quinta-feira, 24 de junho de 2010

Quando vencer é empatar

John e Nicolas teriam um dia, de certa forma, irrelevante. Para a imprensa internacional, para boa parte do público, para muitos dos próprios colegas de profissão. O dia seria importante apenas para eles, alguns aficcionados, familiares e amigos.

John e Nicolas vivem do esporte, mas não estão na Copa do Mundo. Jogam tênis. Menos visibilidade neste mês. Desconhecimento, em muitos endereços.

John Isner é americano, tem 24 anos e está no auge da carreira. É o 19º jogador do mundo, o que o torna um atleta importante, ainda assim conhecido entre os iniciados. Nicolas Mahut é francês, quatro anos mais velho. Está entre os 150 melhores do planeta, feito para qualquer mortal, papel secundário para quem entende de tênis.

Os dois se enfrentariam na última terça-feira na quadra 18, pela primeira rodada do torneio de Wimbledon. Quadra 18. Significa que pelo menos 17 jogos são mais importantes do que o deles.

O jogo foi equilibrado de modo que estava empatado em dois sets a dois. Mas acabou a luz natural. Probleminha que não atrasaria a programação do dia seguinte. Bastava jogar o quinto e último set.

John e Nicolas viraram recordistas. Jogam há mais de 10 horas e a partida não acabou na quarta-feira. Pararam porque até a luz não teve fôlego e foi embora. No segundo dia, foram sete horas dentro de quadra.

É o jogo mais longo da história do tênis. O jogo com maior número de games e aces (saques sem defesa ao adversário). Uma lista de marcas. A partida, no último set, está empatada em 59 a 59.

O nível técnico foi esquecido faz tempo. Os principais atletas, ex-atletas, público, todos correram para a quadra 18, agora a principal. Eram cobaias de um experimento sobre a resistência humana. Até quando agüentariam? E os juízes? E os pegadores de bola?

O público não arredou pé para ver dois atletas declararem amor ao que fazem. Era dois homens que assinaram via olhares um pacto de silêncio, de sofrimento por amor.

No Brasil, uma emissora de TV parou a transmissão de um jogo da Copa para mostrar os dois trocando bolas. Ou melhor: capengando atrás de uma bola que teimava em ficar mais rápida do que as quatro pernas.

John teve a chance de vencer três vezes. Nicolas não deixou. O empate precisava viver um dia de vitória. O dia se cansou e pediu um intervalo. Os dois agradeceram. Nicolas deitou-se na grama como se dissesse até amanhã. John saboreava aquela quarta-feira de quadra central.

O público, ciente de que testemunhou uma partida única, a final na primeira rodada, aplaudiu os dois de pé enquanto deixavam a quadra. O público gritava, não em tom maldoso, mas de agradecimento:

- Queremos mais! Queremos mais!

O futebol, o boxe, alguns esportes de luta e até o xadrez (jogo ou esporte?) permitem o empate. Seria uma forma de justiça ao equilíbrio de forças. Para os críticos, a antítese da competição, cordão umbilical do esporte.

O tênis poderia abrir uma exceção, sem medir as conseqüências, apenas como um prêmio para si mesmo. Sei lá, classificar os dois, qualquer decisão insensata para uma partida às raias da insanidade.

Ao chegar até aqui, leitor, você talvez saiba quem venceu. Importa, salvo a satisfação da curiosidade temperada com o perverso? Os deuses das quadras poderiam criar um lapso de tempo, com amnésia coletiva, para que nunca soubéssemos quem venceu. John e Nicolas seriam assim imortalizados, jamais pelos recordes, mas pela bravura em não decepcionar ninguém, em não fraquejar, em se empurrarem para o próximo saque ou a próxima devolução. No fundo, em servirem ao esporte como (às vezes) pureza humana.

John e Nicolas serão saudados por estes três dias. Uma provocação à História do Esporte que, infelizmente, prefere privilegiar os vencedores. A ironia é que, nos últimos dois dias, ela não sabe o que fazer.

Observação: A partida terminou no dia seguinte, após 11 horas e cinco minutos, no total. John Isner venceu o quinto set por 70 a 68. Ele lamentou que alguém tivesse que perder. E comemorou o resto do dia de folga, pois teria que jogar a partida de duplas.

2 comentários:

alano_luiz disse...

MUITO BOM TEXTO PROFESSOR, O SENHOR CONSEGUIU CAPTAR A DRAMATICIDADE DAQUELA PARTIDA SOBREHUMANA ONDE DOIS JOGADORES DE UM ESPORTE INDIVIDUAL E EXTREMAMENTE TECNICO,RELIZASSEM AQUELE JOGO LONGO QUE FICOU PARA A HISTÓRIA DO ESPORTE MUNDIAL. PARABÉNS. ESTAMOS ESPERANDO MAIS TEXTOS SOBRE A COPA DO MUNDO!

Rose Marques disse...

Mais uma delícia de texto, Professor!
Lendo, estava na quadra 18, acompanhando o drama e a beleza de um esporte tão intenso quanto o tênis.
Um vitória que foi um empate, com certeza.
Abração!