quinta-feira, 27 de maio de 2010

Robin Hood e o fascínio pelos justiceiros

O filme Robin Hood reforça uma das tendências do cinemão atual. Para mascarar o caráter de refilmagem, opta-se pela origem do protagonista. Assim, o diretor pode costurar uma nova história, de certa forma revisitada, e deixar o final em aberto para uma sequência, o que atende os desejos econômico-financeiros da indústria cinematográfica. Outra vantagem é vender o velho como novo (quem sabe “inédito”?), sem desgastar o personagem.

A história não é ofensiva por esta escolha. Aliás, não perturba de maneira alguma ou comete pecado capital. O diretor Ridley Scott cumpre o papel de contar um enredo cujo objetivo maior é entreter o público. O filme, que custou US$ 155 milhões, nunca se propôs a ocupar um lugar na prateleira das obras intelectualizadas, embora tenha aberto o Festival de Cannes.

A trama tem como foco a disputa de poder pelo trono da Inglaterra – em paralelo a um confronto com a França – a partir da morte do rei Ricardo Coração de Leão. Robin Hood ainda não tem este nome e é um arqueiro que serve ao exército do rei. Longe de ser a lenda da floresta de Sherwood.

Robin acaba preso por falar demais e foge após a morte do rei. Por um acaso, toma o lugar de um dos cavaleiros mais importantes, Robert Loxley, assassinado em uma emboscada. Como um cavaleiro, participa diretamente das alianças políticas para conter a instabilidade do irmão mais novo do rei Ricardo. O irmão, que se torna o rei João, é imaturo, ansioso e enfrenta a nobreza por elevar os impostos dos nobres.

Robin Hood é interpretado por Russel Crowe. O personagem, quando ocupa o lugar de Loxley, se apaixona pela viúva, Lady Marion, papel de Cate Blanchett.



O veterano Max Von Sydow (foto abaixo), em um trabalho poético, faz o pai dela, Walter Loxley, cego e no final da vida. Outro papel importante é Willian Marshal, chanceler destituído pelo novo rei, feito por Willian Hurt.



Ao sair do cinema, com a sensação de ter me divertido com a velha trama medieval de cavalos, espadas, arcos e flechas, me perguntei: por que nos interessamos tanto pelos personagens justiceiros? Eles aparecem em todas as épocas, repetem-se de maneira sistemática, mas asseguram o nosso conforto ao resolver, com ou sem apoio, as injustiças sociais mais imediatas.

Um personagem como Robin Hood vai além do simples fato de roubar dos ricos para dar aos pobres. Ele nos mostra o quanto o poder depende de nós, meros mortais ordinários. Indica como os que ocupam o poder nos temem e mantém uma estrutura de controle para, inclusive, dominar o próprio medo de uma rebelião das massas, sejam elas camponesas, urbanas ou futuristas.

Em uma sequência do filme, Robin Hood diz aos companheiros que a diferença entre eles e os cavaleiros seria apenas a roupa. O grupo poderia se passar por cavaleiros caso trocassem de roupa com os mortos na emboscada que vitimou Loxley. A nova vestimenta faz com que Robin deixe de ser um arqueiro, veterano de guerra, e se aproxime do centro do poder.

Personagens como Robin Hood, Batman e até Jack Bauer tem um senso próprio de justiça. Apresentam origens semelhantes, no sentido de terem sido indiferentes aos problemas do mundo que os cercam. Quando sugados para o centro da tempestade, agem como executores instantâneos de um processo jurídico individual.



As práticas se alteram; os princípios são petrificados. Robin Hood, assim como seus irmãos de cultura pop, comete deslizes, mas sempre por uma causa maior. O caminho pode parecer tortuoso, mas conduz a um desfecho de correção e de resposta à vítima. Uma resposta desejada por ela.

Estes personagens vivem sob o espectro de um passado mal resolvido, alimentam-se da vingança e buscam uma redenção pessoal por meio da punição dos culpados. Pragmáticos, são capazes do auto-sacrifício pela dor do outro ou por uma questão coletiva. Os justiceiros, e aí está o sabor da ficção, reduzem a quase zero a auto-preservação.

