sábado, 31 de julho de 2010

O enterro de Giovanni

Texto publicado na coluna O outro lado da bola, do jornal Boqueirão (Santos/SP), edição 800, 31 de julho de 2010, página 7.

A chance do título da Copa do Brasil, a vaga na Libertadores em mãos, e os quatro jogadores na seleção aliviam, mas não apagam a mancha. O Santos decepcionou ao deixar que um de seus maiores ídolos fosse embora pela porta dos fundos. Sem homenagens, sem despedidas, com mágoas.

Giovanni apanhou, como muitos, das curvas do futebol, mas não merecia as bordoadas que recebeu na Vila Belmiro. Levou um tapa como agradecimento, deu a outra face e foi esbofeteado de novo.

O time atual não é derivado do planejamento de longo prazo. Assim como a turma de Diego e Robinho não o foi. São equipes montadas pela força das circunstâncias, do caixa baixo, com garotos que aparecem de tempos em tempos, como pepitas que caem ao acaso na peneira do garimpo.

Giovanni chegou ao Santos em meados dos anos 90, no pior período do clube nas últimas duas décadas. Times desacreditados. 10 anos sem títulos. Jogadores de qualidade duvidosa que permaneciam poucos meses. Atletas em final de carreira. Freguês do São Paulo bi-mundial e do Palmeiras-Parmalat.

Giovanni liderou um time que quase se tornou campeão nacional. Qualquer palpiteiro de boteco se lembra do que este paraense fez contra o Fluminense, no Pacaembu. Giovanni é uma exceção. Elogiar o craque é apelo à redundância. Ele conseguiu ser jogador cultuado sem uma faixa no peito.

Com Giovanni, atletas do Santos voltaram a aparecer nas listas de convocações da seleção. Foi a uma Copa do Mundo, onde – infelizmente – o Velho Lobo o incinerou com a camisa amarela.

Quando retornou à Vila Belmiro, Giovanni tomou a primeira surra. Foi dispensado, sem grandes explicações pelo técnico Vanderlei Luxemburgo, em 2006. O passado de Giovanni foi atirado ao canto da História. Como sempre diz o homem das gravatas, assuntos internos. Explicação igual a zero.

No ano passado, o Santos terminou o Campenato Brasileiro em 12º lugar. Em 2008, na 15º posição, a um ponto da zona de rebaixamento. Dois anos ruins e a direção precisava de um ídolo. Giovanni se encaixava na tarefa. Também precisava da despedida digna.

As circunstâncias do futebol colocaram o craque em coma. Os garotos desabrocharam. Robinho brigou na Inglaterra e veio para a Vila, onde uma das mãos lava a outra.

Giovanni acabou, lentamente, encostado, como um brinquedo que não serve mais para aquela criança que se acha adulta. Jogou somente oito partidas. As alegações para ausência dele variavam. Entre as desculpas, de que poderia jogar somente 20 minutos. O que fazem, então, Zezinho, Madson, Zé Eduardo, entre outros? Gênios capazes de substituir alguém que enxerga diferente? Alguém que, por exemplo, enxergou Ganso antes de qualquer “entendido”.

Todos os envolvidos escondem a história. Ninguém assume a autoria do crime. Em público, apenas declarações politicamente corretas e sorrisos amarelos. Ficou mais fácil esquecê-lo.

O paraense é calado, discreto, de fala mansa e baixa. Jamais faria um escândalo em revistas de celebridades ou programas de TV. Giovanni preferiu ir para casa. Respirou, pela última vez, como jogador do Santos em 22 de maio, contra o Atlético-GO, em Goiás. Bem longe da Vila Belmiro, por ironia.

O contrato dele acabará esta semana. Mas o Santos o decepcionou. O clube enterrou Giovanni uma vez. Desesperado, o ressuscitou. Para sepultá-lo, definitivamente. Sem honras. Sem funeral. Apenas silêncio e omissão.

Onde surgem os solistas?



O Solista é o típico filme que merece ser dissecado em camadas, tamanha a densidade e as sutilezas da história. É uma daquelas obras “baseadas em fatos reais”. Coloco entre aspas porque poderia parecer pouco crível se a história não tivesse nascido nas páginas do Los Angeles Times e passado pelo formato livro, antes de virar blockbuster.

O Solista mostra a relação entre o jornalista Steve Lopez, autor das matérias e do livro que originam o filme, e o violoncelista Nathaniel Anthony Ayers Jr, um morador de rua que sofre de esquizofrenia. Lopez é interpretado por Robert Downey Jr.; e Ayers, por Jamie Foxx, que alcança um nível próximo de quando fez o papel de Ray Charles (2004).

O filme, dirigido por Joe Wright, pode ser decifrado por vários caminhos. Um deles, por exemplo, discutiria o envolvimento entre os jornalistas e os personagens de suas histórias. Lopez escreve várias colunas sobre o músico e o ajuda a ter uma vida um pouco mais confortável. O repórter localiza a irmã de Ayres, que não o via há anos. Um dilema ético clássico para a profissão: repórter apenas conta o que vê ou assume seu papel como sujeito que pode interferir nos fatos?

Outra possibilidade é compreender O Solista a partir do amor pela música. Ayers, ex-aluno da renomado escola Juilliard, idolatra Beethoven e reafirma a obra dele como dádiva pelas cordas do violoncelo. A música torna menos amarga a rotina dos sem-teto em um abrigo público.

O terceiro olhar permitiria entender o filme como denúncia social, se pensássemos na doença mental entre os moradores de rua. O Solista provoca desconforto quando desnuda o abandono de pessoas doentes, a indiferença dos políticos e a truculência das forças policiais. Infelizmente, nada inédito para quem mora em médias e grandes cidades.

Em Santos, onde resido, a estimativa é de 600 pessoas nas ruas. A principal desculpa das “autoridades” é que a maioria vem de outras cidades. A certidão de nascimento ou a origem como passaporte para a inércia. O forasteiro seria menos humano? Por isso, pode permanecer em estado animal?



Quero uma quarta via. Mais individual. Mais pessoal. Onde o filme esbarrou na maior parte do tempo. O Solista me fez lembrar de um amigo. Conheço Duda há pouco mais de cinco anos. Cheguei a escrever sobre ele no ano retrasado.

Duda mora na vizinhança, numa casa de fundos, com a esposa. Moradores do bairro dizem que vive ali há mais de 30 anos. Lembram-se dele com uniforme da Marinha. Os mais antigos o consideram extremamente inteligente. Falam sobre ele com pesar. Os mais novos o ignoram. Se possível, atravessam a rua. Quando o encontro é inevitável, constrangimento e passo apertado.

Duda é um solista. Não toca instrumento algum. Filosofa solitário. Não precisa de platéia. Às vezes, sequer de interlocutor. Pragueja suas ideias no mais alto timbre, ciente de que entrarão à força pelas janelas dos prédios da avenida.

Para ele, eu sou o jornalista. Não tenho nome. Ele nunca se preocupou em perguntar. Eu nunca achei necessário dizer. O anonimato caprichoso nunca estabeleceu diferença nas nossas conversas.

Duda tem alguma doença psiquiátrica. No início, a vergonha prevalecia sobre a curiosidade e me impedia de perguntar. Hoje, a informação é irrelevante. Não penso na condição dele quando nos encontramos.

Eu, a caminho do trabalho ou fora de casa para qualquer tarefa cotidiana. Escravo do tempo indisponível.

Ele, sempre de calça de moletom, uma camiseta, meias e chinelo de dedo. Mudam somente as cores. Às vezes, um pano – turbante improvisado – cobre os cabelos. Tempo único, indecifrável para os relógios.

O solista do meu bairro vai de Marx a Freud como se estivesse em qualquer banco de universidade. Aliás, sem a empáfia dos acadêmicos que se algemam nos castelos para não ver a luz do mundo lá fora. Duda é um professor de vocação. Traduz a complexidade conceitual na simplicidade da árvore da esquina.

Meu amigo é fanático por Helio Costa, candidato ao governo de Minas Gerais. Mas mistura o político, que foi ministro de Lula, com o repórter-correspondente da Rede Globo nos anos 70. São a mesma pessoa, mas sujeitos provavelmente distintos pelo tempo e pelo vírus da política.

Duda sabe que dou aulas em universidade. E sabe que nos encontramos quando vou ou retorno de lá. Conversa comigo em movimento. Certa vez, me acompanhou por cinco quadras. Preocupa-se com meus alunos. Deseja saber como são, o que pensam, como se comportam como jornalistas. E sempre repete duas lições fundamentais, que deveriam ser marcadas em brasa na testa de qualquer repórter.

- Peça para que dêem um exemplo.

- Peça para que perguntem o porquê.

Minha filha Mariana o temia. Criança, ela incorporou a imagem de que o filósofo era doente. O sentido perverso do termo veio de algum adulto da vizinhança, atolado na ignorância do próprio umbigo. Até a noite que Duda nos encontrou na esquina. Com palavras doces, ele fez com que Mariana apertasse suas mãos e o compreendesse como alguém que integra nossa rotina de ir e vir.

O solista do meu bairro some por vários dias. É parte do tratamento a reclusão. Outras vezes, passo ao lado dele como se fosse um fantasma. Não posso incomodá-lo por estar preso em seus próprios pensamentos.



Os solistas estão espalhados pelas cidades. Basta reparar neles e, principalmente, ouvi-los. Não são loucos dignos de pena ou invisibilidade. São como músicos de uma orquestra temporariamente dissolvida. Falam nossa língua, mas que nossos padrões mesquinhos de comportamento teimam em não codificar.

Estes solistas sempre tem algo a explicar. Muitos enxergam e sentem o mundo por ouvido absoluto. Até porque, para todo músico, um dos momentos de raro prazer é o vôo solo. Nesta hora, a melodia é de definição exclusiva deles.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O início, o fim e a bola no meio

Texto publicado, originalmente, no blog do Torero, no portal UOl, em 29 de julho de 2010.

O primeiro impulso é colocar o atacante Neymar na cruz e começar o apedrejamento. O jogador do Santos teria cobrado um pênalti contra o Vitória para aparecer entre os vídeos bizarros do YouTube? Vamos ponderar um pouco mais com o garoto de 18 anos, momentos de veterano, circunstâncias de moleque.

Um jogador do nível dele transita numa fronteira perigosa. Caminha entre a genialidade e a chacota. Entre a luz e o deboche. Craque para os apressados. Jogador em formação para os conscientes.

O pênalti era o campo minado entre os dois lados. Se o goleiro Lee tivesse deitado para morrer, Neymar seria aclamado em palmas e urros. Diante da obviedade, o goleiro-menino da Bahia saiu da vida para entrar na história. E Neymar, com os ovos e tomates para os que declamam um texto ruim.

O atacante do Santos é algoz de si mesmo e vítima de quem o cerca. Neymar é instrumento do dinheiro rápido, dos holofotes oportunistas, das mercadorias que nascem sedentas de um ídolo ainda embrião. Neymar é carrasco porque, pela imaturidade, engole a soberba, digere a vaidade e vomita a arrogância, típicas dos que subiram as escadas de motocicleta.

Não há como jogar o peixe aos tubarões. Neymar é fruto da ânsia pelos lucros sem limites. Pelos euros que balançam em frente aos seus olhos. E quem sacode o pote de moedas de ouro são os que deveriam puxar o freio da locomotiva. São aqueles que deveriam dizer ao menino alçado ao topo da responsabilidade que a vida se faz por etapas. Queimá-las é pisar em bombas escondidas sob a terra.

