terça-feira, 31 de agosto de 2010

Tiririca, o palhaço sincero



O início do horário eleitoral gratuito, incapaz de nos informar sobre as pretensões reais dos candidatos, sempre se assumiu como um show de humor. Nada incoerente. Nada surpreendente. Apenas reproduz, a cada dois anos, os limites da classe política. Expõe com nitidez a falta de credibilidade, o oportunismo e o despreparo técnico da maioria destes homens públicos.

É ilusório pensar que as figuras bizarras no horário eleitoral são exceções. E o rei do ilusionismo é um palhaço, que teima em nos dizer as verdades, que mascaramos no auto-engano quando sorrimos das piadas. Ou engolimos na roupagem chique dos pseudo-pensadores.

Entre ex-jogadores de futebol, artistas de segunda linha e mulheres do pomar, o primeiro nome que aparece em qualquer rodinha é o do palhaço Tiririca. Do riso à indignação, Tiririca driblou a indiferença na fauna de candidaturas ao Poder Legislativo.

Tiririca é um homem sincero. Ele nos fala, diariamente, pelos gracejos e pelo deboche o que a maioria dos candidatos pensa. Não é preciso exercício de adivinhação. Basta ouvirmos o que prometem no mesmo espaço. Boa parte deles também desconhece o que faz um deputado. Prometem, por exemplo, ações específicas dos outros poderes. Ou se dizem contra algo que é proibido por lei há anos. A diferença é que, se chegarem lá, não pretendem nos contar. Muitos sequer desejam aprender.

Temos o caso de dois irmãos do segundo time da música pop. Um deles é candidato. Os dois garantem ser contra a pedofilia. Redundância grosseira. Ganhariam destaque, talvez, que fossem a favor da exploração sexual. Outros candidatos batem no peito que têm a ficha limpa. Não seria uma obrigação, no mínimo?

Tiririca parece não se levar a sério. Mas nunca mostrou tanta seriedade como agora. Objetivo e determinado a vencer. Traçou uma rota sem escalas, por meio de uma campanha racional e calculista. Finge desconhecer assessores. Finge respostas atrapalhadas. É o personagem que se mistura ao ator. É o momento em que o palhaço dá o nó na platéia, envolvida no prazer das próprias gargalhadas.

Soa apressado partir para a proibição absoluta. É comum ouvirmos que candidatos como Tiririca não deveriam concorrer. Pelo contrário. A presença dele simboliza um ato natural na suposta democracia em que vivemos, ainda que imatura. O problema é que Tiririca, quando fala como criança, somente reforça a infantilização do discurso político. O deboche reside no tratamento dado a eleitores que, por vezes, também reagem de maneira infantil.

A maioria dos candidatos – escondidos sob a pose da seriedade e das roupas de griffe – se vale de uma retórica frágil e infantilóide para convencer o eleitorado.
Tiririca, quando debocha do cargo para o qual concorre, ilustra o que muitos eleitores e candidatos pensam sobre a Câmara dos Deputados e têm vergonha ou pudor de dizer. A corrida eleitoral oscila entre o cinismo e a piada.

Como o politicamente correto exercita e patrulha a hipocrisia, a eleição se transforma em um cenário plástico, sem cor, cheiro ou gosto atraentes. Prevalecem as frases contidas, os gestos limitados, os olhares vazios que – no fundo – representam mecanismos para se debochar do eleitor, ele mesmo um fingidor em muitos momentos da campanha. Todos se transformam em seres robóticos, tão padronizados quanto qualquer comida fast-food.

Neste sentido, os slogans são funcionais. Grudam no cérebro. As frases de efeito provocam debates acalorados ou debochados sobre o papel que os deputados federais costumam exercer (inclusive os ilícitos). Os candidatos se vendem como produtos em um palco gratuito na TV. Mais luzes para as melhores performances.

As pesquisas eleitorais indicam que existe uma chance razoável do palhaço de ofício chegar à Brasília. Pela coligação do partido e pelo impacto da campanha. Tiririca seria o voto de protesto da vez. Concordo, em parte. Muitos votarão nele por uma questão de afinidade.

O que me preocupa é transformá-lo em ícone da indignação. Parece-me a assinatura do papel de trouxa ao quadrado. Protestar, por excelência, é anular o voto. Ou evitar o personalismo da eleição pelo voto de legenda.

Levar o palhaço de profissão ao Congresso Nacional é perpetuar a brincadeira em torno de temas que exigiriam o mínimo de seriedade e bom senso. Na campanha, tornou-se impossível saber o que há por trás da maquiagem de palhaço. A piada se constrói pela ausência de discurso.

Historicamente, a política brasileira indica que os eleitos por protesto lideram a fila do beija-mão assim que entram na ante-sala do poder. Clodovil foi o último deles. Enéas, independente do preparo intelectual e das posições políticas, seguiu o mesmo caminho.

Em Santos, por exemplo, Zé Macaco, o vendedor de raspadinhas, foi o vereador mais votado até a última eleição. Acabou devorado pelos tubarões antes da primeira braçada na Câmara Municipal. Acabou pobre e esquecido.

O candidato escolhido como símbolo de protesto comete – involuntariamente – um segundo equívoco. Ele arrasta uma série de colegas com votações e histórias inexpressivas. Poderiam representar a renovação, mas poucos estão interessados nisso. Na maioria dos casos, trocam de legenda na primeira oferta, atraídos por vantagens, claro, individuais.

A presença de Tiririca pode ter um impacto inicial na mesmice da corrida eleitoral. Mas é uma presença que repete a fórmula, enquanto desnuda a cortina que cobre os monstros. Obriga-os a sair debaixo da cama e nos assustar antes de receberem os diplomas de quatro anos de duração.

Tiririca expôs o Horário Eleitoral Gratuito ao ridículo, mas não é o responsável por esta característica. Apenas vendeu mais do mesmo, em tempos nos quais os humoristas estão proibidos por lei de satirizar os palhaços.

Do slogan-deboche de Tiririca, nasceu minha única dúvida sobre ele. “O povo não é palhaço. Eu sou” é uma meia-verdade ou uma mentira sem pernas curtas?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

The personal chronicle

Não estranhe, leitor, o título em inglês. Escrever sobre os serviços “personal-alguma-coisa” exige uma identificação neste idioma. É o primeiro passo para manter a pose, sonhar com status ou justificar a enganação. Se estiver em português, é serviço menor, talvez coisa de pobre.

Poderia mentir para você, com um slogan no singular. Afirmar que esta crônica foi “escrita para você”. Pode até ser que o leitor se identifique, adore o texto abaixo e pense que foi criado para ele. É o melhor elogio possível, mas este texto tem que ser lido por outras pessoas. Uma questão de sobrevivência. Quem escreve por exclusividade vai adoecer pela indiferença, se não morrer antes de fome.

Uma amiga minha vai ao mesmo cabeleireiro há anos. Ele a atende no mesmo lugar, conversa sobre os mesmos assuntos, fofoca sobre as mesmas pessoas. O local de trabalho passou por duas mudanças nos três últimos anos. A primeira foi que deixou de ser salão de beleza. Salvo dois ou três serviços a mais, virou clínica de estética. Mas a maior alteração foi na profissão dele. Ele não é mais um cabeleireiro. Virou personal hair stylist. Só não faz design de sobrancelha como a concorrente da rua de trás.

