sexta-feira, 30 de julho de 2010

O início, o fim e a bola no meio

Texto publicado, originalmente, no blog do Torero, no portal UOl, em 29 de julho de 2010.

O primeiro impulso é colocar o atacante Neymar na cruz e começar o apedrejamento. O jogador do Santos teria cobrado um pênalti contra o Vitória para aparecer entre os vídeos bizarros do YouTube? Vamos ponderar um pouco mais com o garoto de 18 anos, momentos de veterano, circunstâncias de moleque.

Um jogador do nível dele transita numa fronteira perigosa. Caminha entre a genialidade e a chacota. Entre a luz e o deboche. Craque para os apressados. Jogador em formação para os conscientes.

O pênalti era o campo minado entre os dois lados. Se o goleiro Lee tivesse deitado para morrer, Neymar seria aclamado em palmas e urros. Diante da obviedade, o goleiro-menino da Bahia saiu da vida para entrar na história. E Neymar, com os ovos e tomates para os que declamam um texto ruim.

O atacante do Santos é algoz de si mesmo e vítima de quem o cerca. Neymar é instrumento do dinheiro rápido, dos holofotes oportunistas, das mercadorias que nascem sedentas de um ídolo ainda embrião. Neymar é carrasco porque, pela imaturidade, engole a soberba, digere a vaidade e vomita a arrogância, típicas dos que subiram as escadas de motocicleta.

Não há como jogar o peixe aos tubarões. Neymar é fruto da ânsia pelos lucros sem limites. Pelos euros que balançam em frente aos seus olhos. E quem sacode o pote de moedas de ouro são os que deveriam puxar o freio da locomotiva. São aqueles que deveriam dizer ao menino alçado ao topo da responsabilidade que a vida se faz por etapas. Queimá-las é pisar em bombas escondidas sob a terra.

O pênalti é tão importante que o presidente do clube sequer poderia pensar em cobrá-lo. Pênalti exige homens de caráter. Mais do que maniqueísmo, caráter significa a dimensão do que o jogador representa para aqueles que o admiram, o veneram, o amam das arquibancadas, das poltronas, com os radinhos colados nos ouvidos.

O goleiro tem, a princípio, um papel de figuração. É o condenado à frente do pelotão de fuzilamento. Chances mínimas de sobrevivência. Neymar não pode desafiar a lógica. Se a bola batesse na trave, seria uma brincadeira de quem joga dados por nós. O gol, a obrigação.

O pênalti perdido por Neymar não seria o primeiro com o desfecho pelo meio. Ainda moleque, meu primeiro treinador, o ex-ponta esquerda Zé Luiz, conhecido como Galo, contava a história de uma cobrança perdida.

Durante os treinos no Estádio Ulrico Mursa, da Portuguesa Santista, sempre havia sessões de cobranças de penalidades. Eu, como goleiro, adorava a brincadeira, já que poderia tomar refrigerante de graça se defendesse as cobranças.

Quando o batedor perdia por displicência, Zé Luiz repetia a história do jogo entre XV de Piracicaba e Guarani, em um distante Campeonato Paulista dos anos 70. Zé Luiz jogava no XV e foi bater um pênalti. Neneca era o goleiro do Guarani. O ponta-esquerda resolveu bater no meio, pois esperava que Neneca escolhesse o canto.

Bateu no meio. Neneca ficou parado, segurou a bola com facilidade e saiu jogando com o lateral-direito. Confesso que me esqueci do resultado da partida. Daí em diante, Galo só dava pancada rasteira nos cantos.

Neymar será lembrado pelo pênalti. Mas tem a chance de reescrever o final do episódio, delegando a defesa de Lee à nota de rodapé da biografia. Basta entender que pênalti é uma bomba prestes a explodir sob os pés do cobrador.

2 comentários:

Gustavo Delacorte disse...

Como diz o ditado, a bola pune. Neymar achou que era melhor que ela, e deu no que deu.

Diego Diegues disse...

Parabéns Marcão pelo texto !
Está muito bem escrito e concordo que o Neymar tropeça na sua própria arrogância, desde pequeno foi criado como craque, só acho que alguém deve falar para ele, que isso ele não é ainda ! Quem sabe um dia ...