terça-feira, 10 de agosto de 2010

Bem-vinda ao manicômio



Voltar àquela escola, anos depois, era a melhor forma de retribuição. A professora, recém-convocada em concurso público, desejava começar a carreira na rede municipal de Santos pela escola onde estudou. Um exercício de idealismo de quem acreditava na mudança, de quem ainda não sentiu as costas arqueadas pelo tempo, de quem ainda não responsabilizou os outros pelos fracassos individuais.

Ao entrar na escola, a sensação natural de desorientação. Encontrou alguém uniformizado. Um senhor, que depois descobriria ser um inspetor de alunos. Ao se identificar, ouviu a pergunta e a sentença:

- Professora nova? Bem-vinda ao manicômio!

A primeira dúvida: trote de funcionário antigo ou mau humor por causa do dia ruim e longe de terminar?

Foi à secretaria e esperou pela equipe pedagógica para se dirigir à sala de aula. Cinco minutos depois, a coordenadora pedagógica se apresentou e perguntou:

- Você dá aula de História?

- Sou professora de Inglês.

- Não tem problema. A aula hoje é sobre Guerra Fria. Tá na hora! Os alunos não podem ficar sem ninguém na sala.

- Mas eu não sei quase nada de Guerra Fria.

- Olha, pega este texto. Pede para os alunos copiarem da lousa, passa uma atividade. Sei lá. Mantenha a molecada ocupada.

A professora seguiu para a sala de aula. Primeiro dia, ela preferiu conversar com os alunos. Sentiu que a situação era pior do que a simples ausência do professor de História.

Ela era a quarta a dar aula daquela disciplina. No mês! Professor de Português? Espécie rara. Não viam um há dois meses. Em todos os casos, os alunos pareciam matriculados em curso de formação de escribas, tamanha a quantidade de cópias da lousa que fizeram. Ganhavam músculos em um dos braços. Mantinham as mentes fora dali.

Os estudantes, inclusive, quando viam a entrada de uma professora-substituta, sabiam que seria cópia outra vez. Tinha consciência da enganação, mas talvez não tivesse noção do estrago do qual eram vítimas.

A professora não durou muito tempo na escola. Via professores cansados. Inspetores controlavam os alunos com agressividade. A equipe pedagógica se escondia nos gabinetes. Os casos de indisciplina se multiplicavam. Diálogos eram poucos. Gritos eram o hino nacional daquele endereço.

O primeiro dia na escola da infância resultou em choro na volta para casa. O dia simbolizou a decisão tomada após o nascimento do primeiro filho e a licença-maternidade: não voltar mais.

O relato é do marido da professora, também docente. Por ironia, de História. Ele prestou concurso público, teve boa colocação e espera ser chamado em breve. Mas não sabe se repetirá o destino da esposa, até pelo fato de que possui dois bons empregos.

No que a escola se parece para muitos professores? Uma prisão? Um hospício? De fora, a aparência é, na maioria das unidades, sombria. As cores das fachadas casam com uma cidade eternamente nublada? Cadeados e trancas protegem as crianças do mundo? Ou protegem o mundo da escola?

Um secretário de educação da Baixada Santista teve a coragem de afirmar que as unidades do município dele estavam longe de parecer prisões. O motivo: os muros foram trocados por grades. Se uma criança pensar em jaulas, que imagem virá à cabeça dela?

O irônico desta situação é que a mudança soa como algo distante, inalcançável para quem integra o cenário. Os sujeitos mais antigos no círculo, via de regra, alertam – em tons que variam da superioridade à resignação – que a escola é daquele jeito mesmo. Contente-se ou mude-se!

Quem dá o alerta cumpre pena e não pode deixar o local? Sente prazer na dor? Cansou de lutar, acomodou-se após sucessivas derrotas?



Manter o caos esconde a incompetência, realimenta a paralisia das vítimas confortáveis e, principalmente, perpetua os sintomas da “síndrome do pequeno poder”. O nome da doença é de autoria de uma amiga psicóloga.

A barbárie que marca um asilo de loucos não democratiza o poder. As relações funcionam pela força. Manda-se pelo medo. Obedece-se pelo temor ou pelas vantagens recebidas.

A barbárie não possibilita discussões coletivas. Mata o senso de coletividade e costura o predomínio dos individualistas, recompensados com pequenos prêmios, sempre pontuais.