Um primo meu se casou e me convidou para a cerimônia na Igreja e para a festa, claro. O buffet era daqueles bacanas, de garçons engravatados e whiskies nas mesas. Os noivos não tinham sossego. Uma mulher vivia atrás deles. Dava ordens. Decidia a hora das fotos. O momento de comer. Perguntei para ele se era a cerimonialista. A resposta: não! Era a personal marriage.

Não fiz uma pesquisa apurada sobre este relevante tema da vida do homem moderno, mas tenho a impressão de que tudo começou com o personal trainer, o professor de educação física que atende a domicílio. Nasceu como moda entre as socialites, as emergentes (nome em desuso, comum na época) e celebridades, que deixavam a academia de ginástica e recebiam um personal em casa. Muitas se encantaram tanto com as aulas que os casamentos ganharam um terceiro elemento: o personal lover.

A dependência dos especialistas na sociedade contemporânea é tamanha que surgiram serviços para tarefas mínimas do cotidiano. Um exemplo: profissionais que passaram a definir como o sujeito deve se vestir ou organizar o próprio armário. Mais um sinal de que o consumo anda meio exagerado. Não importa: supérfluo por supérfluo, contratam o personal stylist.

É difícil se convencer quando o personal aparece na televisão com combinações básicas de cor que qualquer mamãe recomenda a uma criança. Quando não sugerem as combinações dignas de risos. Dos outros.

Talvez aquele que pode contratar alguém para organizar o guarda-roupas precise de outro serviço personalizado: o personal manager. É alguém que planeja as tarefas do cliente que alega não ter tempo. Pequenas obrigações do dia-a-dia, recados, compromissos, pagamento de contas. Fica a sensação de que a secretária mudou de nome, de status, de preço. E não me refiro à empregada doméstica, que se transformou em secretária, com o mesmo salário.

E se o mesmo indivíduo tiver dificuldades com aparelhos eletrônicos como celulares, smartphones e computadores? Basta uma rápida busca na Internet que ele poderá contratar um personal tecnológico.

Como ele deve ter uma vida apressada, mal consegue definir o que vai consumir nas refeições. Gastando mais um pouco, ele pode contratar um personal chef. Um profissional que definirá o cardápio a ser digerido todos os dias. Se pagar um pouco mais, o personal cozinhará todo o menu.

Muitos compram o pacote completo. Estes clientes conseguem fazer alguma coisa sozinhos?

A maior ilusão dos “personal-alguma-coisa” é a crença na exclusividade. O serviço é individual, jamais exclusivo. Mas não canso de ouvir “meu personal isso, meu personal aquilo”. O pronome indica a propriedade. É natural das relações de consumo. Consumidores tendem a ser individualistas. Acreditam na diferença prometida na exclusividade, quando o desejo mais profundo é ser igual, o passaporte para a aceitação.

Nada diferente das promoções exclusivas das lojas de departamentos. Você comprará aquela roupa única, que te decepcionará ao ver um clone no corredor do shopping minutos depois de pagar a conta. Ou o brinde exclusivo para os 500 primeiros que ligarem para o serviço de telefone da empresa. Além de fazer parte da massa, o sujeito paga pelo custo da ligação.

Diante de todos estes serviços “feitos sob medida”, só faltará a personalização da fé e do amor. Como pagar pelo personal god? Talvez deva perguntar a alguns líderes religiosos, que prometem de tudo para nos aproximar de Deus, mediante uma “ajudinha”?

No caso do amor, o serviço já é pago, tanto por homens como por mulheres. Basta mudar a mais antiga das profissões para personal sex ou personal lover, se houver necessidade de algum glamour romântico. Mas garanto que o resultado e o tempo de serviço serão os mesmos.

Observação: Agradeço a todos pela leitura da crônica Os escombros da Pompéia e pelo recorde de comentários neste espaço, além dos e-mails enviados. Jamais imaginaria que o texto provocasse tantas reações emocionadas e saudosas. Muito obrigado!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Os escombros da Pompéia

Os prédios respiravam pelas vozes, pelos passos, pelo som agudo do giz que riscava as lousas verdes. O lugar transpirava pelos sonhos de uma carreira profissional, pelo desejo de voltar à escola depois de anos, pelos gritos e gargalhadas dos moleques que marcaram gols na quadra anexa, depois estacionamento.

O som mudou no bairro da Pompéia, em Santos. As noites ficaram mais silenciosas. Não há tilintar de copos nos bares entre as ruas Maranhão e Piauí. Não ocorrem mais congestionamentos por volta das 19 horas e das 22h30. Sumiram os corpos entrelaçados nas esquinas. As conversas em voz alta e as gargalhadas em volta das mesas engrossaram o acervo da história oral.

Durante o dia, a serenidade da rua Euclides da Cunha foi trocada pelos decibéis perversos da demolição. Os prédios da antiga Faculdade de Comunicação e do Liceu Santista morreram. Seguirão congelados em fotos ou ainda vivos em vídeo. Pouco diante do tamanho das ruínas. São escombros que alicerçaram a vida de milhares de pessoas por mais de 40 anos. Um buraco no meio da história do bairro e da cidade.

A demolição sorri pela crueldade. Atravessou a rua sem pudor. Sangra também o antigo prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFIS). Durante o dia, é possível ouvir os gritos de dor do concreto e das vigas de ferro que se partem diante das batidas mecânicas da mudança urbana.

Os prédios morreram pelas mãos do crescimento imobiliário paranóico. Tornaram-se peças descartáveis. No lugar, serão três torres, de 42 andares. Os edifícios, um dia imponentes, eram apenas formigas diante dos elefantes que se aproximam. O passado enterrado deu vez à ilusão dos que se julgam mais próximos do céu.

Passei 14 anos da minha vida naqueles edifícios, descontados pequenos intervalos de ausência. A primeira vez que entrei lá foi em 1991, aos 17 anos. Eu e meu primo Júnior havíamos passado no vestibular. Eu, em Jornalismo. Ele, em Letras. A alegria de dois moleques que tinham vencido a primeira etapa. A tensão de ouvir da funcionária a lista de documentos necessários para estudar por lá. A expectativa de ter a cabeça raspada, o primeiro ritual que nos tornaria universitários.

Na Pompéia, fiz duas graduações e dei aulas por seis anos. Trabalhei e estudei em todos os andares do prédio da Facos. Tive aulas por dois anos no prédio da Fafis. Ali, fiz amigos que se transformaram em irmãos. Ali, tornei-me jornalista com o empurrão de professores que me mostraram um universo antes distante e inalcançável.

Evito passar pela rua Euclides da Cunha. Naquela região, construi parte de minha identidade. O vazio no cenário provoca a falsa sensação de perda. Resta idolatrar a memória e seu caráter seletivo. Lembranças que ressuscitam e sustentam uma parte de mim.

Conheci a mulher com quem me casei em um dos prédios. Fiz um discurso de formatura. Anunciei o nascimento de minha filha. Preparei minhas primeiras matérias em máquinas de escrever. Os textos esculpidos nas antigas laudas amareladas, que não permitiam erro. Até hoje, tenho saudades do barulho das Olivettis. Som que nenhum PC poderá reproduzir.

Os prédios só existem por viveram de pessoas e para pessoas. Nós e os edifícios nos alimentamos das lembranças, das angústias, dos desejos, dos sonhos, das decepções, dos flertes, da sede intelectual, dos conflitos com colegas para revirar a mente, dos choques que derrubaram preconceitos tão enraizados.

Evito passar pela rua Euclides da Cunha há mais de um ano, quando os prédios foram fechados. Entraram em estado vegetativo. Entraram em coma irreversível. A escuridão se apoderou do prazer de conviver com pessoas todos os dias no mesmo lugar. Gente que passou boa parte da vida com gente que não seria família em outro endereço.

