quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O palavrão e o pastor



Fui a uma festa em um domingo. Era um aniversário de criança e os pais escolheram um campo de futebol society. Com cinco anos, o aniversariante tem poucos direitos; no máximo, escolher o presente e olhe lá. A festa era daquele tipo churrasco, cerveja, parabéns, bolo e brigadeiro.

Enquanto comia uma fatia de picanha, observava dois animadores e várias crianças que jogavam futebol. Aquela correria que lembra muitas seleções na última Copa do Mundo. Por acaso, comecei a ler placas de publicidade. Entre elas, a antítese da natureza do futebol.

“Proibido falar palavrões”.

O autor da ideia não conhece o esporte. O futebol nunca foi um esporte educado. É no campo que os homens (e as mulheres, por que não?) colocam para fora paixões, raiva e outros sentimentos menos nobres. Extravasar é comportamento inerente para quem joga como para quem assiste, sem distinção. Quem não se emociona mal entende a natureza do jogo. Ou precisa de apoio profissional via divã.

O palavrão é um dos sintomas da reação emotiva diante de uma partida. Xingamos o juiz, filho de várias mães. Xingamos os jogadores adversários e do próprio time, inclusive quando vencemos. Xingamos o técnico, responsável por todos os males da equipe. Xingamos até a bola, que insiste em atrapalhar os pernas-de-pau.

Até os jogadores xingam a si próprios. Neto, quando era meia do Guarani, fez um gol de bicicleta contra o Corinthians, no Morumbi. Era a final do Campeonato Paulista de 1989. Depois de marcar, ele corria pelo campo, batia no peito e gritava:

- Eu sou foda! Eu sou foda!

Falar palavrão é parte do ritual. O campo de futebol aceita o politicamente incorreto como sinal de que nos importamos com o jogo. O palavrão marca nossa impossibilidade de interferir no resultado. Mas é a nossa maneira de dizer que estamos ali, vivos e apreensivos.

A tecnologia nas transmissões esportivas nos colocou entre os jogadores, como testemunhas oculares, quase protagonistas do enredo. Vemos o balé dos corpos, as reações faciais em câmera lenta, o desenho das jogadas nos detalhes. E podemos ler o que dizem, inclusive os palavrões.

No jogo contra a Costa do Marfim, na Copa do Mundo, Kaká apanhou, bateu e reclamou. Acabou expulso. Em uma das faltas sofridas pelo meia brasileiro, a câmera fechou no rosto dele e pudemos assistir Kaká dizer, de boca cheia:

- Porra! Que merda!

Um amigo meu se esqueceu dos detalhes daquela partida. Talvez afetado pela surpresa e pela cerveja, ele só sabia repetir, como uma criança que descobre uma maravilha no mundo:

- Kaká falou palavrão! Kaká falou palavrão!

Jogo futebol desde pequeno. Mas, como milhares de moleques, não consegui ser jogador de futebol. Como um goleiro mediano acima do peso, ainda sou convidado para disputar campeonatos e brincadeiras de final de semana.

Durante três anos, joguei às segundas-feiras com o pessoal da Igreja de uma amiga. Aquela pelada semanal repleta de gansos, pavões, zebras, leões de treino e outras espécies que compõem a fauna no campo de futebol.

Fui convidado para participar de um torneio entre igrejas, todas protestantes. Não era fiel ou membro da instituição, mas jogaria como gato. O time era de bom nível, mas envelhecido.

Chegamos à última rodada com chances de classificação. Mas o adversário era bem melhor, além dos jogadores terem, em média, metade da idade ... e metade do corpo.

Foi o campeonato mais educado do qual participei. Jogadores brigavam entre si e reclamavam do árbitro. Sem palavrões. Nas faltas mais violentas, o agressor estendia a mão à vítima e dizia:

- Perdão, irmão!

Desculpas aceitas e o pau continuava a comer.

O baile correu solto, mas perdemos por 4 a 3, um milagre divino diante do que aconteceu no campo. Tomamos o quarto gol no finalzinho, após a falha de um dos zagueiros. Brincou na frente da área, perdeu a bola para o atacante, que tocou na saída do goleiro, autor desta crônica.

Naquela hora, naquele contexto, talvez o momento mais violento da partida, que escapou pelos lábios do goleiro.

- Caralho, que merda, pastor!

Um comentário:

anacrisalmeida disse...

Não tem preço!!! Tem horas em que o palavrão é realmente a única expressão que traduz o momento. Assim tb no futebol e tantos esportes. Realmente contraditório não falar palavrão. Muito boa e engraçada a crônica, mas acho que o autor escreve bem melhor do que defende o gol....rs