quarta-feira, 30 de junho de 2010

Gana e o falso orgulho africano



Depois das oitavas-de-final, a seleção de Gana é a única representante do continente africano na Copa do Mundo. E basta! É falsa a idéia de que o time poderia representar o orgulho africano no Mundial, como repetem a Fifa e parte da imprensa. O conceito de orgulho africano não existe. Significa uma proposta simplória, frágil e perversa de se analisar a competição.

Gana representa a si própria como país e, neste ponto, já existem inúmeras dificuldades para se construir uma identidade em torno da seleção. Nenhum titular atua em Gana. Dos 23 convocados, 20 jogam fora do país, principalmente na Europa. O técnico Milovan Rajevac nasceu na Sérvia.

O time, assim como as demais nações africanas eliminadas da competição, vive em um purgatório do futebol. Perdeu boa parte das raízes africanas no jogo, como a ginga, a inventividade, a ingenuidade que marca os praticantes jovens de um esporte. Perdeu a pureza que enriquece o futebol como espetáculo de sensações.

Durante a metamorfose, a seleção absorveu muitas características do futebol europeu, seja pela experiência individual dos atletas, seja pela pressão ou influência de treinadores. Gana pratica um futebol de força, amarrado taticamente, sem espaço para a criatividade. A equipe, robotizada, injetou uma overdose da pior parte das características européias.

Gana não pratica um esporte à européia, mas também não pode ser vista como uma legítima representante do futebol da África. Vaga pelo limbo da globalização do futebol. Virou uma igual ao sucumbir à padronização da técnica e da estratégia. Joga como as seleções européias de segunda linha, com pequenas diferenças, principalmente os lampejos de alguns atletas ainda adeptos da improvisação. Mas perdeu Essien, do Chelsea, que não foi ao Mundial, e tornou Gana um time ainda mais ordinário.



Por trás do debate sobre a europeização do futebol da África, está uma questão de identidade cultural: existe um futebol africano? Assim como África é uma concepção genérica, fruto de uma visão colonialista, o mesmo acontece com as seleções de futebol. É impossível colocar no mesmo saco os cinco representantes do continente e dizer que eles são o futebol africano. Como se fosse uma identidade só.

O conceito de África é somente uma delimitação geográfica, que reforça os rótulos e os preconceitos contra o continente. A África, neste sentido, assumiria o papel de lugar violento, miserável, selvagem e doente. Violência e prepotência é desconsiderar valores culturais, histórias e formas diferentes de viver em um continente múltiplo e vasto.

É insano resumir 53 países, com suas particularidades culturais, políticas e econômicas, como A África. O olhar europeu necessita desta simplificação para reforçar sua imagem de superioridade e, é claro, sustentar a África logo abaixo. Nada diferente dos Estados Unidos quando olham para o sul e dizem:

- Latinos! Hispânicos!

Ou é possível crer que uruguaios e porto-riquenhos são irmãos gêmeos? Ou que nós, brasileiros, somos o clone cultural dos dominicanos? Mal parecemos com os vizinhos de porta, os argentinos.

Assim como a perspectiva européia uniformiza o continente, a Fifa apela para a uniformização do futebol africano. Com a diferença que as razões da entidade que controla o futebol são financeiras, mercadológicas. A Fifa teme a queda de interesse entre as nações africanas pelo Mundial. É sentimentalismo barato para quem nunca olhou direito para as necessidades do esporte naquela região.

A Fifa engrossou o coro de exploradores ao fechar os olhos para a saída de atletas a preço de banana. Jamais propôs uma política de longo prazo que desse solidez ou profissionalizasse as ligas locais. Os olhos dos velhinhos que comandam a entidade estão vidrados na Europa e seus campeonatos de alta rentabilidade econômica.

A Fifa sempre fez política, mas finge que não a pratica. A Fifa sempre se associou a governos das mais variadas ordens e comportamentos. A ordem é não se envolver, como se fosse possível separar futebol e política. Omitiu-se em questões de caráter geopolítico se o bolso estivesse cheio de notas verdes. E insiste em negar a co-responsabilidade na transformação do futebol de vários países africanos em um frankstein de chuteiras.

Gana não é um continente em 11 corpos. È apenas a única representante dele, fruto de um futebol promissor, que não evoluiu, foi transfigurado. Não é o fato de sediar uma Copa do Mundo que vai tirar os principais países da África de um papel secundário dentro do futebol. A exceção é a formação de mão-de-obra barata para times da Europa. Neste caso, cerca de 10 países do continente, juntos, são protagonistas.

Gana pode derrubar o Uruguai e até alcançar a partida final. Mas isso não muda o quadro, apenas o ratifica. Os times africanos são chamados de surpresas em Copas do Mundo desde 1982, na Espanha, quando Camarões empatou três vezes, uma delas contra a Itália.

Em 1996, a Nigéria foi campeã olímpica. Nesta Copa, ficou em último no grupo. Em 2006, não disputou a competição. Não vence uma partida em Mundiais há 12 anos. O Governo nigeriano decidiu retirar a seleção de competições internacionais por dois anos, com o objetivo de reavaliar a estrutura local do futebol e supostamente investigar denúncias de corrupção.

Os casos isolados se repetem e reforçam a paralisia do futebol daquele continente. Gana não simboliza mudança. Veste a camisa das circunstâncias. Não era hora de mudanças estruturais em vez de promessas pontuais?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Os medos que nascem na padaria

Faltavam dez minutos para o início do jogo entre Brasil e Portugal. Esperava um jogo amarrado, mas jamais uma partida de compadres. Como sonhamos com a vitória, repetimos sem culpa certos rituais que envolvem um jogo de futebol. Para alguns, são superstições. Para outros, a única forma de garantir a comunicação com Deus, que vai interferir no resultado. No meu caso, sede mesmo, mais a vontade de completar a tradicional pipoca nas partidas da Copa do Mundo.

Resolvi entrar em uma padaria a umas três quadras de casa, assim que desci do ônibus. Fui à geladeira e peguei a garrafa de refrigerante zero. Pipoca e Coca zero? Todos temos o direito a pequenos atos de cinismo. Pipoca de microondas equilibrada com refrigerante zero. Hipocrisia 1 a 0.

A decoração da padaria era metade Brasil, metade Portugal. Cheguei no caixa, duas pessoas no atendimento. O dono da padaria e a esposa. Ele, com a camisola portuguesa. Camiseta, em português de lá, não a roupa feminina de dormir, pô! Ela, de camiseta amarela. Na hora de pagar, puxei assunto:

- O jogo, daqui a pouco, quem ganha?

O dono da padaria respondeu:

- Os portugueses.

A mulher reagiu como se esperava:

- É claro que o Brasil vai vencer.

O dono da padaria, talvez com medo da mulher, ou pensando em não perder o cliente, ou ainda sonhando em manter a harmonia no estabelecimento e fora dele, achou que fecharia questão:

- Vai dar empate!

Respondi sem pensar! Jamais imaginaria que o português pudesse passar mal. Não passou, mas acho que chegou perto. Pelo menos mais perto do que Cristiano Ronaldo do gol.

O rosto do dono da padaria transfigurou quando lembrei que o empate colocaria Portugal em segundo lugar na chave. Como a Espanha era favorita contra o Chile, teríamos um confronto da Península Ibérica nas oitavas-de-final. Eu, naquele momento de inconveniência, fiz questão de lembrá-lo do detalhe.

- Se empatar, Portugal deve pegar a Espanha!

O português foi educado comigo. Não falou o que pensou. Ou o que imaginei que ele havia pensado. O dono da padaria não fechou a cara, propriamente. Ele respirou fundo, franziu a testa e me olhou como se lamentasse o destino de seu país.

Confesso que não entendi, de cara, o porquê do medo. Seria um jogo equilibrado, Espanha e Portugal. Como qualquer clássico! Pensava como colonizado, que precisa eternamente reforçar como se libertou e se vingou do colonizador. O esporte serve como metáfora de uma guerra que jamais aconteceu. Uma guerra alimentada na fantasia de um passado cheio de glamour, deformado em suas próprias verdades.

Sai da padaria e fui para casa de amigos ver o jogo. O jogo de compadres entre Brasil e Portugal, salvo os momentos de briguinhas de jardim da infância, não me tomou muito tempo de reflexão. Foi mais uma partida ruim em uma Copa de iguais e só.

Mas me peguei pensando na reação do português diante da palavra Espanha. Diante do encontro com o vizinho, rival secular em diversas esferas. Só me coloquei no lugar dele quando assisti à Argentina de Maradona e Messi destruir os mexicanos sem grandes esforços. Entendi o pânico do português quando ouvi a euforia dos argentinos. Ouvi o idioma espanhol.

Aí entendi: a Espanha é a Argentina deles!

Cinema aonde? Cinema para quem?

Ir ao cinema é um ritual. A sala escura, a tela branca, todos em silêncio (deveriam!) focados nas imagens. Até a pipoca, para uns, é parte fundamental do ato de ver um filme. No Brasil, a maioria dos brasileiros desconhece esta cerimônia. Oito em cada 10 pessoas nunca foram ao cinema. Nove em dez cidades brasileiras não possuem sala de exibição.

A Baixada Santista, região onde resido, é uma exceção. Das nove cidades, sete possuem pontos de exibição, entre modelos multiplex (os de shoppings), sala para filmes de arte e cineclubes. Ainda assim, os ingressos são muito caros para os padrões locais. Em um sábado à noite, por exemplo, o ingresso chega a custar R$ 16. Esqueça a pipoca, o refrigerante ou a água.

Diante de um quadro nada promissor, o Ministério da Cultura e a Agência Nacional de Cinema (Ancine) lançaram o programa Cinema Perto de Você. Trata-se de uma linha de crédito, da ordem de R$ 500 milhões, para a construção de 600 salas de cinema no interior do país.

A prioridade será dada aos 89 municípios com mais de 100 mil habitantes que não tem salas de cinema. A linha de crédito vai priorizar os empresários que comprarem equipamentos digitais, adaptáveis ao 3D. A importação de equipamento e a compra do material de construção são isentos de IPI e PIS-Confins. Este último não será cobrado das novas salas por cinco anos.



O programa é lindo no papel e no discurso. E aí começam as ressalvas. Essa história de cinema no interior teve seu prelúdio há um ano, quando o presidente Lula lançou o vale-cultura. Na ocasião, pediu ao Ministério da Cultura que alterasse o cenário do circuito de cinema nacional e levasse as salas de cinema para o interior. O Ministério levou um ano para acertar a burocracia do programa.

A segunda ressalva é que sempre necessário desconfiar destes projetos milagrosos, de mudança abrupta de cenário em ano eleitoral. Faltam pouco mais de três meses para a eleição, o que gera dúvidas sobre quaisquer projetos que devem entrar em prática depois do pleito.