Os prédios – hoje vácuo na paisagem – eram uma aldeia de pares, de gostos semelhantes, de prazeres próximos e compartilhados. Da sinuca ao grupo de estudos. Da cerveja ao futebol nos finais de tarde de sábado após as aulas do professor Sergio Guidi, dadas na sala conhecida por ter uma pilastra do meio. Das conversas no bar do Beto ao pastel engordurado da esquina.

O bairro da Pompéia caiu de joelhos diante do progresso cinza e esguio. As torres, castelos da modernidade, trouxeram a ilusão do crescimento econômico, desfeito de início pela mão-de-obra de outras praças.

Os castelos do presente redesenharam os pequenos feudos. Trânsito enforcado, lixo e consumo de água em excesso, outros interesses, outros desejos, novos sonhos. São sinais de um bairro que será cosmopolita apenas na carcaça de concreto e ferro.

Os prédios antigos ruíram com a identificação com aquele espaço. Não há mais o que fazer por ali. Passar por aquele trecho para exercitar o saudosismo soa como auto-flagelação. Nem lápide haverá para marcar o final de um episódio. Aquele pequeno universo que reflete e é reflexo de uma cidade que optou pelo crescimento sem limites. Que pagará o preço de um tempo diferente. Tempo que talvez muitos não se encaixem, deslocados e reféns dentro de casa.

Parte da história da Pompéia são escombros, prestes a encher caçambas de caminhões. As experiências são entulhos de um passado que merecia melhor valor. A nova história, por enquanto, é reescrita pelas máquinas pesadas, nascidas para desconstruir, borrachas que eliminam símbolos da cultura local, gravados nas paredes que abrigaram milhares de estudantes, visitantes e funcionários.

Evito passar pela Pompéia. Por enquanto. Tenho dúvidas se as mudanças serão benéficas para o bairro. Não posso afirmar se a nova história será adequada às tradições de gente que, mesmo sem saber, deu vida conjunta a um pedaço de outros tempos individuais e coletivos.

A Pompéia do “futuro-hoje” pode não ter o rosto e o corpo que se deseja. Sobram, além de escombros, o silêncio da resignação ou o caminhão de mudança. Para quem chega e para quem está lá.

sábado, 21 de agosto de 2010

Promessa ao telefone

Texto publicado na seção Campo Neutro, do jornal Boqueirão (Santos/SP), em 21 de agosto de 2010, página 2, edição nº 803.

O celular tocou por volta das três horas da tarde. Era junho de 2008. Quando a candidata se identificou, pensei que se tratava de um trote. Como teria o número do telefone? Para que me telefonaria?

O motivo do telefonema era um texto publicado neste mesmo espaço. O artigo sustentava que a candidata seria o fiel da balança nas eleições para vereador em Santos. Mais do que ser a mais votada, ela poderia alterar a composição das cadeiras no Poder Legislativo.

A conversa durou cerca de 10 minutos. Entre agradecimentos e explicações de praxe, a promessa:

— Vou terminar o mandato. Garanto que não serei candidata à deputada em 2010.

Duas coisas não mudaram e tampouco surpreendem. A promessa da candidata foi mais um exemplo de retórica política. E a campanha para a Assembléia Legislativa, este ano, segue como um processo natural. Os 20 mil votos para a Câmara engrossaram as estatísticas sobre a história política do município.

A candidata não é a única política de profissão que larga mandato no meio do caminho. Infelizmente, tornou-se exercício recorrente entre os peixes de maior porte no aquário. Em Praia Grande, por exemplo, um ex-prefeito largou o mandato para ser deputado federal. Depois, abandonou o cargo em Brasília para ser administrador municipal novamente.

Divorciar-se à revelia do compromisso com os eleitores ganhou status de ação inerente ao processo político. Acontece em todas as esferas. Um candidato à presidência prometeu cumprir o mandato de prefeito da maior cidade do país e cansou da brincadeira, durante a gestão, para se tornar governador.

Os políticos, via de regra, contam com a complacência do eleitor quando colocam projetos pessoais acima das funções públicas. Abandonar o cargo durante o mandato não pode ser digerido como brinde do jogo. Soa como traição política. Em tese, o sujeito foi eleito para atender aos interesses de uma parcela da sociedade em uma área específica, durante um tempo determinado. Tempo e espaço não se separam. É o pensamento recorrente em qualquer democracia mais madura.

O mais nocivo desta história é que muitos dos candidatos permanecem em seus cargos, com todos os benefícios financeiros, em paralelo à campanha eleitoral. Quem acreditaria que o candidato — e político com mandato em exercício — seria capaz de separar as duas esferas sem utilizar uma delas para favorecer a outra?

Os candidatos que largam o barco no meio da viagem o fazem porque se aproveitam da irrisória cobrança que sofrem em suas funções, além das brechas de um sistema político que carece de reforma há décadas. E ainda têm a desfaçatez de dizer que um suplente dará conta do recado nos dois anos que restam.

Qualquer eleitor de primeira viagem sabe que, inclusive pelas distorções do sistema político brasileiro, são raras as pessoas que votam pelos projetos de partidos. Escolhemos as pessoas. Somos adeptos do personalismo político. Responsabilizamos ou idolatramos nominalmente os governantes. Até porque, ainda que alienados, muitos eleitores tem a dimensão e os limites daqueles com quem lidam. A maioria quase total dos partidos são legendas de aluguel, balaios ideológicos, balcões de negociações de empregos públicos e outras benesses do poder.

Independentemente do candidato que escolhi, sinto-me traído quando um representante da minha cidade, região ou Estado abandona o mandato no meio do caminho. Fica cristalina como a ambição pelo poder prevalece sobre qualquer preocupação coletiva. Uma reforma política, com eleições gerais a cada quatro anos, não resolveria. Mas, ao menos, esconderia os que traem com o sorriso no rosto, estampado em placas e cartazes.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O sorriso dos lagartos



O cinismo não me assusta. Sequer ultrapassa o limite da indignação que provocaria paralisia. Mas tenho que confessar: os sorrisos daqueles sujeitos me metem medo. Aterroriza saber que sorriem como respiram. Um processo visto como natural que serve até para os inimigos. São amáveis com quem seria capaz de atirar pedras. Não se tratam de messias encarnados, que dariam a outra face por um bem maior, mas símbolos máximos da pequenez humana.

Parado à espera do ônibus ou caminhando, sinto que eles me perseguem. São amáveis, parecem agradáveis, exalam felicidade. Aparecem sozinhos ou em grupo, todos com os dentes à mostra, brancos de machucar os olhos. Alguns estendem as mãos como se fossem acolhedores ou solidários. Outros fazem o sinal de positivo, na garantia de que está tudo bem. Ou, na pior das hipóteses, de que a vida será melhor no próximo ano. Por causa deles!

A vantagem é que, na posição que ocupam, não podem falar, o que limita o poder de sedução. Também não podem construir uma imagem positiva de si além do próprio rosto. A maquiagem é insuficiente para ocultar a real naturalidade. Permanecem numa posição crua; não diria nua nem espontânea, mas passíveis da leitura que permite perceber quando mentem no olhar.

O comportamento deles é padronizado, o que gera ambigüidade. Ao mesmo tempo em que fica fácil enquadrá-los ou rotulá-los, torna-se muito complicado separar a essência da aparência. E todos se abraçam na missão de emporcalhar a cidade durante este semestre, pelo menos até outubro.

