do nariz do amigo do seu avô, que faz questão de tentar puxar na sua frente. Ou saindo do ouvido um tufo ENORME e grisalho e, às vezes, acobreado (devido ao acúmulo de secreção de cera proveniente das glândulas sebáceas situadas no canal auditivo).

Não são piores que aquele “caminho” na barriga das moças mais descuidadas. Levantam o braço para pegar algo e você acompanha aquela linha do umbigo até... Sei lá, imagine você até onde vai. Sem contar o buço que, às vezes de tão visível, vira BIGODE. E um bigode digno de Freddie Mercury.

Agora, a coisa que mais chama a nossa, a sua, a atenção de todos... Aquela asquerosa, nojenta, horrível e agonizante PINTA que fica, geralmente, no rosto da sua tia-avó. É a mesma tia-avó que tem mania de apertar as suas bochechas e que, quando vai te abraçar nas festas de final de ano, esfrega a tal bolota facial em seu rosto. Essa mesma bolota que, também na maioria das vezes, conta com uma cobertura aveludada de pêlos.

Todas essas coisas são como imãs para o nosso olhar. Poderíamos sugerir mais uma lista enorme de “aliens do corpo humano” que você certamente repara (e, se não repara, passará a reparar). Mas não iremos fazer isso. É muita maldade. A hora do almoço se aproxima e não queremos perder o apetite.

Se você, por ventura, possuir algum desses itens grotescos citados acima, não se ofenda. As pessoas reparam, e ponto. Se não quer que reparem, retire-os e seja feliz.

Obs.: Texto produzido na Oficina Conto/Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

Ilustração: Kitty Yoshioka

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O mistério de Ricardo



Por Delson Gomes e Roberta Pisco

— Bom-dia, tá subindo? — pergunto ao senhor sentado no banco do elevador.

Nenhuma resposta.

— O que há de errado com ele?, pensei.

Mesmo depois de tanto tempo, sempre a mesma coisa. Chego, entro no elevador, digo bom-dia e nada. Absurdo essa gente mal-educada!

O que ele tem contra mim? É a minha roupa? O meu cabelo? O meu perfume? Não importa. Preciso descobrir.

No dia seguinte coloquei a mochila nas costas e respirei fundo. O mistério teria de ser solucionado. Lá pelas sete da manhã fiquei atenta esperando sua chegada. O que não tardou muito. Logo ele chegou e cumprimentou os outros funcionários. Droga! Com certeza o problema é comigo!

Espera... Outro aluno o cumprimentou e não obteve resposta. Sorrateiramente comecei a segui-lo. Sua vitalidade me espantou, precisei correr para acompanhá-lo. Ele foi direto em direção à cantina e lá deixou o seu tão amado jornal, que traz todos os dias embaixo do braço para ler no elevador.

Depois, ele se locomoveu para um lugar obscuro que eu nunca tinha percebido existir antes na Universidade. Uma porta. Ele entrou e após alguns segundos um homem bem mais novo saiu de lá com o mesmo jornal debaixo do mesmo braço.

— Bom-dia, Ricardo! — ouvi cumprimentá-lo.

Era ele!

O que é isso? Seria essa uma máquina do tempo? Segui o jovem rapaz, menos quando ele entrou no banheiro. Não demorou muito para o velho senhor sair da primeira porta em que havia entrado. Estou confusa.

O que está acontecendo? O mesmo homem mais velho e mais novo ao mesmo tempo, no mesmo local? Voltei a segui-lo. Dessa vez, ele se dirigiu ao seu posto, o banco do elevador principal. Entrei com ele disposta a pôr tudo em pratos limpos.

Quando abri a boca para falar, o elevador parou no primeiro andar e a porta abriu. Aquele homem — o sr. Ricardo mais novo! — entrou e se dirigiu ao sr. Ricardo mais velho. “Ó meu Deus! Será isso um sonho?”

Foi então que a voz do homem interrompeu o meu pensamento.

— Oi, papai!

Nem com o próprio filho ele tinha educação, ignorou-o como sempre faz comigo.

— Papai? — repetiu, dessa vez sacudindo a mão na frente de seus olhos. — Ah, papai, esse aparelho auditivo fajuto! Sempre desregulado.

Obs.: Texto produzido na Oficina Conto/Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

Ilustração: Kitty Yoshioka

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O chiclete e o pão de queijo



Por Bárbara Matheus Bertagnoli & Francisca Moraes Vasconcelos

Estava atrasada, muito atrasada. A aula tinha acabado de começar. Enquanto eu esperava o elevador, senti vontade de comprar um chiclete e fui bem rápido até a cantina. Assim que cheguei pedi à moça um chiclete e com uma cara enfezada ela me respondeu:

— Só um minuto — e se virou e continuou preparando o café.

