terça-feira, 11 de maio de 2010

Homem-de-Ferro: o super-herói in natura

Os super-heróis, na cultura pop, aborrecem. Na ânsia de atender ao maniqueísmo fácil pela desculpa da compreensão coletiva, os autores os tornam chatos de tão bonzinhos. Os super-heróis são mais do que incorruptíveis. Eles atendem ao politicamente correto, que dita regras e valores e se transforma numa patrulha cultural que beira o autoritarismo. Até as crises de consciência, como a de Peter Parker, em Homem-Aranha 3, infantilizam os personagens.

Como os heróis são lineares e previsíveis, fica para os vilões o papel de divertir e permitir alguma leitura psicológica. Os vilões poderiam ser os espelhos dos heróis e provocar o mesmo efeito da obviedade, mas muitos deles – como o Coringa – fascinam pelo contraditório, pelo cinismo, pela ironia sofisticada. Tais características, que levam a violência irracional do Batman, por exemplo, nos divertem e até nos fazem torcer por eles.

Ontem, assisti ao filme Homem-de-Ferro 2. Ali, vi um herói diferente, demasiado humano e atraente na própria imaturidade.

Tony Stark, o personagem que veste a armadura de metal, é egoísta, obsessivo, narcisista, vaidoso, boêmio, mulherengo e impulsivo. O personagem, interpretado por Robert Downey Jr., é coerente com sua própria condição. O ator, pela biografia, possui histórico de comportamentos típicos do herói da ficção.



Na produção cinematográfica, Tony Stark é o empresário mais poderoso do ramo de armas, numa época em que a indústria bélica representa um dos três maiores segmentos da economia globalizada. A informação não é do roteiro, mas do mapa geopolítico de hoje.

Culto e sofisticado, Stark é preconceituoso e auto-referente como um digno representante da elite econômica e política. Mas protege os amigos, é capaz de generosidade e se preocupa com questões internacionais, embora encene certo tom de alienação. È a pitada do formato americano de entretenimento. Surpresa seria se fosse o inverso.

Na pele do Homem-de-Ferro, Stark funciona como um super-herói mais próximo da realidade de um sujeito que designa o papel a si próprio, sem encará-lo como missão. Ele não nasce herói. Decide ser! Ser um herói significa desfrutar da glória, dos holofotes da mídia, e expor seu poder diante dos comuns. Numa cena do filme, Stark diz a platéia (e às câmeras, ao vivo) que acompanha uma sessão do Senado americano.

- Eu privatizei a paz mundial.

O filme discute – dentro das limitações de um blockbuster – a fome bélica dos Estados Unidos. Stark se recusa a ceder ao governo a armadura, que seria utilizada para assegurar as guerras em curso. O Homem-de-Ferro se encaixa como o soldado perfeito, já que o Capitão América é ironizado em outra cena da história.

Não espere um debate filosófico sobre as razões da guerra. O roteiro é simples, previsível, e serve aos efeitos especiais e às cenas de ação. Cumpre a proposta de entretenimento, sustentada por um personagem pop e um elenco renomado.

Neste ponto, Mickey Rourke – com a carreira ressuscitada – convence como Ivan Vanko (foto abaixo), físico russo em busca de vingança pela morte do pai. Aquela divergência surrada, em que filhos herdam as diferenças dos pais; no caso, todos cientistas. O filme também permite saber um pouco mais das relações entre Tony e seu pai, Howard Stark.



Homem-de-Ferro 2 costura melhor e fortalece a relação do herói com os Vingadores, que deverá fechar a saga destes personagens daqui a dois anos. A história dá mais detalhes sobre a Shield, com a presença de Nick Fury (Samuel Jackson) e da ambígua agente Romanoff (Scarlett Johanson, uma das mulheres mais belas do cinema contemporâneo). Sam Rockwell é o empresário caricato de armas que se alimenta da inveja por Tony Stark. Um vilão megalomaníaco, cheio de maneirismos e aspectos rotulados.

Downey Jr. é o centro do filme. Ele aprimora o Tony debochado e moleque do primeiro Homem-de-Ferro. O personagem brinca com a morte e esconde os próprios medos diante do sarcasmo e da irresponsabilidade. Posa como soberano, mas se enche de temor quando sozinho.

No fundo, ele é um herói pecador, com virtudes e defeitos de um indivíduo – em princípio – normal. De perto, alguém com poder além da compreensão e controle de um único sujeito. Sujeito que cultiva a própria vaidade e erra pela arrogância.



Quantas pessoas você conhece que se deitam com soberba na cama do poder? Quantos correspondem à máxima popular: para conhecer alguém, dê algum poder a ele? Tony Stark se deu o poder e desfrutou dele como um playboy descontrolado, cru na própria coerência.

Uma observação indireta: pela primeira vez, vi um filme sozinho na sala de cinema. Fui à sessão das 12h40. Antes que me considerem um desocupado, aproveitava a hora do almoço. Sentir-se bem ao ver um filme, com exclusividade, numa sala de shopping soa, cinicamente, como uma experiência egocêntrica, digna de Tony Stark.

Um comentário:

Pablo Basile disse...

Aê Marcão. Muito boa a sua análise do filme!
Eu havia me espantado com certas críticas detonando esta continuação... tem crítico que leva filme de ação a sério, fazer o quê, né? É pra curtir mesmo, principalmente quem já gosta de HQ e mais ainda para quem não gosta dos heróis do tipo "escoteiro", como Super-Homem e Capitão América.
Só acho um porre essa visão eterna que os norte-americanos fazem da Rússia, sempre sucateada e detonada, com o personagem do Rourke criando um artefato hi-tech no meio de sucata e garrafas de vodka. Mas é aceitável, pois afinal o herói é americano.
Ah, concordo plenamente que a Scarlett Johanson é uma das mulheres mais belas do cinema contemporâneo, já vale o ingresso, hehehe. E curti a referência com o "demasiado humano", Nietzsche é sempre bem-vindo.
Grande abraço.