Em entrevista à Folha de São Paulo, o presidente da Agência Nacional, Manoel Rangel, se defendeu da pergunta sobre motivação eleitoral. “Os programas são lançados quando estão prontos para serem lançados”. É duro deixar de lado a ingenuidade e acreditar nas boas intenções do Ministério e sua agência, ainda mais quando – historicamente – a pasta da Cultura tem um orçamento minúsculo.

Abrir linha de crédito não será ponto de virada no enredo atual se outras mudanças estruturais não acontecerem. Hoje, o circuito brasileiro está amarrado em dois grandes problemas, com suas derivações. O primeiro deles é a concentração das salas de cinemas, nas mãos de poucas empresas exibidoras. Houve a padronização do atendimento e a transferência das salas dos bairros para os shoppings centers.

Estar no shopping tem um custo extra para o espectador, como estacionamento. Além disso, o preço do ingresso não atrai a chamada nova classe média (expressão do Governo, discutível, por sinal). Houve leve crescimento na vendas de ingressos no último ano, o que não significa renovação dos espectadores.
Qual será o modelo das novas salas? Onde estarão localizadas? Como ficará o preço dos ingressos, compatível com o custo de vida das cidades médias, priorizadas pelo programa?

Se o cinema não se tornar acessível como entretenimento, não vai contribuir para frear o interesse do público em mídias individuais. As emissoras de TV, por exemplo, registraram queda de 20% na audiência no eixo Rio-São Paulo nos últimos dois anos. Onde estão os telespectadores?



Os telespectadores continuam consumindo audiovisual, mas em outras plataformas. Os ricos, em celulares e computadores que só faltam falar. Os mais pobres, em aparelhos de DVD comprados em supermercado, com filmes adquiridos no mercado genérico (vamos dizer assim). Compram também TVs de 29 polegadas, modelo antigo, mais computadores a preços populares nos mesmos endereços.

A outra grande dificuldade diz respeito à distribuição dos filmes. Expandir o número de salas sem mexer no mecanismo de distribuição, escravo das grandes produtoras e carrasco das pequenas produções. Uma das principais queixas dos cineastas brasileiros é a dificuldade em exibir seus filmes. A verba para marketing é sempre insuficiente, quando consta no orçamento.

O Brasil tem, atualmente, cerca de 2000 salas de cinema, a maior parte concentrada nas regiões Sul e Sudeste. Filmes como Batman e Homem-Aranha chegaram a ocupar metade das salas em suas estréias. No caso de filmes nacionais, 90% dos ingressos vendidos eram para filmes produzidos e/ou distribuídos pela Globo Filmes.

Ninguém pede para que o Governo Federal interfira na escolha dos conteúdos. Apenas que repense a forma de conduzir a política cultural, hoje executada a partir de pontos esparsos, com pouca conexão entre si ou cheiro de planejamento de longo prazo.

Caso contrário, teremos mais salas de cinema, mas com a repetição do mais do mesmo. Ninguém também pede suicídio comercial, mas que se evite a praga da padronização das produções. Apenas o acesso à diversidade pode romper com os clichês, em todos os sentidos.

sábado, 26 de junho de 2010

A pílula do macho genérico

Texto publicado no jornal Boqueirão (Santos/SP), em 26 de junho de 2010, edição 795, seção Campo Neutro, página 2

A pílula azul foi a revolução sexual para muitos homens nos últimos 20 anos. Reacendeu a identidade do macho, salvou relacionamentos, recuperou a auto-estima, aliviou as tensões de quem elevava o passado ao sonho.

O laboratório alemão Pfizer perdeu esta semana a patente do Viagra, medicamento que só pode ser vendido com receita médica. Como qualquer um sabe, qualquer um pode comprar a pílula mágica. Com os genéricos, o que era festa vai, portanto, virar farra. O próprio Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo sabe disso. Pesquisa aponta que 68% das farmácias vendem remédios de tarja sem receita.

O Viagra perdeu, há muito tempo, a função de remédio. Virou mais um brinquedinho sexual. Com o fim da patente, começou a corrida pela pílula genérica, mais barata (até 50%), e com o mesmo princípio ativo, o citrato de sildenafil. Até o consumidor mais envergonhado, aquele que compra para o amigo (sabe?), perdeu o pudor. No mínimo, a pílula cura a vergonha.

A pílula azul existe para combater a disfunção erétil (conhecida como impotência sexual, na forma mais politicamente correta), que atinge – por exemplo – três em cada quatro homens acima de 70 anos.

O cálculo mais pessimista indica que 35 milhões de brasileiros com mais de 50 anos apresentam o problema. A maioria dos consumidores é desta faixa etária, mas cresce o interesse entre os jovens.

Por que muitos jovens consomem a pílula do amor? O apelido carinhoso ajuda a explicar que não se trata, quase sempre, de uma questão biológica, mas cultural. A sociedade brasileira, como a maioria das culturas, se ergueu em bases patriarcais. É a sociedade onde predomina o macho alfa, que precisa mostrar sua força e poder de liderança, além de ser respeitado em todos os quesitos, sejam públicos ou dentro do quarto.

O machismo seria uma das derivações de comportamento deste modelo. E a prova viva da macheza é a ereção, combinada com o desempenho sexual incontestável. Como qualificá-lo de “incontestável”? A única saída é a medição quantitativa. E a pílula é a arma perfeita para adulterar – no sentido de lustrar o ego mesmo! - as pesquisas individuais.

Nada contra as medições de quantidade. Mas quantificar fortalece somente a individualidade do macho, que precisa – antes de qualquer coisa – acreditar que sua masculinidade é inerente ao desempenho sexual. A opinião da parceira importa? Ela importa? As mulheres se preocupam somente com quantidade ou gostariam de uma combinação com qualidade e outros temperos no relacionamento sexual? A pílula representaria, então, um exercício de falsa solidariedade, máscara do egoísmo de quem precisa provar algo para si?

Entre os jovens, a macheza me parece mais conectada à aprovação do clã, do grupo. Evidente que também ocorre entre os mais velhos; neste caso, mais discretos. Desempenho irregular no sexo é segredo de Estado, em qualquer endereço.

O desempenho sexual também está associado à ideia de competitividade, cobrada em vários ambientes sociais. Competir com quem? Consigo mesmo. Ter uma performance invejável compõe o personagem público de muitos homens contemporâneos, escravos da aparência, do status que o outro pode conceder. E tais características, associadas entre si, soam mais latentes entre os jovens, viciados no agora, desligados do amanhã.

Não se trata de proporcionar prazer ao outro, mas o que o outro pode falar do sujeito, se pode estragar a imagem pública dele. É a imagem sagrada para o próprio indivíduo. O homem mais velho buscaria, neste sentido, reviver o passado, transformá-lo em presente. O macho jovem não vê passado, reforça o presente contínuo.

As vendas devem crescer 700% com a entrada das pílulas genéricas no mercado. Enquanto isso, a Pfizer tenta retomar a patente por mais um ano no Supremo Tribunal Federal. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu quatro autorizações para a fabricação da pílula. Todas para a mesma empresa, o grupo farmacêutico EMS. Transferência de monopólio?

Para quem precisa de um milagre ou de uma simples benção, o nome do santo é o que menos importa.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Quando vencer é empatar

John e Nicolas teriam um dia, de certa forma, irrelevante. Para a imprensa internacional, para boa parte do público, para muitos dos próprios colegas de profissão. O dia seria importante apenas para eles, alguns aficcionados, familiares e amigos.

John e Nicolas vivem do esporte, mas não estão na Copa do Mundo. Jogam tênis. Menos visibilidade neste mês. Desconhecimento, em muitos endereços.

John Isner é americano, tem 24 anos e está no auge da carreira. É o 19º jogador do mundo, o que o torna um atleta importante, ainda assim conhecido entre os iniciados. Nicolas Mahut é francês, quatro anos mais velho. Está entre os 150 melhores do planeta, feito para qualquer mortal, papel secundário para quem entende de tênis.

Os dois se enfrentariam na última terça-feira na quadra 18, pela primeira rodada do torneio de Wimbledon. Quadra 18. Significa que pelo menos 17 jogos são mais importantes do que o deles.

O jogo foi equilibrado de modo que estava empatado em dois sets a dois. Mas acabou a luz natural. Probleminha que não atrasaria a programação do dia seguinte. Bastava jogar o quinto e último set.

John e Nicolas viraram recordistas. Jogam há mais de 10 horas e a partida não acabou na quarta-feira. Pararam porque até a luz não teve fôlego e foi embora. No segundo dia, foram sete horas dentro de quadra.

É o jogo mais longo da história do tênis. O jogo com maior número de games e aces (saques sem defesa ao adversário). Uma lista de marcas. A partida, no último set, está empatada em 59 a 59.

O nível técnico foi esquecido faz tempo. Os principais atletas, ex-atletas, público, todos correram para a quadra 18, agora a principal. Eram cobaias de um experimento sobre a resistência humana. Até quando agüentariam? E os juízes? E os pegadores de bola?

O público não arredou pé para ver dois atletas declararem amor ao que fazem. Era dois homens que assinaram via olhares um pacto de silêncio, de sofrimento por amor.

No Brasil, uma emissora de TV parou a transmissão de um jogo da Copa para mostrar os dois trocando bolas. Ou melhor: capengando atrás de uma bola que teimava em ficar mais rápida do que as quatro pernas.

John teve a chance de vencer três vezes. Nicolas não deixou. O empate precisava viver um dia de vitória. O dia se cansou e pediu um intervalo. Os dois agradeceram. Nicolas deitou-se na grama como se dissesse até amanhã. John saboreava aquela quarta-feira de quadra central.

O público, ciente de que testemunhou uma partida única, a final na primeira rodada, aplaudiu os dois de pé enquanto deixavam a quadra. O público gritava, não em tom maldoso, mas de agradecimento:

- Queremos mais! Queremos mais!

O futebol, o boxe, alguns esportes de luta e até o xadrez (jogo ou esporte?) permitem o empate. Seria uma forma de justiça ao equilíbrio de forças. Para os críticos, a antítese da competição, cordão umbilical do esporte.

O tênis poderia abrir uma exceção, sem medir as conseqüências, apenas como um prêmio para si mesmo. Sei lá, classificar os dois, qualquer decisão insensata para uma partida às raias da insanidade.

Ao chegar até aqui, leitor, você talvez saiba quem venceu. Importa, salvo a satisfação da curiosidade temperada com o perverso? Os deuses das quadras poderiam criar um lapso de tempo, com amnésia coletiva, para que nunca soubéssemos quem venceu. John e Nicolas seriam assim imortalizados, jamais pelos recordes, mas pela bravura em não decepcionar ninguém, em não fraquejar, em se empurrarem para o próximo saque ou a próxima devolução. No fundo, em servirem ao esporte como (às vezes) pureza humana.

John e Nicolas serão saudados por estes três dias. Uma provocação à História do Esporte que, infelizmente, prefere privilegiar os vencedores. A ironia é que, nos últimos dois dias, ela não sabe o que fazer.