Os candidatos a deputado não se incomodam em dividir espaço com shows e cerimônias religiosas nos muros. Qualquer evento é uma chance de beliscar votos. Os cartazes lambe-lambe, que infestam a cidade, são quase todos do mesmo jeito. Rostinho contente, um slogan que não explica nem atrapalha, número e coligação. Alguns tentam embarcar em preocupações do momento, sejam práticas como emprego ou Ficha Limpa, sejam abstratas como honestidade. Falam como se fossem questões que os tornam especiais, e não prerrogativas do cargo que almejam ocupar.

Com as limitações da legislação eleitoral, as placas com cavaletes viraram mania nas esquinas. A cada rua, você tropeça em um candidato sorridente. Há exceções, como aqueles que cultivam o semblante sério para justamente aparentar ... seriedade. Política seria para brincalhões? O histórico, infelizmente, está recheado de exemplos de sujeitos que esculhambaram com a imagem dos palhaços.

O meio ambiente se transformou, ainda que em caráter cínico, em um dos temas mais recorrentes na campanha eleitoral. O cinismo é notado no simples fato de que os defensores do verde engrossam a lista de candidatos que sujam a cidade com papel e madeira. Nada de campanha ecológica. Vale o politicamente correto do “discurso-propaganda-de-margarina”.

É óbvio que seria ingênuo pensar que as velhas estratégias de campanha poderiam ser abandonadas de uma hora para outra. Que isso ocorreria em prol do bem coletivo. A política contempla o individual como símbolo da liberdade humana. Não há um olhar para os lados. O umbigo é o começo e o final.

As placas e os cartazes não representam somente a ideia de onipresença do candidato. Estes materiais escondem a ausência de quem é figura pública (ou deseja ser?) no espaço público. A sensação artificial de presença cotidiana significa a luta para encobrir a ojeriza que muitos políticos manifestam veladamente pelo contato humano. O contato que pressupõe diálogo, que implica divergência, que resulta — em muitas ocasiões — em cobrança proporcional ao poder exercido.

As placas e os cartazes, acompanhados de um sorriso, mascaram os carros blindados, os condomínios fechados, os vidros filmados, a corte de puxa-sacos que tornam um político quase um extra-terrestre. Você, leitor, encontra o deputado estadual ou federal de sua região nas ruas? Na padaria ou no supermercado, por exemplo? Não falo de exceção que confirma a regra.

Os sorrisos de flerte diluem o desejo contínuo de ser e parecer vip. Mas, para alcançar tal condição, é necessário se aproximar daquilo que os enoja, dos atos que constrangem, dos olhares e toques de mão que reprovam e condenam.

Placas e cartazes são armas de uma novela reprisada, cujos capítulos podem ser alterados pelo público, assim como acontece no universo da dramaturgia. Mas me parece fundamental nos entendermos como protagonistas do enredo, papel com maior solidez do que a mera figuração dos que contemplam os astros e sonham com o autógrafo, o beijo ou o aperto de mãos.

Os lagartos se moveram na semana passada. Deram o segundo passo. Permanecem parados nas ruas e avenidas, sorridentes e convidativos ao diálogo. Agora, também entram em casa. Invadem a vida privada. E ganharam fala, duas vezes por dia. Resta saber até que ponto acreditaremos na conversa fiada de pé de ouvido ou fingiremos que a enganação nos satisfaz.

sábado, 14 de agosto de 2010

O laxante

Pâmela é uma mulher perdigueira, com a licença poética à expressão criada pelo cronista Carpinejar. É daquelas que marcam mais forte que volante-brucutu de time de várzea. Mostra os dentes, rosna e demarca território para garantir um homem ao lado dela. Orgulha-se de ser uma mulher prevenida, que se antecipa ao inevitável comportamento promíscuo dos machos.

A vigilância incluía chegar um dia antes das viagens de trabalho (mentia o tempo de estadia nos recados), controlar chamadas de celular e esperar na porta do prédio, se não enxergasse o carro do marido na garagem na hora e lugar marcados.

O ciúme que sente por Rogério a transformou em uma obcecada por detalhes. Confere os horários dele com a precisão de relógio de estação de trem. Inspeciona as roupas e acessórios como guarda de penitenciária. Bolsos, golas de camisas, envelopes, qualquer indício que possa condenar o marido criminoso, ainda que ele não saia de casa. Se ficou quieto no sofá, alguma coisa aprontou e quer fazer média com ela.

Rogério gosta de uma farra. Mas com os amigos. Aqueles rituais cheios de homens, como futebol, cerveja e palavrões. Inventava estes pretextos para sair. Mal pegava na bola. E não se interessava pelo assunto. Mas poderia respirar um pouco diante do ciúme incontrolável. No fundo, gostava da perseguição e do faro da esposa perdigueira. Oficialmente, dizia se sentir querido. No íntimo, era um prazer perverso ver a mulher espumar de raiva.

Rogério se matriculou em uma academia. Musculação três vezes por semana. Para acalmar a fera, convidou o vizinho, mais ou menos da mesma idade, de amizade ainda em construção. É claro que provocava a mulher, ao descrever corpos sarados que vestiam roupas de número menor em movimentos sincronizados nos aparelhos.

Pâmela fingia aceitar a academia. Sorrisos amarelos para esconder o ódio. Não via grandes problemas na musculação. Já tinha inspecionado o local em uma das noites em que o marido faltou ao treino. Percebeu que era repleto de machões que só faltavam usar fita métrica para medir os bíceps.

Depois de dois meses, Pâmela não controlava mais a nova onda de ciúmes. O corpo do marido havia mudado. Abdômen mais definido, braços mais grossos, mais preparo físico. A vida sexual havia melhorado, motivo suficiente para se sentir enganada. A musculação tinha se transformado em problema. E pior: com a autorização dela, que havia apoiado o marido em novas amizades e uma rotina na academia.

Tentou, com todos os argumentos, alguns que beiravam a insanidade, convencê-lo de que a musculação era um ciclo encerrado. Falou até em deformação, doping e impotência sexual. Sugeriu cinema, filminho embaixo das cobertas, hora extra para aumentar o salário. Incentivou até a volta da trilogia futebol-cerveja-palavrões.

Pâmela entendeu que perdera o ponto da mudança. O marido estava obcecado por exercícios e pelo próprio corpo. Elogiava mais as próprias pernas do que as dela. Exalava testosterona ao se admirar no espelho do banheiro.

Ela apelou para táticas de guerrilha. Precisava sabotar aquelas três noites da semana. Técnicas antigas, como se esquecer de lavar roupas ou manchá-las, ficaram estéreis. Rogério treinaria de calça jeans e sapato bico fino, se fosse necessário. Como os dois eram representantes de empresas de medicamentos, a arma do crime estava ao alcance da caixa de amostras grátis.

Sonhou com o crime perfeito. Chegou mais cedo do trabalho e batizou a garrafinha que o marido levava para a academia. A água benta não seria isotônico. O laxante, diluído na água mineral, não teria sabor. Injetou uma dose três vezes superior ao normal, para uma pessoa com prisão de ventre.

Rogério, sujeito metódico e disciplinado, seguiu o mesmo ritual antes do treino. Levou a garrafa milagrosa. Checou o conteúdo e não sentiu diferença. E não entendeu quando, ao entrar correndo em casa meia hora antes do previsto, testemunhou um sorriso de canto de boca da mulher.

