domingo, 13 de junho de 2010

Na Inglaterra, goleiro é cargo de desconfiança

O goleiro Robert Green, da Inglaterra, se refugiou hoje em um campo de golfe. É perfeitamente natural, um dia após o frango que engoliu na partida contra os Estados Unidos. Ali, dois pontos tornaram a falha do goleiro ainda mais visível. Primeiro, o fato de a partida ter terminado 1 a 1. O resultado o tornou centro das discussões. Depois, no lance em si, quando o goleiro se arrastou atrás da bola e a viu morrer dentro do gol. É, no jargão, quando o goleiro tenta apanhar o frango pelas penas.



Os goleiros ingleses estão expostos. Ninguém confia neles. Os outros dois convocados pelo técnico Fabio Capello, James e Hart, também jogam em times de menor expressão da liga inglesa. Dos três, Hart é quem atua na equipe que melhor se classificou na última temporada, o Birmingham, nono colocado.

Algo aconteceu no reino de Elizabeth. A seleção sempre teve goleiros confiáveis, muitos deles excepcionais, que provocavam preocupação, respeito e até medo nos atacantes. Hoje, geram apreensão nos zagueiros ingleses. Não se trata de deficiência técnica profunda, mas de irregularidade, além de não poder contar com eles em situações cruciais de jogo. Os três são apenas bons goleiros, o que os torna comuns. Grandes goleiros também falham, mas são decisivos.

A principal teoria é que os grandes e médios clubes da liga inglesa abriram mão de formar mão-de-obra para esta posição. É mais fácil e menos arriscado contratar goleiros estrangeiros. O campeonato inglês é o de maior faturamento do planeta – passa da casa de 1 bilhão de libras por ano – e um dos mais globalizados.

O goleiro estrangeiro vem pronto, com experiência e qualidade garantidas. Nesta posição, um atleta de ponta leva anos para ser formado. Quase ninguém, entre os times de elite dos grandes centros, escala um goleiro de 20 anos. O goleiro é geralmente o atleta que encerra a carreira com mais idade, mas também assume a titularidade mais velho. Nas demais posições, juventude tem sido uma grande vantagem.

Na última temporada, dos dez melhores times da primeira divisão da Inglaterra, oito tinham goleiros estrangeiros. Veja a lista:
1° - Chelsea - Petr Cech (República Tcheca)
2° - Manchester United – Van der Sar (Holanda)
3°- Arsenal – Almunia (Espanha)
4°- Tottenham – Gomes (Brasil)
5°- Manchester City – Shay Given (Irlanda)
6°- Aston Villa – Brad Friedel (Estados Unidos)
7°- Liverpool – Pepe Reina (Espanha). Obs.: O goleiro reserva é Diego Cavallieri (ex-Palmeiras)
8°- Everton – Tim Howard (Estados Unidos)
9°- Birmingham – Joe Hart (Inglaterra)
10°- Blackburn – Paul Robinson (Inglaterra)

O próprio técnico Fabio Capello não sabia quem escalar às vésperas da estréia. Optou por Green, que atualmente joga pelo West Ham. A equipe escapou do rebaixamento em cima da hora. Teve a terceira defesa mais vazada da liga, com 66 gols em 38 partidas.

Cresci admirando os goleiros ingleses. Eram sujeitos discretos, daqueles que falavam o necessário em campo, o suficiente para arrumar a defesa. Seus zagueiros os seguiam cegamente. Não eram dados às defesas espalhafatosas. Preferiam a colocação. Até seus uniformes, de cor cinza, pareciam sem vida.

A melhor defesa da história da Copas é mérito de Gordon Banks que, contra Brasil, em 1970, espalmou uma cabeça de Pelé à queima-roupa. Pelé estava dentro da pequena área e cabeceou para o chão. O golpe quase sempre resulta em gol. Banks tirou a bola no canto direito. Aquela partida terminou 1 a 0 para o Brasil, graças ao goleiro inglês.



A fábrica de goleiros manteve o padrão com Peter Shilton, atleta que mais vestiu a camisa da Inglaterra. Shilton jogou 125 vezes pela seleção (recorde) e foi titular nas Copas de 1986 (México) e 1990 (Itália). Ela tinha todas as características de um goleiro com liderança. Era sereno e duro. Transmitia confiança pela discrição. A segurança estava no posicionamento. Jamais nos vôos para fotografia, marca de muitos goleiros da atualidade.

Peter Shilton também entrou para a história por ter sido a vítima de dois gols de Maradona. Na vingança das Malvinas, Maradona fez um gol irregular (mão de Deus) e aquele em que driblou seis atletas ingleses; o último era Shilton.



Com a aposentadoria de Shilton, começou a fase das críticas. David Seaman estava entre os melhores, mas não se comparava aos antecessores. Talvez por isso apanhasse tanto da imprensa da Inglaterra, tão corneteira quando a nossa. Seaman é lembrado por muitos torcedores brasileiros por causa da falha no gol de Ronaldinho Gaúcho, em 2002.

O trio que está na África não poderá ser alterado. O técnico Fabio Capello está de mãos atadas. Tem que confiar em Green que, aliás, salvou o time um chute de Altidore, no segundo tempo da estréia.

Se quiser uma vida mais tranqüila na África do Sul, a Inglaterra de Rooney, Gerrard, Lampard e Beckman (apoio moral no banco) precisa torcer para o Green do segundo tempo. E enterrar as penas do frango no campo de golfe ainda hoje!

Um comentário:

alano_luiz disse...

É FATO QUE O FUTEBOL DOS INVENTORES, SOFRE COM ESTÁ RELAÇÃO DE FORMAR BONS GOLEIROS, O FUTEBOL INGLÊS É O MAIS SOFRIDO, DEVIDO ESTE INCHAÇO DE ESTRANGEIROS, QUE REVIVERAM O CAMPEONATO DELES NO ÍNICIO DA DECÁDA DE 90, AGORA ELES TÊM QUE REPENSAR, A SUAS SELEÇÕES, DESDE A SUB-11 ATÉ A OFICIAL, PARABÉNS MARCÃO, MAIS UMA BELA SACADA NÃO UM BELO CHUTE DE SEM PULO, COMO O LAMPA FAZ EM SEU TIME, E NÃO NA SELEÇÃO INGLESSA.