Observação: A partida terminou no dia seguinte, após 11 horas e cinco minutos, no total. John Isner venceu o quinto set por 70 a 68. Ele lamentou que alguém tivesse que perder. E comemorou o resto do dia de folga, pois teria que jogar a partida de duplas.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O gênio sofre por amor



Lionel Messi está machucado. Apanhou como um cachorro dos gregos e nigerianos, mas parece imune às feridas físicas. É frágil diante da ferida mais sensível, aquela que dói apenas nele e se esconde atrás dos sorrisos de quem só sabe vencer na África do Sul.

Messi ainda não marcou gols na Copa do Mundo. Até quando reclama, ele é sereno, de fala mansa. O atacante argentino se queixou de que o juiz não o deixou jogar contra os gregos. Imagina se tivesse dado autorização, por escrito e em três vias! Duas lindas jogadas, que resultaram em bola na trave e rebote do goleiro para que Palermo marcasse o segundo gol.

O problema não é o juiz, que pode ser ignorado. Nem os adversários, também vítimas da invisibilidade. Messi é um gênio triste. Não se entende com a bola. Ele serve aos outros. Ele a serve aos outros. Ela se recusa a servi-lo.

O gênio engole a mágoa pela insistência. Obcecado como é típico dos gênios. Pediu para jogar contra os gregos. Em um passado recente, defendeu a seleção no inferno. Agora, deseja com justiça defendê-la rumo ao paraíso.

Messi e a Jabulani se estranham. Parecem discutir a relação. Realmente é estranho. Ele e a bola se divertem com a sedução mútua. Parecem se entender como namorados de anos. Flertam, trocam olhares e carícias, mas a bola não diz sim a ele.

A bola provoca o argentino, ouve as declarações de amor, mas recusa o relacionamento mais duradouro. É como a garota que se deixa levar pelo pretendente até a porta de casa e, na hora da despedida, vira o rosto para ganhar um beijo decepcionante na bochecha.

Como pode alguém escolher o melhor do Mundial sem que ele tenha marcado um gol sequer? Messi ganhou a eleição da semana, mas passou em branco nas três vitórias. Longe de considerar o gol mero detalhe, mas marcar é o contrato de casamento entre o gênio e a princesa africana.

Falta o gol. O gol de Messi, e isso o esfaqueia. Tão fundo quanto perder para o Brasil. A abstinência é terrível para o argentino, o oásis no deserto de músculos e bolas chutadas na dependência da sorte. Logo o argentino, que desfila entre robôs desprovidos de sensibilidade criativa, desprovidos do dom poético que diferencia os especiais dos ordinários.

Messi é a antítese do futebol. Ele nos faz esquecer que futebol é um esporte coletivo, de contato físico, virilidade e força. O atacante que nos faz pronunciar sem culpa, até porque não percebemos a contradição.

- Vamos ver o Messi jogar.



Esqueça a Argentina por um instante. Assisti-lo é congelar o ponteiro para testemunhar o sagrado, presenciar o milagre em cada detalhe do jogo.

Messi, ao receber um passe qualquer, blefa como se a bola já estivesse com ele. O amor entre os dois é simbiótico, a bola como extensão do corpo humano, o imã à prova de pancadas e pernas alheias. Mas falta o beijo que sela o romance.

Messi está triste. É o melhor jogador argentino. Está pronto aos 22 anos. Daí em diante, a promessa de imortalidade. E ainda tem, no mínimo, mais duas Copas do Mundo. Não precisava se preocupar com a glória. Talvez não esteja no alto de sua lista de prioridades. Ele joga como se estivesse perto de casa, com os vizinhos em uma pelada, descalço, sem limites táticos ou prisões de treinadores.

Desconfio que Messi não quer a glória. Quer um amor não-correspondido. Um amor intocável e, ao mesmo tempo, perceptível ao toque dos pés. Messi está machucado. Precisa do gol como o tubo de oxigênio para prosseguir a escala ao topo.

Desconfio que a bola sabe o que faz. Ela se guardou para o argentino. Ela o espera para a ocasião-limite. Aposto que vai se entregar ao menino de 22 anos no final de semana. Creio – pela decência do futebol e pela sina dos mexicanos - que o castigo acabará nas oitavas-de-final, o rito de passagem, a fase de transição da infância para a vida adulta em qualquer Copa do Mundo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Corpo que salva, corpo que mata



Lindsey Scott era uma inglesa de 28 anos. Nasceu com uma doença hereditária, chamada fibrose cística, que provoca deficiências progressivas. A saúde dela se agravou no início do ano passado. A fibrose gerou estragos, principalmente, no sistema respiratório. O quadro exigia um transplante de pulmão.

Em fevereiro de 2009, Lindsey foi operada no University Hospital of South Manchester. O pulmão transplantado era considerado “marginal”, expressão usada para definir o órgão que pode apresentar problemas, mas ainda assim é visto como seguro pelos médicos.

Lindsey morreu em julho do mesmo ano, de pneumonia. Esta semana, a família descobriu que o pulmão transplantado pertencia a um homem que fumou por 30 anos. O caso virou um escândalo na Inglaterra, onde dobrou o índice de doações de órgãos marginais nos últimos 10 anos.

O hospital inglês alegou que a dificuldade no uso de órgãos em perfeitas condições se deve à combinação entre o baixo número de doadores e a alta mortalidade dos pacientes antes do transplante, em torno de 30% por casos.

Na mesma semana, aconteceu a inauguração oficial, em São Paulo, do primeiro hospital público especializado em transplantes do país. O Hospital de Transplantes Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, conhecido como Hospital Brigadeiro, é um passo importante para se reduzir a fila de pessoas que esperam por uma operação deste nível. O hospital existe desde a década de 60, mas antes realizava cirurgias reparadoras, prática recentemente abandonada.

O Hospital Brigadeiro faz transplantes desde janeiro. No período, foram 47 transplantes de rim, nove de fígado e oito de córnea. A capacidade é de 630 cirurgias por ano. O local é um sinal de esperança, mas pouco ameniza a agonia na fila no Estado de São Paulo. Segundo a Secretaria de Saúde, 8.209 pessoas esperam por um rim. Depois, vem os que aguardam por fígado e pâncreas. Neste último, a mortalidade atinge 50% em casos de câncer.

A situação é mais tranqüila no caso de transplante de córneas. A espera se reduz a um mês. Na Baixada Santista, a Santa Casa de Santos realiza este tipo de cirurgia há anos.

O número de doadores cresceu 34,5% no Estado no último ano, mas ainda há muita desconfiança por parte das pessoas. Uma desconfiança que mistura preconceito, obscurantismo religioso e desinformação.

A recusa em doar me parece ter relação com o corpo e o papel que exerce na identidade humana. O corpo como patrimônio principal do homem. Uma prisão não apenas estética durante a vida, mas o principal item do pacote quando se tenta enganar a morte. É comum ouvirmos pessoas que acreditam ficar incompletas no “outro lado”, caso doem seus órgãos.



O discurso religioso de muitas instituições reforça a tese do corpo humano como sagrado, intocável, por vezes sustentada em discursos pseudo-científicos ou de fundo simplesmente especulativo. É como se, ao morrer, a deterioração da massa corpórea não fosse um processo inevitável ou se fosse a única possibilidade de identificarmos a nós mesmos.

É claro que somos também o nosso corpo. Por ele, é possível ler e interpretar comportamentos, hábitos e valores culturais. Mas será que apenas o físico nos faz humanos? Até que ponto ele submete a consciência (ou a alma) humana a uma posição secundária? A consciência não é fator determinante para que este corpo seja o que é?

O homem atual é escravo de seu corpo. É escravo da aparência, do julgamento alheio, da imagem que o corpo – socialmente – possibilita. A casca que serviria como explicação absoluta para sabermos quem é o dono daquele conjunto de ossos, músculos, tecidos ...

A escravidão também se dá no temor paranóico da morte. Busca-se o rejuvenescimento a altos preços (não apenas monetários), com o objetivo de retardar a degradação deste corpo até a chegada do fim. O corpo seria o início e o fim da condição humana? Como se o envelhecimento fosse a única forma de deformação do indivíduo. Basta observar corpos perfeitos, vazios de sensibilidade, de espiritualidade, preenchidos por uma alma acinzentada e auto-desvalorizada.

O corpo também se transformou na metáfora da máquina, fruto de um olhar cartesiano que foi aprimorado a partir da modernidade da Revolução Industrial. Corpos seriam engrenagens, assim como a natureza. Ambos, neste sentido, poderiam ser regulados, refeitos em sua mecânica até o descarte final.

Hoje, consumimos a máquina alheia, seja por admiração, seja por relações efêmeras ou aceitação social. Mas também consumimos nossos corpos, com um estilo de vida que não considera o amanhã.

Corpos representam ainda o apego ao materialismo. Amamos as coisas concretas como formas de justificar quem somos. Somos embalados da cabeça aos pés em etiquetas que nos posicionam na vida pública. O abstrato e o simbólico, traduzidos em valores e sentimentos, não são formas mais cristalinas de nos apontar nossas qualidades e deficiências?

Francamente, acredito com profundidade na visão que estabelece o corpo como mero instrumento de um período de passagem. Não procuro crer cegamente no outro lado ou no que há nele. Se houver algo, não precisamos de órgãos ou da combinação deles para estarmos lá. São vagas teorias para o que nos espera, ótimas para a um debate cheio de dúvidas, mas frágeis para as certezas.



Somos o que o campo da abstração nos permite. Somos nossos valores, histórias, experiências, relações com o outro. O corpo é o transporte que nos leva até estes endereços.

O transplante é, acima de tudo, uma porta para que o sujeito possa se manter conectado às experiências abstratas. O órgão que salva é no mundo concreto uma questão de saúde pública. O órgão doado dá ao paciente a chave para acertar e errar várias vezes, quantas desejar. Mais do que isso: poder perceber o quanto a vida pulsa nos detalhes, nos mínimos encontros, nos acasos ou nos desenhos traçados.

Para muitos, a chance de vivenciar estes aspectos, infelizmente, não está na perspectiva poética. Depende do aperfeiçoamento do sistema de transplantes, com mais agilidade para conectar os órgãos doados e o receptor. Vontade política e boa gestão de recursos resolveriam o problema.

O mais difícil é alterar mentalidades, com alicerces impregnados por verdades absolutas e pelo eu como centro das relações humanas. Não doar é um ato de egoísmo, quiçá de indiferença àquele que se encontra ao lado.

Não seria necessário dizer, leitor, mas é sempre bom evitar interpretações perniciosas. Que fique registrado aqui, neste texto, que ao morrer, sejam doados todos os meus órgãos. Os que puderem permitir a vida a outros, evidentemente. O restante, que seja de bom proveito nas aulas de uma faculdade de Medicina. Nada mais trágico do que ceifar a chance de viver, como aconteceu com a inglesa de 28 anos, proibida de errar por ela mesma.

As 11 formas de perder uma Copa do Mundo



A França decepciona. Arrisca repetir o fiasco de 2002, quando voltou para casa na primeira fase. Empatar contra o Uruguai e perder para o México não representam resultados surpreendentes, como muitos podem acreditar. É apenas a casca de uma árvore que apodrece há tempos. As feridas sangram, são purulentas, mas os médicos insistem em passar pomadinhas.

