terça-feira, 22 de junho de 2010

Corpo que salva, corpo que mata



Lindsey Scott era uma inglesa de 28 anos. Nasceu com uma doença hereditária, chamada fibrose cística, que provoca deficiências progressivas. A saúde dela se agravou no início do ano passado. A fibrose gerou estragos, principalmente, no sistema respiratório. O quadro exigia um transplante de pulmão.

Em fevereiro de 2009, Lindsey foi operada no University Hospital of South Manchester. O pulmão transplantado era considerado “marginal”, expressão usada para definir o órgão que pode apresentar problemas, mas ainda assim é visto como seguro pelos médicos.

Lindsey morreu em julho do mesmo ano, de pneumonia. Esta semana, a família descobriu que o pulmão transplantado pertencia a um homem que fumou por 30 anos. O caso virou um escândalo na Inglaterra, onde dobrou o índice de doações de órgãos marginais nos últimos 10 anos.

O hospital inglês alegou que a dificuldade no uso de órgãos em perfeitas condições se deve à combinação entre o baixo número de doadores e a alta mortalidade dos pacientes antes do transplante, em torno de 30% por casos.

Na mesma semana, aconteceu a inauguração oficial, em São Paulo, do primeiro hospital público especializado em transplantes do país. O Hospital de Transplantes Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, conhecido como Hospital Brigadeiro, é um passo importante para se reduzir a fila de pessoas que esperam por uma operação deste nível. O hospital existe desde a década de 60, mas antes realizava cirurgias reparadoras, prática recentemente abandonada.

O Hospital Brigadeiro faz transplantes desde janeiro. No período, foram 47 transplantes de rim, nove de fígado e oito de córnea. A capacidade é de 630 cirurgias por ano. O local é um sinal de esperança, mas pouco ameniza a agonia na fila no Estado de São Paulo. Segundo a Secretaria de Saúde, 8.209 pessoas esperam por um rim. Depois, vem os que aguardam por fígado e pâncreas. Neste último, a mortalidade atinge 50% em casos de câncer.

A situação é mais tranqüila no caso de transplante de córneas. A espera se reduz a um mês. Na Baixada Santista, a Santa Casa de Santos realiza este tipo de cirurgia há anos.

O número de doadores cresceu 34,5% no Estado no último ano, mas ainda há muita desconfiança por parte das pessoas. Uma desconfiança que mistura preconceito, obscurantismo religioso e desinformação.

A recusa em doar me parece ter relação com o corpo e o papel que exerce na identidade humana. O corpo como patrimônio principal do homem. Uma prisão não apenas estética durante a vida, mas o principal item do pacote quando se tenta enganar a morte. É comum ouvirmos pessoas que acreditam ficar incompletas no “outro lado”, caso doem seus órgãos.



O discurso religioso de muitas instituições reforça a tese do corpo humano como sagrado, intocável, por vezes sustentada em discursos pseudo-científicos ou de fundo simplesmente especulativo. É como se, ao morrer, a deterioração da massa corpórea não fosse um processo inevitável ou se fosse a única possibilidade de identificarmos a nós mesmos.

É claro que somos também o nosso corpo. Por ele, é possível ler e interpretar comportamentos, hábitos e valores culturais. Mas será que apenas o físico nos faz humanos? Até que ponto ele submete a consciência (ou a alma) humana a uma posição secundária? A consciência não é fator determinante para que este corpo seja o que é?

O homem atual é escravo de seu corpo. É escravo da aparência, do julgamento alheio, da imagem que o corpo – socialmente – possibilita. A casca que serviria como explicação absoluta para sabermos quem é o dono daquele conjunto de ossos, músculos, tecidos ...

A escravidão também se dá no temor paranóico da morte. Busca-se o rejuvenescimento a altos preços (não apenas monetários), com o objetivo de retardar a degradação deste corpo até a chegada do fim. O corpo seria o início e o fim da condição humana? Como se o envelhecimento fosse a única forma de deformação do indivíduo. Basta observar corpos perfeitos, vazios de sensibilidade, de espiritualidade, preenchidos por uma alma acinzentada e auto-desvalorizada.

O corpo também se transformou na metáfora da máquina, fruto de um olhar cartesiano que foi aprimorado a partir da modernidade da Revolução Industrial. Corpos seriam engrenagens, assim como a natureza. Ambos, neste sentido, poderiam ser regulados, refeitos em sua mecânica até o descarte final.

Hoje, consumimos a máquina alheia, seja por admiração, seja por relações efêmeras ou aceitação social. Mas também consumimos nossos corpos, com um estilo de vida que não considera o amanhã.

Corpos representam ainda o apego ao materialismo. Amamos as coisas concretas como formas de justificar quem somos. Somos embalados da cabeça aos pés em etiquetas que nos posicionam na vida pública. O abstrato e o simbólico, traduzidos em valores e sentimentos, não são formas mais cristalinas de nos apontar nossas qualidades e deficiências?