O pênalti é tão importante que o presidente do clube sequer poderia pensar em cobrá-lo. Pênalti exige homens de caráter. Mais do que maniqueísmo, caráter significa a dimensão do que o jogador representa para aqueles que o admiram, o veneram, o amam das arquibancadas, das poltronas, com os radinhos colados nos ouvidos.

O goleiro tem, a princípio, um papel de figuração. É o condenado à frente do pelotão de fuzilamento. Chances mínimas de sobrevivência. Neymar não pode desafiar a lógica. Se a bola batesse na trave, seria uma brincadeira de quem joga dados por nós. O gol, a obrigação.

O pênalti perdido por Neymar não seria o primeiro com o desfecho pelo meio. Ainda moleque, meu primeiro treinador, o ex-ponta esquerda Zé Luiz, conhecido como Galo, contava a história de uma cobrança perdida.

Durante os treinos no Estádio Ulrico Mursa, da Portuguesa Santista, sempre havia sessões de cobranças de penalidades. Eu, como goleiro, adorava a brincadeira, já que poderia tomar refrigerante de graça se defendesse as cobranças.

Quando o batedor perdia por displicência, Zé Luiz repetia a história do jogo entre XV de Piracicaba e Guarani, em um distante Campeonato Paulista dos anos 70. Zé Luiz jogava no XV e foi bater um pênalti. Neneca era o goleiro do Guarani. O ponta-esquerda resolveu bater no meio, pois esperava que Neneca escolhesse o canto.

Bateu no meio. Neneca ficou parado, segurou a bola com facilidade e saiu jogando com o lateral-direito. Confesso que me esqueci do resultado da partida. Daí em diante, Galo só dava pancada rasteira nos cantos.

Neymar será lembrado pelo pênalti. Mas tem a chance de reescrever o final do episódio, delegando a defesa de Lee à nota de rodapé da biografia. Basta entender que pênalti é uma bomba prestes a explodir sob os pés do cobrador.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A beleza da morte

“A Partida” é um daqueles filmes tão belos, capazes de tratar temas dolorosos com delicadeza, que quase nos impede de começar um texto sobre ele. É o tipo de história que, além de arrancar uma lágrima de melancolia e admiração, nos deixa paralisado diante dos letreiros que sobem na tela. O tempo de maturação ganha tom primordial para nos fazer compreender onde e como o filme nos atingiu.

“A Partida” é uma produção japonesa, vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro do ano passado, que fala sobre a morte. É a história de Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki), violoncelista que perde o emprego após o fechamento de uma orquestra em Tóquio. Ele desiste da vida como músico e retorna para a cidade natal, no interior, ao lado da esposa.



À procura de novo trabalho, responde a um anúncio de jornal da empresa NK agents, que “ajuda a pessoas a partir”. Daigo acredita ser uma agência de viagens, mas descobre que teria que trabalhar como “preparador de corpos”. Um “nokanshi”.

Preparar corpos significa arrumar (embelezar) o cadáver por meio de um ritual antes da cremação. O salário era vantajoso e o trabalho, sem desgaste físico. Daigo aceita a oferta, mas esconde a atividade da esposa. Depois, tem que enfrentar o preconceito dela e de outros moradores da cidade.

O filme nos ensina como a morte está repleta de simplicidade. Para absorver o singelo, o ritual de luto. É óbvio que tememos a morte. É ingênuo como fugimos dela. É infantil como a olhamos de costas quando perdemos alguém próximo.

A morte, hoje, também entrou no circuito de velocidade da vida humana. Muitos acreditam que a vida com o pé no acelerador se estende ao momento da perda. Perdemos, em parte, o poder do luto. E pagamos um preço elevado por acreditar que se tornou desnecessário. Jogamos as cinzas de nós mesmos embaixo do tapete como se fosse possível desprezar a dor que nos acompanha e grita assim que enxergamos o outro naquilo que deixou.



Recentemente, fui a um velório. Morrera a mãe de um amigo. Entre o velório e a cremação, somente três horas. Ela havia falecido pela manhã. Às cinco da tarde, havia sido cremada. O ritual parecia uma variação de restaurante fast-food. Todas as etapas cumpridas rapidamente, sem o tom da pessoalidade. Nem placa de identificação havia. Poderia ser qualquer um. Para a empresa que conduzia o funeral, olho no relógio. Nada fora do cronograma. Outro corpo viria.

È claro que, numa situação como essa, não se pode pensar em tudo. O distanciamento daquela hora nos leva a perceber que o modelo atual nos empurra para a ilusão da fuga, impossível de sentir na hora em que você está envolvido. Sepultar alguém não tira aquilo que representou, aquilo que foi, independente do mérito.

O que me preocupa é a sensação contínua de que um sepultamento veloz leva o sofrimento na mesma velocidade. O luto precisa ocorrer, para que os sentimentos sejam encaixados nos devidos lugares. O tempo é variável, certamente superior às poucas horas de um funeral cru como as paredes do velório. Transformar a morte em um espetáculo, com desfecho previsível e fugaz, provoca danos irreparáveis nos que ficam, incapazes de promover os tais acertos de contas com que se foi.

Dirigido por Yojiro Takita, “A Partida” consegue nos mostrar como os rituais de morte podem auxiliar na construção de uma vida mais serena aos que permanecem. No trabalho de Daigo e seu chefe, a missão fundamental é, com precisão e leveza, deixar o morto belíssimo no seu ponto de despedida. A última imagem seria a destinada às marcas na memória.

O personagem principal, ao longo da história, muda a relação com a morte. Ele parte do nojo e da repulsa. Ao chegar em casa, após o primeiro serviço, sofre náuseas ao ver a mulher preparar um frango para o jantar. Depois, percebe o trabalho como uma necessidade; alguém deve fazê-lo. E alcança o sublime, ao entender que seu trabalho carrega em si uma série de simbolismos, que marcam os sentimentos entre o morto e as pessoas próximas.



O grande mérito do filme é apostar na proposta de que a morte está além do conceito de finitude. Ou que a vida é curta demais e deve ser vivida com intensidade. “A Partida” escapa destes clichês quando aborda um tema ainda muito caro e, por vezes, tabu para nós.

Por trás do tema principal, a relação conflituosa entre pais e filhos, resolvida no ponto de passagem. Daigo foi abandonado pelo pai quando tinha seis anos. Apagou o rosto dele da memória. Mas reproduz princípios que ele o ensinou.

Além disso, o protagonista e a esposa se afeiçoam a uma senhora proprietária da casa tradicional de banhos da cidade. Ela vive em choque com o filho, que deseja vender o lugar para uma construtora.

Em ambos os casos, a morte ronda os relacionamentos. Relações que morrem em vida, por egoísmo, por vaidade, por aquilo que não se fala, mas que sempre teima em ressuscitar nas crises. A morte física é quando se pode enterrar as mágoas e as diferenças. E o ritual do preparador de corpos servirá como motor para a mudança.

“A Partida” surpreendeu ao levar o Oscar diante de concorrentes de peso, como o francês “Entre os Muros da Escola” e o israelita “Valsa com Bashir”. O prêmio abriu caminho para se conhecer um modelo de cinema, além dos filmes de terror, das animações ou dos clássicos de Akira Kurosawa.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Ensaio sobre a cegueira

Eu não aprendo. Confesso que me rendo à teimosia de acompanhar o noticiário, ler blogs, ouvir e ver comentaristas com a esperança de entender a convocação da seleção brasileira. A cada nome citado pelo técnico, fica mais claro o quanto somos vítimas de estelionato futebolístico. Um festival de chutes para a linha lateral.

A sensação é de que as diferenças entre os programas da TV e o boteco se resumem às câmeras que transmitem as conversas e ao formato geométrico das mesas. Em volta de redondas e quadradas, todos palpitam, raros acertam.

Nas horas que antecederam a primeira lista de Mano Menezes, procurei me informar sobre os prováveis convocados. Esquemas táticos e possível time titular entraram na pauta. Nas palavras ditas e escritas, a certeza absoluta de que fulano e beltrano participariam do primeiro amistoso, contra os Estados Unidos.

Um comentarista de TV, por exemplo, jurava como virgem diante do altar que o lateral-esquerdo Roberto Carlos, do Corinthians, seria chamado. Uma forma de premiar o jogador de 37 anos. Não seria incoerente com a palavra de ordem “renovação”?

Desconfiado, decidi que era prudente ouvir uma segunda opinião. O comentarista da emissora concorrente, com a habitual cara de pretendente perfeito da mamãe, escalou os 11 titulares. No ataque, Fred, do Fluminense. Uma hora depois, li em um portal que o jogador estava machucado. Ficaria de molho por 20 dias.

Em vários veículos, os jornalistas falavam, com a convicção dos maridos traídos, que os 23 convocados jogam no Brasil. E que São Paulo e Internacional não cederiam atletas. Três disparos piores do que criança em tiro ao alvo de quermesse.

A lista veio com 24 nomes. Metade atua na Europa. E São Paulo e Internacional tiveram um jogador convocado cada. O time que passar à final da Libertadores terá o atleta cortado.

Depois, vem a análise. A palavra renovação foi substituída por surpresa. Quem se surpreendeu? Os jornalistas, comentaristas e palpiteiros de plantão? Alguém sabia da lista de antemão? Nos rostos dos analistas, a reprodução torta de Macaulay Culkin, e a eterna expressão de surpresa do menino esquecido em casa.

O goleiro Renan, do Avaí, de 19 anos e 14 jogos como profissional, tem o direito de não acreditar. Virou número 1 da equipe depois da Copa. Pensou que fosse pegadinha dos colegas de time!



Ficamos surpresos porque não sabemos de algo, claro. Mas também nos sentimos enganados quando, no alto da arrogância, os fatos não atendem ao que desejamos ou gostaríamos de impor.

O passado recente condena os sócios da Mãe Dinah, com seus microfones e canetas. E desgraça aqueles que não observam e fingem escutar as palavras (ou recados) do técnico nas entrevistas.

Antes da Copa do Mundo, qualquer grupo em mesa de boteco produzia uma lista de 23 nomes. As preferências variavam. Entre os favoritos, Neymar e Ganso, há seis meses na vitrine. Na TV, o então técnico Dunga pregava coerência. Ninguém deu ouvidos. Muitos preferiram fazer biquinho para as respostas atravessadas diante de perguntas por vezes maliciosas.

No dia da convocação, o óbvio dolorido. 22 dos 23 nomes eram idênticos do último amistoso antes do Mundial, mais o goleiro Gomes, que visitou a equipe no hotel antes do jogo.

A primeira chamada de Mano Menezes reforça o quanto não se vê futebol. Um comentarista dizia assim:

- Prestem atenção neste zagueiro David Luiz, do Benfica.

E não deu mais informação alguma sobre o jogador.

O mesmo comentarista foi adiante:

- Esse Ederson, do Lyon, eu não conheço tão bem.

Se houvesse legenda, a tradução seria: nunca viu o sujeito jogar.

E corre todo mundo para o Google atrás de dados pessoais dos jogadores novatos.

Diante das informações limitadas, resta uma saída: apelar para os achismos, as opiniões subjetivas que garantem a polêmica.

- Não concordo com os dois goleiros. Por que convocou os dois? Quem é Renan, do Avaí?

- E Jucilei, do Corinthians? Nem titular é.

Por essa, até o próprio Jucilei não esperava. Comprava roupas na hora da convocação.