A França, atual vice-campeã mundial, dá sinais de que faria uma campanha complicada na África do Sul há, no mínimo, dois anos. Não são somente obstáculos de ordem técnica. Bons jogadores há. Mas muitos veteranos estão decadentes e as novidades ainda não dão contam de carregar o peso da camisa.

A questão é interna, de uma equipe envolvida pela vaidade, pela individualidade como referência única para vencer e pela falta de liderança. Pecado mortal para um esporte coletivo.

Abaixo, seguem 11 episódios – ou melhor, sintomas – que indicam como um grupo doente pode morrer durante uma Copa do Mundo. São sintomas clássicos, que afetaram várias seleções ao longo da história do futebol. Desta vez, o paciente é francês.

1)O desempenho irregular nas eliminatórias para a Copa do Mundo. A França se classificou na repescagem, com a mãozinha de Thierry Henry. Perdeu da China em um amistoso de preparação para o Mundial. A desorganização tática permaneceu na África do Sul.

2)Convocações discutíveis. O veterano Patrick Vieira e o atacante Benzema, do Real Madrid, ficaram em casa. Eram convocações dadas como certas. A maior parte da imprensa francesa os considera melhores do que os que foram para o Mundial, nas respectivas posições.

3)Ídolos críticos. O principal ídolo de um passado recente faz duras críticas ao time e ao técnico. Zidane afirmou que Raymond Domenech seria “um selecionador, e não um treinador.” Nenhum jogador defendeu Domenech. Aliás, Evra, Henry, Ribéry e Gallas pediram que o treinador mudasse o esquema. Gourcuff e Govou sairiam do time contra o México. O técnico concordou, mas mudou de ideia ao descobrir a influência de Zidane, segundo o jornal francês Liberátion. Zidane nega.



4)Jogadores deslocados. Gourcuff e Govou mal se relacionam com boa parte do elenco. Treinam praticamente em separado. O diálogo é reduzido. Básico.

5)Estrelismo. Um dos atacantes titulares, questionado pelo técnico pelo mau desempenho no primeiro tempo contra o México, responde aos palavrões. Anelka foi substituído na seqüência.

6)Roupa suja sob holofotes. A Federação Francesa de Futebol anunciou o corte de Anelka dois dias depois. O problema, que deveria ser contornado no vestiário, ganhou vida pública e proporções enormes.

7)Todos por um. Um por todos? O grupo de jogadores, com desempenho pífio nas duas primeiras partidas, se volta contra a comissão técnica e a federação. Os jogadores resolvem boicotar o treino da tarde de domingo pelo corte de Anelka.

8)Os cartolas contra-atacam. O chefe da delegação francesa, Jean-Louis Valentim, pediu demissão por causa do boicote. “Os jogadores não querem treinar. É uma vergonha”, disse o ex-chefe, agora a caminho de casa.

9)Porrada em público. No mesmo dia, o preparador físico Robert Duvene discutiu com o lateral Patrice Evra e tentou agredi-lo. O técnico Domenech fez o papel do deixa disso. Evra teria dito que havia um traidor na seleção, mas negou que seja o preparador físico.

10)Chefe não é líder. O técnico não inspira confiança nos ídolos, nos jogadores e na imprensa internacional. Ficou mais conhecido pelas manias e crendices do que pelos feitos à beira do campo. É acusado, por exemplo, de escalar o time por mapa astral. Perderá o emprego depois do Mundial, não importa o resultado.



11)A eminência parda. O principal atacante esquenta o banco de reservas. Thierry Henry pode não estar em seus melhores dias, mas permanece mais eficiente e letal do que Anelka, por exemplo. Jogou apenas alguns minutos no empate contra o Uruguai.

Fofocas, brigas, fogueira de vaidades, jogadores que se consideram acima das tradições e do time. Conhecemos esta história. O Brasil perdeu várias copas por causa destes motivos, isolados ou combinados. Hoje, parece que vivemos uma situação aparentemente melhor, assim como os argentinos. Todos falam pelo grupo e se uniram em torno dos treinadores, bastante criticados pela imprensa.

A aliança cheira à acordo político, daqueles bem pragmáticos, com objetivo comum, mas parece dar certo até agora. Pelo menos, até o final de semana, quando começam as oitavas-de-final.

A França joga hoje contra a África do Sul. Precisa vencer e, para se classificar, torcer para que os uruguaios ganhem dos mexicanos. Um time assim pode ir longe? Ou implode antes?

domingo, 20 de junho de 2010

A vítima e o monstro

Kaká foi vítima da violência dos jogadores da Costa do Marfim. Da catimba deles. Do juiz. E, principalmente, dele mesmo. A sorte dele (e nossa) é que o Brasil enfrentará Portugal, daqui a cinco dias, classificado para as oitavas-de-final e, dependendo da combinação de resultados, em um jogo de comadres.

A Costa do Marfim não saiu do previsível. O Brasil também não. Os africanos, de modo geral, perderam sua essência há tempos. Não me refiro apenas ao adversário de hoje. A maioria dos jogadores das seleções africanas foi europeizada, como o sonho inerente ao colonizador.



Na Costa do Marfim, a magia e a ginga se resumem a Drogba, ainda assim um craque dos tempos atuais, dependente da força, escravo do físico, mas dominador da técnica, com momentos de inventividade. E olha que joga a Copa com o braço direito capenga. Os demais atuam em times secundários ou tem papéis secundários em equipes de ponta. Nada muito diferentes de outras seleções neste Mundial.

Como agravante, os técnicos. A maioria nasceu na Europa e vivenciou até a alma o futebol de lá. Quando não são europeus, dirigem times como tais.

O jogo mostrou, desde o início, que a Costa do Marfim intimidaria pela virilidade. Metade da equipe africana tem mais de 1,80 metros. Muitos músculos, razoável consciência tática. O que difere a Costa do Marfim da Inglaterra, por exemplo?

Kaká sabia disso. Tem 28 anos. Está na terceira Copa do Mundo. Joga na Europa há sete anos, somente em times que disputam títulos importantes. Foi o melhor jogador do mundo. Enfrentou vários destes atletas africanos inúmeras vezes.

Por que caiu nas provocações? Concordo com a ideia de que não teria feito nada no lance da expulsão. Deixou o corpo para o marfinense. Em princípio, malandragem e auto-proteção. Nada de cotovelada no rosto, como o ator caído ao chão demonstrou.

Mas quem acompanha futebol sabe que juízes, em certas ocasiões, expulsam pelo retrospecto, para controlar o jogo e para proteger a eles próprios. Juiz de futebol precisa de apurado sentido de auto-preservação, até para preservar o jogo.

Por esta lógica, escolheu um bode expiatório. Kaká se encaixava no perfil. Jogador mais importante do time mais importante daquela partida. Havia acabado de receber uma advertência. Havia discutido várias vezes com os adversários e se queixado ao juiz. Incomodava, não apenas pelo desempenho em campo. E estava claro que o árbitro havia autorizado a caçada dos marfinenses.

Kaká não fazia uma partida primorosa. Ele joga com dores. Joga no sacrifício. Mas foi decisivo. Deu a assistência para dois dos três gols. Se
isso basta em uma partida de peladeiros de final de semana, imagina em Copa do Mundo.

Kaká foi vítima da própria tensão. Ele ingeriu pressão tamanha para arrebentar neste Mundial. Dá sinais de overdose. Na primeira Copa, foi aquele menino que ganha experiência pelo convívio. Na segunda, coadjuvante no quarteto do narcisismo e a festa. A hora seria agora. É o melhor do time, o camisa dez, sem contestações.

Kaká engoliu a estratégia de um time desesperado, que não dependia mais das próprias forças. Aquele que bate está entregue. Descer o nível representa o recurso derradeiro antes de morrer. A Costa do Marfim não queria depender dos colonizadores. Não o deles, mas o nosso. Depende dos portugueses contra a seleção (ou o exército) que representa um regime.

Kaká foi um menino. O garoto que joga com fantasia em instantes cruciais. O garoto cerebral que mata o jogo em duas bolas. E, sem soberba, sabe que vencer é parte de sua existência e responsabilidade.

Kaká foi um menino. O garoto que não teve frieza para superar as últimas armas de quem baixou a guarda. O garoto esquentado que não leva desaforo para casa. Quer vencer todas as batalhas, inclusive a dos argumentos.

A Costa do Marfim não foi a mesma da partida contra Portugal. E o Brasil deixou o nervosismo contra os norte-coreanos para trás. Até porque o monstro não era tão feio assim. Pena que Kaká se enervou com os rugidos dele. E não viu que os monstros éramos nós, os brasileiros.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Não está mais comigo, Dieguito"



A Copa do Mundo está chata demais. A tendência histórica é que o nível das partidas cresça, com a eliminação das seleções mais fracas e a entrada nas fases decisivas. O que torna a competição aborrecida não é exatamente a qualidade dos jogos, mas a predominância do politicamente correto.

Quase todos os times previsíveis, bem comportados, enquadrados em estratégias que abrem mão da inventividade e da fantasia. Vale a política do não perder ao invés do gol como missão. Por seguir o caminho contrário da maioria é que a Argentina e o técnico Diego Armando Maradona tem dado sabor diferente ao Mundial.

Copas do Mundo são como enredos inacabados, sem autor definido. São tramas com mais de um clímax, reviravoltas múltiplas, tragédias e falsos desfechos. Histórias que dependem de personagens fortes, cheios de conflitos, psicologicamente instáveis e dispostos a avançar por sobressaltos e diálogos cortantes.

Maradona se encaixa no perfil. Foi ao reconhecimento coletivo e desceu à execração pública em inúmeras ocasiões, tanto como jogador quanto pessoa pública. O maior jogador argentino da história não é um grande técnico. Talvez nem técnico seja, no sentido literal do termo. Mas é um líder. E pode bastar em uma competição curta, marcada por paixões e rompantes de criatividade como ponto de diferença.

Neste sentido, Maradona e Dunga são como irmãos de sangue. Parte da imprensa e dos palpiteiros de plantão (que podem ser as mesmas pessoas) aguarda o menor deslize para transformá-los em demônios dignos do exorcismo público.

Maradona não é um estrategista. Não montou uma seleção alemã, calculista e pragmática. Ele preservou o que resta de latinidade nas seleções da América do Sul. Latinidade que nós, brasileiros, talvez não consigamos ressuscitar diante da metamorfose européia de nossos principais jogadores.

Os idiotas apenas enxergam Maradona como um palhaço, que anima as partidas da Argentina à beira do campo. Divertem-se com a vibração dele, com os sentimentos incontidos a cada lance genial de Messi, a cada desarme de Verón, a cada batalha minuto a minuto de Carlitos Tevez, a cada gol de Gonzalo Higuain.

