sábado, 14 de agosto de 2010

O laxante

Pâmela é uma mulher perdigueira, com a licença poética à expressão criada pelo cronista Carpinejar. É daquelas que marcam mais forte que volante-brucutu de time de várzea. Mostra os dentes, rosna e demarca território para garantir um homem ao lado dela. Orgulha-se de ser uma mulher prevenida, que se antecipa ao inevitável comportamento promíscuo dos machos.

A vigilância incluía chegar um dia antes das viagens de trabalho (mentia o tempo de estadia nos recados), controlar chamadas de celular e esperar na porta do prédio, se não enxergasse o carro do marido na garagem na hora e lugar marcados.

O ciúme que sente por Rogério a transformou em uma obcecada por detalhes. Confere os horários dele com a precisão de relógio de estação de trem. Inspeciona as roupas e acessórios como guarda de penitenciária. Bolsos, golas de camisas, envelopes, qualquer indício que possa condenar o marido criminoso, ainda que ele não saia de casa. Se ficou quieto no sofá, alguma coisa aprontou e quer fazer média com ela.

Rogério gosta de uma farra. Mas com os amigos. Aqueles rituais cheios de homens, como futebol, cerveja e palavrões. Inventava estes pretextos para sair. Mal pegava na bola. E não se interessava pelo assunto. Mas poderia respirar um pouco diante do ciúme incontrolável. No fundo, gostava da perseguição e do faro da esposa perdigueira. Oficialmente, dizia se sentir querido. No íntimo, era um prazer perverso ver a mulher espumar de raiva.

Rogério se matriculou em uma academia. Musculação três vezes por semana. Para acalmar a fera, convidou o vizinho, mais ou menos da mesma idade, de amizade ainda em construção. É claro que provocava a mulher, ao descrever corpos sarados que vestiam roupas de número menor em movimentos sincronizados nos aparelhos.

Pâmela fingia aceitar a academia. Sorrisos amarelos para esconder o ódio. Não via grandes problemas na musculação. Já tinha inspecionado o local em uma das noites em que o marido faltou ao treino. Percebeu que era repleto de machões que só faltavam usar fita métrica para medir os bíceps.

Depois de dois meses, Pâmela não controlava mais a nova onda de ciúmes. O corpo do marido havia mudado. Abdômen mais definido, braços mais grossos, mais preparo físico. A vida sexual havia melhorado, motivo suficiente para se sentir enganada. A musculação tinha se transformado em problema. E pior: com a autorização dela, que havia apoiado o marido em novas amizades e uma rotina na academia.

Tentou, com todos os argumentos, alguns que beiravam a insanidade, convencê-lo de que a musculação era um ciclo encerrado. Falou até em deformação, doping e impotência sexual. Sugeriu cinema, filminho embaixo das cobertas, hora extra para aumentar o salário. Incentivou até a volta da trilogia futebol-cerveja-palavrões.

Pâmela entendeu que perdera o ponto da mudança. O marido estava obcecado por exercícios e pelo próprio corpo. Elogiava mais as próprias pernas do que as dela. Exalava testosterona ao se admirar no espelho do banheiro.

Ela apelou para táticas de guerrilha. Precisava sabotar aquelas três noites da semana. Técnicas antigas, como se esquecer de lavar roupas ou manchá-las, ficaram estéreis. Rogério treinaria de calça jeans e sapato bico fino, se fosse necessário. Como os dois eram representantes de empresas de medicamentos, a arma do crime estava ao alcance da caixa de amostras grátis.

Sonhou com o crime perfeito. Chegou mais cedo do trabalho e batizou a garrafinha que o marido levava para a academia. A água benta não seria isotônico. O laxante, diluído na água mineral, não teria sabor. Injetou uma dose três vezes superior ao normal, para uma pessoa com prisão de ventre.

Rogério, sujeito metódico e disciplinado, seguiu o mesmo ritual antes do treino. Levou a garrafa milagrosa. Checou o conteúdo e não sentiu diferença. E não entendeu quando, ao entrar correndo em casa meia hora antes do previsto, testemunhou um sorriso de canto de boca da mulher.

Rogério acabou no pronto-socorro. Dois dias sem trabalhar e três quilos mais magro. O vizinho, amigo de academia, também foi parar no hospital. Três dias de internação.

Pâmela não poderia prever que o amigo esqueceria a garrafinha de água em casa. O marido jamais soube da sabotagem. Pâmela não se sentia culpada e contava a história para as amigas de boca cheia. Puniu o irresponsável egocêntrico. E dizia que o amigo estava bem protegido pelo plano de saúde. Apenas espumava quando tinha que lembrar que o marido, hoje, não só treina musculação como faz natação e pratica spinning.

4 comentários:

anacrisalmeida disse...

MUito boa...rs!!
Existem tantas Pamelas, vendo fantasmas onde não existem e outras lutando contra dragões de sua criatividade, enquanto a realidade é muito pior!!! Quem realmente faz, tem a manha de e sabe que sempre é perdoado!!
São os novos modelos de famílias Dó Ré Mi que temos!!
Amarga né? Tb acho, mas é verdade...rs

@ayagui disse...

QUE ÓTIMO! adoro historinhas de pequenas vinganças.

Cacau Sanchez disse...

Minha teoria é que pessoas ciumentas assim, agem dessa forma pq não pensariaum duas vezes antes de trair qnd houver a oportunidade... I por issu acham q todos são iguais a eles. =/

Marcus Vinicius Batista disse...

Cacau, é uma boa teoria. mas insegurança demasiada pode entrar neste caldeirão. A psicanálise ajuda a explicar isso. Eu fico apenas na crônica. (risos) Um abraço e obrigado pelo comentário.