sexta-feira, 9 de abril de 2010

O jogador mais macho do Brasil

A mudança no comportamento da torcida do São Paulo atraiu a atenção novamente para o jogador Richarlyson, a partir de um velho problema extra-futebol. A sexualidade do atleta – na verdade, as teorias sobre o comportamento dele na vida privada, o que deve ficar bem claro – provocou um novo tipo de choque entre os torcedores.

A torcida Independente ficou exposta pela primeira vez no ano passado, quando Richarlyson fez o gol da vitória contra o Fluminense, além de ter arrebentado no jogo, em pleno Morumbi. Os membros da organizada ficaram calados, enquanto o restante dos torcedores gritava o nome do jogador. Na entrada em campo, Richarlyson era o único que não tinha o nome ovacionado nas arquibancadas. A imprensa descobriu, posteriormente, que se tratava de uma ordem expressa, e não um “sentimento coletivo natural”.

Agora, a torcida organizada resolveu abrir a boca para ofender o atleta. A mudança de postura gerou controvérsia com outros grupos de são-paulinos, em princípio, mais civilizados, que sairam em defesa do meio-campista.

Richarlyson está no clube há cinco anos, chegou à seleção brasileira, atuou em várias posições, tem o melhor preparo físico do elenco, jogou machucado, é elogiado pelos técnicos pela disciplina tática, nunca reclamou da reserva e ganhou vários títulos, entre eles o tricampeonato nacional e o mundial interclubes. O jogador de 27anos vestiu a camisa do São Paulo mais de 200 vezes.

Com esta história, ele seria tratado como ídolo em qualquer time. Mas escolheu praticar um esporte com características tribais, em um país homofóbico. Escolheu uma atividade profissional em que se torna figura pública. Nesta profissão, é hábito ter a vida privada e a vida pública misturadas pela mídia. Assim como é hábito que boatos se transformem em verdades absolutas e que ataques sejam recheados de preconceitos. A verdade não importa, mesmo que seja verdade, meia-verdade, ou mentira deslavada.

Richarlyson não tem conversado com a imprensa. É uma tentativa de se preservar, pois qualquer passo ou atitude ganha uma conotação sexual. Ou melhor: homossexual.

Honestamente, a vida privada dele não me interessa. Mas é difícil permanecer distante da avalanche de informações e fofocas que cercam a rotina dos jogadores de futebol. Se não há acontecimentos ou polêmicas fáceis em campo, o caminho é a devassa do cotidiano privado dos atletas. Mulheres, relacionamentos fracassados, baladas, muitas histórias em que o rumor é muito mais atraente e impactante do que o fato. A lista de jogadores é longa e alcança todas as cores.

A diferença é que, neste caso, Richarlyson está sozinho. Admiro a resistência do atleta em permanecer cinco anos no mesmo clube, ouvindo gracinhas nos estádios, ofensas de adversários, indelicadezas de dirigentes boçais. O atleta segue na contramão – na perspectiva dos que se ofendem com a presença dele – do principal valor que ronda o futebol. Este esporte é para macho!, dizem os machões. Seriam machos o suficiente para agüentar uma pressão como a que cerca o meio-campista do São Paulo?

Muitas mulheres que jogam são acusadas ou alvo de comentários velados sobre a própria sexualidade. Futebol e mulher é coisa de sapatão. Técnico de futebol engravatado, por exemplo, já insinuou que uma árbitra cometeu erros por ser mulher.

Comportamento sexual, que não seja a heterossexualidade, é tabu dentro e fora de campo. Futebol carrega como símbolos a virilidade e a macheza que beiram a imbecilidade e a cegueira da ignorância. Confundem-se, por exemplo, entradas mais duras com masculinidade. Ou apanhar calado como ato de macheza. O que seria, então, do jogador menos violento ou que não comete faltas?

O futebol, como negócio, sobrevive pela performance dos jogadores. Clube ou patrocinador só se importa se o desempenho profissional é afetado pela vida entre quatro paredes. Caso contrário, ambos passam a mão na cabeça do jogador para proteger o patrimônio. A partir disso, posso dizer que o são-paulino é um jogador admirável dentro de campo, não apenas pela capacidade profissional, mas pela decência com que encara este fardo destinado a ele.

Richarlyson virou um símbolo involuntário. Ele representa o choque de uma sociedade em mutação. Não sei se ele é homossexual, mas ele é mais um elemento que provoca a discussão sobre o assunto no Brasil. Há mudanças legislativas, políticas públicas, eventos culturais, abordagens – ainda tímidas – na mídia.

A mudança é, obviamente, lenta, com avanços e retrocessos. Mas não dá para ignorar o comportamento ambíguo de uma parcela considerável da sociedade brasileira. O que se sabe, por pesquisas, é que a postura se mostra contraditória. O preconceito do indivíduo é retraído na esfera pública e escancarado no círculo privado.

No estádio de futebol, é fácil colocar o preconceito para fora. O torcedor está em grupo. Ali, pode ser violento, se eximir de responsabilidade, expor a selvageria e a animalidade nos gritos e nos cantos. Na arquibancada, prevalece o grupo, por vezes institucionalizado numa torcida organizada, que mantém rituais onde se enaltece não apenas o clube, mas o machismo dos integrantes.

