domingo, 8 de agosto de 2010

O emprego único

Ser pai é o melhor e o pior dos cargos. É vitalício. É intransferível. É imprevisível. Quando você fica com o emprego, ninguém te avisa o porquê de seu nome na lista de selecionados. Você pode ser contratado sem ter pensado em se candidatar à vaga. Basta distribuir o currículo por aí que alguém se encarrega de analisar seu perfil.

O trabalho é sem rotina, sujeito a viagens para hospitais, escolas e apresentações de balé ou judô no final do ano. Quando você assume a função, a hierarquia é estabelecida no primeiro dia. Não há curso de trainee ou estágio para que se adquira experiência. Quem te emprega, não te entrega manual de instruções. Os riscos de demissão e promoção são iguais a zero.

Tenho alguns anos de janela nesta área. Oito anos e 10 dias, para ser preciso e posar de competente. Por mais que se encham prateleiras de dicas e dicionários sobre a paternidade, não existem teorias que se aproximem da prática inerente ao cargo. Por mais que dois profissionais conversem e troquem percepções deste trabalho, as informações jamais servirão para os momentos de crise e para os episódios de felicidade, tão particulares quanto os macetes da profissão.

Para refletir e depor sobre este emprego, não vejo outra saída: sentimentos e poesia. Racionalizar incorrer cantar em falsete.

Ser pai é compreender que o controle sobre os fatos e sobre as pessoas cheira à ilusão. É menos doloroso se compreendermos logo de cara que a paternidade se move pelas vias da orientação. Qualquer desejo de perpetuar imagem e semelhança implica em autoritarismo.

Ser pai é engolir e digerir o sofrimento alheio de mãos e pés atados. Não se pode correr ou interferir. Aceitar a tortura da dor ameniza o sangramento. Explicar o erro que se aproxima do outro é pregar no centro do vazio. Explicar reforça a redundância, com resultado absorvido sem garantias de entendimento completo.

O pai suporta uma dor que nunca será sua. A dor do outro que corre pelas veias da impotência. Jamais reclama. Lágrimas são atos discretos de quem precisa ser impassível como um guarda real britânico.

Ser pai é assumir-se como o carcereiro que responderá processo administrativo. O carcereiro que mantém seus presos sob seus braços, mas que se vê obrigado a abrir as celas para deixá-los tomar banho de sol, sem retorno, com direito à escolha própria dos crimes. O carcereiro não precisa saber o porquê da concessão da liberdade. É o cego que cruza a avenida de olho na sorte.

Ser pai é sentar-se na arquibancada e acompanhar o andamento do jogo com uma tarja na boca. Sem direito a cantos ou sugestões de substituição no time. Ainda que seja o técnico, qualquer esquema tático não mudará o jeito da equipe jogar sem que o astro principal decida executá-lo.

Apenas um pai é capaz de transpirar o testemunho do nascimento. O único que não pode também descrevê-lo. É um egoísta abençoado pelo início de um roteiro que nasce acompanhado de páginas em branco. E uma caneta em mãos.

O pai é o único sujeito, no mês de agosto, capaz de dizer com sinceridade nos olhos que o presente recebido não era necessário. Quando cercado por quem merece, é verdadeiro ao encher a boca para declarar que possui tudo. É o instante do divino, ainda que o olhar seja uma brincadeira com a humildade.

O pai, no dia dele, doa a si mesmo, sem direito a definir o donativo. Sorri com aquilo que recebeu, mesmo que seja a reprise do ano anterior. A repetição assegura o prazer da continuidade. A repetição carrega a ênfase do que se sente, sem pedido de troca ou restituição.

O pai não pode – jamais! – cair em tentação. Viver sob resistência, como um diabético que se encontra com um refrigerante no calor. Resistir a nunca impor seu espelho aos filhos. Eles nunca serão o que desejamos. Nunca farão o que sonhamos. Nunca estarão onde rezamos. Sonhar os sonhos deles é direito, jamais imposição ou realização.

O pai, quando ouve que seu filho é igual a ele, deve ser sentir ofendido. Filhos tem que ser melhores. Para bem de todos e felicidade geral da nação. Filhos nasceram para nos indicar que, um dia, seremos obsoletos. Seremos teóricos de um cotidiano que não conhecemos.

A vantagem é que, quando nascem, filhos nos dão a chance de sermos melhores. O passaporte único, impossível de ser devolvido ao portador. Se não nos sentirmos melhores, que fique a consciência de que os dias mudaram. E as madrugadas também.

