domingo, 20 de junho de 2010

A vítima e o monstro

Kaká foi vítima da violência dos jogadores da Costa do Marfim. Da catimba deles. Do juiz. E, principalmente, dele mesmo. A sorte dele (e nossa) é que o Brasil enfrentará Portugal, daqui a cinco dias, classificado para as oitavas-de-final e, dependendo da combinação de resultados, em um jogo de comadres.

A Costa do Marfim não saiu do previsível. O Brasil também não. Os africanos, de modo geral, perderam sua essência há tempos. Não me refiro apenas ao adversário de hoje. A maioria dos jogadores das seleções africanas foi europeizada, como o sonho inerente ao colonizador.



Na Costa do Marfim, a magia e a ginga se resumem a Drogba, ainda assim um craque dos tempos atuais, dependente da força, escravo do físico, mas dominador da técnica, com momentos de inventividade. E olha que joga a Copa com o braço direito capenga. Os demais atuam em times secundários ou tem papéis secundários em equipes de ponta. Nada muito diferentes de outras seleções neste Mundial.

Como agravante, os técnicos. A maioria nasceu na Europa e vivenciou até a alma o futebol de lá. Quando não são europeus, dirigem times como tais.

O jogo mostrou, desde o início, que a Costa do Marfim intimidaria pela virilidade. Metade da equipe africana tem mais de 1,80 metros. Muitos músculos, razoável consciência tática. O que difere a Costa do Marfim da Inglaterra, por exemplo?

Kaká sabia disso. Tem 28 anos. Está na terceira Copa do Mundo. Joga na Europa há sete anos, somente em times que disputam títulos importantes. Foi o melhor jogador do mundo. Enfrentou vários destes atletas africanos inúmeras vezes.

Por que caiu nas provocações? Concordo com a ideia de que não teria feito nada no lance da expulsão. Deixou o corpo para o marfinense. Em princípio, malandragem e auto-proteção. Nada de cotovelada no rosto, como o ator caído ao chão demonstrou.

Mas quem acompanha futebol sabe que juízes, em certas ocasiões, expulsam pelo retrospecto, para controlar o jogo e para proteger a eles próprios. Juiz de futebol precisa de apurado sentido de auto-preservação, até para preservar o jogo.

Por esta lógica, escolheu um bode expiatório. Kaká se encaixava no perfil. Jogador mais importante do time mais importante daquela partida. Havia acabado de receber uma advertência. Havia discutido várias vezes com os adversários e se queixado ao juiz. Incomodava, não apenas pelo desempenho em campo. E estava claro que o árbitro havia autorizado a caçada dos marfinenses.

Kaká não fazia uma partida primorosa. Ele joga com dores. Joga no sacrifício. Mas foi decisivo. Deu a assistência para dois dos três gols. Se
isso basta em uma partida de peladeiros de final de semana, imagina em Copa do Mundo.

Kaká foi vítima da própria tensão. Ele ingeriu pressão tamanha para arrebentar neste Mundial. Dá sinais de overdose. Na primeira Copa, foi aquele menino que ganha experiência pelo convívio. Na segunda, coadjuvante no quarteto do narcisismo e a festa. A hora seria agora. É o melhor do time, o camisa dez, sem contestações.

Kaká engoliu a estratégia de um time desesperado, que não dependia mais das próprias forças. Aquele que bate está entregue. Descer o nível representa o recurso derradeiro antes de morrer. A Costa do Marfim não queria depender dos colonizadores. Não o deles, mas o nosso. Depende dos portugueses contra a seleção (ou o exército) que representa um regime.

Kaká foi um menino. O garoto que joga com fantasia em instantes cruciais. O garoto cerebral que mata o jogo em duas bolas. E, sem soberba, sabe que vencer é parte de sua existência e responsabilidade.

Kaká foi um menino. O garoto que não teve frieza para superar as últimas armas de quem baixou a guarda. O garoto esquentado que não leva desaforo para casa. Quer vencer todas as batalhas, inclusive a dos argumentos.

A Costa do Marfim não foi a mesma da partida contra Portugal. E o Brasil deixou o nervosismo contra os norte-coreanos para trás. Até porque o monstro não era tão feio assim. Pena que Kaká se enervou com os rugidos dele. E não viu que os monstros éramos nós, os brasileiros.