Há, por último, a saída pela esquerda, a la Pantera cor-de-rosa. Neste caso, prevalece repetir o previsível. Como disse um jornalista:

- Justiça feita! Neymar e Ganso na seleção. André é uma surpresa.



Com tanta bola fora, penso que feliz é uma grande amiga que, anos atrás, pensava que o atacante Muller era goleiro do Santos. Na última Copa do Mundo, ela se surpreendeu ao descobrir, não sem me contestar, que Cristiano Ronaldo não era brasileiro.

Minha amiga e Mano Menezes tem algo em comum: riem – ainda que às escondidas - dos cegos que se julgam visionários.

A farra brasileira I - As pequenas derrotas do rei

A seleção brasileira começa a mudar na tarde desta segunda-feira? A resposta é positiva para os que desejam se esconder atrás da cortina de fumaça. A primeira convocação do técnico Mano Menezes servirá para tirar o presidente Ricardo Teixeira da vitrine, depois de uma semana em que as expectativas viraram do avesso.

O discurso parece ensaiado. Não se fala em família ou comprometimento, palavras que marcaram técnicos anteriores. O termo do momento é renovação. Nada mais cínico, como todos sabemos, e por isso não merece mais alongamentos.

O vitalício cartola terá que se entender com São Paulo. Duro para quem raramente desce da torre de marfim. O jogo parecia definido, com vitória de Teixeira. Ele acreditava que emplacaria o projeto do estádio em Pirituba, com o chapéu alheio. Em outras palavras, apostava que o Governo do Estado ou a Prefeitura de São Paulo fariam um estádio com o nosso dinheiro. E lucros para a CBF. Os dois tiraram o corpo fora. O Pacaembu entrou na corrida e o Morumbi deu sinais de vida na tumba.

Na mesma semana, o presidente da CBF chutou nova bola fora e confirmou mais uma vez que planejamento não é uma característica que a entidade carrega desde criancinha. A definição do treinador da seleção brasileira teve farsa, tragédia, tons de comédia e final caricato.

O presidente retardou o quanto pôde a divulgação do nome. A convocação sairá hoje porque é a data-limite para tal. E precisamos de um técnico para convocar e escalar a equipe.

O cartola-rei apostava em Luiz Felipe Scolari, que cantou a manutenção do casamento com o Palmeiras. Jogou verde, depois falou grosso e Teixeira entendeu a mensagem.

O técnico do Fluminense, Muricy Ramalho, virou o plano B. Mas ainda há pessoas que respeitam palavra, papel assinado e zelam pelo próprio nome. Muricy discutiu dinheiro no mesmo patamar das condições de trabalho. Postura estranha para quem domina o futebol nacional.

Como de praxe, a CBF fez por linhas tortas o que já nascera enviesado. Falou com o treinador com a crença de que o clube poderia ser ignorado.

Muricy fez o óbvio: consultou o chefe. O problema é que tudo foi feito publicamente, com fotos e imprensa. Como se a partida estivesse com o placar consolidado. O resto, todos sabemos. O presidente da CBF teve que adotar o plano C, fruto de relacionamento afetivo quente com a direção do Corinthians.

O time que pegará os Estados Unidos em agosto é o primeiro movimento. As expectativas em torno da tal renovação servirão para esconder as trapalhadas em torno da Copa do Mundo de 2014. Não há garantias. Mano Menezes sabe disso. Talvez tenha chegado ao cargo antes da hora. Experiência não é exatamente pré-requisito. Nem item que assegure conquista de títulos ou cadeira cativa.

A forma de se conduzir o processo que culminou na escolha do novo técnico aponta que a mentalidade de Teixeira e seu grupo permanece intacta. A soberba controla as ações, conduz as estratégias de uma turma que se considera intocável dentro e fora do país. Superou duas CPIs, garantiu as rédeas da organização de um Mundial. E, principalmente, sonha com as cadeiras da FIFA a partir de 2015.

O que me deixa contente é o surgimento de uma resistência. A Internet virou arma de vários figurões insatisfeitos com a condução do futebol. Ainda desorganizado e pulverizado, este movimento se sustenta em dois pontos comuns. O primeiro é a indignação com alguém que segue no poder por 21 anos e pretende se manter por mais quatro.

O segundo ponto é que o Mundial de 2014, no Brasil, dá todas as dicas de que será mais um evento lesa-patrimônio. Nenhuma medida é tomada pelo bem comum. Teremos estádios faraônicos, em lugares onde o futebol não é esporte rentável. O cronograma de trabalhos mal se sustenta em pé. As obras de infra-estrutura seguem pipocando nos discursos dos políticos, sem uma conexão entre os projetos.

As dívidas que a África do Sul começa a amargar, somado ao lucro superior a US$ 3 bilhões nos bolsos da FIFA, provocaram temor em muitos que acompanham o esporte de perto. O saldo do Pan no Rio de Janeiro, que custou dez vezes mais do que o previsto, aqueceu a garganta de quem teme por nova farra com dinheiro público.

Na Copa da Alemanha, em 2006, apenas três dos 12 estádios tiveram dinheiro do governo. No Brasil, a ideia é fazer o inverso, se ninguém frear o trem da alegria. Na Internet e em alguns veículos de imprensa, surgem os primeiros gritos. Um deles é o movimento Tira Teixeira, liderado por um ex-presidente da Bovespa. Seria o pontapé inicial?

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Caro leitor, não encare como uma promessa, mas a intenção é escrever neste espaço, às segundas-feiras, sobre a organização da Copa do Mundo em 2014, a partir da perspectiva que envolve o universo político do evento. Obras, cronogramas, uso de dinheiro público e assuntos relacionados ao tema. Esperamos sugestões e críticas que alimentem o debate sério sobre os impactos do Mundial nos vários ângulos que compõem a sociedade brasileira.

domingo, 25 de julho de 2010

Crônicas de Atibaia 2 - A gula como pecado absoluto

Viajar de férias é regime de exceção. Uma guerra civil contra os hábitos espartanos, em teoria. É a hora em que se perde a vergonha e abrimos mão, inclusive, daquele discurso vida saudável, que sempre chega quilômetros antes da disciplina.

Viajar de férias para um endereço com três refeições diárias garantidas e com mesa farta é ignorar as regras de boa convivência com a comida. Chutar a diabetes para escanteio e mantê-la suspensa, quebrando as normas de saúde pública. O remedinho que simboliza a nova vida sem açúcar vira, automaticamente, regulador de excesso. O único extintor de um prédio em chamas.

No hotel-fazenda, o refeitório é o centro nervoso. A zona mista, a ONU em que convivem grupos diferentes, aliados políticos. Não é necessária diplomacia. O interesse é único: comer. Comer sem controle. Comer sem culpa. Ao menos durante o crime.

O sinal é de fácil percepção. O sujeito caiu de quatro diante da gula quando a vida dele passou a ser pautada pelo horário das refeições.

- O jogo só pode durar uma hora porque depois vem o jantar.

- Estou quebrado, mas levantei cedo para tomar café.

- Não dá para sair da estância agora. O almoço será daqui a duas horas. Não dará tempo de voltar.

A fome entrou para a lista de risco de extinção. Sem TV e com acesso limitado à Internet, comer virou passatempo. Entre os horários das refeições, cantina aberta para os que beliscam. Em certos momentos, o diálogo era inacessível. Apenas grunhidos e resmungos de uma boca cheia. Chicletes, bombons, paçoquinhas, difícil detectar o que os hóspedes mastigavam. A prova era a embalagem nas mãos.

Na cantina, as desculpinhas. O capuccino para esquentar do frio. O cafezinho com bolo para descer a comida.

Na estância, a gula quase virou uma religião. Os demais pecados ficaram sem trabalho. Meros figurantes de um prazer mais imediato, que se pode medir pelos olhos. Boca é apenas um funcionário servil da linha de produção.

Muitos hóspedes abriram mão da vaidade. As reclamações sobre o regime de engorda eram poucas e inúteis, inclusive para quem se queixava, que descartava as próprias palavras. Qualquer crise de consciência desaparecia com a entrada no refeitório. E roupas largas se multiplicavam para esconder a metamorfose.

A inveja do prato alheio nunca existiu. A fartura provocava somente admiração. Elogiar as saladas, para manter a pose, enquanto se devorava as massas ou as carnes era exercício autorizado. Só faltou o carimbo do cartório. Um pacto de descontrole dos cinco sentidos, sem saber quem prevalecia na hora de repetir a sobremesa.

O refeitório era o paraíso. Ali, sorrisos e momentos de felicidade. Não vi ninguém acometido pela ira. Se um sujeito estava nervoso, certamente trocava a pescaria pelos peixes na mesa principal. O calmante estava ali, ao alcance do garfo.

A preguiça era o passo a seguir. Com uma hora para almoço e outros 60 minutos para o jantar, as trajetórias dos hóspedes eram apressadas. Não se tratava de perder o horário, mas de ter tempo para saborear saladas, pratos principais e sobremesa. Não exatamente nesta ordem. Com espaço para respiração e alguma conversa.

A soberba morreu. Ninguém se sentia superior ao cardápio. Ou apontava que o da mamãe era melhor. Ou reclamava ao chef que faltara algum ingrediente. Todos eram irmãos e dividiam os alimentos fartos sem premeditação.

A luxúria, no máximo, sobreviveria no abstrato, na simbólica relação com a comida. Mas ali não havia interesse em procurar pontos de fetiche. Todos comportados, discretos, sem exageros de movimentos. De movimentos. Almoçar e jantar eram assuntos de família. Excetuando-se o tamanho do prato a ser desbravado, prevalecia o politicamente correto.

Confesso que, no último dia, senti a barriga roncar. Estranhei a sensação enquanto caminhava pelo salão de jogos. O jogo de futebol havia sido no dia anterior. Os gastos foram devidamente repostos no jantar.

A segunda roncada puxou a memória. Naquele dia, cometi a heresia de trocar o café da manhã pelo sono prolongado.

A gula, naquela semana em Atibaia, respondia sozinha (e soberana) pelos sete pecados, pelo menos três vezes ao dia.

sábado, 24 de julho de 2010

Renovar, revolucionar ou enganar?

Texto publicado na coluna O outro lado da bola, no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição 799, 24 de julho de 2010, página 7.

O anúncio do novo técnico da Seleção brasileira não garante a renovação do futebol nacional para a próxima Copa do Mundo. É apenas o primeiro passo para uma mudança prevista após um fracasso do Brasil em Mundiais.

A ideia de que a troca de comando representa um novo cenário implica em dois erros. O primeiro é a supervalorização do cargo de treinador da Seleção. Os treinadores são tratados como se fossem messias, capazes de operar milagres em times sem estrutura, planejamentos ignorados a cada janela de transferência e elencos de qualidade duvidosa. Torcedores e crônica esportiva se surpreendem quando treinadores como Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho fracassam, por exemplo, no Palmeiras, uma equipe sem elenco e instável em termos políticos.

Técnicos, na melhor das hipóteses, não devem atrapalhar. Devem ter a capacidade de motivar e compreender quais pontos podem explorar em um grupo de jogadores de alto rendimento. O problema é que se misturaram frases feitas, egos inflados e inflamados e a isenção relativa de responsabilidade sobre os jogadores, muitas vezes tratados como crianças mimadas. O homem de agasalho e prancheta deu lugar ao sujeito de terno de griffe e palavras de livro de auto-ajuda. O culto à aparência que marca a futilidade dos ilusionistas.

O segundo problema é que a troca do técnico da Seleção não passa de medida pontual. Era óbvio que, ganhando ou perdendo, Dunga seria substituído. Causara problemas políticos demais para a cartolagem. Trocar o treinador não significa renovação alguma. Significa alteração prevista em cartilha.