Ser pai é vestir a máscara da paranóia. Não dormir quando o outro se atrasa. Levantar no meio da noite para verificar a respiração óbvia e serena do bebê. Nunca mais repousar uma noite inteira e seguir a religião da insônia. A fé nos cânticos de um choro só. O milagre santificado no sorriso sem dentes, suficiente para demolir o castelo de irritação e raiva construído em dia ruim.

Como pai, não sou visionário. Jamais teria uma salinha de conselhos sentimentais ou simpatias que salvam ou resgatam os relacionamentos amorosos. Um vidente com competência prevê a próxima curva para si, antes de qualquer vítima do charlatão.

Pensei que daria conta de apenas uma menina. Errei. Mas o medo diário de não conseguir dorme como inimigo.

Culpei as cartas, a borra de café e mandingas para bater no peito de que não seria capaz de repetir a dose. E se os dois corressem para lados opostos? Dois filhos mostram como são importantes dois braços e duas pernas. Para apanhá-los. Para acompanhá-los. Para abraçá-los. Para acolhê-los. Para protegê-los. Para soltá-los. Livres e imperfeitos, porém únicos. Como o melhor e o pior emprego que poderia obter.

12 comentários:

anacrisalmeida disse...

LInda Crônica!!!
Mas vc falou mais da maternidade, muito raro um pai assim tão presente e atento, explica-se pela necessidade de atender tb aos desejos financeiros da prole, assim como a mãe. Fato é que pais não são assim tão atentos e nem tão generosos nos erros dos filhos e muito menos compreensivos nas dores. Mães sentem muito mais, vibram mais e se entregam mais a esse maravilhoso mundo de tornar aquele bb sem dente e careca num homem feito e feliz, que acho seja o comprometimento maior da maternidade!!!
Como bem disse o Millor, filho e peido só aguenta quem fez!!!
Feliz dia dos Pais

Heloísa disse...

Marcus Vinicius,
Parabéns pelo texto tão sensível.
E feliz Dia dos Pais.
Heloisa

Marcelezza disse...

MARCÃO

Essa é realmente a visão dos pais modernos. Parabéns pela visão e a sensibilidade.

edu disse...

Só um pai com si mancol escreveria isso...rss lindo texto, meu amigo...pena que as mães leiam mais que os pais hoje em dia( salvo raras exceções), porque estes acham que já sabem de tudo!!!
eu sou juíz, pois fui filho e não fui pai....parabéns, não resisti e peguei aquela imagem do homem com a mordaça na boca e roubei pra mim...abçodo seu amigo e paidrastro emprestado de algumas crianças por seis horas diárias...Edu

Anônimo disse...

se mancol, aliás.... rssss

Cris Eugênia disse...

Feliz dia dos Pais!!

Mariane Rodrigues disse...

Marcão,
Realmente o texto é belíssimo e sensível, porém não posso deixar de colocar minha opinião. O primeiro parágrafo onde você cita que a "profissão" é imprevisível, (concordo), entretanto quando você cita "Você pode ser contratado sem ter pensado em se candidatar à vaga (concordo, mas não muito). Basta distribuir o currículo por aí que alguém se encarrega de analisar seu perfil" (discordo), me soou um pouco machista, como se o ser masculino não tivesse "responsabilidade" sobre a distribuição de seu “currículo” ou a total despreocupação em colocar o “currículo” adequadamente no “envelope” antes de sair por aí “curriculando”.
De qualquer forma, parabéns pelo texto!!!

Marcus Vinicius Batista disse...

Mariane, obrigado pela leitura e pelo comentário. O trecho citado por você era uma ironia, pois muitos homens não estão preparados para a paternidade. E não se julgam parte do processo de criação dos filhos. Abração!

Anônimo disse...