Uma pitada de números para justificar os argumentos. A Argentina venceu as últimas sete partidas, feito que não acontecia há 12 anos. Maradona dirigiu o time em 21 partidas. Ganhou 15. Não se trata de tática ou avaliação criteriosa de cada adversário. O personagem principal uniu o resto do elenco em torno do espetáculo. É o abraço que cada jogador, inclusive os reservas, deu no treinador após a vitória contra a Coréia do Sul.

A Argentina é a estrela eterna da semana. Sabemos que uma eliminação na próxima fase transformará as qualidades em símbolos da irresponsabilidade. De protagonista à verme sem escalas.

Maradona está acostumado com isso. E capitaliza em cima da própria imagem. Tira o foco do time e chama os holofotes para si, o que poupa Messi e os demais colegas de especulações e boatos. É claro que Diego ganha com a exposição, mas o que me interessa é a pimenta que muda o gosto do prato. As declarações dele são explosivas e sem a fachada hipócrita da falsa cordialidade que marca a relação das estrelas egocêntricas.

A Argentina respondeu ao jeito Maradona de ser. Embora o goleiro não seja confiável e a defesa tenha bons zagueiros com dificuldades coletivas, o time joga como se estivesse em um churrasco de final de semana. Finge estar descompromissado, mas quer vencer de qualquer jeito. Atropela a vítima na base do um dois, um dois, a velha escola portenha. Brinca de “não está mais comigo”, referência à bola, que passa por todos e deixa o adversário com cara de ninguém.

A latinidade se mantém pulsante nos portenhos, com a fantasia dos dribles, a luta traduzida em suor, lamentações e euforias, a velocidade no ataque, a imprevisibilidade que se espera do camisa 10. Ali está o que nos diferencia dos europeus e que nos garante as vitórias, a compensação pelos nossos defeitos e fragilidades fora de campo.

Não gosto das listas de favoritos. Nesta Copa, nem de bolão participo. Por isso, não aposto na Argentina como o campeão das próximas 24 horas. Até porque a história do futebol nos mostra como a soberba e a vaidade contaminaram os times argentinos ao longo dos mundiais. Ótimo para nós, que nos deliciamos com sucessivas eliminações precoces dos vizinhos. Como em 2002, quando a Argentina era favorita e caiu na primeira fase (18º lugar).

Decidi viver a Copa do Mundo de momento em momento, já que a competição é curta. Sei que a maioria dos jogos são entediantes. Suportar o marasmo do politicamente correto é a sina de quem sonha pelo instante mágico do jogo. Quem mais se aproximou da essência da arte foram os argentinos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O jamaicano e o falso dono da avenida



Promessas, em ano eleitoral, nascem mortas, para serem esquecidas com um rosto de natureza morta. É aquela cara que políticos fazem quando cobrados sobre o que disseram ou escreveram, embora muitos deles apelem para a eterna expressão de surpresa. Não sabe o que é a expressão de surpresa? Pense no garoto do filme Esqueceram de Mim, por exemplo.

Não costumo cumprir prazos. Sou desorganizado. Mas cumpro promessas, até porque não concorro a nada. Mal venço a mim mesmo, quanto mais outros adversários. Na semana passada, prometi a uma aluna que compraria uma daquelas pulseiras com as cores da Jamaica.

A promessa foi fruto de uma conversa sem rumo ou futuro em sala de aula. Alguém – que obviamente se esquivou de prometer qualquer coisa – disse que uma pulseira assim não pode ser comprada. É presente. Para dar sorte. A quem recebe, é claro.

Ontem, visitei duas vezes a avenida Paulista, meu lugar preferido de São Paulo. Tenho a impressão de que a avenida traduz a vida cultural da cidade – único motivo para que eu a visite – e simboliza o ar cosmopolita de um espaço que abriga diversos tipos humanos.

A avenida Paulista passou uma tarde de sensações distintas, de um tempo desorganizado, porém previsível. Em dia de estréia do Brasil na Copa do Mundo, a avenida mudou de cenário conforme a temperatura que cercava a partida. Tornou-se, no começo da tarde, o corredor dos apressados. Todos apreensivos para chegar em casa ou em algum ponto confortável (botecos?) para acompanhar o jogo contra a Coréia do Norte.

Andava por ela da forma que mais me interessa. Sem correria, com tempo para observar lugares e pessoas. A Paulista, assim como a praça da Sé, significa o Brasil na sua complexidade. O olhar lento e preguiçoso que permite escolher, com a devida calma, o lugar para almoçar, ainda que resultasse na praça de alimentação de sempre.

Enquanto decidia o que comer, cruzei duas vezes com um senhor cinqüentão, jamaicano da gema, não de nascimento, mas de adoção. O retrato do estereótipo Bob Marley da cultura pop. Cabelos rastafári, postura zen, sorriso no rosto, serenidade na fala, desapego material, discurso paz e amor.

Na primeira vez, trocamos sorrisos, de vendedor e potencial cliente, mas eu estava em movimento e em uma fase mão de vaca. Não reparei no que ele vendia. Apenas fui simpático. Na volta, ele vendia o que eu precisava: pulseiras. Claro, pulseiras nas cores verde, amarelo e vermelho, ligadas à cultura da Jamaica. Nada como a lembrança de uma promessa sem demasiado esforço.

Em 30 segundos, fechamos negócio. Mercadoria no bolso da camisa do comprador, dinheiro na mão do jamaicano. Aí, ele viu um livro em minha mão. Uma obra sobre educação, ainda sem opinião definida do leitor. O senhor-Jamaica olhou para mim e disse:

- Eu gosto de ler.

Surpreso, respondi de maneira polida, com um ridículo clichê distorcido.

- Ler abre a mente. Abre a cabeça para o mundo.

Ele tomou o livro de minhas mãos e observou atentamente a capa. Comentou amenidades. Até que olhou para a multidão em velocidade, fugindo para a frente da TV. Virou-se para mim e falou:

- Pena que as pessoas não sabem o que fazer com o que lêem. Não sabem o que fazer com elas mesmas.

Quando se testemunha um instante de sabedoria, tão raro numa sociedade que ama tagarelar, a obrigação do interlocutor é ficar em silêncio. Mudo e sorridente, agradeci com a cabeça e segui pela avenida Paulista.

Três horas depois, retornei a uma avenida com clima de cidade do interior. Vazia, silenciosa, convidativa e tentadora. A tentação de poder de quem, diante da imponência dos prédios-reino das finanças, se sentiu, de forma ingênua, o dono da avenida por um singelo momento.

Presenciar a avenida sem gente é previsível e, ao mesmo tempo, inusitado para quem a visita e a vê dominada pelos passos apressados, controladora pelo progresso sem limites. A avenida Paulista sem gente não é ela mesma. É apenas um lampejo de quem está viciada em pessoas para sobreviver, para respirar. Desejamos vê-la livre da paranóia urbana, mas queremos aquela cultura pulsante que a faz o que é, que a identifica todos os dias.

Pensei, como um crente nas ilusões, que veria outra vez o senhor jamaicano. Sem a ditadura da velocidade, poderíamos compartilhar novo exercício da filosofia de calçadão. É claro que ele não estava lá. É provável que tenha seguido para outro lugar a fim de acompanhar a partida do Brasil. Prefiro acreditar que não. Os sábios sabem escolher as batalhas.

A promessa foi cumprida mais tarde, à noite. A garota crê que terá sorte. Mal sabe ela que a sorte nasceu no ato da compra da pulseira, na breve conversa com que enxerga a vida com olhos de paz.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sicilio Rocco e a angústia das palavras

Dizem que quem escreve sempre opta por escrever sobre o ato de escrever. Cedo ou tarde, cai na armadilha da auto-referência. Seria uma espécie de enrolação, fruto da falta de criatividade do autor do texto. Ou da pressa mesmo, para quem está sem assunto e precisa preencher linhas. Sempre tive a suspeita de que, quando se escreve sobre o escrever, o autor fecha os olhos para o mundo, abaixa a cabeça e visualiza o próprio umbigo no horizonte.

Honestamente, não assinaria embaixo estas afirmações. Ser categórico sinaliza ingenuidade ou presunção diante de uma prática tão particular, por vezes solitária. Começo a considerar que pensar sobre a escrita pode nos conduzir para a autocrítica, o que também configura mera especulação.



Há a terceira via. Escrever sobre a escrita pode ser um frágil exercício de auto-engano e de crime lesa-leitor, que acompanhou o texto até o final na esperança de refletir sobre algo importante, saborear palavras poéticas ou simplesmente se entreter.

Não resolvi escrever sobre o escrever para fraudar sua inteligência, leitor. Escrevo como tentativa de compreender as angústias de um velho amigo, que não vejo há quase 20 anos. E que, involuntariamente, se tornaram minhas!

Os caminhos da Internet permitiram nossa reaproximação, ainda virtual. Trocas de e-mails. Leitura recíproca de blogs. Cordialidade e palavras agradáveis. Na semana passada, porém, recebi um e-mail dele, em que se questionava sobre os motivos que nos levam a escrever.

È possível, com as palavras, mudar o mundo? Ou, pelo menos, incomodar mentes? Ou – em ambições mais modestas – deixar o sujeito desconfortável na cadeira diante das palavras lidas?

A mensagem me paralisou, pois jamais tinha pensado sobre os porquês de abrir um arquivo de Word e despejar palavras em seqüência que, organizadas, formam crônicas, artigos e colunas. Levei alguns dias para pensar no caso. A primeira reação: escrevo por uma questão de necessidade. Estou viciado na morfina que sufoca a angústia das palavras desordenadas em um texto qualquer.

A conclusão é simplista, quebradiça. È pouco! Demanda um texto com mais profundidade. A intenção serve para agora. Aqui estamos!

Quando escrevo, é o único momento em que me aproximo da liberdade. Escrever é a chave para escapar das convenções, das satisfações, das cobranças, das preocupações com o que o outro pode pensar ou como ele pode reagir. Instituições e estruturas de poder se tornam relativas; balançam, ainda que no campo da imaginação.



Escrevo porque sou egoísta, porque acaricio minha própria vaidade. Quem escreve o faz primeiro para si. Imaginar um leitor médio é como buscar uma entidade invisível do além para explicar a concretude do mundo. Confessemos: quem escreve não tem a menor ideia de quem lerá e como reagirá diante do conteúdo.

Escrevo porque sonho em quebrar as regras, transgredir com os próprios valores sem me mover. Escrever é saltar o muro que protege a opressão e a manipulação do cotidiano, dar um murro no carrasco e retornar para cá sem que ele perceba de onde veio a pancada.

Escrevo para fugir de mim mesmo. Tento escapar de minhas qualidades, enaltecer meus defeitos, deixar de lado a necessidade de agradar para pertencer e cultivar minhas fraquezas com todas as forças possíveis.

Escrever é um ato de petulância para aquele que fala o que não deveria ser dito. Cheira à manifestação de humildade, de quem fala o que precisa ser dito. Ou fede à submissão dos que falam o que outros ordenaram que seja dito.