Não se pode crer na ilusão de que teremos um time completamente novo a partir de agosto. É evidente que alguns jogadores serão aposentados da seleção, por idade ou por critérios técnicos. Mas parte do elenco precisa ser aproveitado, inclusive por falta de opções e por nível de excelência em certos setores. O goleiro e quase toda a defesa, por exemplo.

È necessário também descermos da estátua da arrogância que nos deixa cegos diante dos limites do futebol nacional. Exportamos jogadores em quantidade, mas não somos os donos dos certificados de qualidade. Basta abrir as páginas dos jornais para vermos quantos “craques” tomaram o avião de volta em busca de privilégios e campeonatos mais fáceis.

Passou o bonde que nos apontava a possibilidade de se montar dois, três times em nível excepcional. Temos um time de primeiro nível e, no máximo, um banco de reservas compatível. Nada mais. O Brasil caiu na vala comum do futebol à européia, doença que só pode ser tratada a longo prazo.

O novo técnico da seleção brasileira será o comandante de uma nau em transição. Um processo lento, sereno e paciente, que nos poupa de disputar as Eliminatórias. Em quatro anos, metade dos convocados desta semana não estará na Copa do Mundo. Serão sparrings para as revelações que devem nascer e combustível para esconder (ou evidenciar) a queda de rendimento de estrelas que se alimentam do marketing e do espetáculo.

Renovar é uma tarefa para mais de três anos. Que sofram os apressados! Revolucionar significaria romper com a estrutura de poder vigente no futebol do Brasil. As figurinhas em torno da organização da Copa de 2014 foram carimbadas há anos. A escolha do novo treinador servirá como enrolação para aqueles que esperam por mudanças mais profundas.

Diante do cinismo do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que encheu a boca para falar em renovação, o quadro atual parece mais com uma apresentação de mágico no picadeiro. Renovar, cá entre nós, é muito mais do que colocar uma camisa amarela em Ganso, Neymar, Hernanes e cia.

Dinheiro no colchão

Muitos candidatos, na corrida eleitoral deste ano, ressuscitaram uma forma de investimento financeiro. Mais conservadores do que os adeptos da velha poupança, estes políticos declararam, na lista de bens entregue à Justiça eleitoral, que guardam dinheiro em casa.

Não se tratam de trocados para a pizza ou para qualquer emergência de saúde na família. São centenas de milhares de reais em casa. O candidato ao Senado Orestes Quércia (PMDB), por exemplo, declarou ter consigo quase 1,3 milhões de reais. O candidato ao governo do Distrito Federal Joaquim Roriz (PSC) guarda 160 mil reais em sua residência.

As declarações de bens dos candidatos são um exercício interessante no início da corrida eleitoral. Ali, o eleitor pode ver como muitos patrimônios incharam em quatro anos. O documento aguça os pensamentos especulativos, até porque a declaração não precisa se compatível com o Imposto de Renda e não inclui os bens dos parentes.

O patrimônio de muitos políticos passou pelo milagre da multiplicação além dos rendimentos em cargos públicos. Os políticos podem ter negócios paralelos (lícitos, é claro), mas a explosão de patrimônio gera sempre desconfiança.

Guardar dinheiro em casa não é ato de ilegalidade. Mas, em tempos de dossiês que flutuam e dólares que aparecem em lugares íntimos, cresce a necessidade de justificativa plausível para o eleitorado. O que vale é a comprovação da origem do dinheiro, tanto no âmbito legal como no aspecto da moralidade.

As justificativas para ressuscitar uma prática do tempo da vovó são variáveis. O delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz é candidato a deputado federal pelo PC do B. Ele declarou ter, em casa, 284 mil reais em dinheiro. Justificou a decisão por não confiar no sistema financeiro. A assessoria de Joaquim Roriz, em comunicado ao jornal Folha de S.Paulo, afirmou que o candidato usa os recursos para efetuar pagamentos nas fazendas dele.

Ter dinheiro dentro de casa é prática também entre os presidenciáveis. Dilma Rouseff, por exemplo, declarou guardar 113 mil reais. Com uma campanha orçada em 157 milhões de reais, não se espera que o dinheiro se usado na corrida eleitoral. Também é direito dela guardar os recursos próprios onde quiser.

Esta história me faz lembrar da época em que as pessoas tinham o hábito de guardar suas economias debaixo do colchão. A prática significava uma sensação de segurança sobre os valores. Só faltava dormir com uma arma embaixo do travesseiro para proteger o dinheirinho. Abria também margem para piadas sobre avareza.

Outros escondiam notas e moedas em latas de biscoito, que ficaram geralmente na cozinha, entre o sal, o açúcar e a farinha. Valia máxima de que o boi sempre engorda sob os olhos do dono.

O fato é que, diante da imagem negativa da classe política, o procedimento nada comum em tempos atuais provoca suspeitas que misturam inocentes e culpados de longa data. É, no mínimo, uma ação fora de moda, numa época em que prevalecem o dinheiro de plástico e a presença dos bancos na rotina financeira das pessoas. Isso é mais forte entre as classes mais altas, onde estão a maioria dos candidatos.

Para ilustrar a retomada da velha poupança caseira, o episódio contado por uma amiga. Ela e os irmãos foram mexer nos pertences do pai, um comerciante potiguar que acabara de morrer. Os filhos descobriram que ele escondia dinheiro tanto debaixo do colchão como em latas antigas de biscoito.

Por um momento, os irmãos alternaram entre a felicidade do enriquecimento e a surpresa diante do patrimônio extra. Até porque viviam com dificuldades naqueles dias. E continuaram com pouco. No colchão e nas latas, estavam guardadas notas tão antigas que saíram de circulação. Não valiam nada. Viraram combustível de fogueira.

Diante de tamanha concorrência, eu duvido que os candidatos queimem dinheiro assim tão fácil. Em campanha, desperdício é ofensa. O colchão, além de evitar pesadelos, garante mais do que um sono tranqüilo ao servir de agência 24 horas.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Xingar a mãe, pode?

Texto publicado na coluna O outro lado da bola, do Jornal Boqueirão (Santos/SP), em 17 de julho de 2010, edição 798, página 6.

O futebol não é esporte para educados. Ter um dicionário de xingamentos debaixo do braço, em uma partida, pode ser útil na hora de ganhar uma falta, levar vantagem em um lance duvidoso ou – quem sabe? – reverter um pênalti mais claro do que a regra.

Qualquer pelada de final de semana, geralmente regada a suco de cevada, passa por discussões e palavrões que, se levamos para fora do campo, acabariam com amizades, destruiriam famílias, jogariam relacionamentos fraternais no lixo.

Nas arquibancadas de um estádio, até o mais samaritano perde o controle quando o juiz erra contra o time dele. Se o atacante joga fora a chance do empate no último minuto, até o rei do puritanismo se surpreende com os palavrões que julgava desconhecer e agora saem de sua boca.



Dentro do campo, só um insano (ou alienígena) diria ao adversário depois de sentir a chuteira dele em sua caneira:

- Por favor, você poderia não me ferir novamente?

E teria a resposta digna do programa Além da Imaginação:

- Claro, perdoe o incômodo!

O folclore do futebol está recheado de picardia e de grosserias pontuais. Todo torcedor tem doutorado no exercício criativo da ofensa. O problema é a linha que separa o xingamento e o ataque discriminatório, frágil como o argumento de que o futebol é terra do cavalheirismo.

O estádio canaliza o comportamento humano. Ali, emerge a monstruosidade dos hipócritas. Multiplicam-se os valores culturais que simbolizam o ódio e o medo do outro, do diferente. A brincadeira ganha a máscara do carrasco, que tortura a vítima no ponto onde jorra o sangue. Feridas psicológicas ou morais custam a cicatrizar.

Neste caminho, as mudanças no Estatuto do Torcedor estão cheias de boas intenções. Mas as medidas, aprovadas na semana passada no Senado Federal, são como um chute em direção à bandeira de escanteio.

A principal alteração implica em proibir a entrada de cartazes e faixas ofensivas. Os torcedores não podem entoar “cânticos discriminatórios”. A pena: expulsão do estádio. A responsabilidade fica a cargo dos organizadores e do Estado. O estatuto estabelece a criação de juizados para julgar os infratores.

É obrigatória ainda a instalação de um sistema de câmeras para monitorar as arquibancadas. Brigas nas imediações do campo ou invasões no gramado podem render até dois anos de prisão. A pena pode ser convertida em proibição de comparecer aos locais das partidas, se o réu for primário. Nas torcidas organizadas, todos os integrantes devem ser cadastrados, com foto e endereço.

O Estatuto do Torcedor joga com canelas de vidro. É aquela equipe de leões de treino, fantástica no papel, que treme ao som do apito inicial. As alterações o mantém ainda mais distante da realidade. Deixa as bordas do papel colorido, mas não lida com o centro em preto e branco.

O estatuto permanecerá inerte se não estiver acompanhado de uma mudança de mentalidade. O Congresso Nacional novamente ignora os valores e as posturas da sociedade e seu relacionamento com o futebol. O texto jurídico é inócuo diante de uma estrutura viciada, corrupta e de conivência entre dirigentes, clubes e torcedores profissionais.



Pelo novo texto, o estatuto usa – por exemplo – a mesma arma que diz combater. É o caso da divulgação da lista dos infratores na internet e na entrada dos estádios. Estigmatizar aqueles que discriminam. Por que não se basear na Inglaterra, que obriga o torcedor violento a comparecer à delegacia nos horários dos jogos, sob risco de prisão?

Moralizar pela lei soa tão cínico como os gritos preconceituosos que nascem nas arquibancadas. É o olhar cego de quem parece compreender o futebol como algo isolado dos comportamentos sociais. Como se fosse possível, a qualquer um, esquecer quem é quando se entra em um estádio.

O futebol, como metáfora da vida, esconde quem somos, mas não apaga o que pensamos. Ao mudar o Estatuto do Torcedor, o Senado Federal isola a lei do futebol em sua essência, uma prática social.

Irônico e coerente para quem vê o país a partir da ilha da fantasia.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Crônicas de Atibaia I - Saudades do pão de queijo

Estive em Atibaia, na semana passada. Lá, na estância onde me hospedei, havia um ritual: comer pão de queijo no final da tarde. Não era exatamente uma rotina diária. Foi uma cerimônia que se repetiu por três dos sete dias em que fiquei no interior.

Rituais não se medem por quantidade. São importantes porque nos mantém presentes, pertencentes. Indicam o quanto estamos vivos, pulsantes. Rituais costuram o passado à nossa forma de ver o mundo hoje. Comer pão de queijo, que dispensa aqui uma análise antropológica mais aguda, reacende lembranças literalmente mineiras.

Pão de queijo é sinônimo de Dona Norvina, minha avó falecida há um ano e quatro meses. Falo de pão de queijo, não de uma bolinha amarelada, enchida com sabe-se lá o quê, que tentamos mastigar por aí. Tudo menos queijo. Às vezes, quem te vende tem a cara-de pau em justificar que colocou essência de queijo na massa. Como o traficante que batiza a droga e quer te convencer que os danos ao organismo serão menores do que o previsto.

O pão de queijo de Atibaia se aproximava do milagre mineiro. Chegou perto mesmo! Tinha sabor, textura, densidade, cheiro, tudo o que deve constar em um legítimo representante da terra sem mar. Desconheço o autor das obras de arte, mas o anonimato não tem peso algum diante da surpresa. Confesso que optei pelo pão de queijo pela absoluta ausência de concorrentes. E também a gula não me permitiria esperar mais uma hora e meia pelo jantar.

