sábado, 10 de julho de 2010

A orquestra delivery



Morar em um apartamento nos fundos tem suas vantagens. Sinto-me protegido da rotina de uma rua movimentada. Acabo alienado dos barracos na avenida, dos ônibus e seus canos de esgoto em forma de fumaça e até da gritaria de gol quando o time adversário massacra o meu. À noite, o apartamento fica bem silencioso, o que me permite trabalhar, ouvir música, ver um filme e fazer outras coisas sem a interferência sonora alheia.

De uns tempos para cá, passei ao morar ao lado de uma orquestra. Uma orquestra eclética, que varia os sons ao longo do dia. Todos os dias. O dia inteiro. O repertório não vem do mesmo lugar nem pertence aos mesmos autores. Mas parece que há um revezamento. Quando um se cansa, o outro entra em campo. Eles se completam na tortura pela privação de sono.

Os músicos nunca trabalham em conjunto. Cumprem uma rotina disciplinada, espartana. Talvez sejam uma brigada anti-silêncio, com o objetivo de manter o ar sempre ocupado por sons. Talvez o que façam tenha um caráter educativo, de levar a música a todas as faixas etárias, pelo menos da minha vizinhança. Mas sou realista e creio em um caráter egoísta, de prazer próprio, de necessidade de dizer o que pensa ao mundo, ainda que reduzido a uma quadra na cidade de Santos.

O primeiro a se apresentar prefere um trabalho solo. Canta sozinha, sem acompanhamento. Ela se parece com uma rádio popular FM, com a mesma música todos os dias. A cantoria começa por volta das oito da manhã. O show tem uma hora, uma hora e meia de duração. Depende do fôlego e do interesse da cantora. Ou até o momento que o empresário (ou dono dela?) interfere na apresentação.

A maritaca “canta” sempre de segunda a sexta. A voz dela some aos sábados e domingos. Não é que esteja com saudade dela, mas será que a maritaca tira folga? O fato é que a cantoria da bicha acontece exatamente nos dias em que eu e outros trabalhadores da vizinhança levantamos cedo. E, quando se está de mau humor matinal, qualquer barulho nasce e se reproduz embaixo da sua janela.

Dou aulas pela manhã e à noite. À tarde, como professor, normalmente levo serviço para casa. Depois do almoço, sempre por volta das duas horas, sou transportado para uma rave. Corringido: a rave impregna em mim. Também de segunda a sexta. Não estou reclamando do silêncio nos finais de semana, mas desconfio que a maritaca e o candidato a DJ sigam para os mesmos lugares. Moram juntos?

A música eletrônica dura cerca de duas horas. O DJ e a maritaca tem uma semelhança: o repertório de música única. É um bate-estaca, um putz-putz que se repete. Não há voz. Apenas aquela batida ininterrupta, que parece ter origem dentro da sala de casa. Nem sucessivos CDs de rock clássico servem de antídoto. Confesso que até me acostumei. Aprendi a abstrair a melodia sintética.



Nas últimas duas semanas, em dias esporádicos, a orquestra entregue em casa tornou-se mais eclética. E nas madrugadas. Sempre tive a preferência em escrever – este texto é um exemplo – depois que o silêncio prevalece. O telefone não toca. Apenas eu e o barulho do teclado para reger as palavras.

Ganhei duas ou três vezes por semana, também em dias úteis, a companhia de uma rádio FM, daquelas de grande audiência. O ouvinte é solidário: divide a programação com os vizinhos. São recadinhos de mulheres que se declaram solitárias, o tom meloso do locutor e seus clichês de amor, mais pagode, axé e sertanejo que compõem o cardápio habitual de qualquer emissora popular. Bandas emo são a cereja do bolo.

É ... prestei atenção na emissora. Poderia dizer que estiquei meus ouvidos para escrever este texto. Meia-verdade. Não precisei aguçar sentido algum. O som grudou como chiclete no cabelo. Penetrou no organismo com os refrões que ficam na ponta da língua e no cérebro por dias. Mantenho a pose ao mexer somente os lábios.

Não é uma reclamação, mas a maritaca sumiu há três dias. Uns dizem que o dono se mudou. Uma amiga tem a teoria (não é confissão) de que envenenaram a coitada. Se virar moda no bairro, música virará sentença de morte. Curto-circuito em equipamentos eletrônicos bastava para a paz.

Não sinto saudades da maritaca. Mas reconheço: como é difícil se readaptar ao silêncio pelas manhãs.

2 comentários:

Jeh Bitencourt disse...

Dei boas risadas lendo seu texto, professor. Se consola saber, moro em frente a uma orquestra de cachorros e, não satisfeita, em uma rua de grande movimento (todos os carros que vêm da Praia Grande passam aqui) em que se ouve de tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. De barracos amorosos até Rebolation, passando por funk e pagode. Não é agradável, mas é "acostumável", realmente.

Bom saber que o ser humano possui facilidade de adaptação ao meio, né? Estou seguindo seu blog, beijos!

anacrisalmeida disse...

O mais engraçado é que podemos abstrair todo o barulho num dia, enquanto em outro achamos que é complô para nos enlouquecer!!
E viva a convivência, cidadania e principalmente desconfiômetro de vizinhos e afins!!!
Bom sono!!!
E muita inspiração sempre!!!
Beijo