sábado, 24 de julho de 2010

Renovar, revolucionar ou enganar?

Texto publicado na coluna O outro lado da bola, no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição 799, 24 de julho de 2010, página 7.

O anúncio do novo técnico da Seleção brasileira não garante a renovação do futebol nacional para a próxima Copa do Mundo. É apenas o primeiro passo para uma mudança prevista após um fracasso do Brasil em Mundiais.

A ideia de que a troca de comando representa um novo cenário implica em dois erros. O primeiro é a supervalorização do cargo de treinador da Seleção. Os treinadores são tratados como se fossem messias, capazes de operar milagres em times sem estrutura, planejamentos ignorados a cada janela de transferência e elencos de qualidade duvidosa. Torcedores e crônica esportiva se surpreendem quando treinadores como Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho fracassam, por exemplo, no Palmeiras, uma equipe sem elenco e instável em termos políticos.

Técnicos, na melhor das hipóteses, não devem atrapalhar. Devem ter a capacidade de motivar e compreender quais pontos podem explorar em um grupo de jogadores de alto rendimento. O problema é que se misturaram frases feitas, egos inflados e inflamados e a isenção relativa de responsabilidade sobre os jogadores, muitas vezes tratados como crianças mimadas. O homem de agasalho e prancheta deu lugar ao sujeito de terno de griffe e palavras de livro de auto-ajuda. O culto à aparência que marca a futilidade dos ilusionistas.

O segundo problema é que a troca do técnico da Seleção não passa de medida pontual. Era óbvio que, ganhando ou perdendo, Dunga seria substituído. Causara problemas políticos demais para a cartolagem. Trocar o treinador não significa renovação alguma. Significa alteração prevista em cartilha.

Não se pode crer na ilusão de que teremos um time completamente novo a partir de agosto. É evidente que alguns jogadores serão aposentados da seleção, por idade ou por critérios técnicos. Mas parte do elenco precisa ser aproveitado, inclusive por falta de opções e por nível de excelência em certos setores. O goleiro e quase toda a defesa, por exemplo.

È necessário também descermos da estátua da arrogância que nos deixa cegos diante dos limites do futebol nacional. Exportamos jogadores em quantidade, mas não somos os donos dos certificados de qualidade. Basta abrir as páginas dos jornais para vermos quantos “craques” tomaram o avião de volta em busca de privilégios e campeonatos mais fáceis.

Passou o bonde que nos apontava a possibilidade de se montar dois, três times em nível excepcional. Temos um time de primeiro nível e, no máximo, um banco de reservas compatível. Nada mais. O Brasil caiu na vala comum do futebol à européia, doença que só pode ser tratada a longo prazo.

O novo técnico da seleção brasileira será o comandante de uma nau em transição. Um processo lento, sereno e paciente, que nos poupa de disputar as Eliminatórias. Em quatro anos, metade dos convocados desta semana não estará na Copa do Mundo. Serão sparrings para as revelações que devem nascer e combustível para esconder (ou evidenciar) a queda de rendimento de estrelas que se alimentam do marketing e do espetáculo.

Renovar é uma tarefa para mais de três anos. Que sofram os apressados! Revolucionar significaria romper com a estrutura de poder vigente no futebol do Brasil. As figurinhas em torno da organização da Copa de 2014 foram carimbadas há anos. A escolha do novo treinador servirá como enrolação para aqueles que esperam por mudanças mais profundas.

Diante do cinismo do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que encheu a boca para falar em renovação, o quadro atual parece mais com uma apresentação de mágico no picadeiro. Renovar, cá entre nós, é muito mais do que colocar uma camisa amarela em Ganso, Neymar, Hernanes e cia.

2 comentários:

Pedro Henrique Fonseca disse...

As pessoas estão confundindo "renovação" com "nova safra"...

O que vai acontecer na proxima segunda-feira é apenas um processo natural que acontece com as seleções após duas ou três Copas do Mundo.

Jogadores como Lúcio, Juan e Gilberto Silva já estão no grupo desde antes da Copa de 2002, e chegaram (a primeira vista) no fim de suas carreiras pela Seleção.

Renovação no meu mode ver, seria se começassemos trocando o presidente da CBF, que já ocupa o cargo há 20 anos...

anacrisalmeida disse...

Seria ótimo aliás!!!
Até pq herdou do sogro, a CBF, a FIFA e toda a corja!!!
Não mudam nem as moscas!!!
Precisa e urgente é de mudança da mentaidade!!!
Até os meninos da Vila estão denunciando o deslumbramento!!!
Profissionalismo é no volley, campeão e sempre treinando e sem tanta mídia e nem euros rondando!!!
No futebol se manipula desde o jogador até o amis alto escalão, escalação incluída!!! Não é sério!!!