domingo, 19 de setembro de 2010

A praça é nossa!



O músico Fabiano Martins, de 28 anos, quer apenas tocar na Praça da Sé. Para que isso aconteça, precisa derrotar a Prefeitura de São Paulo em última instância: o Superior Tribunal Federal.

A história dele foi contada pelo jornalista Diego Zanchetta, no jornal O Estado de S.Paulo. Fabiano é mineiro, filho de Marciano (dupla de João Mineiro) e se mudou de Belo Horizonte para a capital paulista em busca de maior visibilidade no cenário musical. Percebeu, de cara, que ganharia mais tocando na praça do que em barzinhos.

Em dias bons, como diz o músico, o faturamento varia de R$ 600 a R$ 700. Já vendeu 32 mil CDs. Tem até fã-clube em rede social e começou a fazer shows em outras cidades.

A briga judicial nasceu a partir do momento que a Prefeitura exigiu licença prévia para que o músico pudesse se apresentar em praça pública. Com este argumento, a administração municipal perdeu em todas as etapas judiciais.

Como contra-ataque, a Prefeitura alegou que o músico desrespeitou a lei do silêncio. Apreendeu os equipamentos dele quatro vezes desde que transformou a praça em palco, há dois anos. A última apreensão aconteceu no final de agosto.

A Sé é um dos maiores exemplos de sobrevivência de uma praça como local público. Ali, convivem repentistas, pregadores, vendedores, biscateiros, entre outros sujeitos que buscam te convencer de uma ideia, te envolver em alguma causa, seja artística, política, picareta ou a união de todas elas. A Sé mantém, a princípio, o objetivo essencial de uma praça: um espaço de todos e para todos.

“Dona da praça”, a Prefeitura de São Paulo se esquivou mais uma vez do papel de mediadora e abraçou um dos lados. A administração vestiu a camisa de parte dos comerciantes da área, que – por trabalharem no local – passam a impressão de serem proprietários do espaço além de suas lojas.

Parece a história do empresário paulistano que, três anos atrás, depois de receber autorização para cuidar de uma praça no Jardim Europa, em São Paulo, se omitiu diante da destruição da escultura em homenagem ao falecido jornalista Claudio Abramo. Pior: colocou no lugar outra escultura, feita por sua esposa. Só voltou atrás depois da ressonância negativa do caso.

É verdade que a praça, em linhas gerais, perdeu sua natureza há tempos. A Sé resiste de maneira desorganizada, na qual o caos dos passantes assegura a efervescência pública daquele lugar. Qualquer um pode subir em um caixote e dizer o que quiser e estar sujeito a uma platéia animada, curiosa ou simplesmente ao vento que quebra a ressonância do vazio do discurso.

A praça perdeu seu foco de manifestações políticas, de protesto de uma coletividade contra desmandos ou equívocos do poder. Em Santos, a Praça da Independência, no Gonzaga, sempre representou palco de protestos. Até os caras-pintadas anti-Collor se reuniram ali.

Hoje, a Praça da Independência está infestada de cavaletes de políticos e se limita a agregar torcedores que comemoram campeonatos de futebol ou pequenos grupos de tribos urbanas. Outras praças da cidade ainda abrigam apresentações artísticas, como a Virada Cultural.

As praças, atualmente, viraram locais de passagem, pontos onde a pressa das passadas indica a cegueira diante do que deveria simbolizar o espaço público. Esta concepção remete a 2400 anos, na Grécia Antiga, onde a ágora (a praça) tinha a finalidade de discussões públicas e decisões em conjunto. Sócrates usava a praça como cenário para aguçar seus interlocutores.

A praça como ponto de encontro, de conflito de ideias acompanhou o homem em boa parte de sua história. É um dos elementos da cultura ocidental e um das veias simbólicas das relações políticas. Até ditadores utilizaram praças para se vestir de cordeiros da democracia ou do pacifismo.

Diante do esvaziamento ideológico e da política como mercadoria de supermercado, apenas um modelo de praça consegue hoje lotar com freqüência. Aliás, enche todos os finais de semana.

Neste modelo de praça atual, política não está na ordem do dia. Não existem placas, cartazes ou faixas, além das promessas de felicidade das empresas. Somente cardápios, barulhos de talheres e debates sobre o filme recém-consumido.

A Prefeitura de São Paulo tenta fazer o que, há anos, os shoppings centers conseguiram: estabelecer a propriedade do espaço público. A diferença é que, no shopping, o espaço tem nome e sobrenome: praça de alimentação.

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