sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O sorriso dos lagartos



O cinismo não me assusta. Sequer ultrapassa o limite da indignação que provocaria paralisia. Mas tenho que confessar: os sorrisos daqueles sujeitos me metem medo. Aterroriza saber que sorriem como respiram. Um processo visto como natural que serve até para os inimigos. São amáveis com quem seria capaz de atirar pedras. Não se tratam de messias encarnados, que dariam a outra face por um bem maior, mas símbolos máximos da pequenez humana.

Parado à espera do ônibus ou caminhando, sinto que eles me perseguem. São amáveis, parecem agradáveis, exalam felicidade. Aparecem sozinhos ou em grupo, todos com os dentes à mostra, brancos de machucar os olhos. Alguns estendem as mãos como se fossem acolhedores ou solidários. Outros fazem o sinal de positivo, na garantia de que está tudo bem. Ou, na pior das hipóteses, de que a vida será melhor no próximo ano. Por causa deles!

A vantagem é que, na posição que ocupam, não podem falar, o que limita o poder de sedução. Também não podem construir uma imagem positiva de si além do próprio rosto. A maquiagem é insuficiente para ocultar a real naturalidade. Permanecem numa posição crua; não diria nua nem espontânea, mas passíveis da leitura que permite perceber quando mentem no olhar.

O comportamento deles é padronizado, o que gera ambigüidade. Ao mesmo tempo em que fica fácil enquadrá-los ou rotulá-los, torna-se muito complicado separar a essência da aparência. E todos se abraçam na missão de emporcalhar a cidade durante este semestre, pelo menos até outubro.

Os candidatos a deputado não se incomodam em dividir espaço com shows e cerimônias religiosas nos muros. Qualquer evento é uma chance de beliscar votos. Os cartazes lambe-lambe, que infestam a cidade, são quase todos do mesmo jeito. Rostinho contente, um slogan que não explica nem atrapalha, número e coligação. Alguns tentam embarcar em preocupações do momento, sejam práticas como emprego ou Ficha Limpa, sejam abstratas como honestidade. Falam como se fossem questões que os tornam especiais, e não prerrogativas do cargo que almejam ocupar.

Com as limitações da legislação eleitoral, as placas com cavaletes viraram mania nas esquinas. A cada rua, você tropeça em um candidato sorridente. Há exceções, como aqueles que cultivam o semblante sério para justamente aparentar ... seriedade. Política seria para brincalhões? O histórico, infelizmente, está recheado de exemplos de sujeitos que esculhambaram com a imagem dos palhaços.

O meio ambiente se transformou, ainda que em caráter cínico, em um dos temas mais recorrentes na campanha eleitoral. O cinismo é notado no simples fato de que os defensores do verde engrossam a lista de candidatos que sujam a cidade com papel e madeira. Nada de campanha ecológica. Vale o politicamente correto do “discurso-propaganda-de-margarina”.

É óbvio que seria ingênuo pensar que as velhas estratégias de campanha poderiam ser abandonadas de uma hora para outra. Que isso ocorreria em prol do bem coletivo. A política contempla o individual como símbolo da liberdade humana. Não há um olhar para os lados. O umbigo é o começo e o final.

As placas e os cartazes não representam somente a ideia de onipresença do candidato. Estes materiais escondem a ausência de quem é figura pública (ou deseja ser?) no espaço público. A sensação artificial de presença cotidiana significa a luta para encobrir a ojeriza que muitos políticos manifestam veladamente pelo contato humano. O contato que pressupõe diálogo, que implica divergência, que resulta — em muitas ocasiões — em cobrança proporcional ao poder exercido.

As placas e os cartazes, acompanhados de um sorriso, mascaram os carros blindados, os condomínios fechados, os vidros filmados, a corte de puxa-sacos que tornam um político quase um extra-terrestre. Você, leitor, encontra o deputado estadual ou federal de sua região nas ruas? Na padaria ou no supermercado, por exemplo? Não falo de exceção que confirma a regra.

Os sorrisos de flerte diluem o desejo contínuo de ser e parecer vip. Mas, para alcançar tal condição, é necessário se aproximar daquilo que os enoja, dos atos que constrangem, dos olhares e toques de mão que reprovam e condenam.

Placas e cartazes são armas de uma novela reprisada, cujos capítulos podem ser alterados pelo público, assim como acontece no universo da dramaturgia. Mas me parece fundamental nos entendermos como protagonistas do enredo, papel com maior solidez do que a mera figuração dos que contemplam os astros e sonham com o autógrafo, o beijo ou o aperto de mãos.

Os lagartos se moveram na semana passada. Deram o segundo passo. Permanecem parados nas ruas e avenidas, sorridentes e convidativos ao diálogo. Agora, também entram em casa. Invadem a vida privada. E ganharam fala, duas vezes por dia. Resta saber até que ponto acreditaremos na conversa fiada de pé de ouvido ou fingiremos que a enganação nos satisfaz.

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