domingo, 5 de setembro de 2010

A última conta

O encontro semanal era religioso. As três podiam faltar à missa ou se esquecer do culto, mas o final da tarde de segunda era sagrado. Paula, Andréia e Jussara se encontravam no mesmo cafezinho do centro de comercial, meio do caminho para todas.

Entre uma bebida quente com adoçante, um salgado integral e uma sobremesa diet, as três atualizavam o papo, faziam confissões e acabavam sempre na mesma pauta: maridos, namorados, cachos, transas eventuais, nomes que variavam conforme o status atual do colaborador. Como trabalhavam no mundo corporativo, adoravam incorporar os termos na vida pessoal. Achavam que, assim, garantiriam os empregos e seriam pró-ativas.

Depois dos beijos e das perguntas mecânicas sobre família, trabalho e tal, sentaram-se, fizeram os pedidos e Jussara, sem cerimônia, despejou nas amigas:

— Terminei com o Paulão!

— Mas você não estava apaixonada? Disse que queria ter filhos com o cara, só enchia o saco com as histórias dele, - reagiu Paula.

— Enchia o saco? Estava apaixonada sim. Mas certos deslizes – vamos dizer assim – são imperdoáveis. Dói, mas não posso continuar com alguém que faz uma coisa dessas.

— Já sei. O filho da puta não agüentou dois meses sem te chifrar. Não acredito! Fez o que tinha que fazer. Amiga minha não assina atestado de corno.

Jussara olhou para Andréia como se não compreendesse a reação agressiva. De onde ela tirou essa ideia?, pensou. Paulão era perfeito. Ou quase.

— Não foi chifre. Neste ponto, ele era um santo. Marcava em cima, e ele nunca escorregou.

— Então, o cara é broxa. Ou pior: tem namorado. Gay só amigo, minha filha. Não dá para sonhar em mudar o fulaninho, não.

— Você piraram? Ele é ótimo de cama. Nunca tinha experimentado igual. E me pegava como macho.

— Você dizia a mesma coisa do seu ex-marido.

Jussara ignorou a provocação gratuita de Paula e resolveu entrar no joguinho delas. Quando precisava se valorizar, brincava – inconscientemente - de esconde-esconde.

— Quando se ama um homem, ele é sempre o melhor. Ainda que o brinquedo não funcione de vez em quando. Mas amor não é só sexo. É atitude, é a forma de tratar uma mulher.

As duas olharam arregaladas. Andréia, imediatamente, pegou nos braços de Jussara e procurou por marcas, manchas roxas, arranhões, o que pudesse provar a brutalidade daquele animal.

— O cara te bateu! Filho da puta! Você não foi à polícia? Eu vou contigo. Ele tem que preso pelo que fez. Homem que bate em mulher merece virar mulherzinha na cadeia.

Jussara não entendia porque as amigas estavam tão amargas. Crucificavam o Paulão. Os dois tinham passado mais um final de semana maravilhoso. Ele a levara para jantar comida japonesa, transaram quase a madrugada toda, mais cineminha no domingo e a madrugada de domingo para segunda no motel. Aí, o namoro levou o golpe de morte.

— Não é nada disso, Nunca teve violência, chifre ou broxada. Ele também não é gay. A única violência foram aquelas pegadas normais que todo homem deve ter. O problema é outro. Sexo e dinheiro.

— Garotas de programa? Sabia que o cara desviava. Saia com elas ou te propôs alguma coisa mais indecente? Nunca imaginei que você tivesse vocação para santinha e ficasse horrorizada com um convite assim.

Jussara levantou a voz, louca para contar o motivo da separação e aborrecida por tantas bolas fora das amigas. Contou até cinco, respirou fundo e disse pausadamente:

— Acabei com Paulão porque ele me propôs dividir a conta do motel.

— Como assim? Explica para a idiota aqui.

Paula traduzia em palavras as feições de Andréia, que passava a mão no rosto e nos cabelos. Então, Paula resolveu dar sermão. Nestas horas, falava como homem.

— Que palhaçada é essa? Terminou porque o cara não quis pagar o motel sozinho. Você não é mulher independente, não quer direitos e deveres iguais, não dizia que vocês dividiam tudo, até as despesas? Como é que larga um homem desses por causa do motel? Quer dizer, da conta do motel?

— Olha, topo dividir conta, cheguei a emprestar dinheiro para ele uma vez. Ele me pagou direitinho. Discutíamos tudo, mas motel não dá. Lá, não pago conta nenhuma.

— Mas por que, criatura de Deus?

— O motel é um momento de intimidade, de cumplicidade. E de liberdade, também. Onde se faz certas coisas que ficam por lá. Não é apenas sexo. O relacionamento começa quando se entra no motel e termina quando se sai dele. Quando a portinha da garagem se fecha. Se o homem é o ativo, tem que estar no comando até o final. Não tem essa história de troca. Dividir conta é troca. E, nessas horas, não gosto de homem sensível não.

— Sensível?

— É ... tem que cumprir o que promete. A ideia do motel foi dele.

— E se fosse sua?

— Não muda nada. Motel é território neutro. Mas alguém tem que assumir o controle da situação. Ele começou, que terminasse.

— Não adianta dizer o contrário. Está feito. Mas, me diga uma coisa, quanto deu a conta?, perguntou Paula.

— Quarto mais jantar, em torno de R$ 150.

— Então a sensibilidade do Paulão custou R$ 75, calculou Andréia.

— Paciência com homem assim não se divide não. E eu disse, duas vezes, para a gente dormir na minha casa.

4 comentários:

Cris Eugênia disse...

Concordo com a Jussara.
Rsrs

Anônimo disse...

Também não divido conta de motel. Já gastamos uma fortuna com lingeries, cabelo, maquiagem, manicure, perfume, batom, roupa nova e sapato novo. Faz as contas de quem gasta mais.

Eu pra mim é pouco disse...

Muito embora seja eu um assíduo adepto do sexo gratuito, tenho de concordar com um velho amigo que costuma dizer que "sexo grátis é mais caro" (geralmente... rs), em uma sociedade onde tudo está mercantilizado, até o feminismo, e porque não o sexo, não raramente a situação se materializa na vida real, criando um "corte-sexual-econômico", se o "guri" não tem grana para o conjunto das contas, se vê impedido de convidar para uma noitada, jantar, teatro, balada, motel... etc e tal
Se somar-mos o conjunto dos custos de uma dança do acasalamento, de um jogo de sedução, chegaremos rápido a conclusão, que o sexo pago, no qual o valor é pré-estabelecido e x de dinheiro é trocado (de forma direta) por x de mercadoria (no caso, sexo, é muito mais barato.
reitero que faço a opção pelo sexo grátis, mas tendo a clareza de que "sexo-grátis" é mais caro!!!
rs

Forte-abraço!!!

Mariana Dias disse...

Nossa Marcaoo, rachei aqui! haha Otimo texto! Entrou no espirito feminino. rsrs