domingo, 26 de setembro de 2010

Obrigado, Ronaldo



Ronaldo, você não precisa mais vestir a camisa do Corinthians. Sua imagem não está em risco, mesmo que jamais pise no Pacaembu outra vez como jogador de futebol profissional. Sua carreira sempre será associada aos títulos, aos gols, às arrancadas, aos dribles em velocidade, ao desempenho singular. Mas o fato é que o Corinthians, como time, pode prescindir de sua presença.

Você é hoje muito mais importante como sócio, como parceiro comercial. Neste caso, basta que jogue eventualmente. Somente não pode – neste momento ou até o final do ano – oficializar a morte do atleta profissional. Ingressos mais baratos, menos gente no estádio, patrocinadores em debandada. Seria uma goleada contra a “empresa” Corinthians.

A revista Placar publicou, em reportagem, que você rende R$ 20 milhões por ano ao clube. O salário é estimado em R$ 550 mil, mas os ganhos mensais alcançariam R$ 1,8 milhão, se somados os patrocínios. Esta fortuna te coloca no topo do ranking da remuneração dos jogadores.

Se os números são apenas aproximados, descarte o preciosismo. Como mina de ouro, você precisa calçar as chuteiras, ainda que não corra, ainda que altere o desenho tático. Sei quanto o acordo é vantajoso para ambos os lados. E não há problema algum nisso. O único ponto questionável seria a insistência em alimentar a ilusão de parte da imprensa e torcedores. Eles acreditam que você não recebeu ainda o prefixo “ex” à frente de sua profissão.

O Corinthians se adaptou, ainda na gestão de Mano Menezes, a não depender de sua genialidade. Adilson Batista ratificou e aperfeiçoou o novo jeito de jogar do time. Este ponto me entristece, pois fica cristalino que, se você atuar de vez em quando, no Pacaembu, ótimo. Se não jogar, o time aprendeu a se virar com serenidade. Um cara como você jamais poderia aceitar a condição de dispensável.

Nas entrelinhas das declarações do técnico Adilson Batista e de seus principais colegas, os sinais de que a última página do enredo se aproxima. Até você disparou indiretas sobre os limites do corpo, como se preparasse os torcedores para o abraço de despedida. Quando abriu, recentemente, uma empresa especializada em agenciamento e administração de carreira de atletas, pensei: outro sintoma da fase de transição.

Gostaria de estar enganado. Errado ou não, resolvi me despedir de ti como forma de agradecer por tudo o que fez pelo futebol e, na última curva, pelo Corinthians.

Ronaldo, você viveu os últimos 17 anos como se fosse o personagem de um épico. Daqueles clássicos e popularmente melosos. Alguém amaldiçoado à saga dos diferentes, com capítulos dramáticos de qualquer tragédia grega.

Oito cirurgias. Três ressurreições. Você insistiu em emudecer os críticos apressados, os sanguessugas da desgraça alheia. Você não representou o primeiro craque globalizado, filhote do marketing e vassalo do espetáculo. Usufruiu do modelo atual, claro, não como herdeiro, mas como um dos co-criadores.

Ninguém controla este universo de falso glamour e cifrões em tempestade. Talvez tenha sido sua bola furada na grande área. Você acendeu o fósforo e saiu chamuscado pelas labaredas. Sua vida privada foi revirada, devastada e incinerada sucessivas vezes.

É uma vida que nunca me interessou. Nem ontem e hoje. Seus “escorregões”, apontam com dedo em riste os moralistas, soam para mim como baixas de uma batalha de mídia, na qual os segredos da coxia caem no palco sempre que ele se encontra vazio.

Ouvi falar de ti, pela primeira vez, quando deixou Rodolfo Rodriguez, o melhor goleiro que vi jogar, com cara de juvenil que treme na estréia profissional. Um jogo entre Cruzeiro e Bahia, último clube do uruguaio no Brasil. Você marcou cinco dos seis gols da raposa naquele dia, há 17 anos. Não me lembro de outro que tenha feito tantos, em um só dia, na parede de bigodes.

Nunca me impressionei com seus recordes. Não é desprezo. A verdade é que não entendi os recordes como fim em si. Somente conseqüências. São números importantes, reforçam seus feitos, mas desumanizam o sujeito, pois te afastam dos sentimentos do torcedor. Os recordes te colocaram no panteão do melhores. Fortaleceram a imagem de fenômeno, título que reduz sua trajetória às façanhas como atacante, sem considerar sua principal característica: o renascimento.

Ser dado como morto várias vezes te tornou incomum. Você recomeçou a carreira de pontos onde a maioria desistiria ou se contentaria com as pílulas de nostalgia da mesa de bar. Você dispensou as convenções do gênero, convencido de que reviravoltas e tensões freqüentes assombravam e enterneciam o espectador.

O jeito de trabalhar sempre me impressionou. Você nunca foi um artesão. Construiu o raciocínio como um diretor de hollywoodiano de veia independente. Nesta lógica, efeitos especiais que serviam à arte, sem a ingenuidade de épocas focadas pela saudade do futebol em outra velocidade.

Suas ideias foram plagiadas e distorcidas, assim como serviram de inspiração para outros jogadores anti-cartesianos. A força é sua natureza, escrava da inteligência e da perspicácia no instante que decide a partida na grande área.

Nove anos depois de colocar o uruguaio de joelhos, você demoliu o muro alemão, erguido na Ásia. Carimbou a faixa de melhor do mundo do goleiro Oliver Kahn, um tanque que carregou a Alemanha à final da Copa de 2002. No choque entre carros pesados de combate, você soube combinar genialidades com Rivaldo e refazer sua história em sete capítulos de 90 minutos.

Os altos e baixos de sua vida como atleta te reinventaram como marca, que percorreu mercados e sobreviveu ao modelo que equipara jogadores a laranjas na engrenagem da máquina que fabrica o suco nas esquinas.

Você, Ronaldo, simboliza uma nova fase do Corinthians, time que também renasceu após a humilhação da série B. A primeira temporada, com dois títulos, foi útil para te incluir nas listas de favoritos dos seguidores da religião. Mais do que isso: você conheceu o torcedor brasileiro em seu momento de maior entrega, de paixão cega. Seleção brasileira move sentimentos, mas nada tão profundo quanto um clube de massa.

Agora, é o momento de se atrelar ao centenário. Compreender, com a vida financeira sorridente de ponta a outra das orelhas, qual o cenário mais favorável ao desfecho. Terminar a história de quase 20 anos no clube que renasceu inúmeras vezes como você seria um beijo apaixonado de coerência, sem nódoas, sem reticências.

A coincidência de destinos, entre os dois parceiros, poderia significar o traço definitivo no mural de fé que fideliza os corintianos. O peso de sua presença não seria um problema de saúde pública, mas uma questão de amor declarado e incondicional. Neste caso, quem ama enterra os defeitos do ídolo.

No Corinthians, o tempo cauteriza as cicatrizes dos tropeços. E coagula o sangue que jorra com as vitórias sofridas. Neste sanatório, apenas mantenha no corpo, Ronaldo, a camisa que amarra os loucos. Com gols e atuações dignas. E, se der, ajude a levantar o último campeonato no ano predestinado às maldições.

2 comentários:

Anônimo disse...

muito corinthiano para meu gosto!
saudações santistas,
Arminda

César A. disse...

Um texto muito bem estruturado e tocante.
Mais do que uma simples analise das camisas que esses ulisses, aquiles e agamenons modernos usam, seu artigo deu conta de expressar o que esse grande jogador representa para a história do esporte bretão.

Parabéns