Roubar dos ricos é fazê-los sentir como o poder se sustenta em frágeis alicerces. Roubar dos ricos significa colocá-los ao nível do chão, como se relação com os explorados fosse horizontal. Quando os assalta, Hood os torna mortais, mas não vítimas. Nesta última versão, ele rouba um carregamento de sementes que garantiria alimento para a comunidade de Nottingham.

Os personagens justiceiros nos garantem, ainda que na ficção, a possibilidade de mudança de um quadro marcado pela arrogância, intolerância, desprezo e vilania. Os justiceiros nos permitem compreender que a saída está ao lado, no pavor do vilão que não entende o que o ataca. È algo fora do sistema de controle dele; portanto, uma chave torta que abre a mesma porta antes impenetrável.



Personagens como Robin Hood nos fazem torcer pela transgressão, nos fazem pensar que é possível quebrar regras que não foram feitas por nós e que servem somente como exercício de dominação. É a aplicação da lei que deveria envolver a todos.

O filme de Crowe não retrata a construção da lenda. Explica como Robin Hood se torna um fora-de-lei, alguém vitimado pela tirania e pelo poder corrompido. Historicamente, Robin Hood nunca existiu. A floresta de Sherwood teria abrigado um grupo que assaltava os viajantes, no século 12. A lenda ficou a cargo da indústria cultural, principalmente o cinema. A primeira adaptação de Hollywood aconteceu em 1922.

Além dos devaneios sobre heróis e justiça, o filme me deu outra sensação. Em muitos momentos, parecia ver Gladiador, produzido em 2001 e transferido para a Idade Média. É claro que há a coincidência da parceria entre o diretor Ridley Scott e Russel Crowe, que trabalham juntos pela quinta vez.

Refiro-me à estrutura narrativa, que mostra o protagonista como alguém que teve a família destruída, a vingança contra o traidor, a devoção ao mentor e seus valores nobres, a sabedoria em combate, a liderança nata, entre outras características. Nada que desvie do caminho um enredo com a missão de nos transportar para as batalhas entre arcos, flechas, lanças e espadas. Ou divagar um pouco a respeito e esperar pela sequência.

Um comentário:

Thaís Redher disse...

A floresta de Sherwood...
Nem isso temos mais,e não é ROUBAR DOS RICOS ,é pegar o que é nosso, deles.Moro em SAMPA,eu compreendo que camelô é um problema,mas pior que aquilo, é ver uma família passando fome, á noitinha pegar suas coisas e fazer uma cortininha com uma lona ou plástico e ficar ali ,e de manhã(eu nem sei aonde tomam banho e fazem suas necessidades) eles estão ali indo no mercadão comprando frutas e vendendo para os que passam na ânsia de comprar, e outros que vendem os tais mad in china.E é bom demais, todos os meus dvds, cds, é PIRATA SIM,não ganho para enriquecer o dono da gravadora, o artista não vive disso, o Lobão ja deixou bem claro ...Bem nem todos moram nas ruas,bairros tão longes, não suportam nem bancar a condução e o tempo perdido nelas, ai eu conheci um homem que morava no boeiro,onde ficam os fios , gás sei lá o que é aquilo,era ali na Rua dos |Andradas, um prédio na época comprado pela minha tia e depois virou aquela merda de lugar, e á noite via ele ,fechava a banquinha de melancia dele, e se enfurnava dentro do boeiro.Eu pensei que estava tendo ilusão ótica cheguei a ir no oculista.Mas ai eu vi e não só êle, de manhã bem cedinho ,muitas pessoas saiam lá de dentro,um detalhe- bem vestidos.
Infelismente, nunca mais haverá justiceiros,ou os " fora de lei" DELES NÉ? que acenem a cada miserável, luz no fim do túnel.Ninguém amargou um desemprego até hoje, após os 40 ,você é uma velha decadente,sOBRE O SENHOR DA MELANCIA ,EU QUERO CONTAR QUE EU AJUDEI ELE COMO EU PUDE,ELE ACABOU SAINDO DALI E ARRUMANDO UM EMPREGO O ENDEREÇO?O MEU, ELE FINGIA QUE MORAVA ALI, ele tinha conta de luz,telefone no nome dele,e arrumou um emprego no MERCADÃOOU SE NÃO ME ENGANO É DONO DE UM BOX DAQUELES.ME MUDEI nunca mais nos vimos, e eu espero que ele seja muito feliz.