terça-feira, 20 de julho de 2010

Crônicas de Atibaia I - Saudades do pão de queijo

Estive em Atibaia, na semana passada. Lá, na estância onde me hospedei, havia um ritual: comer pão de queijo no final da tarde. Não era exatamente uma rotina diária. Foi uma cerimônia que se repetiu por três dos sete dias em que fiquei no interior.

Rituais não se medem por quantidade. São importantes porque nos mantém presentes, pertencentes. Indicam o quanto estamos vivos, pulsantes. Rituais costuram o passado à nossa forma de ver o mundo hoje. Comer pão de queijo, que dispensa aqui uma análise antropológica mais aguda, reacende lembranças literalmente mineiras.

Pão de queijo é sinônimo de Dona Norvina, minha avó falecida há um ano e quatro meses. Falo de pão de queijo, não de uma bolinha amarelada, enchida com sabe-se lá o quê, que tentamos mastigar por aí. Tudo menos queijo. Às vezes, quem te vende tem a cara-de pau em justificar que colocou essência de queijo na massa. Como o traficante que batiza a droga e quer te convencer que os danos ao organismo serão menores do que o previsto.

O pão de queijo de Atibaia se aproximava do milagre mineiro. Chegou perto mesmo! Tinha sabor, textura, densidade, cheiro, tudo o que deve constar em um legítimo representante da terra sem mar. Desconheço o autor das obras de arte, mas o anonimato não tem peso algum diante da surpresa. Confesso que optei pelo pão de queijo pela absoluta ausência de concorrentes. E também a gula não me permitiria esperar mais uma hora e meia pelo jantar.

Pão de queijo falsificado (ou genérico) entrega a própria mediocridade pela aparência. É um dos poucos casos, creio eu, que a aparência equivale à essência. Não há protetor de vidro de balcão de cantina que esconda as imperfeições da criação. Ficam ali, na prateleira, os coitados esbranquiçados, fruto da enganação do fornecedor, em conluio com o dono do estabelecimento.

O regime forçado me deu a desculpa necessária para ignorar a existência dos branquelos. Mesmo assados, entraram para o rol das frituras, condenadas à lista de proibidos da vida saudável. Mesmo mais baratos, os pães de queijo made in Taiwan não compensam. Alguns tem a elasticidade de um pneu de tão borrachentos. Quando se olha dentro, beiram a transparência.

Dá dó ver alunos e professores, quando chegam às universidades onde trabalho, desesperados por um lanche. Qualquer comida! Aceitam o pão de suposto queijo como aqueles R$ 10 de combustível no tanque do carro. Ajuda a resistir mais um pouco e chegar são e salvo em casa.

Como conheci o paraíso das Minas Gerais, posso me dar ao luxo da soberba quituteira.Testemunhei a confecção do maravilhoso, do único. Desde o polvilho sendo trabalhado até a expectativa da roda de queijo curado em vias da metamorfose. O tempo, lento como o nascimento de uma escultura, conduz o cheiro que paralisa como feitiço, que tortura como espera pelo prazer.

A receita estava ali, ao lado, marcada em papel. Sempre tive a impressão que Dona Norvina apenas usava a receita como segurança. Ou elevar a ansiedade e a curiosidade dos beneficiados. Erraria a mão? Nunca a vi consultar papel algum. Gênio da cozinha sente, não consulta. Faz mágica, jamais relata o segredo a terceiros.

Ela cometia apenas um erro. Um erro que não dependia de seu talento. Um erro além das possibilidades de previsão pela experiência. As fornadas jamais eram suficientes. Sempre nos lembrávamos de alguém para dar pães de queijo de presente. A gula também superava o otimismo dela. Falo dos que a cercavam, claro.

A quantidade só era correta quando se tratava de transformar os pães em suprimentos para viagem. De Luz, cidade onde Dona Norvina morava, a Santos eram 850 quilômetros. Os viajantes passavam aperto para garantir que a carga durasse após a chegada. Era exigência dos que esperavam em casa. A artista não poderia, pela obviedade geográfica, assegurar nova remessa.

O pão de queijo, em Atibaia, virou pólvora para reflexão. Aqueles 10, 15 minutos de contemplação ao passado. Os pães de Atibaia tinham como destino o papel de coadjuvantes. Sabiam disso. Estimulavam a lembrança e bastava como função, além da natureza do regime de engorda. Ficavam com gosto de segundo plano. Recebiam os elogios, seguidos do “mas” que carimbam a vida ordinária.

Dizem que se conquista alguém pela boca. Acho que também vale para relação entre avós e netos, mas como ato de amor consolidado. O duro é viver o outro lado. A fome (e a água na boca) como marca da ausência. E, por mais saboroso que o dublê de Atibaia possa ser, serve somente para realimentar a saudade.

3 comentários:

Zuleica disse...

Marcus Vinicius,
Parabéns pelo texto.Certamente não podemos mais experimentar os deliciosos pães de queijo da Dona Norvina, mas são nessas lembranças..., que vem a tão sonhada PAZ INTERIOR.
Certas lembranças significa momentos de saudade, pode parecer óbvio, e até mesmo ser difícil, mas é muito importante. É o sentido que estamos precisando para outras etapas viver.
Zuleica.

anacrisalmeida disse...

Isso é cheiro de vó, saudades dos quitutes da vó, cheiro da infância e dos mimos que só vó sabem fazer!!!
Não industrializaram e nunca vão conseguir aqueles perfumes, raras alquimias e principalmente a satisfação estampada nas faces de glutões. Não existia índices para medir nada que não fosse a alegria de ser bem servido por uma avó carinhosa!!!
Ai que saudades que deu!!! Lindo texto!!!

Marcelo disse...

Poxa, e pensar que eu não cheguei a provar esse maravilhoso Pão de Queijo da sua vó quando estive em minas. Logo eu que sou um apreciador dessa maravilha mineira.

Parabéns pelo texto, ficou muito bom.