Pão de queijo falsificado (ou genérico) entrega a própria mediocridade pela aparência. É um dos poucos casos, creio eu, que a aparência equivale à essência. Não há protetor de vidro de balcão de cantina que esconda as imperfeições da criação. Ficam ali, na prateleira, os coitados esbranquiçados, fruto da enganação do fornecedor, em conluio com o dono do estabelecimento.

O regime forçado me deu a desculpa necessária para ignorar a existência dos branquelos. Mesmo assados, entraram para o rol das frituras, condenadas à lista de proibidos da vida saudável. Mesmo mais baratos, os pães de queijo made in Taiwan não compensam. Alguns tem a elasticidade de um pneu de tão borrachentos. Quando se olha dentro, beiram a transparência.

Dá dó ver alunos e professores, quando chegam às universidades onde trabalho, desesperados por um lanche. Qualquer comida! Aceitam o pão de suposto queijo como aqueles R$ 10 de combustível no tanque do carro. Ajuda a resistir mais um pouco e chegar são e salvo em casa.

Como conheci o paraíso das Minas Gerais, posso me dar ao luxo da soberba quituteira.Testemunhei a confecção do maravilhoso, do único. Desde o polvilho sendo trabalhado até a expectativa da roda de queijo curado em vias da metamorfose. O tempo, lento como o nascimento de uma escultura, conduz o cheiro que paralisa como feitiço, que tortura como espera pelo prazer.

A receita estava ali, ao lado, marcada em papel. Sempre tive a impressão que Dona Norvina apenas usava a receita como segurança. Ou elevar a ansiedade e a curiosidade dos beneficiados. Erraria a mão? Nunca a vi consultar papel algum. Gênio da cozinha sente, não consulta. Faz mágica, jamais relata o segredo a terceiros.

Ela cometia apenas um erro. Um erro que não dependia de seu talento. Um erro além das possibilidades de previsão pela experiência. As fornadas jamais eram suficientes. Sempre nos lembrávamos de alguém para dar pães de queijo de presente. A gula também superava o otimismo dela. Falo dos que a cercavam, claro.

A quantidade só era correta quando se tratava de transformar os pães em suprimentos para viagem. De Luz, cidade onde Dona Norvina morava, a Santos eram 850 quilômetros. Os viajantes passavam aperto para garantir que a carga durasse após a chegada. Era exigência dos que esperavam em casa. A artista não poderia, pela obviedade geográfica, assegurar nova remessa.

O pão de queijo, em Atibaia, virou pólvora para reflexão. Aqueles 10, 15 minutos de contemplação ao passado. Os pães de Atibaia tinham como destino o papel de coadjuvantes. Sabiam disso. Estimulavam a lembrança e bastava como função, além da natureza do regime de engorda. Ficavam com gosto de segundo plano. Recebiam os elogios, seguidos do “mas” que carimbam a vida ordinária.

Dizem que se conquista alguém pela boca. Acho que também vale para relação entre avós e netos, mas como ato de amor consolidado. O duro é viver o outro lado. A fome (e a água na boca) como marca da ausência. E, por mais saboroso que o dublê de Atibaia possa ser, serve somente para realimentar a saudade.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Que horas são? São cinco e 60!

O Papai Papudo morreu! Quem tem mais de 35 anos talvez se lembre de um dos principais personagens das manhãs na TV. Aquele velhinho, com um relógio enorme, que – junto com a Vovó Mafalda -, dava suporte ao Bozo, pela antiga TVS.

Papai Papudo era de um tempo que parte da programação de TV, com exceção das loiras de roupas um número menor, ainda se preocupava com brincadeiras infantis, sem que marcas e produtos fossem despejados nos rostos das crianças. A ingenuidade dos bordões repetidos retardava e remediava a metamorfose da molecada em consumidores.

Papai Papudo era de um período em que as crianças ainda eram tratadas como tal. Mas, assim como seus dois amigos palhaços, foi assassinado pelo retorno ao mundo dos adultos pequenos. Misturamos as faixas etárias, queimamos etapas, pulamos degraus que entortam as regras da biologia. Viramos um paradoxo. Quando crianças, aceitamos ser adultos. Quando adultos, rezamos pela vitalidade da infância.



As brincadeiras do programa do Bozo eram tradicionais, simples e repetitivas, que mantinham as crianças seguras em seu próprio universo, entretendo-as sem empurrá-las para responsabilidades e valores ainda desnecessários. As brincadeiras eram profundas por serem rudimentares, tanto que criaram raízes na memória de quem adora o exercício das sessões de nostalgia e saudade dos anos 80.

Os telefonemas ao vivo, por exemplo, que ilustravam a batalha naval. O barulho da água e as palavras do Bozo:

- Ai, que peninha!

A corrida de cavalos, com os improváveis competidores de cores amarela, verde e vermelha, fazia com que a adivinhação da vitória fosse somente uma poesia doce, sem aspirações a grandes prêmios ou recompensas. O enredo absurdo que impulsiona a fantasia, que acaricia a imaginação de quem depende dela para ser criança.

E o goleiro do Bozo, que caia para os lados, desafiando as leis da física e os limites da anatomia. Era o apelido de quem tentava jogar no gol, depois de falhar na linha. O goleiro gigante, que reproduzia o cenário mágico de um tabuleiro de futebol de botão.

Confesso que havia enterrado Papai Papudo no cemitério de lembranças. Quando nos tornamos adultos, poucas vezes notamos o quanto os personagens infantis compõem o que fomos e o que ainda somos. Colocamos a culpa na rotina, nos compromissos, no script que decidimos seguir. Autores que renegam a história em construção, envergonhados demais para assumir os papéis escolhidos sem pudor.

Transferimos os erros e, por vezes, encaramos o passado como arquivo morto, incapazes de observar o processo que nos transforma, que nos endurece ou flexibiliza. A origem dele está lá no início, quando não nos damos conta de nada além de nós. Muitos permanecem assim.

A ingenuidade de Papai Papudo nos indicava o caminho da serenidade, da paciência, da tolerância, sem levantar estes valores como bandeiras estampadas por lições de moral, tão nocivas quanto rasteiras para o mundo das crianças.

Papai Papudo falava a minha língua naquela primeira metade dos anos 80. Para ser entendido, não me tratava como idiota, respeitava a fase de uma criança – em transição contínua -, e não exigia que eu me comportasse conforme os modismos dos badulaques que a TV passara a oferecer.



Papai Papudo era como seus dois principais companheiros: palhaços na essência do nariz vermelho. Jamais poderíamos perceber que o homem por trás do personagem sofria, sentia dores, odiava ou invejava. O palhaço verdadeiro era imune à desgraça e à mesquinharia. Era sempre precedido pelo sorriso. Se possível, transformado em gargalhadas ainda que a brincadeira não chegasse a tanto. Ainda que a brincadeira fosse a mesma de todos os dias.

Papai Papudo foi tão profundo na sua vida de palhaço que jamais ouvi falar do homem que se escondia atrás da barba, dos óculos, do chapéu e da maquiagem. Soube quem era apenas quando li sobre a morte dele. Uma criança não precisava destas informações. Um adulto que luta para recuperar a infantilidade, sem ser infantilóide, também.

Papai Papudo – ou melhor – Gilberto Fernandes, o Gibe, morreu no último dia 16 de julho, de problemas cardíacos. Ele tinha 75 anos e não resistiu a uma cirurgia. Era fã de Oscarito e se criou no circo, o que explica – em parte - a ternura e da espontaneidade com que repetia suas explicações todas as manhãs, na TVS.
Gilberto – ou melhor – Papai Papudo trabalhava como redator no Programa do Didi (Rede Globo). Gilberto Fernandes foi enterrado no dia 17, em Registro, no Vale do Ribeira.

Papai Papudo permanece vivo como um dos ícones do momento em que crianças eram vistas somente como crianças. Personagens assim seguem congelados – distorcidos ou não – nas memórias de quem necessita olhar para trás para compreender o trecho atual do caminho. Personagens que, sem a intenção do futuro imortal, cristalizam o tempo das respostas sinceras, do olhar curioso e dos sonhos simples.

Papai Papudo paralisava a mesma hora todos os dias, pela frase sempre esperada, segura, mas nunca enjoativa:

- Que horas são? São cinco e 60!

A sombra, o espantalho e a samambaia

A definição dos candidatos à vice-presidência deixou claro qual é o perfil dos titulares ao comando do país. E como as alianças encaram o processo eleitoral. Engana-se quem pensa que o vice-presidente é mera figura decorativa. À primeira vista, o ocupante do cargo só serviria para substituir o chefe em caso de viagem, doença ou outro tipo de afastamento, temporário ou definitivo.

Ser vice-presidente é, de cara, ter rosto de moeda. Cara e coroa ao mesmo tempo. Corpo de barganha. Cheiro de acordos. Postura de negociação longe dos holofotes. Não se trata de uma questão personalizada, mas uma posição também rifada nos embates por cargos e poder.

O deputado federal Índio da Costa (DEM-RJ) é um caso clássico de baixo clero na Câmara. Um parlamentar de composição de bancada, em fase de aprendizado político. Chegou à Brasília em 2007 Antes, foi vereador no Rio de Janeiro. Virou representante do partido na chapa de José Serra.

Índio foi escolhido por suas qualificações e experiência? Claro que não. É o homem do Democratas numa aliança que vigora desde a década passada.

O candidato José Serra o conhecia? Segundo a imprensa, os dois se viram uma vez, em evento público. Índio da Costa terá voz ativa na campanha? Provavelmente não. Vai se limitar a repetir o discurso recomendado pela aliança. Se houver alguém interessado em ouvir suas considerações sobre o país. Para os adversários, nada diferente de uma samambaia no canto da sala.



Duvido que José Serra, um trator em corrida eleitoral, forneça campo de ação para o candidato a vice. Será uma conquista do Democratas, acostumado a ficar nas costas dos tucanos, que poderá permanecer na articulação política sem a exposição desnecessária e arriscada da vitrine. É a escola de política de Marco Maciel, que foi vice-presidente de FHC.

Há candidatos a vice que nasceram para este papel de articulação em silêncio, na conversa miúda. É o caso de Michel Temer, que acompanha Dilma Rousseff. A dupla é um mistério. Ela, por ser incógnita em eleições e, caso vença, no comando do Poder Executivo. Ele, acostumado a mandar prender e soltar dentro do Legislativo, enfronhado nas relações e nos conflitos entre partidos e bancadas.

Michel Temer é mestre em permanecer no poder, sem precisar beijar criancinhas, abraçar velhinhos e comer pastéis de feira. Temer é o mestre das sombras, em manter um partido multifacetado unido por um bem comum. Sem entrar no mérito do que o PMDB considera como bem. Quem acompanha política compreende este balaio de gatos, em âmbito federal!



O PT foi eficiente em costurar a candidatura à vice. Todos sabemos o preço que o partido – um dia dos trabalhadores – pagou para se manter no poder. O mérito é a velocidade em fechar (manter) as alianças, sem o desgaste que envolveu e atrasou a candidatura tucana. Assim como DEM, a vantagem do PMDB é a penetração no interior do país, principalmente em locais onde o PT não passa de coadjuvante.

Marina Silva tenta manter a coerência de terceira via, inclusive na candidatura do vice, Guilherme Leal. Ele, como presidente da Natura, seria uma tentativa pragmática de aproximar uma candidata com histórico no sindicalismo da classe empresarial, inclusive para a obtenção de recursos de campanha.

