segunda-feira, 30 de agosto de 2010

The personal chronicle

Não estranhe, leitor, o título em inglês. Escrever sobre os serviços “personal-alguma-coisa” exige uma identificação neste idioma. É o primeiro passo para manter a pose, sonhar com status ou justificar a enganação. Se estiver em português, é serviço menor, talvez coisa de pobre.

Poderia mentir para você, com um slogan no singular. Afirmar que esta crônica foi “escrita para você”. Pode até ser que o leitor se identifique, adore o texto abaixo e pense que foi criado para ele. É o melhor elogio possível, mas este texto tem que ser lido por outras pessoas. Uma questão de sobrevivência. Quem escreve por exclusividade vai adoecer pela indiferença, se não morrer antes de fome.

Uma amiga minha vai ao mesmo cabeleireiro há anos. Ele a atende no mesmo lugar, conversa sobre os mesmos assuntos, fofoca sobre as mesmas pessoas. O local de trabalho passou por duas mudanças nos três últimos anos. A primeira foi que deixou de ser salão de beleza. Salvo dois ou três serviços a mais, virou clínica de estética. Mas a maior alteração foi na profissão dele. Ele não é mais um cabeleireiro. Virou personal hair stylist. Só não faz design de sobrancelha como a concorrente da rua de trás.

Um primo meu se casou e me convidou para a cerimônia na Igreja e para a festa, claro. O buffet era daqueles bacanas, de garçons engravatados e whiskies nas mesas. Os noivos não tinham sossego. Uma mulher vivia atrás deles. Dava ordens. Decidia a hora das fotos. O momento de comer. Perguntei para ele se era a cerimonialista. A resposta: não! Era a personal marriage.

Não fiz uma pesquisa apurada sobre este relevante tema da vida do homem moderno, mas tenho a impressão de que tudo começou com o personal trainer, o professor de educação física que atende a domicílio. Nasceu como moda entre as socialites, as emergentes (nome em desuso, comum na época) e celebridades, que deixavam a academia de ginástica e recebiam um personal em casa. Muitas se encantaram tanto com as aulas que os casamentos ganharam um terceiro elemento: o personal lover.

A dependência dos especialistas na sociedade contemporânea é tamanha que surgiram serviços para tarefas mínimas do cotidiano. Um exemplo: profissionais que passaram a definir como o sujeito deve se vestir ou organizar o próprio armário. Mais um sinal de que o consumo anda meio exagerado. Não importa: supérfluo por supérfluo, contratam o personal stylist.

É difícil se convencer quando o personal aparece na televisão com combinações básicas de cor que qualquer mamãe recomenda a uma criança. Quando não sugerem as combinações dignas de risos. Dos outros.

Talvez aquele que pode contratar alguém para organizar o guarda-roupas precise de outro serviço personalizado: o personal manager. É alguém que planeja as tarefas do cliente que alega não ter tempo. Pequenas obrigações do dia-a-dia, recados, compromissos, pagamento de contas. Fica a sensação de que a secretária mudou de nome, de status, de preço. E não me refiro à empregada doméstica, que se transformou em secretária, com o mesmo salário.

E se o mesmo indivíduo tiver dificuldades com aparelhos eletrônicos como celulares, smartphones e computadores? Basta uma rápida busca na Internet que ele poderá contratar um personal tecnológico.

Como ele deve ter uma vida apressada, mal consegue definir o que vai consumir nas refeições. Gastando mais um pouco, ele pode contratar um personal chef. Um profissional que definirá o cardápio a ser digerido todos os dias. Se pagar um pouco mais, o personal cozinhará todo o menu.

Muitos compram o pacote completo. Estes clientes conseguem fazer alguma coisa sozinhos?

A maior ilusão dos “personal-alguma-coisa” é a crença na exclusividade. O serviço é individual, jamais exclusivo. Mas não canso de ouvir “meu personal isso, meu personal aquilo”. O pronome indica a propriedade. É natural das relações de consumo. Consumidores tendem a ser individualistas. Acreditam na diferença prometida na exclusividade, quando o desejo mais profundo é ser igual, o passaporte para a aceitação.

Nada diferente das promoções exclusivas das lojas de departamentos. Você comprará aquela roupa única, que te decepcionará ao ver um clone no corredor do shopping minutos depois de pagar a conta. Ou o brinde exclusivo para os 500 primeiros que ligarem para o serviço de telefone da empresa. Além de fazer parte da massa, o sujeito paga pelo custo da ligação.

Diante de todos estes serviços “feitos sob medida”, só faltará a personalização da fé e do amor. Como pagar pelo personal god? Talvez deva perguntar a alguns líderes religiosos, que prometem de tudo para nos aproximar de Deus, mediante uma “ajudinha”?

No caso do amor, o serviço já é pago, tanto por homens como por mulheres. Basta mudar a mais antiga das profissões para personal sex ou personal lover, se houver necessidade de algum glamour romântico. Mas garanto que o resultado e o tempo de serviço serão os mesmos.

Observação: Agradeço a todos pela leitura da crônica Os escombros da Pompéia e pelo recorde de comentários neste espaço, além dos e-mails enviados. Jamais imaginaria que o texto provocasse tantas reações emocionadas e saudosas. Muito obrigado!

2 comentários:

Gabriella disse...

Olá, Marcão!

Lembro -me de ter feito um trabalho no primeiro ano da faculdade de jornalismo sobre o assunto do "personal" em Problemas do Homem Contemporâneo. O caso mais absurdo, que achei, foi o personal friend, profissional popular no Rio de Janeiro. Ele é teu amigo por hora. Pro exemplo, em 50 minutos são cobrados R$300.
O link para você dar uma olhada, a matéria é de 2007
http://extra.globo.com/rio/materias/2007/08/11/297234227.asp

Marcus Vinicius Batista disse...

Gabriella, obrigado pela visita. É como diz uma amiga: sempre pode ficar pior. Transformamos as pessoas e os relacionamentos em compra e venda. Abraço!