terça-feira, 15 de junho de 2010

Sicilio Rocco e a angústia das palavras

Dizem que quem escreve sempre opta por escrever sobre o ato de escrever. Cedo ou tarde, cai na armadilha da auto-referência. Seria uma espécie de enrolação, fruto da falta de criatividade do autor do texto. Ou da pressa mesmo, para quem está sem assunto e precisa preencher linhas. Sempre tive a suspeita de que, quando se escreve sobre o escrever, o autor fecha os olhos para o mundo, abaixa a cabeça e visualiza o próprio umbigo no horizonte.

Honestamente, não assinaria embaixo estas afirmações. Ser categórico sinaliza ingenuidade ou presunção diante de uma prática tão particular, por vezes solitária. Começo a considerar que pensar sobre a escrita pode nos conduzir para a autocrítica, o que também configura mera especulação.



Há a terceira via. Escrever sobre a escrita pode ser um frágil exercício de auto-engano e de crime lesa-leitor, que acompanhou o texto até o final na esperança de refletir sobre algo importante, saborear palavras poéticas ou simplesmente se entreter.

Não resolvi escrever sobre o escrever para fraudar sua inteligência, leitor. Escrevo como tentativa de compreender as angústias de um velho amigo, que não vejo há quase 20 anos. E que, involuntariamente, se tornaram minhas!

Os caminhos da Internet permitiram nossa reaproximação, ainda virtual. Trocas de e-mails. Leitura recíproca de blogs. Cordialidade e palavras agradáveis. Na semana passada, porém, recebi um e-mail dele, em que se questionava sobre os motivos que nos levam a escrever.

È possível, com as palavras, mudar o mundo? Ou, pelo menos, incomodar mentes? Ou – em ambições mais modestas – deixar o sujeito desconfortável na cadeira diante das palavras lidas?

A mensagem me paralisou, pois jamais tinha pensado sobre os porquês de abrir um arquivo de Word e despejar palavras em seqüência que, organizadas, formam crônicas, artigos e colunas. Levei alguns dias para pensar no caso. A primeira reação: escrevo por uma questão de necessidade. Estou viciado na morfina que sufoca a angústia das palavras desordenadas em um texto qualquer.

A conclusão é simplista, quebradiça. È pouco! Demanda um texto com mais profundidade. A intenção serve para agora. Aqui estamos!

Quando escrevo, é o único momento em que me aproximo da liberdade. Escrever é a chave para escapar das convenções, das satisfações, das cobranças, das preocupações com o que o outro pode pensar ou como ele pode reagir. Instituições e estruturas de poder se tornam relativas; balançam, ainda que no campo da imaginação.



Escrevo porque sou egoísta, porque acaricio minha própria vaidade. Quem escreve o faz primeiro para si. Imaginar um leitor médio é como buscar uma entidade invisível do além para explicar a concretude do mundo. Confessemos: quem escreve não tem a menor ideia de quem lerá e como reagirá diante do conteúdo.

Escrevo porque sonho em quebrar as regras, transgredir com os próprios valores sem me mover. Escrever é saltar o muro que protege a opressão e a manipulação do cotidiano, dar um murro no carrasco e retornar para cá sem que ele perceba de onde veio a pancada.

Escrevo para fugir de mim mesmo. Tento escapar de minhas qualidades, enaltecer meus defeitos, deixar de lado a necessidade de agradar para pertencer e cultivar minhas fraquezas com todas as forças possíveis.

Escrever é um ato de petulância para aquele que fala o que não deveria ser dito. Cheira à manifestação de humildade, de quem fala o que precisa ser dito. Ou fede à submissão dos que falam o que outros ordenaram que seja dito.

Escrever é sangrar a indignação contra a estupidez do homem e do ambiente que o aprisiona. É o suadouro contra nossa própria impotência diante de quem nos mantém inertes. È vomitar as dores que deveriam nos empurrar para longe dos cantos, rumo ao centro dos acontecimentos que nos tornam únicos.



Escrevo para manipular os outros e a mim. A manipulação para perversidade e à intolerância? A orientação rumo ao diálogo? Ou a sedução para uma estação inesperada?

Escrevo por almejar o mais alto grau de sensibilidade e poesia. Morro pelo olhar diferenciado, pelas sensações quase sempre ausentes de quem segue e não vê. O texto que sonha transpirar palavras-testemunhas do inusitado, o especial que nasce a partir do rotineiro.

Escrever é se apaixonar e, principalmente, respeitar as palavras. Nascem neutras, ganham peso histórico, constroem vidas, destroem reputações, matam crenças, ressuscitam princípios, aterrorizam os que as desprezam.

A escrita ambiciona o reconhecimento ilusório. Quem escreve veste as roupas do carrasco e o capuz da vítima. Quem escreve é refém da ambigüidade do controle sobre as palavras e da impotência quando as vê publicadas.

Escrevo para reproduzir e perpetuar a dúvida. Significa fugir da verdade absoluta e a abraçar a incerteza como uma tábua no meio do mar. Cultuar o altar das perguntas que abdicam das respostas prontas e imediatas.

Escrevo por temer a indiferença. A morte para um autor é a cela obscura da ignorância dos leitores. Punir-me seria não me ler. Matar-me seria não comentar minha obra. Enterrar-me seria virar as costas à existência do meu pensamento por escrito.

Talvez escrever seja o ordinário fato de juntar palavras numa tela branca, numa página de caderno ou em pedaço de papel de pão. Prefiro crer que escrever seja um ato complexo de libertação. Cabe a cada autor acertar o destino das algemas que insistem em arroxear os pulsos e limitar os dedos no teclado ou na caneta.

Em tempo: Sicilio Rocco é o pseudônimo deste amigo, potencial vítima das patrulhas do politicamente correto. É alguém com dúvidas tão reais quanto profundas. E que também são minhas! Como as alucinações que embalaram as afirmações deste texto.

Um comentário:

Anônimo disse...

Marcus Vinicius.
Parabéns pelo texto. A página e tela em branco são minhas tábuas de salvação quando meu coração está aos berros e os ouvidos do mundo não me escutam. Simplesmente, escrevo na tentativa de soltar minhas amaras e me libertar. Mas ao mesmo tempo, sinto que o ato de escrever é um auto-engano pois nos expomos a diversas interpretações e não chegamos a lugar algum. Zuleica.