Rogério acabou no pronto-socorro. Dois dias sem trabalhar e três quilos mais magro. O vizinho, amigo de academia, também foi parar no hospital. Três dias de internação.

Pâmela não poderia prever que o amigo esqueceria a garrafinha de água em casa. O marido jamais soube da sabotagem. Pâmela não se sentia culpada e contava a história para as amigas de boca cheia. Puniu o irresponsável egocêntrico. E dizia que o amigo estava bem protegido pelo plano de saúde. Apenas espumava quando tinha que lembrar que o marido, hoje, não só treina musculação como faz natação e pratica spinning.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Bem-vinda ao manicômio



Voltar àquela escola, anos depois, era a melhor forma de retribuição. A professora, recém-convocada em concurso público, desejava começar a carreira na rede municipal de Santos pela escola onde estudou. Um exercício de idealismo de quem acreditava na mudança, de quem ainda não sentiu as costas arqueadas pelo tempo, de quem ainda não responsabilizou os outros pelos fracassos individuais.

Ao entrar na escola, a sensação natural de desorientação. Encontrou alguém uniformizado. Um senhor, que depois descobriria ser um inspetor de alunos. Ao se identificar, ouviu a pergunta e a sentença:

- Professora nova? Bem-vinda ao manicômio!

A primeira dúvida: trote de funcionário antigo ou mau humor por causa do dia ruim e longe de terminar?

Foi à secretaria e esperou pela equipe pedagógica para se dirigir à sala de aula. Cinco minutos depois, a coordenadora pedagógica se apresentou e perguntou:

- Você dá aula de História?

- Sou professora de Inglês.

- Não tem problema. A aula hoje é sobre Guerra Fria. Tá na hora! Os alunos não podem ficar sem ninguém na sala.

- Mas eu não sei quase nada de Guerra Fria.

- Olha, pega este texto. Pede para os alunos copiarem da lousa, passa uma atividade. Sei lá. Mantenha a molecada ocupada.

A professora seguiu para a sala de aula. Primeiro dia, ela preferiu conversar com os alunos. Sentiu que a situação era pior do que a simples ausência do professor de História.

Ela era a quarta a dar aula daquela disciplina. No mês! Professor de Português? Espécie rara. Não viam um há dois meses. Em todos os casos, os alunos pareciam matriculados em curso de formação de escribas, tamanha a quantidade de cópias da lousa que fizeram. Ganhavam músculos em um dos braços. Mantinham as mentes fora dali.

Os estudantes, inclusive, quando viam a entrada de uma professora-substituta, sabiam que seria cópia outra vez. Tinha consciência da enganação, mas talvez não tivesse noção do estrago do qual eram vítimas.

A professora não durou muito tempo na escola. Via professores cansados. Inspetores controlavam os alunos com agressividade. A equipe pedagógica se escondia nos gabinetes. Os casos de indisciplina se multiplicavam. Diálogos eram poucos. Gritos eram o hino nacional daquele endereço.

O primeiro dia na escola da infância resultou em choro na volta para casa. O dia simbolizou a decisão tomada após o nascimento do primeiro filho e a licença-maternidade: não voltar mais.

O relato é do marido da professora, também docente. Por ironia, de História. Ele prestou concurso público, teve boa colocação e espera ser chamado em breve. Mas não sabe se repetirá o destino da esposa, até pelo fato de que possui dois bons empregos.

No que a escola se parece para muitos professores? Uma prisão? Um hospício? De fora, a aparência é, na maioria das unidades, sombria. As cores das fachadas casam com uma cidade eternamente nublada? Cadeados e trancas protegem as crianças do mundo? Ou protegem o mundo da escola?

Um secretário de educação da Baixada Santista teve a coragem de afirmar que as unidades do município dele estavam longe de parecer prisões. O motivo: os muros foram trocados por grades. Se uma criança pensar em jaulas, que imagem virá à cabeça dela?

O irônico desta situação é que a mudança soa como algo distante, inalcançável para quem integra o cenário. Os sujeitos mais antigos no círculo, via de regra, alertam – em tons que variam da superioridade à resignação – que a escola é daquele jeito mesmo. Contente-se ou mude-se!

Quem dá o alerta cumpre pena e não pode deixar o local? Sente prazer na dor? Cansou de lutar, acomodou-se após sucessivas derrotas?



Manter o caos esconde a incompetência, realimenta a paralisia das vítimas confortáveis e, principalmente, perpetua os sintomas da “síndrome do pequeno poder”. O nome da doença é de autoria de uma amiga psicóloga.

A barbárie que marca um asilo de loucos não democratiza o poder. As relações funcionam pela força. Manda-se pelo medo. Obedece-se pelo temor ou pelas vantagens recebidas.

A barbárie não possibilita discussões coletivas. Mata o senso de coletividade e costura o predomínio dos individualistas, recompensados com pequenos prêmios, sempre pontuais.

O poder deriva geralmente de um pacto entre a equipe pedagógica e o corpo docente que cristalizou as raízes. A equipe fica com os louros do papel de autoridade, apenas para o público externo. Sobrevive com a vestimenta da governabilidade, palavra da moda para ocultar os interesses esfumaçados.

Muitos professores, aliados a funcionários de outros setores, mantém privilégios baseados na letargia e na falta de compromisso com o alunado. Fingem integrar uma equipe. Jamais se assumem como bando. Abdicam da liberdade possível – por vezes – assim que fecham a porta da sala.

Os sentimentos que levaram a professora de Inglês à desistência estão no ar de inúmeras escolas. São perceptíveis no gosto da água. E indicam o sonho de consumo de muitos professores. Largar a escola para sempre, sem saber para onde caminhar. Vale somente a fuga.

Nestes locais, prevalecem a desilusão, a violência psicológica, a ausência de respaldo dos gabinetes das pedagogas de terninho e jargões na ponta da língua. Nestes locais, seus integrantes cumprem castigo (às vezes voluntário), seguem internados por causa de um diagnóstico que desconhecem.

A escola se aproxima de uma instituição em que educar é termo ignorado. Cumprem-se horas, de olho no salário – ainda que péssimo – do final do mês. Todos culpam alguém, já que não sabem exorcizam suas próprias responsabilidades. A reinvenção passa por pactos localizados, de olho no mundo além das cercas. Mas como fazê-lo se o asilo é o local mais solitário que existe?

Abandonar a si mesmo no manicômio é o caminho que muitas escolas percorrem para apagar o sentido metafórico das boas vindas do inspetor de ensino.

domingo, 8 de agosto de 2010

O emprego único

Ser pai é o melhor e o pior dos cargos. É vitalício. É intransferível. É imprevisível. Quando você fica com o emprego, ninguém te avisa o porquê de seu nome na lista de selecionados. Você pode ser contratado sem ter pensado em se candidatar à vaga. Basta distribuir o currículo por aí que alguém se encarrega de analisar seu perfil.

O trabalho é sem rotina, sujeito a viagens para hospitais, escolas e apresentações de balé ou judô no final do ano. Quando você assume a função, a hierarquia é estabelecida no primeiro dia. Não há curso de trainee ou estágio para que se adquira experiência. Quem te emprega, não te entrega manual de instruções. Os riscos de demissão e promoção são iguais a zero.

Tenho alguns anos de janela nesta área. Oito anos e 10 dias, para ser preciso e posar de competente. Por mais que se encham prateleiras de dicas e dicionários sobre a paternidade, não existem teorias que se aproximem da prática inerente ao cargo. Por mais que dois profissionais conversem e troquem percepções deste trabalho, as informações jamais servirão para os momentos de crise e para os episódios de felicidade, tão particulares quanto os macetes da profissão.