Francamente, acredito com profundidade na visão que estabelece o corpo como mero instrumento de um período de passagem. Não procuro crer cegamente no outro lado ou no que há nele. Se houver algo, não precisamos de órgãos ou da combinação deles para estarmos lá. São vagas teorias para o que nos espera, ótimas para a um debate cheio de dúvidas, mas frágeis para as certezas.



Somos o que o campo da abstração nos permite. Somos nossos valores, histórias, experiências, relações com o outro. O corpo é o transporte que nos leva até estes endereços.

O transplante é, acima de tudo, uma porta para que o sujeito possa se manter conectado às experiências abstratas. O órgão que salva é no mundo concreto uma questão de saúde pública. O órgão doado dá ao paciente a chave para acertar e errar várias vezes, quantas desejar. Mais do que isso: poder perceber o quanto a vida pulsa nos detalhes, nos mínimos encontros, nos acasos ou nos desenhos traçados.

Para muitos, a chance de vivenciar estes aspectos, infelizmente, não está na perspectiva poética. Depende do aperfeiçoamento do sistema de transplantes, com mais agilidade para conectar os órgãos doados e o receptor. Vontade política e boa gestão de recursos resolveriam o problema.

O mais difícil é alterar mentalidades, com alicerces impregnados por verdades absolutas e pelo eu como centro das relações humanas. Não doar é um ato de egoísmo, quiçá de indiferença àquele que se encontra ao lado.

Não seria necessário dizer, leitor, mas é sempre bom evitar interpretações perniciosas. Que fique registrado aqui, neste texto, que ao morrer, sejam doados todos os meus órgãos. Os que puderem permitir a vida a outros, evidentemente. O restante, que seja de bom proveito nas aulas de uma faculdade de Medicina. Nada mais trágico do que ceifar a chance de viver, como aconteceu com a inglesa de 28 anos, proibida de errar por ela mesma.

3 comentários:

joão thiago disse...

Eu, enquanto evangélico, doador de órgãos e bom entendedor da frase "do pó viemos, para o pó voltaremos", deixo aqui claro, também, que meus órgãos estão completamente disponíveis para doação. Afinal, mesmo que voltássemos à vida com o mesmo corpo, Deus não teria a capacidade de restaurar os órgãos doados? Pois é... mentalidade infeliz dos que pensam no corpo como caminho absoluto de contato com Deus.

Representando os evangélicos conscientes, quero dizer que temos feito muito para mudar a visão que alguns de nós têm da doação de órgãos. Um bom exemplo é que, nas duas últimas Marchas para Jesus, duas grandes campanhas de captação de nomes para doação de órgãos e sangue obteve grande sucesso. Estabelecemos uma boa parceria com alguns bancos de sangue da cidade e com a Santa Casa de Misericórdia, que sabe que pode contar com os evangélicos sempre que precisar. Sei que este espaço não tem esta finalidade. Meu objetivo aqui é apenas demonstrar que nós não estamos à parte desta briga. Ao contrário, estamos abrindo a mente dos nossos para que entendam que Deus tem um propósito em nossas vidas, não necessariamente em nossos rins, corações, fígados, etc, mas na vida. A que temos aqui e a que vamos levar para lá. Obrigado por trazer este assunto tão pertinente à baila. Precisamos de discussões sérias sobre esta questão com urgência. Muitas vidas podem ser poupadas por isso.

Ministério disse...

Olá João Thiago,
A doação de órgãos é sem dúvidas um ato de amor ao próximo que salva vidas. Para ser doador não é preciso deixar nada por escrito. O principal passo é conversar com a família e avisar sobre a sua vontade de doar. Os familiares devem se comprometer a autorizar a doação por escrito após a morte.
Para mais informações: comunicacao@saude.gov.br
Ministério da Saúde

Rafael Oliveira Alves disse...

Pensar na invenção do projeto de homem moderno é também pensar no corpo relacionado aos discursos que gravitam na sociedade.
O corpo é símbolo. Vemos essa proposição legitimar-se desde a nobreza, onde o discurso político atrela-se ao religioso, encarnando a unção divina como elemento que garante a imortalidade do ser (para mais detalhes ver "Os dois corpos do Rei" KANTOROWICZ), até às camadas emergentes da sociedade pós-moderna, que impedidas pelo projeto de consumo de adquirirem bens que envolvem o corpo, e consequentemente representam papéis, alimentam a vontade de potência que as corrói.
O homem tem a necessidade de libertar-se, e aqui encontramos novamente o corpo, pois dominando as categorias ontológicas emanadas da natureza, o homem aproxima-se do que o transcende, quando o empirismo dessa relação entra em crise, surge a retomada de valores que impede a sensação de liberadade.
A alma, é a prisão do corpo, e não o contrário. Se o interstícios representado pelo supracitado caso não traz à tona o gritante mal-estar social e os mecanismos de controle que o posiibilitam, recolher-me-ei ao niilismo que abriga aos que refletem sobre tais pressupostos, e continuarei observando semelhantes "consumindo corpos na balada" parafraseando o professor Marcus Vinicius.