segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Dentaduras, pintinhos e sacos de cimento

Era a primeira candidatura dele. Sem dinheiro para a campanha, mas com apoio verbal de um peixe grande, ele apostava que poderia surpreender. Usaria o boca-a-boca, a comunicação via Internet, as reuniões nos bairros. A experiência no movimento de juventude partidária poderia ajudar na campanha para vereador. Tudo a custo baixo.

O primeiro encontro foi em uma sociedade de melhoramentos de bairro. O líder comunitário seria o mediador entre o candidato e as 20 pessoas que compareceram à reunião.

Mal começou a falar, o candidato foi interrompido pelo líder do bairro, que entregou a ele um pedaço de papel.

- O que é isso?

- A nossa lista de reivindicações.

Ao ler, viu que o pedido seria impossível: um caminhão de material de construção, principalmente cimento e tijolos.

O episódio, ocorrido há quase dois anos em um dos morros de Santos, retrata como é usual a compra de votos. Negócios são feitos sem cerimônia. Não se trata de uma prática recorrente em cidades pequenas e pobres e suas populações desvalidas. É ação comum dentro de um processo eleitoral ainda carente de reparos, que independe de classe social e local. Os acertos apenas ocorrem de jeitos diferenciados.

O jornal O Globo divulgou levantamento do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) sobre a cassação de políticos. Nos últimos 10 anos, 700 deles perderam o mandato por compra de votos. Em quase 10% dos casos, a forma foi a mais convencional: dinheiro ou cheque.

Muitas das histórias caberiam na cidade de Odorico Paraguassú. Eis quatro exemplos. O vereador Tiago Ramos Vieira foi eleito em 2000 em Sobral, no Ceará. Perdeu o mandato depois que a Justiça Eleitoral descobriu que ele prometera dentaduras para os eleitores. Quem o entregou? A protética, que não recebera o pagamento de R$ 1920 pelas 24 dentaduras que fabricou. A protética devia R$ 1078 à mulher do vereador e tinha proposto pagar a dívida com a produção. Quis receber a diferença e ouviu uma resposta negativa. Denunciou o político.

Em Campos Borges, interior do Rio Grande do Sul, o então candidato a prefeito Olivan Antonio de Bortoli (PPB) dava aos eleitores metade da nota de R$ 50. Dinheiro rasgado ao meio! Caso eleito, a outra parte da nota seria entregue. Se desse R$ 25, o eleitor poderia não votar nem voltar. A Polícia Federal encontrou, no comitê dele, R$ 3250 em notas de R$ 50. Um eleitor tinha acabado de receber – vamos dizer assim – a metade do pagamento.

Em Jussiape, na Bahia, o prefeito Silvio Luiz Silva (PMDB) foi cassado pela compra de apenas um voto. O político havia dado uma caixa d´água de presente para um eleitor, mas tomou de volta porque desconfiava de traição na urna. Acabou denunciado à Justiça Eleitoral.

Em Porto Velho, capital de Rondônia, o candidato a vereador Sandro Luiz Cardoso Vieira (PV) teve o registro cassado porque a recompensa pelos votos, de tão criativa, chamava a atenção. Sandro distribuiu, em um bairro da cidade, quatro mil pintinhos, guardados em 24 caixas. A Polícia Federal flagrou a entrega dos presentes.

Os casos acima indicam dois pontos na relação entre políticos e eleitores. O primeiro grupo age exatamente nos buracos da incompetência do Estado. Os candidatos encaram o eleitor como consumidor e atuam em cima das necessidades deles. Entregam exatamente aquilo que uma comunidade necessita de forma mais imediata. Muitas vezes, trabalham caso a caso, com promessas e presentes individualizados.

Na outra ponta da corda, os eleitores, que há tempos perderam a confiança na classe política e os encara como fonte de renda extra. Não é possível tratar o eleitor como aquele sujeito matuto, ingênuo, que se vende por pura ignorância. É alguém que conhece seu poder e que passou a jogar conforme as regras mais perversas do sistema político. Estima-se que apenas dois em cada dez votam naqueles que ofereceram agrados. Até porque muitos vestem a camisa de diversas torcidas.

Pesquisas recentes apontam que um terço dos eleitores vota de maneira prática. Ou seja: por decisões em benefício próprio, sem considerar projetos, programas ou questões coletivas. Vota naquele que resolver o universo em volta do próprio umbigo e de seus parentes. Sem o desejo de justificar, o político não faria o mesmo?

A quantidade de políticos cassados por compra de votos poderia assustar. Mas me parece um número pequeno diante da prática cotidiana. Comprar votos é visto por muitos como inerente ao processo eleitoral. Considera-se como necessário e natural para vencer. Com a conivência de todos os envolvidos.

Meu amigo candidato tentou driblar a proposta de compra de voto. Com a lista nas mãos, usou o discurso da democracia, da cidadania, para não tocar no assunto. Percebeu que as pessoas ficaram desconfortáveis nas cadeiras. Os olhares murcharam. A reunião, naquele momento, estava perdida.

O candidato soube, dias depois, que um adversário – do tipo tubarão no Aquário – atendeu a exigência da comunidade. O caminhão encostou na porta da sociedade de melhoramentos. Coincidência ou não, o tubarão se elegeu. Teve uma votação dez vezes maior. O candidato de primeira viagem decidiu que era a última tentativa.

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