A estratégia funcionou até o momento, mas me parece insuficiente. As pesquisas indicam que Marina ainda é desconhecida da maioria da população. A candidatura, estacionada em torno dos 10 pontos percentuais, agrada a classe média dos grandes centros urbanos. E não vai muito além.

Até que ponto Leal poderá fazer diferença em um partido também cheio de facções e interesses, muitos deles particularizados? Um exemplo é a política de apoios do PV, que contradiz as decisões nacionais em vários Estados. No Rio de Janeiro, PV e PSDB se abraçaram em torno da candidatura Gabeira.

O executivo da indústria de cosméticos seria um espantalho, aparentemente inofensivo, porém nascido para assustar os desavisados que desconhecem os caminhos da colheita?

Guilherme Leal é um bilionário, bastante respeitado no mundo corporativo. Mas a política se desenha por outras canetas, de pontas mais grossas e tintas mais escuras. Segundo a imprensa, o vice de Marina está envolvido em denúncias de fazendas não-declaradas, com situação trabalhista irregular. Incêndios assim queimariam Marina?



Francamente, poucas chances até agora, pois o assunto permanecerá restrito aos círculos que já a apóiam. As informações, positivas ou negativas, não alcançam a massa eleitoral que praticamente ignora a existência dela, quanto mais do vice na chapa.

Nos últimos 25 anos, os vices ganharam um peso considerável na política federal. Um peso que talvez não desejassem ou esperassem. Sarney, outro mestre das sombras, virou presidente com a morte de Tancredo. Itamar Franco herdou a presidência após as sujeiras do caçador de marajás alagoano. Ambos deixaram de ser políticos regionais e, pelas circunstâncias, viraram protagonistas.

O vice-presidente atual, José Alencar, também é filho de costuras em Brasília. Um dos reis da soja, ele serviu para aproximar Lula do agronegócio. Encaixou-se como uma luva na política de progresso e crescimento a qualquer preço do atual presidente. É claro que os problemas de saúde o colocam no noticiário com maior freqüência do que por méritos políticos.

Como compensação, Alencar é visto como figura simpática – ainda que se conheça pouco sobre ele – para boa parte dos eleitores. O sofrimento e a dor provocam solidariedade de poltrona.

As distintas candidaturas a vice me levam a imaginar como seríamos governados por Michel Temer, Guilherme Leal ou Índio da Costa. Estariam prontos? Aventureiros? Fantoches de bancadas?

O jeito nefasto e pragmático de se conduzir as relações políticas no país me empurra para um momento de nostalgia não-vivida. E quando o Brasil tinha eleição para vice em separado? A história não aponta a ideia como saída, e sim como mais um exemplo de que as regras atendem aos interesses. O inverso é natimorto.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O bicho da casa precisa do divã

- Meu cachorro é estranho. Mantenho apertada a coleira. Meu cachorro é bipolar!

Ouvi a frase quando saía de um supermercado. Naqueles momentos em que as palavras voam em direção aos seus ouvidos, sem que você nada tenha a ver com o assunto.

O dono-psiquiatra canino e seu animal de estimação se encaixavam no estereótipo. O sujeito, sem camisa e rato de academia. O cachorro salivando, da raça pitbull. Pareciam feitos um para o outro.

Sempre achei estranho testemunhar sujeitos que conversam com e sobre os bichos como se eles também fossem pessoas. Deixe-me explicar antes das mordidas dos simpatizantes da sociedade protetora. Não me refiro aos códigos que chamam ou servem para dar certas ordens aos bichos.

Não consigo me acostumar com as pessoas que contam seu dia-a-dia para os cachorros. Ou explicam suas ansiedades e angústias para um gato. E olham como se deles viesse uma opinião esclarecedora, uma solução mágica para um pormenor diário.

É doce e poético ver aquela carinha de curiosidade que o animal de estimação faz diante da tagarelice do dono. Mesmo se pudesse entrar na mente de um cachorro, duvido que ele entendesse o quanto é importante a rotina do ser humano. Para o próprio ser humano, é claro. Ao ponto de ser contada para um cãozinho ou um rottweiler.

Tive vários animais de estimação ao longo da vida. Minha preferência escapava do padrão. Ou quem sabe não cair na tentação de bater papo. Tive desde um esquilo (o Alaor) até periquitos australianos que andavam soltos pelo apartamento, passando pelas tartarugas, que nos recebem com aquela animação após um dia de trabalho, como dizia uma colega de universidade.

Um dia, compreendi a dimensão da liberdade e resolvi deixar de ter animais em casa. Sumi com gaiolas, cercados e outras improvisações carcerárias. Mesmo sem eles, a casa era o cárcere. Era eu quem decidia o momento do banho de sol, da comida e do passeio no pátio.

Sei que não posso projetar em bichos as minhas contradições. E me entristeço em ver quem o faça. Nem utilizá-los como instrumento de poder. Animal de estimação é, neste caso, o interlocutor perfeito. Não dialoga. Apenas ouve. Não discute. Apenas observa. Não questiona. Fica ali, o que indica concordância com a tese do dono.

Na cidade onde moro, a Prefeitura calcula uma população de 40 mil cães e 30 mil gatos. Muitos deles passam pelos canis, vítimas de violência doméstica. Se são tão importantes e supostamente amados, por que apanham tanto? Não seria melhor comprar um saco de areia e pendurar no quarto? Ou o dono optar pela auto-flagelação?

Os bichos de estimação ganharam importância demasiada numa sociedade que fala, mas não conversa. Viraram apêndices na decoração. Donos solitários tentam reduzir em cachorros e gatos a dor que não reconhecem dentro de si. Tratam-os como filhos. Já ouvi o argumento de que estas crianças, quando crescerem, não cometerão traição. Ou perderão os escrúpulos que, no fundo, nunca tiveram.

Talvez seja um argumento justo. Mas justifica abrir mão de relações pessoais, do contato humano? O melhor amigo do homem elimina o próprio? Os veterinários e donos de pet shop (quase sempre a mesma pessoa) agradecem os momentos de crise. Empurram tranqueiras de toda ordem que serviriam aos nossos pares, mas – para os bichos – não passam de caprichos. Enfeites, adereços, entre outras peças de vestuário que poderiam colocar qualquer cachorro numa passarela.

Uma socialite carioca ficou famosa ao gastar uma fortuna no casamento da cachorra dela. Convidados das duas espécies puderam dividir o buffet. Casamento arranjado. Lua-de-mel escolhida à revelia dos noivos. Cadê o bom e velho cruzamento quando o coitado do vira-latas está no cio?

Entre donos de animais, é normal que a queixa de como o bichinho é mimado, cheio de privilégios, preguiçoso e outros defeitos. Fala de quem? O comportamento de certos animais de estimação não reproduz o que os donos esperam ou ensinam a eles?

Uma amiga, recentemente, andava pelas proximidades do canal 3, na região mais rica da cidade de Santos. Vindo no sentido oposto, duas mulheres, ambas com bebês nos braços. Como fazia frio, ambos estavam embrulhados em cobertores.

Quando as três se cruzaram na calçada, minha amiga conseguiu entender. A empregada doméstica, vestindo o repressor uniforme clássico, carregava realmente uma criança. A mãe do bebê levava um cachorro.

Nada como uma relação entre iguais. Entre bipolares e esquisitos, quem precisa de terapia?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Porto: manda quem pode, obedece quem faz política

“O presidente da Codesp ligou diretamente para o ministro Pedro Brito, que falou com a Casa Civil, que falou com o ministro do Meio Ambiente, que revogou a decisão.” A declaração é do deputado federal Marcio França (PSB-SP), dada à repórter Rejane Lima, de O Estado de S.Paulo.

França disse que pediria uma investigação na Câmara Federal sobre a postura do Ibama, que interditou o Porto de Santos por três horas na última quinta-feira. No mesmo dia, o Instituto fechou o Porto de Paranaguá (PR) por oito horas. O local foi reaberto por liminar concedida pela Justiça Federal. Em ambos os casos, a alegação dos fiscais foi descumprimento do prazo para apresentação de documentos que visem o licenciamento ambiental.

Os dois episódios indicam, com a clareza de um cristal, que meio ambiente é o assunto menos importante para os envolvidos. A ordem é fazer política mesmo. Se possível, da maneira mais rasteira, ignorando a importância institucional em detrimento do personalismo de dirigentes e amigos da corte. Prevalecem os telefonemas vermelhos e “sabe-com-quem-está-falando?”.

Em qual Ibama devo acreditar? No escritório de São Paulo, que tomou a decisão de lacrar o Porto de Santos, ou em Brasília, distante milhares de quilômetros, mas colado nos corredores do poder. Se os escritórios de São Paulo e do Paraná tomam medidas semelhantes no mesmo dia, há um padrão de comportamento entre as unidades estaduais? E este padrão, se existe, é via contrária à postura do centro nervoso, na capital federal? Os dois escritórios fizeram política rasteira?

O Ibama não fala língua única. São vários idiomas, escolhidos conforme os ventos da política. Perde a política ambiental, frágil na gestão Lula. Perde a instituição, à mercê de fiscais super-poderosos ou de autoridades de terno e gravata cinzas. A situação mostrou um instituto desgovernado, o que facilita exatamente aqueles que deveriam temê-lo, os infratores. Se a coisa fosse séria, jamais a Codesp ignoraria a decisão do Ibama de São Paulo, sob o argumento de que seguia as determinações de Brasília.

Outro ponto nesta história é como o Porto de Santos se relaciona com a questão ambiental. È um barril de pólvora com um fósforo aceso ao lado. O porto faz jus à cor cinza de muitos armazéns abandonados. Não há controle ambiental digno do nome. Política para o setor se restringe às brincadeiras pontuais, sem planejamento de longo prazo e avaliação das conseqüências, conhecidas por todos, mas dispensadas para o fundo do canal do Estuário.

O Porto de Santos, por exemplo, não tem controle algum sobre a água de lastro despejada pelos navios. A água colabora com a poluição do canal e das praias, além de trazer uma série de espécies invasoras, que alteram e corrompem o ecossistema local.

Onde está a rede de esgoto? È possível imaginar onde vai parar toda a quantidade de dejetos produzidos por quem trabalha ou transita pelas áreas portuárias? È possível acreditar nas bandeirinhas verdes que asseguram a balneabilidade das praias? Bandeirinhas verdes que enfeitam o mar negro.

O Porto de Santos recebe milhares de caminhões todos os dias. Os motoristas e seus veículos ficam amontoados em pátios, sob condições insalubres. Muitos veículos não passam por fiscalização e são máquinas produtoras de fumaça. Sabe-se que o problema é mais profundo do que o próprio calado do porto. Optou-se pelo modelo de transporte sobre rodas, somado à timidez nos investimentos na malha ferroviária brasileira. Nada justifica tratar caminhoneiros como se fossem gado à espera do abate.

Quem mora em Santos já sentiu inúmeras vezes cheiros desagradáveis com origem no porto. A Cetesb detecta o problema, aplica uma multa equivalente ao cafezinho dos executivos e a vida segue, com a rotina de vazamentos muitas vezes atrelados ao excesso e à rapidez da produção.

Os milhares de trabalhadores que mantém o cais em funcionamento 24 horas por dia recebem treinamento sobre o impacto ambiental de suas atividades? No máximo, segurança do trabalho, sem a fiscalização rigorosa em muitos setores.