O poder deriva geralmente de um pacto entre a equipe pedagógica e o corpo docente que cristalizou as raízes. A equipe fica com os louros do papel de autoridade, apenas para o público externo. Sobrevive com a vestimenta da governabilidade, palavra da moda para ocultar os interesses esfumaçados.

Muitos professores, aliados a funcionários de outros setores, mantém privilégios baseados na letargia e na falta de compromisso com o alunado. Fingem integrar uma equipe. Jamais se assumem como bando. Abdicam da liberdade possível – por vezes – assim que fecham a porta da sala.

Os sentimentos que levaram a professora de Inglês à desistência estão no ar de inúmeras escolas. São perceptíveis no gosto da água. E indicam o sonho de consumo de muitos professores. Largar a escola para sempre, sem saber para onde caminhar. Vale somente a fuga.

Nestes locais, prevalecem a desilusão, a violência psicológica, a ausência de respaldo dos gabinetes das pedagogas de terninho e jargões na ponta da língua. Nestes locais, seus integrantes cumprem castigo (às vezes voluntário), seguem internados por causa de um diagnóstico que desconhecem.

A escola se aproxima de uma instituição em que educar é termo ignorado. Cumprem-se horas, de olho no salário – ainda que péssimo – do final do mês. Todos culpam alguém, já que não sabem exorcizam suas próprias responsabilidades. A reinvenção passa por pactos localizados, de olho no mundo além das cercas. Mas como fazê-lo se o asilo é o local mais solitário que existe?

Abandonar a si mesmo no manicômio é o caminho que muitas escolas percorrem para apagar o sentido metafórico das boas vindas do inspetor de ensino.

4 comentários:

Francisco Castillo disse...

Puxa...
Vivo no exterior por muitos anos já, mas um sonho que tenho (tinha?) quando retornasse ao Brasil, similar à professora de inglês do texto, seria tentar dar aula na escola pública onde estudei em São Paulo - uma forma de tentar devolver um pouco do tanto que lá recebi há 40 anos.

Sempre imaginava incorporar algo diferente nas aulas: sair com os alunos para praticar inglês, por exemplo, caminhando pelas ruas ensinando expressões coloquiais; ou conduzindo experiências de física no estacionamento da escola; ou elaborar uma aula após uma visita ao planetário, a um museu, ao Butantã (se ainda existe)...

Enfim, tentar engajar a atenção dos alunos e fazê-los co-responsáveis pelas aulas.

O quadro atual de sistema de educação público de SP que você descreve aqui, todavia, é desalentador...

Com o país recebendo tantos investimentos do exterior e sendo tratado, justamente por agora, como um forte pólo econômico do globo, como explicar a falta de investimentos num dos pilares básicos de uma sociedade, o ensino básico e médio ?

Se com 30 ou 40 milhões de brasileiros que tiveram acesso a uma educação decente conseguimos chegar a esse ponto de desenvolvimento (não somos uma Suiça, mas tampouco um país paupérrimo e sem estrutura), imagina onde poderíamos estar se houvesse uma injeção séria de recursos em educação básica e média em nosso país produzindo um sociedade ainda mais educada e mais treinada em tecnologias que estão chegando...

Melhor nossos governantes acordarem para esse problema (algo que o Obama também está tentando corrigir nos EUA), sob pena de desperdiçarmos os ganhos obtidos nas últimas décadas e voltarmos a ser o "país do futuro".

Abraços,
Kiko

Francisco Castillo disse...

(Perdão...para ser preciso, você se refere à situação de uma escola no município de Santos...mas me pergunto, se problema similar existe nas escolas públicas do estado de SP)......Um abraço.....Kiko.

Marcus Vinicius Batista disse...

Kiko, o problema é generalizado e localizado ao mesmo tempo. Na minha opinião, é má gerência do dinheiro, em linhas gerais, que implica em preparar mal os professores e/ou utilizar cargos de comando para resolver acordos políticos. Isso acontece em inúmeras cidades. Em muitos municípios, há maior seriedade. Mas sempre há questões particulares que explicam o sucesso. No Estado de São Paulo, por exemplo, um professor começa com salário de R$ 9 por hora-aula. Pode?? Por essas e outras, o Brasil vai muito mal nos índices internacionais. Por trás de tudo, vejo a falta de continuidade política. Os programas e projetos tem duração de quatro anos. Morrem com a eleição do sucessor. E muita gente considera este comportamento uma variável natural. Grande abraço!!

mayara jacques disse...

Muuito bom!