sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Alice no país dos debates



Desisti de assistir à TV aberta, no domingo à noite. O problema não é mais a trilha sonora do Fantástico, que me deixava melancólico ao indicar a ressurreição da segunda-feira. Os antidepressivos, hoje, se tornaram fundamentais para suportar os debates entre os candidatos à presidência da República, além dos debates entre analistas a respeito do que os candidatos disseram ou fizeram ... no debate.

Ao ligar a TV, a sensação é idêntica a da menina Alice, quando cai no buraco ao pé da árvore. Os debates nos levam a uma fábula infanto-juvenil, com personagens caricatos, enredo fantástico, reviravoltas falsas e desfecho com moral da história.

Nesta aventura, cada candidato veste com adequação a máscara dos personagens que cercam Alice. O gato, por exemplo, é irônico. De idade avançada, parece alheio à disputa de poder entre as rainhas. Experiente, o gato flutua entre o enigmático e o cínico. Sorri com delicadeza, mas sabe transitar entre o duro e o engraçado. É um coadjuvante memorável, mas incapaz de alterar o rumo da trama.



A rainha branca se esconde por trás da pureza. É um ícone da natureza, com quem mantém relações próximas e a defende, se necessário. Fantasia-se como representante do bem, mas possui aliados que poderiam engrossar o exército da rainha vermelha. De fala mansa, a rainha branca esconde sua agressividade e desejo de voltar ao poder.



A rainha vermelha – e sua cabeça grande – veste cores sugestivas. Dispõe-se a sangrar pela continuidade no poder. Tem aliados fortes e a máquina a seu dispor. O passado é nebuloso, mas sabe-se que, no meio do caminho, conseguiu afastar a rainha branca para governar como única representante feminina.

A rainha vermelha abandona a doçura calculada quando se sente ameaçada. Transforma-se em um rolo compressor, mas não suja as mãos. Ela está bem protegida por auxiliares disciplinados e dispostos a rasgar os limites da moralidade política (opa, da narrativa).



Onde entraria o Chapeleiro Maluco? Este personagem seria adaptado para a fábula política. A ternura por Alice é frescura hollywoodiana. O chapeleiro à brasileira dispensou a cabeleira. Ele costuma ser amável, mas – diante da rejeição – torna-se agressivo. Seus olhos são penetrantes e determinados.

No início da fábula, fingiu respeitar a rainha vermelha para ocultar seu desejo de derrubá-la do poder. A história indica, pelos diálogos, que o chapeleiro e a rainha vermelha são mais parecidos do que Alice imaginaria.



O chapeleiro, por ironia, sempre estará próximo ao poder central na trama, sem nunca ocupá-lo de fato. Talvez seja lembrado como um personagem brilhante, porém instável na mesma proporção.

O debate entre os presidenciáveis, que pressupõe conflitos consistentes a partir de divergências de idéias, não existe. Em uma campanha eleitoral, os candidatos deveriam elaborar propostas atingíveis e apresentar programas de governo com explicações sobre a execução dessas ideias. No país das maravilhas, talvez fantasia e ideal fossem irmãos de sangue.

Os candidatos preferem gastar uma quantidade de saliva proporcional ao volume de maquiagem que esconde as máscaras e os transformam em personagens irreais.

O eleitor, nada bobo, percebeu que os debates são conversas estéreis. Não têm impacto sobre a decisão nas urnas, com exceção do último encontro, na Rede Globo, ainda que de forma moderada. A audiência dos debates é idêntica ou inferior do canal exibidor nos domingos anteriores.

O número grande de debates também não serve para esclarecer projeto algum de país (até porque os candidatos parecem ignorar o Brasil real). Pelo contrário, os debates reforçam o desprezo e a indiferença pela classe política.

Já os jornalistas e analistas políticos, bobos de dar dó, suam para discutir o vazio. Interpretam cada detalhe do debate como se as caras, bocas, trejeitos e frases de efeito alterassem o quadro eleitoral. Os iniciados pretensiosos também insistem em refletir sobre os escândalos – na visão da imprensa, claro – que cercam o governo. Não o fazem, via de regra, pelo interesse público, mas pelo interesse dirigido ao resultado da eleição.

Feliz o humorista José Simão, que associou a quebra de sigilo ao ato sexual. Os analistas realmente acreditam que a ex-ministra Erenice Guerra é uma figura tão popular a ponto de reverter a eleição presidencial?

Na fábula, resta a nós o papel de Alice. A vantagem é que podemos readaptar o final. Permaneceremos no mundo da fantasia ou sairemos pelo mesmo buraco que entramos? O final da fábula, em breve, no primeiro domingo de outubro. Na urna mais perto de você.

Um comentário:

Nathália Geraldo disse...

Marcão, texto maravilhoso!
Metáfora ideal para essas eleições...

Só espero que o Chapeleiro Maluco continue sendo só papel secundário.