Pensar em meio ambiente é muito mais do que repor meia dúzia de plantinhas ou capacitar meia dúzia de moradores para funções mal remuneradas, como acontece em obras nas margens portuárias. Pensar em meio ambiente é avaliar o impacto do relacionamento entre o homem e o espaço onde vive, com quem interage. Ligar o tema somente com bichinhos e árvores é crer em duendes atrasados 25 anos.

Lacrar dois portos brasileiros deveria envolver uma discussão como estes locais entendem e atuam em relação ao meio. Ainda que focalizem o crescimento econômico como único caminho ao paraíso, portos são muito mais do que recordes na movimentação de cargas. Quem ganha com os números? É necessário considerar que um dos motores atuais é justamente a conexão com meio ambiente. Só que tal mentalidade implica em questionar o imediatismo como o único combustível.

Esta história, entremeada por ligações (telefônicas ou não), retrata como a classe política não vai além das tapadeiras que cegam o horizonte social. Discutir o assunto com seriedade é apenas plataforma de campanha, nada diferente de abraçar criancinhas. Se o encontro “afetivo” se der em oficinas isoladas de reciclagem e outras medidas circenses, melhor ainda.

No fundo, o lobo segue como cordeiro, com pelagem cinza, e mostra garras e dentes quando se duvida do Deus-progresso, com o milagre da multiplicação dos cifrões.

domingo, 11 de julho de 2010

A fúria morreu!

A fúria espanhola acaba de falecer. A morte foi decretada há poucos minutos por profissionais holandeses. A Espanha matou sua fúria para o próprio bem. Para o bem do futebol. Para a sobrevivência do modelo atual de jogo (bom ou ruim, outra conversa!). Se pretende enterrá-la, as próximas competições serão a resposta.

Um time furioso é descontrolado em termos emocionais. A Espanha campeã do mundo é fria, calculista no modo de jogar. Jamais perde o controle da partida. Passa a maior parte do tempo com a bola. Espera o momento de dar o bote.

Um time furioso é afoito. Corre demais. Joga pouco. Tem pressa para ganhar. Perde o mais rápido possível. Não desenha e costura uma estratégia. Falece nu e exposto pelo adversário. O time espanhol move-se peça a peça, como se o campo fosse um tabuleiro. Ninguém faz além do que foi combinado.

Um time furioso é consumista. A Espanha é uma equipe segura (de punhos fechados), como dizia a minha avó. Pratica algo entre o futebol-arte, de espetáculo, e o futebol de resultados, expressão tão gasta e distorcida hoje. O fato é que joga o suficiente para vencer. Economiza nos defeitos. Investe nas virtudes.

Um time furioso sucumbe ao estrelismo e à vaidade dos protagonistas. Normalmente, seleções assim ficam pelo caminho. Ocupam a prateleira daqueles que poderiam ter sido. Outros times espanhóis reproduziam este estilo de vida. Morriam nas quartas-de-final. Esta Espanha atua com agudo senso de coletividade. Os reservas mantém o nível dos titulares ao ponto de um desavisado não enxergar as substituições.

Um time furioso dispensa o equilíbrio. O desnível entre as partes se sobressai nos momentos decisivos. A Espanha de hoje tem jogadores de qualidade elevada em todas as áreas. Não se fala em um ou dois jogadores que podem desequilibrar a partida. A seleção espanhola não tem este vício. Vários atletas podem ocupar o papel principal, certamente provisório.

O zagueiro Puyol marcou contra a Alemanha. O meia Iniesta, contra a Holanda. O artilheiro do time, David Villa, não fez gol nos dois últimos jogos. Era mais um finalizador do conjunto que tocava com entrosamento.

Um time furioso é escravo das emoções. A Espanha campeã do mundo é sentimental na dose certa. Destila suas contradições, ansiedades e angústias em doses homeopáticas. O goleiro Iker Casillas, por exemplo, transpira segurança, mas chora quando sua equipe marca a cinco minutos do final da prorrogação. Sabe que ali é o momento de extravasar, sem que a defesa se preocupe além da própria função.

Um time furioso vomita raiva para esconder o pânico. Dos outros e de si mesmo. A Espanha não compartilha do medo que paralisa. Teme como qualquer vencedor, que utiliza este sentimento como combustível para manter o nível de respeito pelo outro, sem deixar de lado a ideia de que precisa derrubá-lo.

Um time furioso fica vermelho de sentimentos que beiram o ódio. E passa por um processo de metamorfose, onde nascem pintas amarelas por todo o corpo. O passo seguinte é a cegueira. O ódio, máscara da insegurança, leva ao amarelão, à palidez da anemia que corrói as pernas-de-pau. Os espanhóis de hoje ficam vermelhos como sua camisa, mas de gana pelo resultado.

Um time furioso tem, na figura do comandante, um orientador. O técnico espanhol não deu chiliques à beira do campo nem socos no banco de reservas ou se recusou a cumprimentar adversários. Jamais puxou para si os holofotes ou proferiu discursos pseudo-politizados. Vicente del Bosque montou o time e fez com que jogasse. Escolheu os melhores e os trocou quando atuavam apenas com o nome.

Um time furioso, acima de tudo, é moldado para perder. Vira presa fácil pelo simples fato de que a fúria é a arma que alimenta o adversário. O Brasil ensinou, por vias tortas, o quanto ser furioso pode reerguer um oponente ainda grogue. O mesmo oponente que não conseguiu abalar a defesa espanhola e seu excelente goleiro.

A Espanha, com apenas dois gols sofridos, jamais vestiu a fantasia do nervosismo, mesmo quando perdeu para a Suíça, na estréia. Ali, prevaleceu a ansiedade de martelar uma defesa quase imbatível, de um time que simboliza a antítese do jogo, a abdicação do gol. A Espanha sabia que, naquele dia, era o momento em que a Copa do Mundo autoriza a derrota.

Ser campeão do mundo, em qualquer coisa, exige maturidade. Ser maduro, algo que nunca se descobre enquanto se vivencia a experiência, é respirar paciência, olhar com serenidade e agir com cautela. Combinação fácil de se receitar aos outros, improvável no ato de transformar em prática cotidiana.

A Espanha talvez ainda não saiba que está madura. Os sintomas começaram a se manifestar há dois anos, na conquista da Eurocopa. Tiveram o período de incubação nas eliminatórias. Explodiram nas últimas sete partidas, especialmente na tarde de hoje (noite na África do Sul).

A Espanha se livrou da fúria. Matou-a por falência múltipla dos órgãos. O velório foi transmitido pela TV. O sepultamento ficará a cargo da família.

sábado, 10 de julho de 2010

A orquestra delivery



Morar em um apartamento nos fundos tem suas vantagens. Sinto-me protegido da rotina de uma rua movimentada. Acabo alienado dos barracos na avenida, dos ônibus e seus canos de esgoto em forma de fumaça e até da gritaria de gol quando o time adversário massacra o meu. À noite, o apartamento fica bem silencioso, o que me permite trabalhar, ouvir música, ver um filme e fazer outras coisas sem a interferência sonora alheia.

De uns tempos para cá, passei ao morar ao lado de uma orquestra. Uma orquestra eclética, que varia os sons ao longo do dia. Todos os dias. O dia inteiro. O repertório não vem do mesmo lugar nem pertence aos mesmos autores. Mas parece que há um revezamento. Quando um se cansa, o outro entra em campo. Eles se completam na tortura pela privação de sono.

Os músicos nunca trabalham em conjunto. Cumprem uma rotina disciplinada, espartana. Talvez sejam uma brigada anti-silêncio, com o objetivo de manter o ar sempre ocupado por sons. Talvez o que façam tenha um caráter educativo, de levar a música a todas as faixas etárias, pelo menos da minha vizinhança. Mas sou realista e creio em um caráter egoísta, de prazer próprio, de necessidade de dizer o que pensa ao mundo, ainda que reduzido a uma quadra na cidade de Santos.

O primeiro a se apresentar prefere um trabalho solo. Canta sozinha, sem acompanhamento. Ela se parece com uma rádio popular FM, com a mesma música todos os dias. A cantoria começa por volta das oito da manhã. O show tem uma hora, uma hora e meia de duração. Depende do fôlego e do interesse da cantora. Ou até o momento que o empresário (ou dono dela?) interfere na apresentação.

A maritaca “canta” sempre de segunda a sexta. A voz dela some aos sábados e domingos. Não é que esteja com saudade dela, mas será que a maritaca tira folga? O fato é que a cantoria da bicha acontece exatamente nos dias em que eu e outros trabalhadores da vizinhança levantamos cedo. E, quando se está de mau humor matinal, qualquer barulho nasce e se reproduz embaixo da sua janela.

Dou aulas pela manhã e à noite. À tarde, como professor, normalmente levo serviço para casa. Depois do almoço, sempre por volta das duas horas, sou transportado para uma rave. Corringido: a rave impregna em mim. Também de segunda a sexta. Não estou reclamando do silêncio nos finais de semana, mas desconfio que a maritaca e o candidato a DJ sigam para os mesmos lugares. Moram juntos?

A música eletrônica dura cerca de duas horas. O DJ e a maritaca tem uma semelhança: o repertório de música única. É um bate-estaca, um putz-putz que se repete. Não há voz. Apenas aquela batida ininterrupta, que parece ter origem dentro da sala de casa. Nem sucessivos CDs de rock clássico servem de antídoto. Confesso que até me acostumei. Aprendi a abstrair a melodia sintética.



Nas últimas duas semanas, em dias esporádicos, a orquestra entregue em casa tornou-se mais eclética. E nas madrugadas. Sempre tive a preferência em escrever – este texto é um exemplo – depois que o silêncio prevalece. O telefone não toca. Apenas eu e o barulho do teclado para reger as palavras.

Ganhei duas ou três vezes por semana, também em dias úteis, a companhia de uma rádio FM, daquelas de grande audiência. O ouvinte é solidário: divide a programação com os vizinhos. São recadinhos de mulheres que se declaram solitárias, o tom meloso do locutor e seus clichês de amor, mais pagode, axé e sertanejo que compõem o cardápio habitual de qualquer emissora popular. Bandas emo são a cereja do bolo.

É ... prestei atenção na emissora. Poderia dizer que estiquei meus ouvidos para escrever este texto. Meia-verdade. Não precisei aguçar sentido algum. O som grudou como chiclete no cabelo. Penetrou no organismo com os refrões que ficam na ponta da língua e no cérebro por dias. Mantenho a pose ao mexer somente os lábios.

Não é uma reclamação, mas a maritaca sumiu há três dias. Uns dizem que o dono se mudou. Uma amiga tem a teoria (não é confissão) de que envenenaram a coitada. Se virar moda no bairro, música virará sentença de morte. Curto-circuito em equipamentos eletrônicos bastava para a paz.

Não sinto saudades da maritaca. Mas reconheço: como é difícil se readaptar ao silêncio pelas manhãs.

Lula, o candidato

A campanha para a presidência finalmente começou, aquela permitida pela legislação eleitoral. E Lula permanece como calo no sapato ou tábua de salvação, dependendo do candidato. As últimas pesquisas eleitorais indicam que Lula ficaria em terceiro lugar, se a votação fosse hoje.

No Ibope, Lula aparece com 12% das intenções de voto, na pesquisa espontânea. São três pontos percentuais a mais do que Marina Silva, representante do PV. No Datafolha, também em pesquisa espontânea, Lula tem cinco pontos. Marina, três. É óbvio que, em ambas as pesquisas, o eleitor desconhece o impedimento da reeleição.



