sexta-feira, 9 de julho de 2010

O dia em que nasci em Montevidéu

Na semana passada, os primeiros sintomas apareceram. Momentos de ansiedade. Taquicardia leve. Nervosismo. Roer as unhas. As dores nos ombros, duros de tensão, foram ligeiras. Apenas um susto! O pênalti na trave, aquele perdido por Gana no último minuto, manteve minha serenidade. Mas relutei em admitir meu comportamento.

Anteontem, quase comi os dedos. Tentava me concentrar na leitura. Os olhos teimavam em focalizar a TV. O corpo curvado, as pernas tremendo, a luta contra a sede para não perder lance algum. E a decepção com a derrota para os laranjas. Dei o flagrante em mim: estava entristecido depois da semifinal. Pensei: virei um uruguaio.

Por que será que escolhemos alguém para torcer depois da eliminação brasileira? Vingança inútil? Manter o clima de Copa do Mundo? Ficar do lado mais fraco? Vibrar com a possibilidade real de vitória de Davi contra o primeiro gigante que aparecer?

Refleti um pouco sobre minha simpatia em relação aos uruguaios. Uma amiga chegou a me alertar:

- Muita gente vai torcer para a Holanda! Se ela vencer, podemos justificar que perdemos para os campeões.

É claro que a justiça está do lado dos holandeses. Única equipe que venceu as seis partidas. 25 jogos de invencibilidade. Mas fico com a paixão. Prefiro me abraçar com a raça e relativizar as estatísticas.

Percebi que simpatizo com a seleção uruguaia desde as eliminatórias. O time se classificou na repescagem, numa briga de foice contra os costa-riquenhos. Obter a classificação em jogos equilibrados contra a Costa Rica esboça o perfil de potencial vítima. Em Mundiais, é pré-requisito para virar segunda camisa.

Depois, notei que, em conversas, sempre enaltecia a forma de jogar do zagueiro Lugano, um dos símbolos da seleção. No São Paulo, Lugano disse que se recusava a trocar camisas com os adversários. Eles eram justamente ... adversários. Lugano via o uniforme que vestia como sagrado. Hoje, são poucos que encaram a partida desta forma. É uma posição um tanto radical, mas que se contrapõem ao caráter mercenário de muitas estrelas, filhotes ou não do marketing.

O Uruguai ganhou pontos comigo ao eliminar os franceses, símbolos da soberba e da vaidade neste Mundial. Os uruguaios explicaram a eles que a competição exige amor e obsessão pelo jogo. Sem isso, qualquer time vira um bando de comuns. Como a França.

Contra a Holanda, novamente o papel de franco-atirador. Novamente a pecha de zebra. Se vencesse, a surpresa! Mas foi o único sul-americano que sobrou. E incomodou os holandeses, que jamais tiveram o jogo completamente na mão. O primeiro tempo, por exemplo, terminou empatado. E os uruguaios não tinham Lugano nem o atacante Suaréz, herói pela defesa fantástica contra Gana.

Quando a Holanda marcou o terceiro gol, disse para amigos.

- Acabou!!

Como torcedor uruguaio de primeira viagem, posso justificar minha ingenuidade. Não conhecia bem aquela seleção. Logo em seguida, vi o Uruguai encurralar a Holanda como se a laranja fosse um time de principiantes.

Robben saiu de campo sorrindo. Abraçou o técnico e vibrou no banco de reservas. O atacante, mestre na perna esquerda, também desconhecia o poder da camisa celeste.

Aos 44 minutos, achei que estava no jogo do Brasil. O Uruguai marcou o segundo gol. 3 a 2. Empatar era possível! Só pensava naquele sorriso do Robben. Com que cara ficaria se o jogo fosse para a prorrogação? Seria um inválido no banco de reservas.

O Uruguai, como sabemos, ficou pelo caminho. Mas ensinou como se disputa uma Copa do Mundo. Sem floreios, sem dramas individuais. O jogo pela essência coletiva. O jogo pela responsabilidade de compreender as paixões que o envolvem. O Uruguai, com justiça, se recolocou na posição histórica de onde não deveria ter saído. Espero que não seja um fogo de palha sul-africano, para o bem do futebol deste continente.

No sábado, espero que os uruguaios fiquem com o terceiro lugar. Jogam novamente contra uma equipe bem melhor em termos técnicos. É claro que a disputa de terceiro lugar poderia brochar, sem culpa, qualquer jogador ou torcedor. Honestamente, terceiro ou quarto não faz diferença. Mas para o Uruguai sim. Um time fadado à morte prematura luta sempre com sangue nos olhos para fazer hora extra por aqui.

Um comentário:

Daniel BS disse...

Um provérbio que sempre carrego comigo para tudo: "A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda." (Prov 16,18)

Um provérbio que dá para se encaixar perfeitamenta ao time Brasileiro, Argentino e até mesmo ao Espanhol, que apesar da final, ainda espero que para eles sobrem a "queda".

Já o Uruguai, vestiu a sandalia da humildade, mostrou raça e compensou sua seleção limitada com a coletividade e com a raça que é já a assinatura ou marca registrada do futebol uruguaio. O que falta para todo time é isso, raça, não desistir nunca, nem com 1, nem com 2, nem com 3 gols de diferença. Lutou, buscou e na infelicidade não alcançou. Mas o bom, é que provou para o mundo o que é o futebol, a alegria do futebol, o esporte, a emoção, a beleza... a conquista sem se quer ter se sagrado vitorioso numa partida. Pois o que o uruguai conseguiu nessa COPA é RECONQUISTAR SEU ORGULHO NO FUTEBOL, mas com HUMILDADE e ESPERANÇA de futuros melhores, pois seu futebol estava esquecido, a bi-campeã mundial estava sendo tratada como um time mediano... A vitória do Uruguai foi isso, resgatar o futebol JOGADO, BONITO DE SE VER MESMO DENTRO DAS SUAS LIMITAÇÕES... foi poder assistir um futebol com uruguaio dos quais, acredito eu, quase todos nós torcemos pela beleza que foi ve-los até ali jogar.

Não falei nada além do que você falou... mas era algo que queria muito escrever também... Pq me senti um uruguaio ao ponto de minha ignorancia chegar no limite do "Deus, faça justiça a esse time" como se Deus fosse se intrometer num esporte ajudar um e nao ajudar o outro q também pede o mesmo... Mas é isso que o Futebol é... Desde que seja jogado na bola como o Uruguai fez.

Parabéns pelo texto Marcão..
Abraços.