domingo, 25 de abril de 2010

O zoológico dos políticos

Depois de sete anos, voltei ao Zoológico de São Paulo. Era uma excursão com alunos e professores de uma das universidades onde dou aulas. Em dia de sol, o lugar é bastante prazeroso, embora – no fundo – sinta-me estranho e culpado em ver os animais enjaulados.

Quando o grupo se dividiu, eu e minha filha ficamos com um casal de amigos, Osvaldo e Natalia. No meio do passeio, começamos a brincar que só faltava a espécie humana entre os animais, embora o próprio homem seja bastante criativo em matéria se amordaçar, prender, torturar. A lista de verbos sinônimos tem tamanho considerável.



De imediato, chegamos a uma sub-espécie do ser humano: os políticos. Osvaldo sugeriu, por exemplo, vários nomes que poderiam compor um acervo mais selvagem e letal do que os próprios bichos do Zoológico.

Como exercício de especulação, faço algumas sugestões para os engravatados – com ou sem mandato – escolherem adequadamente suas jaulas. Eles poderiam ocupar, de forma voluntária, o mesmo espaço dos atuais moradores do zoológico, caso houvesse uma fuga ou liberdade coletiva.

• Elefante – o típico burocrata paquidérmico. Tem peso na política, mas é lento para resolver problemas. A tromba ajuda a beliscar os agrados mais difíceis. Ignora os pequenos alimentos. Tudo funciona às toneladas.

• Abutre – finge nobreza pela pose. No fundo, age como lixeiro, pois se alimenta dos restos de outros animais. Não acha vantajoso o confronto. A paciência representa a maior virtude. A ordem é esperar sempre e mordiscar recursos pelas beiradas.

• Macacos – neste caso, quanto mais tempo no zoo, melhor. Os mais velhos conhecem os caminhos pelos galhos e são beneficiados pela longevidade. Por isso, ficam com os galhos – opa, gabinetes - mais altos da árvore.

• Águia – este político dá falsos sinais de inércia. Os olhos são cirúrgicos. Espreita uma oportunidade só, mas grande e definitiva. O voo certeiro faz o golpe.

• Tartarugas – pequenas e lentas, ainda assim eficientes. Ocupam escalões menores no zoológico. Sobrevivem dos pequenos benefícios de quem possui pequeno poder. Convivem no mesmo espaço com os jacarés. Lidam com a pequena burocracia, chata para os elefantes. São adeptas fanáticas da política “devagar e sempre”.

• Jacarés – protegem as tartarugas numa relação fisiológica e corporativista. Abocanham fatia maior de alimento, mas deixam um pouco para elas. Resistiram a séculos de evolução animal. Os jacarés se movem pouco, fingem-se de mortos e causam estragos se provocados por bichos de fora do sistema.

• Tucanos – grupo enorme que ocupa um viveiro exclusivo. Sempre em cima do poleiro, jamais escolhem um lado em definitivo. A plumagem dá impressão de sofisticação. São aves intelectuais. Emitem sons de difícil compreensão, justamente para aliar a imponência com a falta de vontade (política).

• Araras – são de várias cores. Parecidas com os tucanos no comportamento. Na prática, pensam quase do mesmo jeito, salvo exceções. No viveiro delas, as vermelhas ocupam o posto mais alto. Estas araras vivem cercadas de outras da mesma espécie, de cores variadas. Todas querem - não admitem ou não têm coragem - o lugar mais alto do viveiro.

• Ursos – chamam a atenção pela força. O tamanho é o símbolo do poder. Parecem amáveis, até fofinhos de tão simpáticos. Transformam-se em predadores selvagens quando alguém invade o espaço deles.

• Leão – o papel dele explica tudo. Manda, ordena, delega funções e se alimenta do resultado. O rei passa a maior parte do tempo na falsa preguiça enquanto planeja o que será feito na próxima caçada.

• Zebras – são indecisas por natureza. Vão do branco ao preto num instante. Jamais indicam de que lado estão. Preferem as duas canoas (ou listras). Dizem ser parente distante dos tucanos, apesar da ausência de semelhança física.

• Rinoceronte – enganam-se os que o consideram lento. Não gasta energia com pouca coisa. Diante de algo grande, avança em velocidade e atropela como um trator. O chifre pode apunhalar o adversário no coração ou pelas costas.

• Girafa – observa tudo do alto. Mete-se em quaisquer assuntos por causa do pescoço grande, que possibilita aproximação mesmo com o corpo à distância. É serena e disciplinada na hora da alimentação. Olha como se os fatos não tivessem nada a ver com ela.

• Anta – é a falsa burra. É associada à idiotice, mas sabe a hora de atacar. A imagem distorcida faz com que este animal seja mero coadjuvante no zoológico. Não ser lembrado é a melhor maneira de se esconder na multidão.

Todos estes bichos se alimentam de maneira parecida. Muda o nome da comida, o horário e o lugar das refeições. Uns comem verbas. Outros preferem recursos públicos. Há os que degustam por partes (ou comissão, como dizem os tratadores) e os que fingem comer.

Alguns destes animais são amistosos. Saem à luz do dia, sorriem para os visitantes em troca de comida rápida ou um agradinho fora da ração tradicional. Apertam mãos, distribuem abraços e beijinhos, de olho na recompensa, que pode imediata ou a cada quatro anos.

Os mais perigosos – e temerosos – se locomovem à noite, quando o zoológico está vazio. Amam as sombras, que permitem fazer o que querem, sem broncas dos tratadores, biólogos e veterinários. O zoo oferece passeios noturnos, com condições especiais. A direção do local tem consciência de que o visitante nunca poderá ficar sozinho no escuro, sob risco de ataque. À noite, a crueldade dos predadores é explícita.

Ao conversar sobre estas espécies, meu amigo Osvaldo sugeriu que, a título de prevenção, fosse pregada uma placa em cada jaula ou viveiro: NÃO JOGUE DINHEIRO AOS ANIMAIS!

A placa, se funcionar, poderia colocá-los em rota de extinção. Os “coitados” correriam o risco de morte por inanição. Ou apelariam para o canibalismo, como acontece em outros endereços onde eles transitam com liberdade?

Crédito da foto: Mariana Amarante e Almeida Batista

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