Outros 4% disseram votar no candidato de Lula e 1%, no candidato do PT. A esta altura da corrida, Lula não deveria ser protagonista. Mas é, em parte. O presidente tem 78% de aprovação. É o presidente mais popular da história. E com intenção de subir no palanque e colocar à máquina à disposição de sua escolhida.

A tendência é que o grupo eleitoral que votaria em Lula debande para o lado de Dilma. São eleitores que mal acompanham o processo eleitoral e votam por certo grau de afinidade, não por programas de governo. São eleitores demasiado satisfeitos com a gestão atual. Pensam a partir do próprio padrão de vida e de seus familiares. A tendência, portanto, é que votem naquele que o chefe indicar.

Na conjuntura atual, este tipo de eleitor tem papel fundamental. As pesquisas indicam empate técnico, ora Dilma na frente, ora Serra na dianteira. As mudanças de liderança acontecem de curto prazo, sob efeito de circunstâncias recentes, fatos ou factóides. Por isso, a oscilação é natural. E confirma a tese do segundo turno com os dois.

È claro que não há uma transferência direta dos votos. A campanha mal começou, além do fato de que simpatizar com o presidente não significa simpatizar com a candidata indicada por ele. Não há “recorta e cola” em eleições. O eleitor se apóia em múltiplas variáveis subjetivas antes de fechar com alguém. E Dilma não tem, nem de longe, o carisma e a popularidade do chefe.



O fato é que Lula assusta os adversários de Dilma. José Serra não fala dele há tempos. Critica o governo, mas não o personaliza. Do mês passado para cá, Marina Silva parou com as críticas. Mudou o discurso. Quando visitou Santos, elogiou o governo do qual fez parte por mais de cinco anos. Os demais seis candidatos, nanicos, sofrem com a indiferença da mídia e a existência ignorada por quase todos.

Lula está descolado do PT e seus escândalos desde o primeiro mandato. Lula é visto como o pai de muitas crianças, inclusive as adotadas e as renegadas, mas bonitinhas. O presidente agrada à maioria do eleitorado pobre e de classe média. Sua posição faz enorme diferença nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. No Sudeste, a figura do presidente ajuda Dilma a equilibrar as coisas. Apenas na região Sul é onde ele não colabora nas pesquisas. Até atrapalha!

É claro que ainda estamos no início da fase do sapato gasto nas ruas, dos abraços e beijos em desconhecidos, das refeições de caráter duvidoso, que provocam o sorriso amarelo do candidato. Este momento, por enquanto, reforça a polarização entre Dilma Rouseff (PT) e José Serra (PSDB).



Ainda falta o horário eleitoral gratuito entrar no ar. Há enorme risco de reforço no Fla-Flu. Marina Silva terá somente 1 minuto e 20 segundos por dia. Os outros dois, mais de dez minutos.

Até agora, Lula só saiu de casa para pegar voos internacionais. Esperem a Copa do Mundo terminar para o presidente voltar babando da África!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

As lições dos argentinos

Texto publicado na coluna O OUTRO LADO DA BOLA, no jornal Boqueirão (Santos/SP), página 7, edição 797, 10 de julho de 2010.

Diante de uma rivalidade mais presente entre nós, é duro de admitir: os argentinos estão melhores do que os brasileiros. Uso o verbo estar porque sou esperançoso. Acredito que o futebol nacional poderá novamente superar a equipe sul-americana que mais se aproximou da arte nesta Copa do Mundo.

Os hermanos nos deram algumas lições, dentro e fora do campo, neste Mundial. Apenas temo que, pela arrogância que caracteriza nossa relação com o time de futebol, sejamos cegos, surdos, mudos e pernas-de-pau.

Os argentinos nos mostraram que, quando estavam atrás no placar, a única saída era continuar lutando. Com calma, sem chiliques nem violência. Nós optamos pelo dedo em riste, como fez Robinho diante do atacante Robben. Ou a entrada de Felipe Melo no mesmo jogador.

À beira do campo, outra diferença: enquanto Maradona apertava o rosário ou se abraçava a um reserva em via de entrar na partida, Dunga socava o banco de reservas. Sabemos que as reações e as palavras dos técnicos pouco interferem no andamento do jogo. Ainda mais com milhares de vuvuzelas nos ouvidos. Vale mais a conversa de vestiário. Mas os olhares entregam, expõem as inseguranças de um treinador.

No pós-jogo, os argentinos nos ensinaram elegância. O técnico Dunga saiu bufando. Maradona abraçou cada um de seus atletas, como havia feito nas vitórias anteriores. A coincidência sobreviveu no choro dos atletas, no campo, nas entrevistas, nos vestiários. Vivíamos de um discurso patriótico, fomentado pelo choque, pelo conflito, por raiva em palavras ríspidas.

As lições de esportividade dos argentinos apareceram ainda no mesmo dia. Nós, brasileiros, nos alimentamos da ideia de eternos donos da bola. A soberba que se baseia na nostalgia de um futebol-arte, presente hoje em jogadores-exceção, em times que duram pouco mais de seis meses, no máximo uma temporada completa. Santos é o mais recente exemplo.

A partir daí, a seleção nacional vive a obrigação de vencer sempre. Nesta lógica egocêntrica, os holandeses não venceram. Nós perdemos. E precisamos personificar os culpados. Felipe Melo, mesmo expulso com o placar definido, virou o vilão nacional. Não aprendemos com o erro histórico de crucificar o Dunga. Os pretensiosos fazem do erro a burrice.

Aliás, o técnico Dunga, alvo do preconceito que mistura o jogador e o técnico, se transformou em vidraça para aqueles que adoram dizer:

- Eu já sabia!

No momento da derrota, todos tem uma solução na ponta da língua. Sabemos o que deveria ser feito, quem deveria estar lá, clamamos por uma renovação cínica, que não reconhece que parte da estrutura permanece viva. Cinismo também presente na cartolagem, que não apontamos como co-responsável pelo fracasso. Cínicos são os cartolas que dão entrevistas como se não fizessem parte da delegação. Com a conivência de alguns seguradores de microfone.

Para os argentinos, aplausos e agradecimentos pela luta. Dez mil pessoas esperavam em festa pelos atletas. Perder para a Alemanha é tão normal quanto ser derrotado pela Holanda. Forças equivalentes, vários resultados possíveis. Assim são os galos fortes na rinha.

A equipe argentina foi convidada para visitar a presidência da República. Os governantes brasileiros, que adoram palpitar sobre tudo que não interessa aos cargos que ocupam, dão suas verdades absolutas sobre futebol. E engrossam o coro dos caçadores de bruxas. Será que desconhecem o peso da palavra?

Os governantes criticam a Copa do Mundo, mas mal conseguem colocar os primeiros tijolos a quatro anos do Mundial por estas bandas. E ainda seguem em trem da alegria para ouvir vuvuzelas in loco, na África do Sul.

Nas últimas partidas entre Brasil e Argentina, vencemos de goleada. Os vizinhos viraram nossos fregueses, dentro do campo. No restante, quem leva a surra somos nós. De civilidade. De senso de coletividade. De humildade.

O dia em que nasci em Montevidéu

Na semana passada, os primeiros sintomas apareceram. Momentos de ansiedade. Taquicardia leve. Nervosismo. Roer as unhas. As dores nos ombros, duros de tensão, foram ligeiras. Apenas um susto! O pênalti na trave, aquele perdido por Gana no último minuto, manteve minha serenidade. Mas relutei em admitir meu comportamento.

Anteontem, quase comi os dedos. Tentava me concentrar na leitura. Os olhos teimavam em focalizar a TV. O corpo curvado, as pernas tremendo, a luta contra a sede para não perder lance algum. E a decepção com a derrota para os laranjas. Dei o flagrante em mim: estava entristecido depois da semifinal. Pensei: virei um uruguaio.

Por que será que escolhemos alguém para torcer depois da eliminação brasileira? Vingança inútil? Manter o clima de Copa do Mundo? Ficar do lado mais fraco? Vibrar com a possibilidade real de vitória de Davi contra o primeiro gigante que aparecer?

Refleti um pouco sobre minha simpatia em relação aos uruguaios. Uma amiga chegou a me alertar:

- Muita gente vai torcer para a Holanda! Se ela vencer, podemos justificar que perdemos para os campeões.

É claro que a justiça está do lado dos holandeses. Única equipe que venceu as seis partidas. 25 jogos de invencibilidade. Mas fico com a paixão. Prefiro me abraçar com a raça e relativizar as estatísticas.

Percebi que simpatizo com a seleção uruguaia desde as eliminatórias. O time se classificou na repescagem, numa briga de foice contra os costa-riquenhos. Obter a classificação em jogos equilibrados contra a Costa Rica esboça o perfil de potencial vítima. Em Mundiais, é pré-requisito para virar segunda camisa.

Depois, notei que, em conversas, sempre enaltecia a forma de jogar do zagueiro Lugano, um dos símbolos da seleção. No São Paulo, Lugano disse que se recusava a trocar camisas com os adversários. Eles eram justamente ... adversários. Lugano via o uniforme que vestia como sagrado. Hoje, são poucos que encaram a partida desta forma. É uma posição um tanto radical, mas que se contrapõem ao caráter mercenário de muitas estrelas, filhotes ou não do marketing.

O Uruguai ganhou pontos comigo ao eliminar os franceses, símbolos da soberba e da vaidade neste Mundial. Os uruguaios explicaram a eles que a competição exige amor e obsessão pelo jogo. Sem isso, qualquer time vira um bando de comuns. Como a França.

Contra a Holanda, novamente o papel de franco-atirador. Novamente a pecha de zebra. Se vencesse, a surpresa! Mas foi o único sul-americano que sobrou. E incomodou os holandeses, que jamais tiveram o jogo completamente na mão. O primeiro tempo, por exemplo, terminou empatado. E os uruguaios não tinham Lugano nem o atacante Suaréz, herói pela defesa fantástica contra Gana.

Quando a Holanda marcou o terceiro gol, disse para amigos.

- Acabou!!

Como torcedor uruguaio de primeira viagem, posso justificar minha ingenuidade. Não conhecia bem aquela seleção. Logo em seguida, vi o Uruguai encurralar a Holanda como se a laranja fosse um time de principiantes.

Robben saiu de campo sorrindo. Abraçou o técnico e vibrou no banco de reservas. O atacante, mestre na perna esquerda, também desconhecia o poder da camisa celeste.

Aos 44 minutos, achei que estava no jogo do Brasil. O Uruguai marcou o segundo gol. 3 a 2. Empatar era possível! Só pensava naquele sorriso do Robben. Com que cara ficaria se o jogo fosse para a prorrogação? Seria um inválido no banco de reservas.

O Uruguai, como sabemos, ficou pelo caminho. Mas ensinou como se disputa uma Copa do Mundo. Sem floreios, sem dramas individuais. O jogo pela essência coletiva. O jogo pela responsabilidade de compreender as paixões que o envolvem. O Uruguai, com justiça, se recolocou na posição histórica de onde não deveria ter saído. Espero que não seja um fogo de palha sul-africano, para o bem do futebol deste continente.

No sábado, espero que os uruguaios fiquem com o terceiro lugar. Jogam novamente contra uma equipe bem melhor em termos técnicos. É claro que a disputa de terceiro lugar poderia brochar, sem culpa, qualquer jogador ou torcedor. Honestamente, terceiro ou quarto não faz diferença. Mas para o Uruguai sim. Um time fadado à morte prematura luta sempre com sangue nos olhos para fazer hora extra por aqui.