Escrever é sangrar a indignação contra a estupidez do homem e do ambiente que o aprisiona. É o suadouro contra nossa própria impotência diante de quem nos mantém inertes. È vomitar as dores que deveriam nos empurrar para longe dos cantos, rumo ao centro dos acontecimentos que nos tornam únicos.



Escrevo para manipular os outros e a mim. A manipulação para perversidade e à intolerância? A orientação rumo ao diálogo? Ou a sedução para uma estação inesperada?

Escrevo por almejar o mais alto grau de sensibilidade e poesia. Morro pelo olhar diferenciado, pelas sensações quase sempre ausentes de quem segue e não vê. O texto que sonha transpirar palavras-testemunhas do inusitado, o especial que nasce a partir do rotineiro.

Escrever é se apaixonar e, principalmente, respeitar as palavras. Nascem neutras, ganham peso histórico, constroem vidas, destroem reputações, matam crenças, ressuscitam princípios, aterrorizam os que as desprezam.

A escrita ambiciona o reconhecimento ilusório. Quem escreve veste as roupas do carrasco e o capuz da vítima. Quem escreve é refém da ambigüidade do controle sobre as palavras e da impotência quando as vê publicadas.

Escrevo para reproduzir e perpetuar a dúvida. Significa fugir da verdade absoluta e a abraçar a incerteza como uma tábua no meio do mar. Cultuar o altar das perguntas que abdicam das respostas prontas e imediatas.

Escrevo por temer a indiferença. A morte para um autor é a cela obscura da ignorância dos leitores. Punir-me seria não me ler. Matar-me seria não comentar minha obra. Enterrar-me seria virar as costas à existência do meu pensamento por escrito.

Talvez escrever seja o ordinário fato de juntar palavras numa tela branca, numa página de caderno ou em pedaço de papel de pão. Prefiro crer que escrever seja um ato complexo de libertação. Cabe a cada autor acertar o destino das algemas que insistem em arroxear os pulsos e limitar os dedos no teclado ou na caneta.

Em tempo: Sicilio Rocco é o pseudônimo deste amigo, potencial vítima das patrulhas do politicamente correto. É alguém com dúvidas tão reais quanto profundas. E que também são minhas! Como as alucinações que embalaram as afirmações deste texto.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O bom jornalismo sob risco de morte

Um dos mais tradicionais jornais da França pediu água. O Le Monde anunciou, em texto na primeira página, que está à venda. O artigo foi escrito pelo diretor Eric Fottorino, no dia 3 de junho. A publicação está endividada e, por isso, terá que vender parte do controle acionário. O prazo para as propostas de compra termina hoje.

Três grupos aparecem como possíveis sócios. O El País, principal jornal espanhol, o grupo que controla a revista Le Nouveau Observateur e empresas do mercado financeiro podem adquirir parte do Le Monde. Há cinco anos, o jornal francês vendeu 17% das ações para o grupo Lagardère, que não pretende mais colocar dinheiro no buraco financeiro da publicação.

O Le Monde é uma experiência singular no jornalismo europeu. O jornal é administrado pela associação dos funcionários há 59 anos. Isso significa, em termos práticos, que os jornalistas controlavam os rumos editoriais do veículo, o que incluía a definição pela linha mais liberal e a escolha dos colegas que comandariam a redação.

Com a venda, os jornalistas deverão perder o controle sobre as decisões editoriais. Ou seja: o jornalismo será mais uma vez submetido ao negócio. O diretor Eric Fottorino afirmou, no artigo, que o novo sócio não vai interferir no jornalismo. É condição para que o negócio seja fechado.

É difícil acreditar nesta hipótese. Afinal, quem se transformar em sócio majoritário vai desejar controlar o próprio investimento. Neste sentido, tudo caminha para a interferência administrativa e comercial na prática jornalística.

O Le Monde, pela forma de administração cooperativa, vamos dizer assim, sempre primou pela qualidade e pela preocupação com o jornalismo interpretativo, de análise mais profunda dos fatos. O leitor do jornal francês se acostumou com esta postura mais crítica e reflexiva. Tanto que muitas vezes reagiu diante dos escorregões da publicação.

O jornalista Luiz Nascimento passou uma temporada no jornal, há seis anos. Ele contou, por exemplo, que a equipe de direção debateu por quatro horas se publicava ou não a foto de Saddam Hussein, na ocasião em que ele foi encontrado escondido em um buraco. O jornal optou pela publicação e recebeu centenas de e-mails críticos por parte dos leitores, que julgaram sensacionalista a fotografia. O jornal fez mea culpa ao reconhecer que a foto pouco acrescentava ao contexto da reportagem. Outros tempos!

O Le Monde possui, atualmente, a tiragem diária de 320 mil exemplares. O grupo envolve também o Le Monde Diplomatique, gráfica, e as revistas La Vie, Teleràma e Courrier Internacional.

domingo, 13 de junho de 2010

Na Inglaterra, goleiro é cargo de desconfiança

O goleiro Robert Green, da Inglaterra, se refugiou hoje em um campo de golfe. É perfeitamente natural, um dia após o frango que engoliu na partida contra os Estados Unidos. Ali, dois pontos tornaram a falha do goleiro ainda mais visível. Primeiro, o fato de a partida ter terminado 1 a 1. O resultado o tornou centro das discussões. Depois, no lance em si, quando o goleiro se arrastou atrás da bola e a viu morrer dentro do gol. É, no jargão, quando o goleiro tenta apanhar o frango pelas penas.



Os goleiros ingleses estão expostos. Ninguém confia neles. Os outros dois convocados pelo técnico Fabio Capello, James e Hart, também jogam em times de menor expressão da liga inglesa. Dos três, Hart é quem atua na equipe que melhor se classificou na última temporada, o Birmingham, nono colocado.

Algo aconteceu no reino de Elizabeth. A seleção sempre teve goleiros confiáveis, muitos deles excepcionais, que provocavam preocupação, respeito e até medo nos atacantes. Hoje, geram apreensão nos zagueiros ingleses. Não se trata de deficiência técnica profunda, mas de irregularidade, além de não poder contar com eles em situações cruciais de jogo. Os três são apenas bons goleiros, o que os torna comuns. Grandes goleiros também falham, mas são decisivos.

A principal teoria é que os grandes e médios clubes da liga inglesa abriram mão de formar mão-de-obra para esta posição. É mais fácil e menos arriscado contratar goleiros estrangeiros. O campeonato inglês é o de maior faturamento do planeta – passa da casa de 1 bilhão de libras por ano – e um dos mais globalizados.

O goleiro estrangeiro vem pronto, com experiência e qualidade garantidas. Nesta posição, um atleta de ponta leva anos para ser formado. Quase ninguém, entre os times de elite dos grandes centros, escala um goleiro de 20 anos. O goleiro é geralmente o atleta que encerra a carreira com mais idade, mas também assume a titularidade mais velho. Nas demais posições, juventude tem sido uma grande vantagem.

Na última temporada, dos dez melhores times da primeira divisão da Inglaterra, oito tinham goleiros estrangeiros. Veja a lista:
1° - Chelsea - Petr Cech (República Tcheca)
2° - Manchester United – Van der Sar (Holanda)
3°- Arsenal – Almunia (Espanha)
4°- Tottenham – Gomes (Brasil)
5°- Manchester City – Shay Given (Irlanda)
6°- Aston Villa – Brad Friedel (Estados Unidos)
7°- Liverpool – Pepe Reina (Espanha). Obs.: O goleiro reserva é Diego Cavallieri (ex-Palmeiras)
8°- Everton – Tim Howard (Estados Unidos)
9°- Birmingham – Joe Hart (Inglaterra)
10°- Blackburn – Paul Robinson (Inglaterra)

O próprio técnico Fabio Capello não sabia quem escalar às vésperas da estréia. Optou por Green, que atualmente joga pelo West Ham. A equipe escapou do rebaixamento em cima da hora. Teve a terceira defesa mais vazada da liga, com 66 gols em 38 partidas.

Cresci admirando os goleiros ingleses. Eram sujeitos discretos, daqueles que falavam o necessário em campo, o suficiente para arrumar a defesa. Seus zagueiros os seguiam cegamente. Não eram dados às defesas espalhafatosas. Preferiam a colocação. Até seus uniformes, de cor cinza, pareciam sem vida.

A melhor defesa da história da Copas é mérito de Gordon Banks que, contra Brasil, em 1970, espalmou uma cabeça de Pelé à queima-roupa. Pelé estava dentro da pequena área e cabeceou para o chão. O golpe quase sempre resulta em gol. Banks tirou a bola no canto direito. Aquela partida terminou 1 a 0 para o Brasil, graças ao goleiro inglês.



A fábrica de goleiros manteve o padrão com Peter Shilton, atleta que mais vestiu a camisa da Inglaterra. Shilton jogou 125 vezes pela seleção (recorde) e foi titular nas Copas de 1986 (México) e 1990 (Itália). Ela tinha todas as características de um goleiro com liderança. Era sereno e duro. Transmitia confiança pela discrição. A segurança estava no posicionamento. Jamais nos vôos para fotografia, marca de muitos goleiros da atualidade.

Peter Shilton também entrou para a história por ter sido a vítima de dois gols de Maradona. Na vingança das Malvinas, Maradona fez um gol irregular (mão de Deus) e aquele em que driblou seis atletas ingleses; o último era Shilton.



Com a aposentadoria de Shilton, começou a fase das críticas. David Seaman estava entre os melhores, mas não se comparava aos antecessores. Talvez por isso apanhasse tanto da imprensa da Inglaterra, tão corneteira quando a nossa. Seaman é lembrado por muitos torcedores brasileiros por causa da falha no gol de Ronaldinho Gaúcho, em 2002.

O trio que está na África não poderá ser alterado. O técnico Fabio Capello está de mãos atadas. Tem que confiar em Green que, aliás, salvou o time um chute de Altidore, no segundo tempo da estréia.

Se quiser uma vida mais tranqüila na África do Sul, a Inglaterra de Rooney, Gerrard, Lampard e Beckman (apoio moral no banco) precisa torcer para o Green do segundo tempo. E enterrar as penas do frango no campo de golfe ainda hoje!

Vi um camisa 10 nascer

Por ALANO ALEXANDRE UMBELINO DE BARROS*

Ao assisti-lo jogando o fino da arte futebólistica, lembrei das memórias de um passado recente, onde conheci a casa de um craque camisa dez. Um jovem esguio e de poucas palavras; tímido, mas com a calma dos gênios.

Numa pelada despretensiosa, numa quadra de futsal, vi ali - naquele ano de 2005 - uma canhota precisa, um garoto com percepção lógico-espacial precisa, fantástica. É claro que joguei ao seu lado e juntos fomos invictos. Eu senti naquele momento de descontração o propósito dos Deuses da bola. Entendi aquela canhota do menino paraense, hoje menino da Vila Belmiro.

