terça-feira, 3 de agosto de 2010

O medo do Kenny G

Sempre acreditei que a música é o combustível da memória. A música marca os relacionamentos. Tranqüiliza os mais ansiosos. Nasce nos assobios dos sossegados. Sacode na ponta dos dedos que escondem a angústia. Invade os ouvidos dos desconfiados. Machuca os surpresos. Persegue pelos refrões. E ressuscita os traumas que nunca esperávamos ter.

Estava na fila da cantina com dois amigos para o cafezinho do intervalo entre as aulas. Enquanto esperava pelo atendimento, virei o rosto para a TV. Ali estava, com seu instrumento em meio a uma platéia extasiada, o saxofonista norte-americano Kenny G. Era a propaganda do novo CD dele, recém-lançado no Brasil.

As imagens sem áudio me pouparam da música que persegue nos eventos sociais. A música de Kenny G virou o coringa de todos os acontecimentos. Não importa o número de pessoas, o tom da solenidade, o sentimento dos presentes. Acredita-se que tudo pode ter a trilha sonora dele.

Quando tinha 18 anos, ganhei dinheiro com festas de 15 anos. Como trabalhava em rádio, passei a apresentar – com aquele texto brega de minha autoria – as tais primaveras da garota de vestido rosa que se preparava para a valsa. Por que se envergonhar de certos trabalhos, se a remuneração de uma noite ultrapassava o salário do mês?

Meu trabalho se limitava a escrever o texto da cerimônia, além de fazer a locução. Não respondia pelo som. Quem o fazia tinha uma música de fundo preferida: Kenny G. Como todas eram parecidas, funcionava como um sub-gênero musical. Coitado do norte-americano, catalisador do provincianismo.

O repertório do saxofonista se encaixa no mantra dos casamentos. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Recentemente, morreu o pai de um colega de trabalho. Depois do velório, a cerimônia de cremação. Todos sentados em um auditório, com o silêncio respeitoso das circunstâncias. Quando o caixão começou a desaparecer, luz baixa e uma música ao fundo, instrumental.

O saxofone do norte-americano não incomoda tanto em casamentos, pelo menos na Igreja. Lá, valem outros clichês musicais. Mas o contragolpe é duplo. Kenny G reaparece quando os convidados entram no buffet. É justamente no instante em que todos procuram as mesas, loucos pela chegada dos noivos, que autorizam a comilança.

Meses depois, você vai encontrá-lo ao visitar o mesmo casal que abriu o apartamento para a primeira visita. Entre petiscos e bebidinhas, o vídeo maçante do casamento. Uma hora, uma hora e meia de convidados se ajeitando em roupas desconfortáveis, comendo discretamente para não fazer feio em frente à câmera e dançando livres e soltos quando a vergonha se perdeu nos goles de vinho e whisky. Na trilha sonora escolhida pela produtora de vídeo após exaustiva pesquisa, Kenny G!

No início do ano, fui a algumas formaturas de ex-alunos. A colação de grau é um ritual necessário, porém convencional. Há pouca diferenciação na ordem dos acontecimentos, independente da universidade. A colação vale para a família, os amigos e talvez aquele último encontro com o professor que cismava em te deixar de exame ou te reprovava na esperança da desistência.

A formatura é previsível, mas não precisava engessar o protocolo. Nas últimas a que assisti, a trilha sonora parecia derivar da mente do mesmo programador musical.

Os formandos atravessavam o auditório aos sorrisos. Envolvidos pela emoção daquele instante, não percebiam que o saxofone único do norte-americano os envolvia. Nunca torci tanto pelos discursos cheios de citações e recomendações.

A música de Kenny G virou símbolo de festa. Deve ter algum significado cabalístico que traz felicidade e prosperidade. São inaugurações, aniversários, solenidades, confraternizações de final de ano, despedidas de colegas de trabalho.

Só não ouvi a música dele em chás de bebê, talvez porque não possa entrar neste clube da Luluzinha. E em aniversários de criança, onde ainda predominam outros vícios da indústria fonográfica, à revelia de quem sopra as velas, impedido de escolher sua própria música.

Não tenho sentimentos negativos pelo músico e seu saxofone. Ele não tem culpa de que banalizaram sua obra. As ocasiões especiais viraram rotina digna de programação de FM.

Se você sentiu vontade de ouvi-lo, não espere pelo próximo casamento, aniversário ou morte. Procure pelo CD dele no fundo do armário ou da prateleira e ouça sem contar para ninguém. Se alguém disser que ouviu, tenha a cara-de-pau de culpar o vizinho.

O exemplar que ganhei (será que comprei?) ficou na casa dos meus pais. Não sofro de investigação arqueológica no momento. A distância é segura para me proteger de qualquer descontrole.

6 comentários:

Roberta Estevam disse...

engraçada a sua colocação,seu ponto de vista.a vida é feita dessas coisa engraçadas que ñ temos controle,inclusive a trilha sonora...rsrs

Agatha Abreu disse...

Hahahahaha.
Você conseguiu exteriorizar o mesmo pensamento de muitos, pode apostar teacher!

Assim como tenho certeza de que se, algum dia, eu me deparar com uma festa de casamento que não toque "Whisky à Go-Go" do Roupa Nova, é porque será 2012 e chegamos ao fim.

Ótimo texto, como sempre!
Beijo!

Luís Alvaro disse...

Pensei que o chato era eu!
Não suporto (nunca suportei)o tal do KG.
Pior, seja rico, seja pobre; seja preto, branco, borrado ou cagado, o tal do KG tá lá para azucrinar a vida dos incautos.
Marcão, música é principalmente referência de tempos vividos e marcados.
abç

Igor Tomaz disse...

A questão é que ninguém mais aguenta ouvir as mesmas 2 músicas dele, Silhouette e Song Bird respectivamente. Será que ninguém q trabalha com audio nunca ouviu um CD inteiro do cara? Ele é um excelente saxofonista e o + incrível é que o diferencial dele é os toques de R&B, mas ninguém sabe disso e ficamos nessa que fica foda querer ir em uma formatura ou evento social + chique. No Brasil ouvir KG, nem com KY.

anacrisalmeida disse...

MUito boa!!!
Eu já passei a fase dos compromissos sem chance de faltar!!! Não escuto mesmo KG. Adoro o som do sax!!!
Mas realmente músicas são do departamento das memórias das sensações, dos sentimentos, enfim, carregam em cada nota parte de nossas vidas!! Da minha principalmente, porém, sem jamais me contaminar pela mídia!!! Sinto muito, não tenho medo do botão do dial e nem do controle remoto!!! A gente pode e deve escolher sem a influência abominável do produtor da vez!!

Cris Eugênia disse...

Ainda bem, que no DVD do seu casamento não toca Kenny G... rsrsrs