Senti-me completamente ignorada. Esticar a mão e pegar um chiclete não tiraria tempo algum dela. Mas, enfim, enquanto estava lá comecei a analisar o ambiente da cantina. Havia poucas pessoas. Uma moça com muitos papéis na mão, olhando para a televisão e falando ao celular.

Estava impaciente porque a atendente da cantina a olhava com certo desprezo. Nesse meio tempo, um rapaz chegou com um carrinho cheio de pães de queijo congelados. Escutei o que ele comentou para a outra atendente da cantina:

— Faz muito tempo que não como um pão de queijo!

Sorri imaginando o quão irônico era o próprio entregador de pães de queijo dizer isso. Nesse momento, percebi o tempo que já estava esperando o chiclete. Olhei para a atendente e ela estava distraída tomando suco e vendo televisão. Fiquei inconformada:

— Moça! — disse mais uma vez sendo ignorada. — Você esqueceu o meu pedido?

— Ah, tá, é verdade — falou com extrema grosseria, abrindo a porta de vidro do balcão e tirando de lá um mentos.

Fiquei mais irritada ainda, me virei e saí andando sem dar resposta. Cheguei ao elevador, que tinha acabado de fechar a porta: “Que ótimo! Vou pela escada”. Em direção à escada, passei em frente à outra cantina e surpreendentemente vi o entregador de pães de queijo entregando o produto na cantina concorrente. “Realmente, ironia não falta aqui”, pensei enquanto subia as escadas.

Por causa de um chiclete, chegaria mais atrasada ainda.

Obs.: Texto produzido na Oficina Conto/Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

Ilustração: Kitty Yoshioka

Duas amigas e uma pesquisa

Por Luis Gustavo Queiroz Chaves da Cruz

Sabe quando a gente quer fazer um trabalho? E algo sempre dá errado? Duas amigas querem fazer uma pesquisa para um trabalho e quando vão entrevistar alguém fazem uma pergunta simples: “Já ocorreu algo diferente aqui?” E a pessoa responde: “Não, aqui é tudo normal”.

Sabe como isso é frustrante? Você só quer uma luz e as pessoas não ajudam. Você diz: “Mas você tem alguma história marcante?”. E como resposta recebe um “não”, mas não um não normal, esse tipo de não é aquele... “não me enche, tenho mais o que fazer!”

Aí você tem uma luz — falar sobre algo que ocorreu com você ou sua amiga. Vocês pensam, repensam, a coisa fica tensa, vocês não sabem o que dizer, ficam com a cabeça a mil e quando tudo vai explodir: “BAM!”, vem a solução.

Falar sobre um mico pelo qual todos os estudantes sofrem — o fora que se leva quando vai se fizer uma pesquisa. Você vai feliz, com toda a boa vontade do mundo e quando fala com as pessoas só houve não, não posso, tô ocupado, não enche, tô atrasado.

Aí vem a parte engraçada: apesar de todos os foras você se diverte e, cá entre nós, a vida tem seus altos e baixos, mas nada que uma boa comédia sobre duas amigas e suas pesquisas não resolva. Porque, no final, o que valeu foi a intenção, porque quando você acha que tudo acabou sempre tem alguém que te ajuda no final.

Obs.: Texto produzido na Oficina Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

domingo, 10 de outubro de 2010

No busão



Por Natalia Matias e Thatiane Souza

Ônibus cheio, sem telefone, impossível não escutar as conversas das pessoas, principalmente quando elas fazem questão de serem ouvidas. Hoje, morrendo de sono, vindo para a faculdade, ouço uma mulher falando:

— Vou descer pela frente, porque atrás os caras ficam encoxando e eu não quero ficar grávida.

No começo achei que era um pouco mal-educada, mas depois reparei que ela não tinha o juízo perfeito, dizia que iria votar no Lula porque ele olhava para o povo. E disse:

— Olha que ônibus maravilhoso em que você está andado hoje.

Pensei: “Acho que ela não está no mesmo ônibus que eu.”

Continuou falando:

— Não é pra votar na outra, porque ela só fala em ecologia e ecologia é coisa pra rico, ecologia de pobre é arroz e feijão.

Pensando por um lado, até que ela tinha um pouco de razão ao falar de gravidez, pois um tipinho que sempre aparece nos ônibus são os “encoxadores”, eles pegam o ônibus apenas para isso. Seis horas da tarde você voltando do serviço ou indo para a faculdade, o ônibus lotado e você ainda tem que aguentar um cara que parece que nunca viu mulher na vida; ele te encoxa de qualquer lado, seu braço, sua cabeça, suas pernas, enfim.

Todos os dias você pega ônibus para lugares diferentes, mas parece que encontra sempre as mesmas pessoas. Tem aqueles que escutam música no celular sem fone; engraçado, eles sempre são funkeiros, parece até que combinam de cada um pegar um ônibus diferente e botar o funk bem alto.