Para refletir e depor sobre este emprego, não vejo outra saída: sentimentos e poesia. Racionalizar incorrer cantar em falsete.

Ser pai é compreender que o controle sobre os fatos e sobre as pessoas cheira à ilusão. É menos doloroso se compreendermos logo de cara que a paternidade se move pelas vias da orientação. Qualquer desejo de perpetuar imagem e semelhança implica em autoritarismo.

Ser pai é engolir e digerir o sofrimento alheio de mãos e pés atados. Não se pode correr ou interferir. Aceitar a tortura da dor ameniza o sangramento. Explicar o erro que se aproxima do outro é pregar no centro do vazio. Explicar reforça a redundância, com resultado absorvido sem garantias de entendimento completo.

O pai suporta uma dor que nunca será sua. A dor do outro que corre pelas veias da impotência. Jamais reclama. Lágrimas são atos discretos de quem precisa ser impassível como um guarda real britânico.

Ser pai é assumir-se como o carcereiro que responderá processo administrativo. O carcereiro que mantém seus presos sob seus braços, mas que se vê obrigado a abrir as celas para deixá-los tomar banho de sol, sem retorno, com direito à escolha própria dos crimes. O carcereiro não precisa saber o porquê da concessão da liberdade. É o cego que cruza a avenida de olho na sorte.

Ser pai é sentar-se na arquibancada e acompanhar o andamento do jogo com uma tarja na boca. Sem direito a cantos ou sugestões de substituição no time. Ainda que seja o técnico, qualquer esquema tático não mudará o jeito da equipe jogar sem que o astro principal decida executá-lo.

Apenas um pai é capaz de transpirar o testemunho do nascimento. O único que não pode também descrevê-lo. É um egoísta abençoado pelo início de um roteiro que nasce acompanhado de páginas em branco. E uma caneta em mãos.

O pai é o único sujeito, no mês de agosto, capaz de dizer com sinceridade nos olhos que o presente recebido não era necessário. Quando cercado por quem merece, é verdadeiro ao encher a boca para declarar que possui tudo. É o instante do divino, ainda que o olhar seja uma brincadeira com a humildade.

O pai, no dia dele, doa a si mesmo, sem direito a definir o donativo. Sorri com aquilo que recebeu, mesmo que seja a reprise do ano anterior. A repetição assegura o prazer da continuidade. A repetição carrega a ênfase do que se sente, sem pedido de troca ou restituição.

O pai não pode – jamais! – cair em tentação. Viver sob resistência, como um diabético que se encontra com um refrigerante no calor. Resistir a nunca impor seu espelho aos filhos. Eles nunca serão o que desejamos. Nunca farão o que sonhamos. Nunca estarão onde rezamos. Sonhar os sonhos deles é direito, jamais imposição ou realização.

O pai, quando ouve que seu filho é igual a ele, deve ser sentir ofendido. Filhos tem que ser melhores. Para bem de todos e felicidade geral da nação. Filhos nasceram para nos indicar que, um dia, seremos obsoletos. Seremos teóricos de um cotidiano que não conhecemos.

A vantagem é que, quando nascem, filhos nos dão a chance de sermos melhores. O passaporte único, impossível de ser devolvido ao portador. Se não nos sentirmos melhores, que fique a consciência de que os dias mudaram. E as madrugadas também.

Ser pai é vestir a máscara da paranóia. Não dormir quando o outro se atrasa. Levantar no meio da noite para verificar a respiração óbvia e serena do bebê. Nunca mais repousar uma noite inteira e seguir a religião da insônia. A fé nos cânticos de um choro só. O milagre santificado no sorriso sem dentes, suficiente para demolir o castelo de irritação e raiva construído em dia ruim.

Como pai, não sou visionário. Jamais teria uma salinha de conselhos sentimentais ou simpatias que salvam ou resgatam os relacionamentos amorosos. Um vidente com competência prevê a próxima curva para si, antes de qualquer vítima do charlatão.

Pensei que daria conta de apenas uma menina. Errei. Mas o medo diário de não conseguir dorme como inimigo.

Culpei as cartas, a borra de café e mandingas para bater no peito de que não seria capaz de repetir a dose. E se os dois corressem para lados opostos? Dois filhos mostram como são importantes dois braços e duas pernas. Para apanhá-los. Para acompanhá-los. Para abraçá-los. Para acolhê-los. Para protegê-los. Para soltá-los. Livres e imperfeitos, porém únicos. Como o melhor e o pior emprego que poderia obter.

sábado, 7 de agosto de 2010

Cinderela ou abóbora?

Texto publicado na coluna O outro lado da bola, no jornal Boqueirão (Santos/SP), 07 de agosto de 2010, edição 801, página 7.

O Santos foi o time do semestre. E ainda ocupa o centro do palco, mas o encanto pode acabar com as 12 badaladas da igreja. O Santos está diante da encruzilhada, onde precisa decidir se dará um beijo no príncipe ou se virará abóbora; perdoem-me a ligeira distorção do conto de fadas. .

Vencer dois campeonatos em pouco mais de sete meses serviu para coroar o Santos como a sensação do futebol brasileiro. Quatro atletas na seleção brasileira também indicam a força de quem joga na busca obsessiva pelo gol. É o reconhecimento público dos espetáculos que o time proporcionou, principalmente na Vila Belmiro, mesmo com a fase de transição promovida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

A própria seleção simboliza o primeiro alerta para as mudanças agressivas vindas do outro lado do oceano. Dois dos convocados deixaram o clube. As peças de reposição atravessaram períodos de instabilidade. Buscam a redenção no clube, assim como fez Robinho.

Temo pelo desmanche da equipe. Há vários casos na história recente que indicam a demolição de um time após convocações dos protagonistas e títulos conquistados. A janela européia ficará aberta até o final do mês.

Não sabemos se a diretoria vai segurar Neymar e Ganso. Qualquer aposta não escapa da especulação. A diretoria jogou palavras ao vento. Atletas e empresários, idem. No fundo, todos brincam com o tempo, à espera de flertes mais vantajosos. Atuar de forma convincente contra os Estados Unidos eleva as ações da dupla de moleques na Bolsa de Valores, de forma imediata. Pode-se chegar ao valor da rescisão contratual. Aí, a despedida em outro idioma.

Se outros atletas forem negociados, este time não passará por dois testes definitivos. Um campeonato longo, o mais duro que temos, com 38 partidas. E, em 2011, a Libertadores da América, o torneio mais complicado do continente e que carimba a história de clubes e jogadores. Jamais saberemos como este Santos se comportaria.

Depois de dois anos, o Santos deixou de ser a Cinderela, desprezada pelas irmãs da Capital. O time entrou no baile pela porta da frente, dançou como personagem principal a valsa no meio do salão. Roubou a cena. As irmãs, antes boquiabertas, se morderam de inveja da beleza daqueles passos.

Para desfilar pelo baile, Cinderela encontrou dois sapatos de cristal, que se encaixaram perfeitamente em seus pés. Calçados feitos sob medida, de confecção artesanal, exclusivos numa época em que predominam sapatos padronizados. Não é a hora de perdê-los para o primeiro aventureiro que sorrir com promessas de riqueza instantânea.

Desmontar o time nesta altura é exigir uma nova reconstrução no meio da estrada. Como refazer a casa se ela estiver sobre rodas? Há o risco, como outras equipes viveram (Corinthians e Palmeiras) nos últimos três anos, de se queimar uma geração de promessas, atirada aos leões sem as armas necessárias para a defesa.

