quinta-feira, 10 de junho de 2010

O diabo veste farda

Na segunda-feira (19 de abril), houve o toque de recolher, e não foi só os maloqueiros que fizeram isso. Foi a PM também. Minha amiga foi para a UNIESP, que fica na Av. Adhemar de Barros e contou que a "Polícia" foi até a faculdade e mandou que dispensasse os alunos. Um motorista aqui da empresa estava passando na segunda, às 22 horas, na Av. Santos Dumont, sentido praça 14 bis, e os policiais que estavam fazendo patrulha perto da praça estavam abordando todo mundo que passava a pé ou de bicicleta. Mandavam eles voltarem para casa porque estava muito "perigoso" ficar na rua. Não tinha praticamente ninguém na rua às 23h (sei disso porque fui até a Av. Santos Dumont, perto da minha casa, para tirar uma foto do breu que estava, sei que sou louca mas fui). Quem ainda estava na rua andava rápido e com medo.


O depoimento é de uma estudante universitária e indica o clima provocado no Guarujá em meados de abril. O saldo foram 22 mortos e reportagens em veículos nacionais e internacionais.

Anteontem, depois de dois meses, a Corregedoria da Polícia Militar deteve cinco integrantes da corporação. O grupo é acusado de integrar grupos de extermínio na Baixada Santista. Um deles é irmão do policial Paulo Raphael Ferreira Pires, lotado na Força Tática. Ele foi morto em 18 de abril, em Vicente de Carvalho, distrito de Guarujá.

Os cinco policiais militares são acusados de fazer parte das execuções em abril, por vingança. Paulo Raphael havia participado de investigações na Vila Baiana, na mesma cidade, quando procurava o corpo do irmão de outro policial. O irmão teria sido assassinado pelo PCC sob a acusação de estupro. Nas investigações, segundo reportagem de Renato Santana, do jornal A Tribuna, os policiais teriam agredido o irmão do traficante Eduardinho. O traficante teria ordenado a execução do PM.

A prática de grupos de extermínio, em ano eleitoral, mancha o céu de brigadeiro que reina nas declarações dos responsáveis pela segurança pública do Estado. Os assassinatos por homens de farda (ou ninjas, como muitos chamam) provocaram uma dança das cadeiras na cúpula da corporação. Houve trocas de comandantes e na Corregedoria, responsável por investigar crimes de PMs.



Policiais que se consideram juízes e carrascos não são um exemplo atual. A história é recheada de episódios que mancham, corroem e rasgam a imagem da instituição. Durante a ditadura militar, o Esquadrão da Morte. Em São Paulo, integrantes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), orgulho de campanha do então governador Paulo Maluf.

Os Pms que matavam e torturavam nos anos 90, em Diadema. O líder Rambo se transformou em dos matadores mais famosos, flagrado em “serviço” por câmeras escondidas. Os quatro Pms, condenados pela Justiça, pela morte de três garotos em Sâo Vicente, na quarta-feira de cinzas, em 1999. Os corpos foram desovados em um manguezal, em Praia Grande.

Os crimes de maio, em 2006, como uma vingança de policiais – a acusação das mães da vítimas – contra os ataques do PCC. No mês passado, a morte de um motoboy nas mãos de policiais. Para o comandante, erro de procedimento operacional. Belo nome para fuzilamento. Ah, a vítima, de etnia negra, estava algemada quando foi espancada e morta pelos policiais.

A hipocrisia de parte considerável da sociedade civil serve para tapar os olhos e criar a justificativa de que os policiais nos livram apenas de bandidos. Em um filme esquizofrênico de Hollywood, os policiais seriam os justiceiros incorruptíveis, únicos capazes de nos salvar do mal que espreita a noite. A paranóia-clichê, revisitada pelos Batmans sem capa e, às vezes, de touca no lugar da máscara.



Os policiais que matam têm a legitimação desta parcela da população, que crê – pela própria ignorância que realimenta o preconceito – na justificativa de que as balas são a água benta que exorciza o mal personificado em ladrões, traficantes, estupradores e homicidas. Se o sujeito morreu nas mãos da polícia, alguma coisa fez. Nem que seja a velha frase “lugar errado, hora errada”.

Estes policiais têm o reconhecimento de muitos defensores de uma limpeza social. Defendem que os tais marginais, sinônimo de moradores de favelas, não deveriam mais compor a paisagem. É a generalização que reforça o preconceito de classe. Tire esse bicho daí, mas não precisa me mostrar o corpo ou me contar como o trabalho foi feito.

