segunda-feira, 24 de maio de 2010

Quem são os heróis de Coraline?

Ver um filme corresponde a uma relação de afetividade. O que nos move a falar sobre ele depois da exibição ou se sentir incomodado por dias talvez a sejam a força e a abordagem de uma história. O impacto de um filme, ao menos sobre mim, é medido pela emoção que ele consegue provocar durante e depois da exibição. A pior resposta possível é a indiferença. Considerá-lo mais um, em tempos de rigidez industrial.

Só que, às vezes, namoramos, flertamos, nos aproximamos, mas não conseguimos nos relacionar com um filme. Não é uma questão de rejeição, mas de oportunidade. É a minha relação com Coraline, animação dirigida por Henry Selick e lançada no ano passado. Dakota Fanning dubla, no original, a protagonista; e Teri Hatcher (Lois Lane, do seriado Lois and Clark), a outra mãe. Tive o filme nas mãos várias vezes, e só fui assisti-lo depois de um ano de relacionamento platônico.



O filme conta a história de uma menina, de nome Coraline, que muda de casa com os pais para um casarão. Os pais, excessivamente preocupados com o trabalho, não prestam atenção nos desejos da garota, que se sente entediada com a nova rotina. Ela é inteligente, curiosa, ansiosa, perspicaz, como toda criança.

Ao explorar o casarão, a menina descobre uma pequena porta antiga, trancada. Ela pede para a mãe abri-la e, depois de um certo tempo, descobre uma passagem secreta para um mundo paralelo, onde todas as pessoas se comportam pelo oposto.

O mundo paralelo seria, em princípio, a terra ideal para Coraline. Lá, os pais dela são maravilhosos e animados. A comida, deliciosa. O cotidiano, marcado pela diversão. O problema é que os novos pais, que tem olhos de botão de roupa, pretendem mantê-la presa com eles.

Coraline é baseado em romance de mesmo nome, do autor inglês Neil Gaiman, conhecido pela série Sandman. Parece um filme para crianças de outra época, tamanha a onda do politicamente correto que assola as animações infantis.



A sensação é de que a história romperá com o padrão, aproximar-se do limite da transgressão, mas recua à beira do desfecho. Os cenários são sombrios, os personagens não se encaixam, os conflitos se multiplicam ao longo do enredo. Mas o final ganha contornos de cinemão norte-americano, quando tudo se resolve e parte dos personagens se redime. Não se trata de contar o final, apenas prevenir de um certo ar de obviedade.

Não entenda, leitor, como demérito. Pode ser a contaminação da leitura de um adulto (ou a incompetência de se colocar no lugar das crianças), mas é que esperava um desfecho menos correto e cheio de claridade naquele mundo tão escuro e de pouca vida.

O filme apresenta uma grande diferença para o romance. No cinema, Coraline tem um amigo, Wieby (foto abaixo), garoto com jeito de cientista maluco, que mora com avõ e vive com a companhia de um gato. Foi a saída narrativa, apreciada pelo próprio Gaiman, já que no romance Coraline fala muito sozinha. O gato é um personagem de ligação entre os dois mundos e com as melhores falas, sábias e irônicas.



O filme Coraline faz pensar sobre a relação entre pais e filhos. O amor é base desta relação ou falsa justificativa? Por que, então, muitos pais são autoritários e violentos? Pais precisam parecer legais para que a vida dos filhos seja feliz? Ser legal implica em dividir experiências divertidas ou compartilhar acertos e erros? Quando fazem todas as vontades das crianças, os pais protegem ou são negligentes com elas? E como fica a negação? Dizer não é um ato de maldade?

A modernidade nos trouxe a crença de que o amor entre pais e filhos é incondicional e eterno. As propagandas de margarina podem ser vistas como símbolo deste período histórico. Incorporamos a idealização dos afetos, sem compreender a natureza mundana e contraditória deles.

Negamos, sempre que possível, a ideia de que não há diferenças profundas com outros tipos de relação afetiva. O amor entre pais e filhos pode, sim, terminar; ou pior: transformar-se em ódio ou indiferença. Neste sentido, por que poupamos o outro? Para construirmos uma boa imagem para si e para ele?

O filme nos mostra que exercer a função social de pais não é inerente ao fator biológico. Pais são aqueles que cultivam um relacionamento, baseado no respeito e no entendimento, ainda que em caráter vertical. Os pais de Coraline, durante boa parte da trama, são ausentes, autoritários, focados em seu próprio universo. Escravos do trabalho e do próprio individualismo, cujo símbolo mais sólido seria a carreira profissional.

Coraline vai buscar, em outros sujeitos, suas referências, seus heróis. Estas pessoas são os pais dela no mundo paralelo. Em princípio, eles cumprem o que Coraline mais deseja: são heróis, os pontos de influência e de segurança. Seria uma espécie de trilha rumo à felicidade.

É claro que Coraline percebe – dentro da previsibilidade do roteiro – que seus pais, com todos os defeitos (e qualidades), são as figuras ideais. Ainda que heróis com pés de barro. A garota, ao menos, não jogou fora a oportunidade de compreender que é melhor viver com o possui do que paralisar por causa de projeções idealizadas.

Atualmente, nos relacionamentos em geral, rompemos com o outro porque a humanidade ordinária dele nos incomoda. Cometemos o erro de tentar fazê-lo à imagem e semelhança, como se isso fosse evitar os conflitos que tanto tememos. Fazemos a mesma coisa com os pais, muitas vezes descartados pela idade e/ou pela saúde. Uma coisa é não poder acompanhá-los nos problemas deles. Outra é encará-los como mercadorias de supermercado, descartáveis e perecíveis.

O choque é parte da construção dos relacionamentos, parte do processo evolutivo deles. È comum vermos pais que colocam nas costas de seus filhos o peso de seus sonhos não-realizados. Ou caminham em direção ao avesso: ignorar as crianças, tamanha a responsabilidade de criá-las. Educá-los é uma trajetória sem fórmulas disponíveis nas revistas ou nos livros de auto-ajuda.

O mundo sombrio de Coraline, neste sentido, é sugestivo ao mostrar que o relacionamento entre pais e filhos consiste numa troca simbólica de papéis. Papéis de mocinho e vilão, que se alternam conforme as circunstâncias, sem respostas de curto prazo ou saídas previsíveis. É como a porta que leva Coraline a um mundo secreto, com satisfações, medos, aventuras e surpresas.

Um comentário:

MO disse...

Que maravilha de texto! Adorei Coraline e sua abordagem é a mesma que a minha. Como pai, concordo em gênero, número e grau.