Deste dia em diante, tornei-me seu amigo-admirador. Falávamos sempre do mundo da bola e, quando ele me dava a sua companhia, brincávamos na frente do templo de uma igreja protestante. Hoje, torço pelo amigo jogador, atleta excepcional, um jovem selecionável. Ele, que na última Copa do Mundo assistiu a um jogo comigo e minha família.

Para seus amigos do início da epopéia do menino do Pará, será sempre o menino Paulo Henrique, filho da tia Creusa e seu Julio (Petrobrás). Pessoas simples que te ensinaram a ser este homem-menino da vila, agora do mundo da bola. Posso falar com propriedade: eu vi um camisa dez surgir em minha frente.

* Alano Alexandre Umbelino de Barros é professor de História e torcedor do Sport Recife (PE).

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A reunião (ou a brigada anti-futebol)

A sala dos professores, de qualquer escola, é um mundo à parte, onde vivem espécimes bem particulares. Nesta época, início de junho, eles tem basicamente três assuntos a conversar ou três reclamações a fazer, o que significam a mesma coisa.

A primeira é se queixar dos alunos, aqueles sujeitinhos indisciplinados, mal preparados e perturbadores. Na verdade, é uma choradeira o ano todo, mas que aumenta de volume agora por causa de provas, notas e afins. Ítem parte do pacote quando a pessoa vira professora.

A segunda é que o semestre está próximo do fim e, portanto, as férias esperam o bater do último sinal. Esperar as férias – óbvio – é um comportamento que nasce logo ao primeiro dia de aula. Também não seria uma pauta de conversas exclusiva deste período.

A agenda se completa com a Copa do Mundo. Aqui, os espécimes se dividem em dois grupos. O primeiro é dos que dizem não gostar de futebol, mas adorar a Copa porque podem ir embora mais cedo, descansar, coçar o saco, beber todas e assim por diante. A outra turma é dos técnicos de final de semana, com suas opiniões, teorias, críticas ao Dunga e conspirações para que a seleção ganhe ou perca o campeonato. Mas este grupo, claro, também está louco para fugir mais cedo e percorrer o mesmo caminho dos colegas beberrões.

Esta semana, naquela escola, a pauta das rodinhas ganhou outro ponto: a reunião. A coordenadora de um dos cursos proclamou em decreto: o encontro para balanço do semestre acontecerá na próxima terça, às 15h30. Dia e hora da estréia do Brasil na Copa do Mundo, lembraram os condenados (e subordinados).

Não há medida mais impopular. É o pedido público para colecionar inimigos até a próxima Copa, no mínimo. Entre os convocados, palavrões em voz baixa. Entre os dispensados, muitos risos e poucas lamentações solidárias.



Quando informada sobre o jogo do Brasil, a professora respondeu com convicção:

- O futebol não paga as nossas contas.

Quem consegue pagar as contas em dia, hoje em dia? Se qualquer tipo de diversão estiver associado à disciplina dos boletos bancários, datas de vencimento e débitos em conta, seremos fortes candidatos à internação no manicômio mais próximo. E, por lá, dizem que os moradores são loucos por Copa do Mundo.

A professora não correrá o risco de ficar sozinha. A justificativa dela é que muitos colegas terão que cumprir expediente na escola, ainda que os alunos tenham sido dispensados.

- Já que vocês estarão aqui, né?

E ela não está sozinha na cruzada anti-futebol. Outro professor reclamava dos bolões. Na visão dele, “como podem as pessoas apostar dinheiro em jogos de futebol”? A indignação cresceu quando viu o aparelho de TV instalado no pátio.

- É para desviar a atenção do trabalho. Só pode!

Logo ele, que toda sexta-feira faz a fezinha na Mega Sena, louco para comprar aquela casa na praia e designar um advogado para assinar sua rescisão de contrato. Tamanho o trauma da sala dos professores.

Do bolão, não fará parte. Mas estará em outra reunião de trabalho, marcada em casa com os amigos. Dá trabalho colocar a cerveja para gelar e deixar a picanha no ponto. Sobre a Reunião, ele não ouviu falar, desconhece os envolvidos e xinga quem diz que viu o nome dele na lista.

Não gostar ou não entender de futebol é perfeitamente plausível. Muitos “torcedores de Copa” aproveitam a ocasião para uma série de confraternizações em que a partida faz mera figuração.

Outros aproveitam para se isolar do planeta. Ou, como um grande amigo, que aproveita para trabalhar. Ele não gosta de futebol ao ponto de se aproximar da ignorância absoluta. Sabe, por exemplo que Robinho e Kaká existem, mas nada além de que chutam uma bola pelo Brasil.

Em tempos de Copa, basta procurá-lo no trabalho. Orgulhoso, ele garante que se sente mais produtivo nos jogos do Brasil, quando a empresa está silenciosa, vazia, o telefone não toca, ninguém o procura para resolver problemas que poderiam ser resolvidos depois. Ele veste a camisa da empresa, sua seleção preferida.

Suas escolhas, penso eu, devem ser respeitadas. É uma decisão de quem vai para o sacrifício, como um exército de um homem só, um kamikaze que dará a própria vida por uma causa, por uma batalha pessoal.

É diferente da coordenadora, que pretende montar uma brigada anti-futebol na hora do jogo do Brasil. Por que tamanho ódio pelo futebol? Ou seria pelos colegas? Amargura de si mesma? Seria ela nascida na Argentina?

Observação: Em ano de eleição e de Copa do Mundo, muitos prometem vitórias e mudanças. É o caso deste blog, que promete cobrir o Mundial de Futebol do posto avançado caiçara, no litoral de São Paulo. Quais jogos vamos cobrir? Nenhum, até porque os gols são meros detalhes, como disse certa vez um técnico de futebol. Valem os personagens, com gols ou de jejum.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O diabo veste farda

Na segunda-feira (19 de abril), houve o toque de recolher, e não foi só os maloqueiros que fizeram isso. Foi a PM também. Minha amiga foi para a UNIESP, que fica na Av. Adhemar de Barros e contou que a "Polícia" foi até a faculdade e mandou que dispensasse os alunos. Um motorista aqui da empresa estava passando na segunda, às 22 horas, na Av. Santos Dumont, sentido praça 14 bis, e os policiais que estavam fazendo patrulha perto da praça estavam abordando todo mundo que passava a pé ou de bicicleta. Mandavam eles voltarem para casa porque estava muito "perigoso" ficar na rua. Não tinha praticamente ninguém na rua às 23h (sei disso porque fui até a Av. Santos Dumont, perto da minha casa, para tirar uma foto do breu que estava, sei que sou louca mas fui). Quem ainda estava na rua andava rápido e com medo.


O depoimento é de uma estudante universitária e indica o clima provocado no Guarujá em meados de abril. O saldo foram 22 mortos e reportagens em veículos nacionais e internacionais.

Anteontem, depois de dois meses, a Corregedoria da Polícia Militar deteve cinco integrantes da corporação. O grupo é acusado de integrar grupos de extermínio na Baixada Santista. Um deles é irmão do policial Paulo Raphael Ferreira Pires, lotado na Força Tática. Ele foi morto em 18 de abril, em Vicente de Carvalho, distrito de Guarujá.

Os cinco policiais militares são acusados de fazer parte das execuções em abril, por vingança. Paulo Raphael havia participado de investigações na Vila Baiana, na mesma cidade, quando procurava o corpo do irmão de outro policial. O irmão teria sido assassinado pelo PCC sob a acusação de estupro. Nas investigações, segundo reportagem de Renato Santana, do jornal A Tribuna, os policiais teriam agredido o irmão do traficante Eduardinho. O traficante teria ordenado a execução do PM.

A prática de grupos de extermínio, em ano eleitoral, mancha o céu de brigadeiro que reina nas declarações dos responsáveis pela segurança pública do Estado. Os assassinatos por homens de farda (ou ninjas, como muitos chamam) provocaram uma dança das cadeiras na cúpula da corporação. Houve trocas de comandantes e na Corregedoria, responsável por investigar crimes de PMs.



Policiais que se consideram juízes e carrascos não são um exemplo atual. A história é recheada de episódios que mancham, corroem e rasgam a imagem da instituição. Durante a ditadura militar, o Esquadrão da Morte. Em São Paulo, integrantes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), orgulho de campanha do então governador Paulo Maluf.

Os Pms que matavam e torturavam nos anos 90, em Diadema. O líder Rambo se transformou em dos matadores mais famosos, flagrado em “serviço” por câmeras escondidas. Os quatro Pms, condenados pela Justiça, pela morte de três garotos em Sâo Vicente, na quarta-feira de cinzas, em 1999. Os corpos foram desovados em um manguezal, em Praia Grande.

Os crimes de maio, em 2006, como uma vingança de policiais – a acusação das mães da vítimas – contra os ataques do PCC. No mês passado, a morte de um motoboy nas mãos de policiais. Para o comandante, erro de procedimento operacional. Belo nome para fuzilamento. Ah, a vítima, de etnia negra, estava algemada quando foi espancada e morta pelos policiais.

A hipocrisia de parte considerável da sociedade civil serve para tapar os olhos e criar a justificativa de que os policiais nos livram apenas de bandidos. Em um filme esquizofrênico de Hollywood, os policiais seriam os justiceiros incorruptíveis, únicos capazes de nos salvar do mal que espreita a noite. A paranóia-clichê, revisitada pelos Batmans sem capa e, às vezes, de touca no lugar da máscara.



Os policiais que matam têm a legitimação desta parcela da população, que crê – pela própria ignorância que realimenta o preconceito – na justificativa de que as balas são a água benta que exorciza o mal personificado em ladrões, traficantes, estupradores e homicidas. Se o sujeito morreu nas mãos da polícia, alguma coisa fez. Nem que seja a velha frase “lugar errado, hora errada”.

Estes policiais têm o reconhecimento de muitos defensores de uma limpeza social. Defendem que os tais marginais, sinônimo de moradores de favelas, não deveriam mais compor a paisagem. É a generalização que reforça o preconceito de classe. Tire esse bicho daí, mas não precisa me mostrar o corpo ou me contar como o trabalho foi feito.

Aí está o erro. Para entendermos que a vingança não olha necessariamente ficha criminal, sugiro a leitura de Rota 66, livro escrito pelo jornalista Caco Barcellos. Na obra, o repórter prova por métodos policiais e estatísticas que parte das vítimas tinha ficha limpa, emprego com carteira assinada e endereço fixo. O tal trabalhador, no jargão popular. Ah, mas moravam em bairros pobres e eram, em sua maioria, de etnia negra.

Esta mesma parcela da sociedade que se incomoda com os matadores de farda fica horrorizada quando a criminalidade toca a campainha dos bairros de classe média. Parte da mídia se mobiliza se a vítima tem um diploma universitário. Estudo como garantia de caráter. Vítima é sempre vítima, não importa onde nasceu, onde vive, onde cresceu, onde faz compras, onde estudou. A polícia brasileira, como repetiu várias vezes o jornalista Caco Barcelos, trabalha para proteger patrimônio, e não as pessoas.



