quarta-feira, 21 de abril de 2010

Uma oração à inteligência

Caro professor,

Tomo a liberdade de te chamar pelo nome adotado por hábito pelos seus comandados. Espero que, assim, você preste um instante de atenção e se sensibilize pelo meu pedido. Reconheço que, em 11 de maio, você colocará ao público uma decisão maturada por semanas. Você sofrerá críticas, receberá elogios e será julgado pelos resultados no mês seguinte. Para muitos, você cometerá injustiças e só a vitória fará com elas sejam enterradas pelos microfones e páginas.

Professor, a Copa do Mundo é o lugar dos abençoados. Mas também o palco dos injustos. Muitos jogadores não deveriam estar ali. Chegaram ao Mundial por serem leais, por serem bem relacionados, pela ficha corrida que remonta a um passado de sucesso. E deixaram os melhores diante da TV e à espera de quatro anos.

A seleção brasileira é caixa de ressonância dos julgamentos públicos. As campanhas por convocações são comuns às vésperas da Copa. Todos pensam ter razão. Todos têm um time fantástico na cabeça. Todos conhecem a tática ideal para ganhar jogando bonito.

Felipão, gaúcho raçudo como você, suportou por meses o nome Romário até que ele desaparecesse a cada vitória na Ásia. Telê Santana, que montou a equipe de 1982, ouviu por meses o humorista Jô Soares pedir na TV:

- Bota ponta, Telê!

Mas sabemos também que, historicamente, duas ou três vagas são definidas pelo desempenho no semestre. Em 1990, Lazaroni carregou os vascaínos Tita e Bismarck, bons jogadores apenas. Em 1994, Parreira levou Viola e Ronaldo. Oito anos depois, Felipão convocou Kaká. Toda seleção carrega, além de novidades recentes, aqueles que serão o futuro, os titulares do mundial seguinte. Não falo do Tita nem do Viola, é claro.

Olha, você não sabe como é difícil um corintiano pedir Neymar e Ganso na lista de 11 de maio. Ganso é o reserva que Kaká necessita. E Neymar se encaixaria como quarto atacante. Até porque sabemos que você levará Robinho e Luis Fabiano. O resto tem cheiro de especulação apaixonada e sobrevive em meio a altos e baixos, aqui ou no exterior.

Aproveito também para orar pela presença de Diego, da Juventus (ITA). Honestamente, penso que ele joga mais do que Robinho e seria bela opção para o meio-campo. Suporta o ritmo do futebol europeu e poderia compor o setor pelos dois lados.

Como último pedido – sei que são muitos -, por que não Roberto Carlos? Salvo Michel Bastos, do Lyon (FRA), os demais candidatos não se encontram em boa fase. Na verdade, nunca encantaram. Roberto Carlos poderia ser reserva nesta defesa, que é nosso melhor setor. Experiência de três copas ajuda, não é, professor?

No caso do Roberto Carlos, você poderia olhar para si mesmo. Aquele time horroroso do Lazaroni foi chamado de Era Dunga, uma injustiça com alguém que passava e marcava com eficiência. Alguém que não poderia ser associado a um futebol desorganizado e sem alma.

Na copa seguinte, o senhor foi o capitão do tetra. Deu a volta nos críticos ou se vingou, como queira definir seus gestos. Pense com carinho nas sugestões. Elas pouco interferem nos seus conceitos, mas servem como colaboração na campanha às portas do Mundial.

Não se esqueça também de que a Copa do Mundo não é o lugar onde se faz justiça. Por que não contradizer a escrita e quebrar o tabu com a convocação dos melhores, e não os mais leais ou os bem relacionados? Reconheço que “os melhores” é demasiado subjetivo, mas dá para acertar na maioria dos nomes.

A história mostra que injustiças são cometidas a cada quatro anos na seleção. Em 1982, Telê não convocou Leão, o melhor goleiro que tínhamos. Isso ficou evidente na Espanha. Em 1990, Neto era o melhor jogador do país e ficou em casa. Quatro anos depois, Parreira ignorou Marcelinho Carioca. Em 1998, Romário talvez se recuperasse a tempo de nos ajudar na França.

Professor, não peque pela injustiça. Não se arrepende pelo que deixou de fazer. Você mesmo repete a frase “Futebol é momento” como se fosse um mantra. Seja coerente e leve os abençoados. São apenas sete partidas, se alcançarmos a final. Depois do Mundial, ou o senhor entra de vez para a história e silencia os críticos ou reacenderá os preconceitos contra você e cederá o trono a outro professor. Prefiro a primeira hipótese, por merecimento seu e por egoísmo de minha parte.

9 comentários:

Anderson disse...

Acho que melhor que o Roberto Carlos é o Maxwell do Barcelona, além de André Santos e Filipe Luís (que pode se recuperar a tempo). Para opções no meio campo temos o Alex (fenerbahce) e o Ronaldinho Gaúcho.

Anônimo disse...