O Santos tem o poder de dizer não, coisa rara no futebol atual. Basta que os dirigentes pratiquem a tão repetida mentalidade corporativa. Pensar no futuro do clube como instituição, e não como um instrumento para o mandato de dois anos. Segurar Neymar e Ganso passa por esta estratégia. Os dois podem ser negociados quando houver garantias de substitutos. Jogadores à altura para suportar, por exemplo, a Libertadores da América.

Vendê-los este mês é assumir que Cinderela foi mais uma moça ingênua, que viveu um conto de fadas. Tais histórias não costumam ter finais felizes fora dos livros infantis. Entre adultos, costumam valer os contos da carochinha ou os cantos da sereia.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O palavrão e o pastor



Fui a uma festa em um domingo. Era um aniversário de criança e os pais escolheram um campo de futebol society. Com cinco anos, o aniversariante tem poucos direitos; no máximo, escolher o presente e olhe lá. A festa era daquele tipo churrasco, cerveja, parabéns, bolo e brigadeiro.

Enquanto comia uma fatia de picanha, observava dois animadores e várias crianças que jogavam futebol. Aquela correria que lembra muitas seleções na última Copa do Mundo. Por acaso, comecei a ler placas de publicidade. Entre elas, a antítese da natureza do futebol.

“Proibido falar palavrões”.

O autor da ideia não conhece o esporte. O futebol nunca foi um esporte educado. É no campo que os homens (e as mulheres, por que não?) colocam para fora paixões, raiva e outros sentimentos menos nobres. Extravasar é comportamento inerente para quem joga como para quem assiste, sem distinção. Quem não se emociona mal entende a natureza do jogo. Ou precisa de apoio profissional via divã.

O palavrão é um dos sintomas da reação emotiva diante de uma partida. Xingamos o juiz, filho de várias mães. Xingamos os jogadores adversários e do próprio time, inclusive quando vencemos. Xingamos o técnico, responsável por todos os males da equipe. Xingamos até a bola, que insiste em atrapalhar os pernas-de-pau.

Até os jogadores xingam a si próprios. Neto, quando era meia do Guarani, fez um gol de bicicleta contra o Corinthians, no Morumbi. Era a final do Campeonato Paulista de 1989. Depois de marcar, ele corria pelo campo, batia no peito e gritava:

- Eu sou foda! Eu sou foda!

Falar palavrão é parte do ritual. O campo de futebol aceita o politicamente incorreto como sinal de que nos importamos com o jogo. O palavrão marca nossa impossibilidade de interferir no resultado. Mas é a nossa maneira de dizer que estamos ali, vivos e apreensivos.

A tecnologia nas transmissões esportivas nos colocou entre os jogadores, como testemunhas oculares, quase protagonistas do enredo. Vemos o balé dos corpos, as reações faciais em câmera lenta, o desenho das jogadas nos detalhes. E podemos ler o que dizem, inclusive os palavrões.

No jogo contra a Costa do Marfim, na Copa do Mundo, Kaká apanhou, bateu e reclamou. Acabou expulso. Em uma das faltas sofridas pelo meia brasileiro, a câmera fechou no rosto dele e pudemos assistir Kaká dizer, de boca cheia:

- Porra! Que merda!

Um amigo meu se esqueceu dos detalhes daquela partida. Talvez afetado pela surpresa e pela cerveja, ele só sabia repetir, como uma criança que descobre uma maravilha no mundo:

- Kaká falou palavrão! Kaká falou palavrão!

Jogo futebol desde pequeno. Mas, como milhares de moleques, não consegui ser jogador de futebol. Como um goleiro mediano acima do peso, ainda sou convidado para disputar campeonatos e brincadeiras de final de semana.

Durante três anos, joguei às segundas-feiras com o pessoal da Igreja de uma amiga. Aquela pelada semanal repleta de gansos, pavões, zebras, leões de treino e outras espécies que compõem a fauna no campo de futebol.

Fui convidado para participar de um torneio entre igrejas, todas protestantes. Não era fiel ou membro da instituição, mas jogaria como gato. O time era de bom nível, mas envelhecido.

Chegamos à última rodada com chances de classificação. Mas o adversário era bem melhor, além dos jogadores terem, em média, metade da idade ... e metade do corpo.

Foi o campeonato mais educado do qual participei. Jogadores brigavam entre si e reclamavam do árbitro. Sem palavrões. Nas faltas mais violentas, o agressor estendia a mão à vítima e dizia:

- Perdão, irmão!

Desculpas aceitas e o pau continuava a comer.

O baile correu solto, mas perdemos por 4 a 3, um milagre divino diante do que aconteceu no campo. Tomamos o quarto gol no finalzinho, após a falha de um dos zagueiros. Brincou na frente da área, perdeu a bola para o atacante, que tocou na saída do goleiro, autor desta crônica.

Naquela hora, naquele contexto, talvez o momento mais violento da partida, que escapou pelos lábios do goleiro.

- Caralho, que merda, pastor!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O medo do Kenny G

Sempre acreditei que a música é o combustível da memória. A música marca os relacionamentos. Tranqüiliza os mais ansiosos. Nasce nos assobios dos sossegados. Sacode na ponta dos dedos que escondem a angústia. Invade os ouvidos dos desconfiados. Machuca os surpresos. Persegue pelos refrões. E ressuscita os traumas que nunca esperávamos ter.

Estava na fila da cantina com dois amigos para o cafezinho do intervalo entre as aulas. Enquanto esperava pelo atendimento, virei o rosto para a TV. Ali estava, com seu instrumento em meio a uma platéia extasiada, o saxofonista norte-americano Kenny G. Era a propaganda do novo CD dele, recém-lançado no Brasil.

As imagens sem áudio me pouparam da música que persegue nos eventos sociais. A música de Kenny G virou o coringa de todos os acontecimentos. Não importa o número de pessoas, o tom da solenidade, o sentimento dos presentes. Acredita-se que tudo pode ter a trilha sonora dele.

Quando tinha 18 anos, ganhei dinheiro com festas de 15 anos. Como trabalhava em rádio, passei a apresentar – com aquele texto brega de minha autoria – as tais primaveras da garota de vestido rosa que se preparava para a valsa. Por que se envergonhar de certos trabalhos, se a remuneração de uma noite ultrapassava o salário do mês?

Meu trabalho se limitava a escrever o texto da cerimônia, além de fazer a locução. Não respondia pelo som. Quem o fazia tinha uma música de fundo preferida: Kenny G. Como todas eram parecidas, funcionava como um sub-gênero musical. Coitado do norte-americano, catalisador do provincianismo.

O repertório do saxofonista se encaixa no mantra dos casamentos. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Recentemente, morreu o pai de um colega de trabalho. Depois do velório, a cerimônia de cremação. Todos sentados em um auditório, com o silêncio respeitoso das circunstâncias. Quando o caixão começou a desaparecer, luz baixa e uma música ao fundo, instrumental.

O saxofone do norte-americano não incomoda tanto em casamentos, pelo menos na Igreja. Lá, valem outros clichês musicais. Mas o contragolpe é duplo. Kenny G reaparece quando os convidados entram no buffet. É justamente no instante em que todos procuram as mesas, loucos pela chegada dos noivos, que autorizam a comilança.

