sábado, 3 de julho de 2010

A fogueira de São João

Em tempos hipermodernos, São João foi deixado meio de lado. É o sacrifício da cultura popular, alterada pela velocidade e pela transformação dos rituais em consumo, entre outras causas. As tradições acabam relegadas ao segundo plano ou são reduzidas ao pó do esquecimento.

A fogueira de São João, entre outras manifestações da cultura, perdeu espaço. Era uma forma de união, de festa e, em nível simbólico, de reflexão sobre os problemas que nos cercam no cotidiano. Bastava andar na rua e ver pontos de luz em diversos bairros. Hoje, prevalece a luz insípida dos holofotes públicos.



As instituições escolares são um dos poucos espaços que ainda tentam – a sua maneira, com as distorções pop do momento – preservar as festas juninas. É claro que ninguém deve reivindicar as fogueiras dentro das escolas. Seria maravilhoso como recurso pedagógico, mas temeroso pela segurança.

O caráter de simbolismo da fogueira de São João poderia ser adotado pelos professores e pela própria escola. Por que não aproveitar a oportunidade e queimar os obstáculos que tanto incomodam o ato de ensinar? Digo ensinar para os comprometidos com a formação do outro, com o ato social de auxiliar pessoas a se tornarem críticas, reflexivas sobre o mundo em que vivem.

A primeira sugestão, não nesta ordem de importância, seria incinerar a lição de casa. O instrumento é inútil, ineficaz para a aprendizagem. Nem o argumento da disciplina se sustenta. A lição de casa apenas aborrece o aluno, confunde e até ilude os pais, quando não serve como mera manifestação da escola para dizer que o aluno está cheio de tarefas. Significa, no processo de enganação, que ele está aprendendo.

A lição de casa pouco acrescenta na aprendizagem por não envolver as crianças na construção do conhecimento. Apenas reforça que a escola é chata, pouco interessante. Na maioria das vezes, as transforma em robôs craques na repetição. Robôs não pensam, respondem a comandos.

Na seqüência, a fogueira de São João aceitaria com maior prazer as cadernetas escolares. Este instrumento é um dos sintomas da burocracia, doença que corrompe o sentido da escola, mas garante o poder de muitos profissionais, principalmente da equipe pedagógica. Em tese, as cadernetas deveriam servir para que o professor registrasse suas atividades e acompanhasse o andamento das aulas.

As cadernetas são, em larga maioria das escolas, uma tarefa burocrática ou uma ação para encobrir os defeitos e as indecisões que acontecem em sala de aula. Leia uma caderneta e você acreditará que a educação ultrapassou os limites deste planeta, tamanha a quantidade de histórias de ficção científica registradas no papel.

Para alimentar a fogueira, poderíamos incluir as reuniões pedagógicas. Na teoria, outro ato de amor perverso ao ensino. As reuniões são odiadas por todos os envolvidos, mas quase ninguém tem coragem de admitir. O ódio é um sentimento negativo, em tempos de tanto discurso furado de palavras otimistas.

As reuniões são uma feira em espaço fechado. Lá, é possível testemunhar desde a venda de produtos de beleza, doces e outras quinquilharias até a discussão de problemas pessoais, a forma artificial de dizer fofoca. Claro que sobre quem foi mais esperto e faltou ao encontro. E sobre os alvos preferenciais, os alunos, que nunca sabem nada e se comportam como animais, na visão dos seres santificados que habitam estas reuniões.

As reuniões pedagógicas, com nomes e siglas diferentes, dependendo do lugar ou da rede de ensino, reproduzem o modelo autoritário da escola brasileira. O microcosmo que espelha o universo. Nas reuniões, o debate é fingimento. Quem manda, comunica!

Pouco que discute o que interessa: de que forma aperfeiçoar a aprendizagem para aproximar o conhecimento (não o rosário de informações memorizadas) dos alunos?

As reuniões apenas repetem a estrutura descompromissada da escola e de suas políticas públicas. Ali, numa sala qualquer, faz-se política no pior sentido do termo, com a presença do espírito de corpo e a indiferença para as necessidades sociais do local atendido pela unidade de ensino.



As chamas ficariam mais brilhantes se a fogueira fosse alimentada com as avaliações promovidas pelo Ministério da Educação e pelos governos estaduais e municipais. Mais uma boa intenção que serve aos interesses das sombras.

As avaliações significam, desde a década passada, a ponta da corda de um modelo que submete à educação aos interesses econômicos e reduz seu caráter humanista. São caminhões de números, que atendem à uniformização dos programas públicos e, portanto, ignoram as particularidades dos endereços e das culturas.

As avaliações se transformaram em rankings e são a cereja do bolo do marketing educacional (contradição em si), que vendem seus espaços como um shopping do conhecimento (aqui, outra vez confundido com informações para decoreba). As avaliações são, no sentido mais amplo, arma para políticas eleitoreiras em que se alteram nomes, recriam-se programas, mas pouco se pensa no cenário educacional brasileiro.

A escola não é avaliada para que haja uma análise crítica sobre ela mesma. Avalia-se para enaltecer as poucas qualidades e para mascarar ou minimizar os inúmeros defeitos.

A lista de combustíveis para a fogueira é grande ao ponto de mantê-la acesa até o dia 29, aniversário de São Pedro. O ideal seria que o modelo de escola atual fosse para a fogueira de São João. Incinerar para começar do zero, em um instante de utopia.

Reconheço que não há condições de pedir um milagre tão elevado para o santo. Até porque, se ele nos atendesse, a fogueira poderia virar um incêndio de proporções inimagináveis, um desastre ambiental.

Ou quem sabe a saída seja procurar São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis?

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei seu texto... Penso que a caderneta em si, avaliações, e reuniões não seja o pior de tudo. Como você bem pontuou em seu texto, o ruim é o uso que se faz desses instrumentos nas escolas. Gostei do final do texto e concordo que, o modelo de escola atual tem que ser colocado na fogueira, para construirmos uma outra escola, mais humanista, em que tarefas de professores e alunos realmente tenham sentido. Penso que escolas como Escola da Ponte (Portugal), Amorim Lima (SP), Tabibitati/Atrio (Santos), Colégio Equipe (SP), Escolas nos modelos Waldorf, Frenetianas, Montessorianas, Reggio Emílio e outras semelhantes e que igualmente optaram por uma educação mais igualitária se multipliquem. Porque o nosso mundo não suporta mais o modelo atual, que está mais do que falido. Que Deus - dono de todos os dias e não de um só - levante essas pessoas que acreditam em uma educação diferente, para que tenhamos um mundo com crianças e adultos procupados com o outro e com a natureza!! Parabéns pelo belo texto!! Cristiane