Marcão, parabéns!!!
Adoro seus textos e sempre acesso seu blog para degustar alguns momentos de reflexão. Hoje, lendo este post, "O emprego único", achei seu texto cinzento.Ser pai é ...
...pior dos cargos;
...cheira a ilusão;
...engolir e digerir o sofrimento alheio de mãos e pés atados;
...vestir a mascara da paranóia; ...com uma tarja na boca, etc. Discordo. E deixo a pergunta:
Porque ser pai, então?
Será que ser pai é uma luta inglória sem valor real e que só nos traz infelicidade.
Existem certos empregos, como exemplo, o de ser filho, que impõem verificar nosso desempenho, olhando o outro lado da moeda. Que tal nos colocarmos na condição de filho que fomos, somos e/ou estamos sendo.
Pai e filho são aquilo que são. Independe de emprego.
Antes de condenar o ser pai, olhe pelo valor que ele pode oferecer. Às vezes esse valor é algo que está profundamente oculto e, quando você o encontra, acaba descobrindo um emprego precioso. E nunca resista a se olhar no espelho, esse espelho pode estar oxidado, ser difícil de enxergar, porém, quando você tem a coragem de fazê-lo, as recompensas podem ser muito boas.
Pai tem o direito sim de falar, de dar bronca, mesmo que o filho já seja pai também. Ele pode ser um valioso mestre. E,com isso, talvez o filho possa enxergar melhor os esquemas furadíssimos em que às vezes cai. Por isso as palavras são ditas, são escritas. Para que tenham o poder de transformar as mentalidades.
Marcão, estou com 75 anos e fui uma "bosta" de filho. Atualmente, sou uma pessoa do bem, sei os valores que cultivo, e da educação que dei aos meus cinco filhos.
A maioria dos problemas que o pai tem com o filho não são necessariamente decorrentes da maneira como o pai é ou age, mas sim da maneira como o filho reage ao pai.
Vou complementar...
Você poder ser um polvo,(paul - vidente)com mil tentáculos que não conseguirá proteger seus filhos com o melhor ou pior emprego que obter.
Um abraço.

Zuleica disse...

Olá, Marcus Vinicius, lindo o texto. Mais uma vez, está de parabéns pela sua sensibilidade. Especial, tocou meu coração.
Quero lhe comunicar que mudei de emprego. Estou trabalhando no melhor e melhor dos cargos. Sou avó. O motivo é o texto abaixo. rs
AVÓS, O MÁXIMO !!!
(Texto de uma neta, lido nas Bodas de Ouro dos avós ).

Perguntaram a uma menina de nove anos o que ela gostaria de ser quando crescesse.
Ela respondeu: - Eu gostaria de ser avó!
Ao ser interrogada sobre o porquê dessa idéia, ela completou:
- Porque os avós escutam, compreendem. E, além do mais, a família se reúne inteirinha na casa deles.
E a menina continuou:
- Uma avó é uma mulher velhinha que não tem filhos. Ela gosta dos filhos dos outros.
- Um avô leva os meninos para passear e conversa com eles sobre pescaria e outros assuntos parecidos.
- Os avós não fazem nada, e por isso podem ficar mais tempo com a gente.
- Como eles são velhinhos, não conseguem rolar pelo chão ou correr.
- Mas não faz mal.
- Nos levam ao shopping e nos deixam olhar as vitrines até cansar. Na casa deles tem sempre um vidro com balas e uma lata cheia de suspiros.
- Eles contam histórias de nosso pai ou nossa mãe quando eram
pequenos,histórias da Bíblia, histórias de uns livros bem velhos com umas figuras lindas.
- Passeiam conosco mostrando as flores, ensinando seus nomes,
fazendo-nos sentir seu perfume.
- Avós nunca dizem "depressa, já pra cama" ou "se não fizer logo vai
ficar de castigo". Quase todos usam óculos e eu já vi uns tirando os
dentes e as gengivas.
- Quando a gente faz uma pergunta, os avós não dizem: "menino, não vê
que estou ocupado?" Eles param, pensam e respondem de um jeito que a gente entende.
- Os avós sabem um bocado de coisas. Eles não falam com a gente como se nós fôssemos bobos. Nem se referem a nós com expressões tipo "que gracinha!", como fazem algumas visitas.
- O colo dos avós é quente e fofinho, bom de a gente sentar quando está triste.
- Todo mundo deveria tentar ter um avô ou uma avó, porque são os únicos adultos que têm tempo para nós.
Um beijo grande.
Zuleica, (vovó zuzu).

Marcus Vinicius Batista disse...

Caro "anônimo de 75 anos", o texto não representa a descrença na paternidade. Pelo contrário! É uma forma de dizer que ser pai é fascinante, mas - principalmente - que a paternidade não representa controlar os filhos ou impor a eles nossos sentimentos e sonhos. Vejo o pai como o sujeito capaz de entender que seu filho poderá pensar diferente e voar um dia. Um pai precisa considerar o imponderável, o imprevisível diante de seus filhos. Obrigado pelo comentário. Grande abraço!!

Marcus Vinicius Batista disse...

Zuleica, muitos dizem que as avós tem como missão estragar os filhos dos filhos. Completar um trabalho inacabado. Não concordo. Ser avó é ter a sonhada segunda chance. Não repetir erros e perpetuar acertos, além da vantagem de que uma avó ou um avô se aproximam da sabedoria e estão recheados de experiência. Em teoria, claro. (risos) Um beijo!!!