Meses depois, você vai encontrá-lo ao visitar o mesmo casal que abriu o apartamento para a primeira visita. Entre petiscos e bebidinhas, o vídeo maçante do casamento. Uma hora, uma hora e meia de convidados se ajeitando em roupas desconfortáveis, comendo discretamente para não fazer feio em frente à câmera e dançando livres e soltos quando a vergonha se perdeu nos goles de vinho e whisky. Na trilha sonora escolhida pela produtora de vídeo após exaustiva pesquisa, Kenny G!

No início do ano, fui a algumas formaturas de ex-alunos. A colação de grau é um ritual necessário, porém convencional. Há pouca diferenciação na ordem dos acontecimentos, independente da universidade. A colação vale para a família, os amigos e talvez aquele último encontro com o professor que cismava em te deixar de exame ou te reprovava na esperança da desistência.

A formatura é previsível, mas não precisava engessar o protocolo. Nas últimas a que assisti, a trilha sonora parecia derivar da mente do mesmo programador musical.

Os formandos atravessavam o auditório aos sorrisos. Envolvidos pela emoção daquele instante, não percebiam que o saxofone único do norte-americano os envolvia. Nunca torci tanto pelos discursos cheios de citações e recomendações.

A música de Kenny G virou símbolo de festa. Deve ter algum significado cabalístico que traz felicidade e prosperidade. São inaugurações, aniversários, solenidades, confraternizações de final de ano, despedidas de colegas de trabalho.

Só não ouvi a música dele em chás de bebê, talvez porque não possa entrar neste clube da Luluzinha. E em aniversários de criança, onde ainda predominam outros vícios da indústria fonográfica, à revelia de quem sopra as velas, impedido de escolher sua própria música.

Não tenho sentimentos negativos pelo músico e seu saxofone. Ele não tem culpa de que banalizaram sua obra. As ocasiões especiais viraram rotina digna de programação de FM.

Se você sentiu vontade de ouvi-lo, não espere pelo próximo casamento, aniversário ou morte. Procure pelo CD dele no fundo do armário ou da prateleira e ouça sem contar para ninguém. Se alguém disser que ouviu, tenha a cara-de-pau de culpar o vizinho.

O exemplar que ganhei (será que comprei?) ficou na casa dos meus pais. Não sofro de investigação arqueológica no momento. A distância é segura para me proteger de qualquer descontrole.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Dentaduras, pintinhos e sacos de cimento

Era a primeira candidatura dele. Sem dinheiro para a campanha, mas com apoio verbal de um peixe grande, ele apostava que poderia surpreender. Usaria o boca-a-boca, a comunicação via Internet, as reuniões nos bairros. A experiência no movimento de juventude partidária poderia ajudar na campanha para vereador. Tudo a custo baixo.

O primeiro encontro foi em uma sociedade de melhoramentos de bairro. O líder comunitário seria o mediador entre o candidato e as 20 pessoas que compareceram à reunião.

Mal começou a falar, o candidato foi interrompido pelo líder do bairro, que entregou a ele um pedaço de papel.

- O que é isso?

- A nossa lista de reivindicações.

Ao ler, viu que o pedido seria impossível: um caminhão de material de construção, principalmente cimento e tijolos.

O episódio, ocorrido há quase dois anos em um dos morros de Santos, retrata como é usual a compra de votos. Negócios são feitos sem cerimônia. Não se trata de uma prática recorrente em cidades pequenas e pobres e suas populações desvalidas. É ação comum dentro de um processo eleitoral ainda carente de reparos, que independe de classe social e local. Os acertos apenas ocorrem de jeitos diferenciados.

O jornal O Globo divulgou levantamento do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) sobre a cassação de políticos. Nos últimos 10 anos, 700 deles perderam o mandato por compra de votos. Em quase 10% dos casos, a forma foi a mais convencional: dinheiro ou cheque.

Muitas das histórias caberiam na cidade de Odorico Paraguassú. Eis quatro exemplos. O vereador Tiago Ramos Vieira foi eleito em 2000 em Sobral, no Ceará. Perdeu o mandato depois que a Justiça Eleitoral descobriu que ele prometera dentaduras para os eleitores. Quem o entregou? A protética, que não recebera o pagamento de R$ 1920 pelas 24 dentaduras que fabricou. A protética devia R$ 1078 à mulher do vereador e tinha proposto pagar a dívida com a produção. Quis receber a diferença e ouviu uma resposta negativa. Denunciou o político.

Em Campos Borges, interior do Rio Grande do Sul, o então candidato a prefeito Olivan Antonio de Bortoli (PPB) dava aos eleitores metade da nota de R$ 50. Dinheiro rasgado ao meio! Caso eleito, a outra parte da nota seria entregue. Se desse R$ 25, o eleitor poderia não votar nem voltar. A Polícia Federal encontrou, no comitê dele, R$ 3250 em notas de R$ 50. Um eleitor tinha acabado de receber – vamos dizer assim – a metade do pagamento.

Em Jussiape, na Bahia, o prefeito Silvio Luiz Silva (PMDB) foi cassado pela compra de apenas um voto. O político havia dado uma caixa d´água de presente para um eleitor, mas tomou de volta porque desconfiava de traição na urna. Acabou denunciado à Justiça Eleitoral.

Em Porto Velho, capital de Rondônia, o candidato a vereador Sandro Luiz Cardoso Vieira (PV) teve o registro cassado porque a recompensa pelos votos, de tão criativa, chamava a atenção. Sandro distribuiu, em um bairro da cidade, quatro mil pintinhos, guardados em 24 caixas. A Polícia Federal flagrou a entrega dos presentes.

Os casos acima indicam dois pontos na relação entre políticos e eleitores. O primeiro grupo age exatamente nos buracos da incompetência do Estado. Os candidatos encaram o eleitor como consumidor e atuam em cima das necessidades deles. Entregam exatamente aquilo que uma comunidade necessita de forma mais imediata. Muitas vezes, trabalham caso a caso, com promessas e presentes individualizados.

Na outra ponta da corda, os eleitores, que há tempos perderam a confiança na classe política e os encara como fonte de renda extra. Não é possível tratar o eleitor como aquele sujeito matuto, ingênuo, que se vende por pura ignorância. É alguém que conhece seu poder e que passou a jogar conforme as regras mais perversas do sistema político. Estima-se que apenas dois em cada dez votam naqueles que ofereceram agrados. Até porque muitos vestem a camisa de diversas torcidas.

Pesquisas recentes apontam que um terço dos eleitores vota de maneira prática. Ou seja: por decisões em benefício próprio, sem considerar projetos, programas ou questões coletivas. Vota naquele que resolver o universo em volta do próprio umbigo e de seus parentes. Sem o desejo de justificar, o político não faria o mesmo?

A quantidade de políticos cassados por compra de votos poderia assustar. Mas me parece um número pequeno diante da prática cotidiana. Comprar votos é visto por muitos como inerente ao processo eleitoral. Considera-se como necessário e natural para vencer. Com a conivência de todos os envolvidos.

Meu amigo candidato tentou driblar a proposta de compra de voto. Com a lista nas mãos, usou o discurso da democracia, da cidadania, para não tocar no assunto. Percebeu que as pessoas ficaram desconfortáveis nas cadeiras. Os olhares murcharam. A reunião, naquele momento, estava perdida.

O candidato soube, dias depois, que um adversário – do tipo tubarão no Aquário – atendeu a exigência da comunidade. O caminhão encostou na porta da sociedade de melhoramentos. Coincidência ou não, o tubarão se elegeu. Teve uma votação dez vezes maior. O candidato de primeira viagem decidiu que era a última tentativa.