quarta-feira, 21 de julho de 2010

Xingar a mãe, pode?

Texto publicado na coluna O outro lado da bola, do Jornal Boqueirão (Santos/SP), em 17 de julho de 2010, edição 798, página 6.

O futebol não é esporte para educados. Ter um dicionário de xingamentos debaixo do braço, em uma partida, pode ser útil na hora de ganhar uma falta, levar vantagem em um lance duvidoso ou – quem sabe? – reverter um pênalti mais claro do que a regra.

Qualquer pelada de final de semana, geralmente regada a suco de cevada, passa por discussões e palavrões que, se levamos para fora do campo, acabariam com amizades, destruiriam famílias, jogariam relacionamentos fraternais no lixo.

Nas arquibancadas de um estádio, até o mais samaritano perde o controle quando o juiz erra contra o time dele. Se o atacante joga fora a chance do empate no último minuto, até o rei do puritanismo se surpreende com os palavrões que julgava desconhecer e agora saem de sua boca.



Dentro do campo, só um insano (ou alienígena) diria ao adversário depois de sentir a chuteira dele em sua caneira:

- Por favor, você poderia não me ferir novamente?

E teria a resposta digna do programa Além da Imaginação:

- Claro, perdoe o incômodo!

O folclore do futebol está recheado de picardia e de grosserias pontuais. Todo torcedor tem doutorado no exercício criativo da ofensa. O problema é a linha que separa o xingamento e o ataque discriminatório, frágil como o argumento de que o futebol é terra do cavalheirismo.

O estádio canaliza o comportamento humano. Ali, emerge a monstruosidade dos hipócritas. Multiplicam-se os valores culturais que simbolizam o ódio e o medo do outro, do diferente. A brincadeira ganha a máscara do carrasco, que tortura a vítima no ponto onde jorra o sangue. Feridas psicológicas ou morais custam a cicatrizar.

Neste caminho, as mudanças no Estatuto do Torcedor estão cheias de boas intenções. Mas as medidas, aprovadas na semana passada no Senado Federal, são como um chute em direção à bandeira de escanteio.

A principal alteração implica em proibir a entrada de cartazes e faixas ofensivas. Os torcedores não podem entoar “cânticos discriminatórios”. A pena: expulsão do estádio. A responsabilidade fica a cargo dos organizadores e do Estado. O estatuto estabelece a criação de juizados para julgar os infratores.

É obrigatória ainda a instalação de um sistema de câmeras para monitorar as arquibancadas. Brigas nas imediações do campo ou invasões no gramado podem render até dois anos de prisão. A pena pode ser convertida em proibição de comparecer aos locais das partidas, se o réu for primário. Nas torcidas organizadas, todos os integrantes devem ser cadastrados, com foto e endereço.

O Estatuto do Torcedor joga com canelas de vidro. É aquela equipe de leões de treino, fantástica no papel, que treme ao som do apito inicial. As alterações o mantém ainda mais distante da realidade. Deixa as bordas do papel colorido, mas não lida com o centro em preto e branco.

O estatuto permanecerá inerte se não estiver acompanhado de uma mudança de mentalidade. O Congresso Nacional novamente ignora os valores e as posturas da sociedade e seu relacionamento com o futebol. O texto jurídico é inócuo diante de uma estrutura viciada, corrupta e de conivência entre dirigentes, clubes e torcedores profissionais.



Pelo novo texto, o estatuto usa – por exemplo – a mesma arma que diz combater. É o caso da divulgação da lista dos infratores na internet e na entrada dos estádios. Estigmatizar aqueles que discriminam. Por que não se basear na Inglaterra, que obriga o torcedor violento a comparecer à delegacia nos horários dos jogos, sob risco de prisão?

Moralizar pela lei soa tão cínico como os gritos preconceituosos que nascem nas arquibancadas. É o olhar cego de quem parece compreender o futebol como algo isolado dos comportamentos sociais. Como se fosse possível, a qualquer um, esquecer quem é quando se entra em um estádio.

O futebol, como metáfora da vida, esconde quem somos, mas não apaga o que pensamos. Ao mudar o Estatuto do Torcedor, o Senado Federal isola a lei do futebol em sua essência, uma prática social.

Irônico e coerente para quem vê o país a partir da ilha da fantasia.

2 comentários:

anacrisalmeida disse...

Só mesmo uma baderna generalizada como é o Brasil e suas leis para permitir algo assim!!!
Leis para torcedores, oras quem vai até lá concorre para o risco, sempre foi ambiente masculino, cheio de palavrões e etc.
Lei contra qualquer palmada em filho, vc não pode mais decidir o que é o correto da violência que grassa país afora, muitas vezes acobertada por um MP omisso!!
São apenas leis criadas para abafar a opinião pública de algum caso escabroso, nunca são leis que regem de fato e de direito, que norteiam uma sociedade, são apenas e tão somento equívocos de um Legislativo que se perpetua!!! Parabéns!!

roberta estevam disse...

no amor e na guerra vale tudo,certo?!algumas pesssoas que vive o futebol,(torcedores,dirigentes,jogadores)de certa forma, acredita que tem ser literal essa frase.não levando em conta que o que a grande maioria quer é apenas ter alguns minutos de lazer e diversão.até pro entretenimento hj em dia precisamos de leis pra enjaular os bichos que estão a solta...