Pedir atuais craques a treinadores da seleção brasileira é contraproducente.
Eles nunca concordam com a voz do povo.
Acho que deveríamos fazer outro tipo de campanha, como:
"Deixa o Neymar de fora!!"
" Neymar perna-de-pau!"
Quem sabe assim o técnico, só de pirraça, os convoque para a Copa.
abraços
:o)
Murilo

Murilo Tavares Brandão disse...

Professor, peço encarecidamente que esqueça os pedidos feitos pelo professor Marcâo e apenas confie no seu trabalho.

A confiança depositada nos jogadores que foram convocados até agora tem um motivo. Não se esqueça deles. Muitos gostam de desvalorizar o Júlio Batista por ser reserva na Roma, e não ter habilidade para ser reserva do Kaká. Acontece que ele nunca decepcionou na seleção (nunca talvez seja muito forte, mas não vou procurar argumentos que prejudiquem a minha argumentação).

Sempre que você precisou, ele estava lá. Já o Kaká, idolatrado por muitos, jamais fez grandes apresentações dentro da seleção. Jogou muito no Milan, mas também está contestado agora no Real Madri. Se fosse pra tirar o Júlio, seria coerente retirá-lo também. Mas não faça isso, apenas deixe os lá e brilharão na Copa.

E quanto ao pedido por Diego? Que absurdo. O professor Marcão é um ótimo profissional, por isso não tem tempo de acompanhar o futebol. Diego, quando teve oportunidade de jogar na seleção, jogou mal. Ai ele brilhava na Alemanha, e pediam a sua convocação pelo saudosismo dos tempos do Santos. E atuava mal de novo. Já Robinho é o seu craque. O cara que fez o seu time obter os melhores resultados, o único que não te abandonou na Copa América de 2007, desbancando uma Argentina cheia de pose, e que nunca mais se recuperou após aquela derrota.

Roberto Carlos é uma ótima pedida. Principalmente se durante um clássico você quiser jogar com um jogador a menos. Ele já fez isso duas vezes esse ano, e contando.

Neymar e Ganso, os melhores do Brasil atualmente. Puskas também era o melhor em 54. Cruyff era o gênio de 74. Zidane foi o melhor em 2006. Os melhores não são necessariamente os que venceram.

Dunga, apenas convoque os seus 23, que até agora, apesar do jogo feio, deram certo. Você com certeza vai deixar alguém de fora. Sejam dos seus, sejam os melhores do momento. O objetivo é ganhar, e disso vc entende. E a única vez que teve que aguentar sugestão, vimos um Ronaldinho quase tão habilidoso quanto eu nas Olimpiadas. E eu sou péssimo.
Não se deixe influenciar agora.

Obs: Mas se quiser levar o Marcão do Palmeiras para a Copa como terceiro goleiro...só mais uma sugestão.

Marcus Vinicius Batista disse...

Murilo,

Respeito a subjetividade dos seus argumentos. Desculpe, mas acompanho futebol o suficiente para ter uma opinião a respeito. No caso do Julio Baptista, será que vale a pena convocar um reserva? Soa incoerente, se observarmos as declarações do técnico. E, em todos os casos citados, há argumentos favoráveis e contrários, ambos subjetivos. Sobre o goleiro Marcos, ele poderia ser terceiro goleiro, mas contradiz parte dos argumentos anteriores, caro palmeirense. Futebol, muitas vezes, funciona assim: escolhas pessoais, inclusive as do Dunga. Grande abraço!!!

Murilo Tavares Brandão disse...

A subjetividade está no meu texto tanto quanto no seu. Afinal, se fosse objetivo, estariamos fazendo contas matematicas e nao especulando e pedindo uhauhauhauhahuaahaauhauh

Falei a parte de acompanhar apenas de sacanagem. Mas se observamos as atuações do Julio pela seleção nao tem incoerencia nenhuma. Ele sempre correspondeu. E o Dunga sempre chamou os jogadores que ele confiava, nao vejo nenhuma atitude incoerente, mesmo que oq ele faça nao corresponda ao que ele fale.

E o Marcos é um desejo pessoal, claro. O Dunga só deve convoca-lo se ele achar que deve. A contradição foi calculada desde o principio. uhahuhuahuahuhuahuauauhaa

Grande abraço e até segunda

Yuri Moleiro disse...

HEHEHE adorei o texto... se fosse o Dunga pensaria com carinho nas propostas.

Abraço.

Moacir Poconé disse...

Neto em 90? Marcelinho Carioca? Roberto Carlos agora? Com certeza não passa de opiniões de um corinthiano frustrado (como são muitos!).
Concordo com você apenas nos casos de Neymar e Ganso que merecem ser convocados. No mais, tudo fantasia de mero torcedor...
Abraços
Moacir Poconé

Osório de Andrade disse...

Faltou citar Falcão em 78, que ficou de fora.

Marcus Vinicius Batista disse...

Osorio, você tem razão. Esqueci-me do rei de Roma. Abraço!!