Tem as senhorinhas que pegam o ônibus só pra contar a historia das suas vidas, apesar delas falarem e você nunca ouvir direito; mesmo assim, você balança a cabeça, concordando, como se tivesse super interessado. Imagina se ela está te faz uma pergunta e você olha sorrindo que nem retardado.

Tem ainda as pessoas que reclamam de tudo e de todos. Se está calor, se está frio, se o ônibus está cheio, dos assentos reservados. Essas só querem puxar conversa, arrumar um companheiro. Fica a dica: homens bonitos não querem saber se você está passando calor. Existem também os que fazem barraco, gritando que os outros não respeitam os assentos reservados.

Outro tipo que existe no ônibus é o vendedor de chiclete, aquele cara que todo dia passa vendendo seus doces como se fossem a maior promoção. Mas no ônibus a única coisa que queremos de fato é chegarmos ao nosso destino. Em paz.

Obs.: Texto produzido na Oficina Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

Ilustração: Kitty Yoshioka

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Três por quatro



Por Rafael Gonzaga de Oliveira e Vanessa Barbosa Ornelas

Cabelos grisalhos. Pele castigada pelo sol. Olhos castanhos constantemente marejados. Perambula pela avenida, travestido de gente importante: paletó preto condecorado de tampas de garrafa, alfinetes e Deus sabe o que mais. Louco.

No ponto de ônibus, estávamos eu e ele. Esperava o meu martírio com a mesma impaciência que ele descansava de seu longo passeio noturno. Como se quisesse aquietar o espírito, procura nos bolsos algo que para mim não parecia importante: uma carteira de couro já gasto que fora aberta com muito cuidado, o que não impediu que uma foto 3x4 caísse no chão. Mais do que depressa, o homem buscou-a, transtornado.

— Se eu perder você, estou perdido — disse, dirigindo-se à imagem de uma moça.

Guardou seus pertences com pressa e se pôs a andar descontinuadamente em direção a lugar algum. Era como se aquela mulher tivesse lhe tirado o pouco de sanidade que lhe restava durante aquele curto período de tempo.

Nem todos podem aceitar isso, mas talvez este homem seja apenas alguém que, ao sofrer extrema desgraça, por fraqueza ou conveniência, preferiu se tornar produto de uma mente desiludida.

Obs.: Texto produzido na Oficina Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

Ilustração: Kitty Yoshioka

sábado, 2 de outubro de 2010

Unisanta Online realiza cobertura acadêmica para eleições

Pela quarta vez o Unisanta Online, jornal-laboratório digital elaborado por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (Santos-SP), faz uma cobertura acadêmica especial das eleições. Os eleitores de todo o país poderão acessar o site, disponível em Unisanta Online e acompanhar em tempo real as informações sobre a votação na Região Metropolitana da Baixada Santista.

Desta vez participarão alunos do quarto período de jornalismo, voluntários de outros anos, ex-alunos e colaboradores orientados pelos professores Alexandre Sobrino, Daniella Aragão, Darrell Champlin e Marcus Vinicius Batista. O site, que já está no ar, traz informações a fim de auxiliar os eleitores na hora de votar.

Em sua última edição especial, na cobertura das eleições de 2008, o Unisanta Online recebeu mais de 35 mil visitantes únicos. Indicado pelo apresentador do CQC Marcelo Tas em seu blog, obteve ainda mais de 15 mil indicações provenientes de mecanismos de buscas.

No dia 3 de outubro, a equipe estará em diversos pontos da região da Baixada. Eles registrarão os momentos mais importantes nas zonas eleitorais e seu entorno. Durante todo o dia, os envolvidos na cobertura estarão produzindo notas e material fotográfico.

História - De forma pioneira, já em 2004, os alunos-repórteres foram distribuídos pelos locais de votação para acompanhar candidatos, condições de segurança, trânsito, movimentação do eleitorado e a apuração dos votos. O trabalho resultou em quase 200 textos ao longo dos dois turnos das eleições municipais, levando o jornal digital a acumular quase 25 mil acessos.

No ano de 2006, os estudantes repetiram a experiência cobrindo as eleições para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, com mais um diferencial: a cobertura fotográfica. Em um único turno, o site alcançou a marca de 19 mil acessos únicos – não contando o retorno de um mesmo computador ao site.

Em 2008, a equipe foi mobilizada para uma nova cobertura. Desta vez, o diferencial foram os podcasts de entrevistas e vídeos com depoimentos de todos os candidatos à prefeitura de Santos – que, juntamente com os textos e imagens produzidas, colocaram os alunos diante da experiência de produzirem um legítimo conteúdo jornalístico multimídia.