Muitos policiais medem a criminalidade do cidadão pela cor da pele, pelo modelo do veículo que dirige, pelas marcas das roupas que veste, pelo tamanho da carteira. Basta perguntar para jogadores de futebol. São dezenas de histórias.

É óbvio que existem muitos profissionais sérios e idealistas na polícia, porém estes não podem se omitir diante de uma banda podre, que se esconde atrás de capuzes e levam a sério a brincadeira de interpretar matadores profissionais de filmes japoneses.

O curioso é que, enquanto os corpos se empilhavam em Guarujá e São Vicente, a cúpula da corporação virou as costas para as testemunhas e para a possibilidade de termos assassinos vestidos de farda. Parte da imprensa, vergonhosamente, embarcou – sem fazer o mínimo, a checagem – na versão de que não havia toque de recolher em Guarujá durante o período das execuções. Era só andar na rua.

Se traficantes e policiais, segundo depoimentos como o que inicia este texto, falavam a mesma língua, davam o mesmo recado, quem protegeria as pessoas? Quem é a polícia? Quem é o bandido? Ou será que todos resolveram ir para casa no mesmo horário, fechar o comércio, não ir à faculdade ou às escolas por solidariedade coletiva?

Estes cinco policiais devem ser julgados com dignidade pelo Poder Judiciário. O grupo deve ter a justiça que não teriam praticado enquanto autoridades constituídas. Temo, no entanto, que eles sejam somente bodes expiatórios para um câncer muito maior e mais profundo, que corrói a olhos vistos o corpo composto por mais de 91 mil policiais.

Honestamente, não é possível crer que cinco homens foram capazes de matar 22 pessoas sem qualquer suporte ou silêncio. Os cinco não seriam capazes, sozinhos, de estabelecer um toque de recolher em uma cidade do porte de Guarujá. Um ex-policial, entrevistado pelo repórter Renato Santana em abril, contou que empresas de segurança dão apoio aos grupos de matadores. A soberba é tamanha que os rastros estão ainda vivos. Até onde vai a coragem da Corregedoria para fuçar a vida dos policiais envolvidos?

Independente das provas e da lentidão para respostas, é caso de se repensar a política de segurança pública até a medula. Não basta trocar as peças do tabuleiro. É preciso mudar o jogo, mas vivemos em uma sociedade que assina embaixo a limpeza social, desde que o “lixo” não seja colocado embaixo do tapete dela.

Observação: A Corregedoria identificou e prendeu 18 policiais militares, sob acusação de integrarem grupos de extermínios. Um deles foi liberado. Os demais permanecem presos, após o reconhecimento de testemunhas.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

História sem fim

Por Christian Godoi*

Era um lugar bucólico, lembrava qualquer cidadezinha brasileira quatrocentona. Ali passaram piratas, escravos, barões do café. Suas personagens atuaram com intensidade durante o regime militar; afinal, o sindicalismo vinculado às atividades portuárias transpirava nas paredes de cada casa.

Era uma cidade que, pela luta, havia se tornado justa: patrões e trabalhadores tinham o suficiente para viver, e, quando isso não bastava, negociavam. Isso, contudo, não impediu greves clássicas que permeavam o orgulho do seu povo.

Mas aquela população, sem perceber, era representante dos costumes caiçaras. Pudera! Imagine não usufruir daquela areia fina, do mar escuro, quente, convidativo, às vezes forte, com ondas longas e distantes. Era uma gente cercada de verde por todos os lados: Mata-Atlântica, morros, mangues. O odor das plantas se misturava ao da maresia nos dias mais quentes, principalmente perto do natal. Assim era um lugar bucólico: sonolento, prazeroso.

O mundo mudou, mudaram os valores: consumir, parecer, aparecer, progredir! Palavras de ordem impostas. O pequeno paraíso se iludiu com essa ideia. Por que não? O povo estava parado no tempo, diziam os governantes. A cidade precisa crescer, diziam os visitantes. Um dia descobriram ouro negro por ali. Os poucos ambiciosos passaram a desejar carrões, jóias, mansões. E o pior, colunas sociais, ostentação, desprezo pelo outro.

Os governantes trocaram o bem estar dos habitantes pelo avanço universal. Empresas se instalaram, arranha-céus foram erguidos. Estranhos às práticas locais passaram a circular e a humilhar aqueles antes orgulhosos neo-caiçaras. Falavam em pontes, aeroportos, trens, parques, museus, hotéis, eventos. Só trouxeram trânsito, ocupação desordenada, violência, desigualdade.

Então, aconteceu o inevitável: as pessoas antes tranqüilas, não mais conseguindo conviver com tantos sonhos e realidades massacrantes, começaram a deixar a cidade. Histórias foram abandonadas, costumes deixados de lado. Ah, mas seus hábitos foram capitalizados, e transformados em produtos rentáveis, inacessíveis para boa parte dos que ali permaneceram. Os novos ricos moradores podiam comprar esses hábitos e simular ser dali, mas não eram. Não tinham compromisso com o lugar.

Esgotaram os recursos da pequena e bucólica cidade, afogaram suas ruas, destruíram as paredes históricas, exploraram a humildade dos habitantes. Cobravam do povo qualquer especialização que pudesse ser explorada. Formaram um exército passivo movido pelo dinheiro; com sonhos abandonados, adestrado para só trabalhar.

O povo outrora orgulhoso, agora estava aprisionado nas empresas, endividado, tendo que trabalhar para pagar bens de consumo. Pior, sofrendo dentro de ônibus, no trânsito, convivendo com epidemias típicas de grandes centros urbanos; com o crime, as drogas, a mendicância. Tudo agora fazia parte daquela agora grande pequena cidade.

Não se sabe, no entanto, o final dessa história.

* Christian Godoi é jornalista e professor universitário.

domingo, 6 de junho de 2010

O termômetro do fedor - Parte 1



Sempre desconfiei das datas comemorativas. Elas servem para que se exercite a hipocrisia da falsa preocupação com o “aniversariante”. Por outro lado, serve para lembrarmos dos erros como forma de ultrapassá-los e não repeti-los. É estranho, de certa forma, precisarmos de um dia para comemorar certas coisas que deveriam ser inerentes ao cotidiano. Talvez signifique que estejamos em falha conosco. No mínimo, com o outro.

É o caso do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho. Neste dia, muitos dão sorrisos amarelos e, vermelhos de vergonha, ficam temporariamente verdes. É uma forma de esconder o bege da indiferença e o amor pelo cinza do concreto e do “progresso”.

O meio ambiente paga os pecados para comer pelas beiradas da agenda pública. Os políticos fingem gostar do tema e saem pela tangente quando o assunto precisa aparecer nos programas sociais. Os políticos, neste quesito, não são diferentes da maioria esmagadora dos eleitores. Todos rezam a cartilha do ambientalismo de boutique, em que o tema é observado pela ótica do consumo, como mercadoria em negociação permanente, sem crises de consciência.



O jornal O Estado de São Paulo publicou, na última semana, uma pesquisa que – para encurtar a história – chegou à seguinte conclusão: as pessoas dizem estar mais preocupadas com o meio ambiente, mas se limitam a falar sobre o assunto. Uma minoria mudou hábitos de consumo ou de descarte de produtos. A mudança só acontece quando se mexe no bolso do sujeito (o que reforça o argumento de que pensar meio ambiente é pensar em produto). Exemplo: economizar luz elétrica.

As empresas passaram a investir pesado em programas de responsabilidade social, com o objetivo de alcançar a turma do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. O foco principal é o meio ambiente. São ações dentro e fora da sede da companhia, desenvolvimento de linha de produtos e associação a personalidades com trânsito na área ambiental. E gastos maciços e contínuos em marketing. O mundo corporativo está realmente angustiado com o futuro do planeta, para usar um jargão do ambientalismo de boutique?

È evidente que as empresas se apóiam no comportamento dos consumidores, retratado na pesquisa dois parágrafos acima. O consumidor compra na prateleira do supermercado a paz de sua consciência. Mas mantém o estômago refém da industrialização da comida. E a mente, escrava de uma mentalidade de posse.

È complicado e caro ser adepto de uma alimentação saudável. Por motivos de saúde, tive que repensar minha relação com as refeições. Percebi, em termos práticos, como se tornou difícil comer de maneira correta. Os alimentos saudáveis são mais caros e não estão disponíveis em todos os lugares. É preciso temperar com paciência o relacionamento com a comida saudável. Em tempos de tempo curto, prevalece a comida artificial, ao alcance do balcão ou ao clique do aparelho de microondas.

O consumidor pratica, quando se relaciona com as empresa “selo verde”, a terceirização da moral. O indivíduo é incapaz de se comportar como cidadão, de cobrar responsabilidades de seus governantes ou até de se portar como sujeito crítico diante do que consome. Como não o faz, transfere o papel para alguém, disposto a construir uma boa imagem e ganhar dinheiro com isso. As empresas são o exercício vivo da terceirização da moral dos consumidores.



E onde fica o Estado? Quando não está ausente, atrapalha. O Estado brasileiro é adepto, via de regra, do progresso por meio de grandes obras. Voto é mais do que documento, é tamanho. O meio ambiente representa uma barreira de atraso, que atravanca o desenvolvimento econômico. Pensar assim é seguir a via mais rápida e mais eficaz do ponto de vista eleitoral.

Na última eleição, nenhum candidato à presidência, como escrevi recentemente, incluiu a questão ambiental na agenda de campanha. Este ano, o assunto aparece porque uma das candidatas, Marina Silva (PV), tem um histórico de ambientalismo, embora o discurso dela não seja unanimidade em seu próprio partido. Os demais candidatos fazem voto de silêncio. Para eles, a melhor saída é ser mudo para que se evite a saia justa das declarações politicamente incorretas.

Em Santos, cidade onde moro, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (os ingênuos diriam: que bom que lá tem uma) responde por apenas 1,5% do orçamento. Quase todo o dinheiro está comprometido com folha salarial. É um apêndice cuja voz não tem ressonância nas demais pastas.

A única saída é uma mudança profunda de mentalidade. Significa entendermos que certos recursos são finitos e que o consumo desenfreado nos conduzirá ao fracasso social e pessoal.

O primeiro passo seria o fortalecimento de mecanismos de cobrança junto às empresas e à classe política. Podemos nos recusar a comprar certos produtos. Podemos adotar maior criticidade em relação ao marketing verde, que constrói a imagem de ambientalismo shopping center. Podemos votar em políticos comprometidos com a causa ambiental e jogar ao ostracismo os adeptos do concreto a qualquer custo.

Podemos. Mas a realidade nos aponta que boa parte da sociedade está contente com este modelo. O modelo de consumo que nos vende as falsas ideias de felicidade e liberdade por meio das prateleiras dos supermercados, dos corredores dos shoppings.

Se as pílulas da felicidade forem verdes, a consciência fica limpa. Assim, todos batem palmas nas datas comemorativas. E continuam a acreditar que meio ambiente é composto apenas por bichinhos e plantinhas. De preferência, atrás de vidros e jaulas.

Crédito da arte: DaCosta