6 comentários:

Pedro Henrique Fonseca disse...

É bem por ai professor. Apesar de não ter feito nada, o Kaká não poderia ter perdido a cabeça.
Mas por outro lado, cabia ao Dunga te-lo tirado de campo antes que o pior acontecesse.

anacrisalmeida disse...

Agora Inês é morta!!
Temos um técnico arrogante e prepotente, que inclusive acha que críticas ao seu esquema táticos são pessoais, hoje mesmo mais uma vez investiu contra a imprensa de forma rude e grosseira que lhe são habituais, caprichada com toques de baixo calão típicos de arrogantes vitoriosos. Vamos ver no que vai dar. Realmente, somos virtuoses com a bola nos pés, mas a cabeça, pq não evolui?
Parabéns, bela crônica!!!

Daniel BS disse...

Descordo do Pedro, Acho que kaká evoluiu bastante. Alias, quem não jogou nada dessa vez foi o Robinho, que errou muito e esteve muito apagado em campo. Kaká precisa melhorar e muito, está longe, muito longe do ideal, mas ainda assim jogou melhor que muitos que ali estão.

Qto a expulsão, achei que foi injusta. Alias, o próprio juiz deixou a chegar a este ponto. Pensem vocês ficarem tomando porrada o tempo todo, a todo momento, mas não simples porrada, mas entradas rispidas, violentas mesmo, podendo até tirar um craque da copa do mundo.

A grande realidade é que a Costa do Marfim não respeito o Brasil, não entrou em campo para jogar futebol e o kaká, bom.. o Kaká não fez nada, e olha que aquilo nem cotovelada foi, foi uma proteção contra um jogador que vinha em sua direção "Trombar" já premeditamente querendo simular alguma coisa. E C O N S E G U I U. Tudo certo... Fica pela mão do Fabuloso que marcou um golaço A lá pelé e maradona ao mesmo tempo, já que Pelé chapelou dois e marcou, Maradona botou a mão e marcou.. Luiz Fabiano simplificou... Chapelou dois, botou a mão e ainda fez o gol. É O CARA.

rs huahuahuahua

fabio disse...

Eu, como sou do contra em tudo, acho que o árbitro foi bem.

Exceto no lance contra o Michel Bastos que foi uma solada que o juiz viu e deixou pra lá.

O do Elano, apesar de desleal, não deu para perceber a primeira vista, somente com os replays espetaculares foi possivel ver o que aconteceu.

No golaço do Luiz Fabiano, a posição do juiz tb não era boa para ter certeza se a dominada foi com o braço, mas, como nessa copa os telões mostram os replays ele pode muito bem ter visto depois e até comentado com o atacante, mas ai não dava mais para voltar atrás porque a própria regra não permite.

No Brasil a imprensa defende o futebol sem contato, em que qualquer esbarrão seja falta e qualquer falta seja punida com cartão amarelo ou vermelho. Isso faz com que o jogo seja uma loteria, pois uma expulsão pode mudar totalmente o jogo e favorecer o time pior

Dennis Calçada disse...

Concordo pelanamente com tudo escrito. Melhor, quase tudo. Afinal, acredito que o juíz não tem que pegar bode expiatório nenhum (mas sabemos que isso existe sim)e sim tomar atitude em cima de fatos concretos. Ele nem viu o lance...

Lamento também a mudança no estilo de jogos dos times africanos. Como era gostoso olhar, por exemplo, jgos dos Camarões em 90 (com Roger Mila), Nigéria em 94 (com Okocha, Kanu), Gana, de Abedi Pelé..enfim..

alano_luiz disse...

MAIS UM BELO TEXTO, ESPERO QUE O NOSSO CAMISA DEZ NÃO VIRE PROTAGONISTA DOS JUÍZES MAL INTENSIONADOS, QUE IMPREGUINAM A COPA, O MONSTRO COM BEM COLOCOU ESTÁ EM NOS BRASILEIROS, QUE NÃO ENTENDEMOS AINDA O QUE SIGNIFICA O FUTEBOL COMO IDENTIDADE DO BRASIL. MARCÃO ESPERO QUE ESCREVA SOBRE OS TIMES E SUA EXPRESSÃO CULTURAL REFLETINDO, COM SUA ESCRITA GENIAL.