Aí está o erro. Para entendermos que a vingança não olha necessariamente ficha criminal, sugiro a leitura de Rota 66, livro escrito pelo jornalista Caco Barcellos. Na obra, o repórter prova por métodos policiais e estatísticas que parte das vítimas tinha ficha limpa, emprego com carteira assinada e endereço fixo. O tal trabalhador, no jargão popular. Ah, mas moravam em bairros pobres e eram, em sua maioria, de etnia negra.

Esta mesma parcela da sociedade que se incomoda com os matadores de farda fica horrorizada quando a criminalidade toca a campainha dos bairros de classe média. Parte da mídia se mobiliza se a vítima tem um diploma universitário. Estudo como garantia de caráter. Vítima é sempre vítima, não importa onde nasceu, onde vive, onde cresceu, onde faz compras, onde estudou. A polícia brasileira, como repetiu várias vezes o jornalista Caco Barcelos, trabalha para proteger patrimônio, e não as pessoas.



Muitos policiais medem a criminalidade do cidadão pela cor da pele, pelo modelo do veículo que dirige, pelas marcas das roupas que veste, pelo tamanho da carteira. Basta perguntar para jogadores de futebol. São dezenas de histórias.

É óbvio que existem muitos profissionais sérios e idealistas na polícia, porém estes não podem se omitir diante de uma banda podre, que se esconde atrás de capuzes e levam a sério a brincadeira de interpretar matadores profissionais de filmes japoneses.

O curioso é que, enquanto os corpos se empilhavam em Guarujá e São Vicente, a cúpula da corporação virou as costas para as testemunhas e para a possibilidade de termos assassinos vestidos de farda. Parte da imprensa, vergonhosamente, embarcou – sem fazer o mínimo, a checagem – na versão de que não havia toque de recolher em Guarujá durante o período das execuções. Era só andar na rua.

Se traficantes e policiais, segundo depoimentos como o que inicia este texto, falavam a mesma língua, davam o mesmo recado, quem protegeria as pessoas? Quem é a polícia? Quem é o bandido? Ou será que todos resolveram ir para casa no mesmo horário, fechar o comércio, não ir à faculdade ou às escolas por solidariedade coletiva?

Estes cinco policiais devem ser julgados com dignidade pelo Poder Judiciário. O grupo deve ter a justiça que não teriam praticado enquanto autoridades constituídas. Temo, no entanto, que eles sejam somente bodes expiatórios para um câncer muito maior e mais profundo, que corrói a olhos vistos o corpo composto por mais de 91 mil policiais.

Honestamente, não é possível crer que cinco homens foram capazes de matar 22 pessoas sem qualquer suporte ou silêncio. Os cinco não seriam capazes, sozinhos, de estabelecer um toque de recolher em uma cidade do porte de Guarujá. Um ex-policial, entrevistado pelo repórter Renato Santana em abril, contou que empresas de segurança dão apoio aos grupos de matadores. A soberba é tamanha que os rastros estão ainda vivos. Até onde vai a coragem da Corregedoria para fuçar a vida dos policiais envolvidos?

Independente das provas e da lentidão para respostas, é caso de se repensar a política de segurança pública até a medula. Não basta trocar as peças do tabuleiro. É preciso mudar o jogo, mas vivemos em uma sociedade que assina embaixo a limpeza social, desde que o “lixo” não seja colocado embaixo do tapete dela.

Observação: A Corregedoria identificou e prendeu 18 policiais militares, sob acusação de integrarem grupos de extermínios. Um deles foi liberado. Os demais permanecem presos, após o reconhecimento de testemunhas.

Um comentário:

roberta estevam disse...

muito+que mudanças na segurança publica,vale lembrar,que precisamos reavaliar todo sistema político do pais.e nós cm cidadãos cívis tbm fazemos parte desse.Será que nossas atitudes tem feito a diferença,ou estamos indiferente com tudo oque está ocorrendo no momento.um bom exemplo disso ocorre em ano eleitoral,onde muitos vendeseus votos em troca de uns trocados,ou coisa qualquer.tbm somos bem passivos,quanto as decisões tomadas por esses políticos;como o negócio vai crescer sem o olho do dono.Nós somos o dono.nao podemos aceitar td tão facilmente assim o que nos é imposto.estamos conformados e acomodados e o que é pior,estamos assim até mesmo quando se trata do valor da vida,do próximo.hj tudo é normal,nada abala.nem mesmo uma criança se surpreendcom a morte,roubos entre outras atrocidades.Estamos num sistema onde cada um é por si e todos são vítimas.Se ñ houver incomodo de verdade com tudo o que está acontecendo ñ haverá mudanças reais e necessárias.agir da trabalho e nem todos estão afim.