quinta-feira, 15 de julho de 2010

O bicho da casa precisa do divã

- Meu cachorro é estranho. Mantenho apertada a coleira. Meu cachorro é bipolar!

Ouvi a frase quando saía de um supermercado. Naqueles momentos em que as palavras voam em direção aos seus ouvidos, sem que você nada tenha a ver com o assunto.

O dono-psiquiatra canino e seu animal de estimação se encaixavam no estereótipo. O sujeito, sem camisa e rato de academia. O cachorro salivando, da raça pitbull. Pareciam feitos um para o outro.

Sempre achei estranho testemunhar sujeitos que conversam com e sobre os bichos como se eles também fossem pessoas. Deixe-me explicar antes das mordidas dos simpatizantes da sociedade protetora. Não me refiro aos códigos que chamam ou servem para dar certas ordens aos bichos.

Não consigo me acostumar com as pessoas que contam seu dia-a-dia para os cachorros. Ou explicam suas ansiedades e angústias para um gato. E olham como se deles viesse uma opinião esclarecedora, uma solução mágica para um pormenor diário.

É doce e poético ver aquela carinha de curiosidade que o animal de estimação faz diante da tagarelice do dono. Mesmo se pudesse entrar na mente de um cachorro, duvido que ele entendesse o quanto é importante a rotina do ser humano. Para o próprio ser humano, é claro. Ao ponto de ser contada para um cãozinho ou um rottweiler.

Tive vários animais de estimação ao longo da vida. Minha preferência escapava do padrão. Ou quem sabe não cair na tentação de bater papo. Tive desde um esquilo (o Alaor) até periquitos australianos que andavam soltos pelo apartamento, passando pelas tartarugas, que nos recebem com aquela animação após um dia de trabalho, como dizia uma colega de universidade.

Um dia, compreendi a dimensão da liberdade e resolvi deixar de ter animais em casa. Sumi com gaiolas, cercados e outras improvisações carcerárias. Mesmo sem eles, a casa era o cárcere. Era eu quem decidia o momento do banho de sol, da comida e do passeio no pátio.

Sei que não posso projetar em bichos as minhas contradições. E me entristeço em ver quem o faça. Nem utilizá-los como instrumento de poder. Animal de estimação é, neste caso, o interlocutor perfeito. Não dialoga. Apenas ouve. Não discute. Apenas observa. Não questiona. Fica ali, o que indica concordância com a tese do dono.

Na cidade onde moro, a Prefeitura calcula uma população de 40 mil cães e 30 mil gatos. Muitos deles passam pelos canis, vítimas de violência doméstica. Se são tão importantes e supostamente amados, por que apanham tanto? Não seria melhor comprar um saco de areia e pendurar no quarto? Ou o dono optar pela auto-flagelação?

Os bichos de estimação ganharam importância demasiada numa sociedade que fala, mas não conversa. Viraram apêndices na decoração. Donos solitários tentam reduzir em cachorros e gatos a dor que não reconhecem dentro de si. Tratam-os como filhos. Já ouvi o argumento de que estas crianças, quando crescerem, não cometerão traição. Ou perderão os escrúpulos que, no fundo, nunca tiveram.

Talvez seja um argumento justo. Mas justifica abrir mão de relações pessoais, do contato humano? O melhor amigo do homem elimina o próprio? Os veterinários e donos de pet shop (quase sempre a mesma pessoa) agradecem os momentos de crise. Empurram tranqueiras de toda ordem que serviriam aos nossos pares, mas – para os bichos – não passam de caprichos. Enfeites, adereços, entre outras peças de vestuário que poderiam colocar qualquer cachorro numa passarela.

Uma socialite carioca ficou famosa ao gastar uma fortuna no casamento da cachorra dela. Convidados das duas espécies puderam dividir o buffet. Casamento arranjado. Lua-de-mel escolhida à revelia dos noivos. Cadê o bom e velho cruzamento quando o coitado do vira-latas está no cio?

Entre donos de animais, é normal que a queixa de como o bichinho é mimado, cheio de privilégios, preguiçoso e outros defeitos. Fala de quem? O comportamento de certos animais de estimação não reproduz o que os donos esperam ou ensinam a eles?

Uma amiga, recentemente, andava pelas proximidades do canal 3, na região mais rica da cidade de Santos. Vindo no sentido oposto, duas mulheres, ambas com bebês nos braços. Como fazia frio, ambos estavam embrulhados em cobertores.

Quando as três se cruzaram na calçada, minha amiga conseguiu entender. A empregada doméstica, vestindo o repressor uniforme clássico, carregava realmente uma criança. A mãe do bebê levava um cachorro.

Nada como uma relação entre iguais. Entre bipolares e esquisitos, quem precisa de terapia?

3 comentários:

anacrisalmeida disse...

Muito bom esse olhar!!!
As pessoas realmente se fecharam tanto em seguras relações e contatos, que melhor conversam com bichos do que com os humanos!!!
Até pq numa relação dessa um só recebe e o outro mantem!!
Não há troca, não existe discordância, e nem uma edificante discussão!! É tudo gut gut, como querem que sejam as relações atuais!!!
Que os protetores de animais me perdoem, mas quem mais faz sofrer são eles mesmos, quando abandonam o capricho em qualquer esquina pq não interessa mais conviver com a "bipolaridade" do animal!!
Foram promovidos de bichos de estimação a fiéis confidentes!!
Mas sem o up grade do ouvinte!!!
Quem precisa do divã somos nós que não encaramos os espelhos que nos mostram como realmente somos!!!
Parabéns!!!

Nádia disse...

Concordo em parte... Minha avó costumava dizer "tudo em exagero é ruim". Mas o fato é que hoje as pessoas estão exageradamente sozinhas, apressadas, ocupadas, deprimidas ou reprimidas... logo estão exageradamente malucas! E um bicho de estimação acaba sendo um ótimo psicólogo, já que os psicólogos não fazem realmente nada além ouvir e balançar a cabeça... E os bichos ainda tem a vantagem do olhar doce e curioso... Nos faz sentir bem, amados, ouvidos e acompanhados! Então, só queria dizer que amo meus psicólogos caninos, só faltava mesmo eles falarem e prescreverem receitas...
Adorei seus textos, Marcão!

Cris Eugênia disse...

Adorei seu texto!!
Me chamou a atenção quando você fala dos animais que sofrem abandono e maus tratos.
Sei que a comparação pode soar meio forçada, mas isso me lembra as relações com mulheres e crianças, também tão cantadas... como inocentes, frágeis, amáveis...
Enfim, as pessoas não protegem, e nem respeitam, o que dizem amar!!
Quanto ao Alaor... Você fica devendo!!