Richarlyson foi o escolhido. A história já o carimbou com um estigma, que seguirá vivo e feroz enquanto se mantiverem a intolerância, a discriminação e a violência derivada delas. Richarlyson carregará consigo as pedras atiradas por quem não tem coragem de aceitar a si mesmo ou a dignidade de entender quem supostamente pensa de outra maneira. Como é personalidade pública, terá que se calar perante os levianos e os irresponsáveis, vindos da arquibancada ou com os microfones e canetas nas mãos. Qualquer resposta ressuscita e fortalece a tortura.

A ironia se alojou na burrice que aparece atrelada à homofobia dos torcedores tricolores. O São Paulo é alvo de chacota por parte dos adversários pelo preconceito sexual, traduzido pela palavra bambis. Os torcedores, em atitude pouco inteligente, apenas reforçam o preconceito contra sua própria equipe – e indiretamente contra si próprios – quando discriminam um jogador do time.

Nos últimos anos, passei a acreditar que estádio de futebol representa um enorme laboratório humano. Ali, você pode observar os mais variados sentimentos em convivência ao longo de uma partida. Sujeitos que vão de um extremo ao outro em 90 minutos. Entre eles, mostrar o lado mais bestial e perverso do ser humano.

O estádio nos indica como caminhamos sob uma estrada de ilusão, em que nos julgamos, de forma soberba, seres civilizados, educados, suportes de valores nobres. O que os torcedores fazem com Richarlyson indica que estamos distantes de um processo de civilização. Apenas nos alimentamos do engano e da auto-referência.

Richarlyson é a prova de que muitos ainda não conseguem enxergar outra pessoa e respeitá-la, tolerar suas ações, sem engolir boatos ou reproduzir rótulos oriundos de leituras rasas. O mínimo de decência implica se colocar no lugar dele e avaliar as humilhações e a violência pela qual o jogador passa. Neste sentido, torcedores e jornalistas conseguem ser bestiais, animais incapazes de racionalizar o significado de humanidade.

Observação: O título deste texto foi retirado da revista Placar, que produziu excelente matéria sobre o jogador na edição de março de 2010.

4 comentários:

Wilson Roberto disse...

Por coincidência el edeu uma bela entrevista pra revista Rolling Stone (ed. 42 - março 2010), onde a linha fina na capa é "Só faço o que quero". Vale a pena ler.

Daniel B. disse...

Na realidade, Richarlyson é um exemplo de profissional e atleta. Claro, o preconceito começou quando torcedores adversários queriam denegrir a imagem dos torcedores rivais. Até ai, blz... porém atingiu um ser humano, que quer queira, quer não... sofre.

TAlvez, até acredito, nem homossexual ele seja. MAs o que importa? Vocês não acham que Corinthians, Palmeiras, Flamengo, Santos, etc. não tem atlétas gays? Com certeza tem.

QUando MC Serginho e Lacraia estavam na mídia ainda, a Lacraia (Gay assumido) disse "Já sai com um jogador do Corinthians". Nada repercurtiu... Pq? Era Atléta do mais querido da mídia. MAs ainda bem que não repercurtiu. Pois, a sexualidade é do cara, é da lacraia... Sinceridade.. "DANE-SE" A OPÇÃO SEXUAL DE CADA UM.. As pessoas tem livre abtriu de fazer o que quer da vida.

Sou São Paulino, e admiro o Richarlsyon, ao contrário das ORGANIZADAS, que não passa de uma desorganização.

Eu tenho que dar parabéns a família do Richarlyson. Pq se formos analisar pelo o que ele sofre e o que ele se mantem firme e forte.. é uma prova viva de que a família o soube educar, deu uma base e uma estrutura MARAVILHOSA... Pq qquer outro jogador, sendo hetero ou homossexual, sofresse do jeito que ele sofre.. já estaria de molho a muito tempo.

Lembrando: INDEPENDENTE É A MINORIA DA TORCIDA DO SPFC... Setor Azul(Arquibancada) apoia o Richarlyson. E a prova disso é TWITTER, sempretricolor.net, etc.

Abraços Professor.

gregory disse...

myO problema da Independente é que os caras tem tanto medo, ou raiva da fama de viado que acabam sendo ignorantes com um dos melhores jogadores do elenco do time do Jardim Leonor.

Uma torcida que não admite que usam brinco, tenham cabelo comprido, entre outras coisas por causa desse medo, só acho que quem não deve não teme.

Sou de organizada, e ao contrário que o Senhor Daniel disse no comentário dele não é uma desorganização, a Independente pode até ser, mas a minha não é, e na minha é aceito desde cabelos compridos, pintados até brincos...

Voltando ao assunto Richarlyson já ouvi de um amigo que trabalha no comitê da Copa no Morumbi, feito pelo SPFC, que assume de pés juntos que ele não é gay.

Além de que outros jogadores, ídolos de algumas torcidas são homossexuais, um grande exemplo é o Vampeta ídolo do Corinthians, além de um caso pouco famoso, o do Pelé que assumiu ter pedido a virgindade com um homem, não sei você mas eu não considero isso uma atitude muito masculina! [a prova ai:
http://msn.lancenet.com.br/futebol-internacional/noticias/09-03-27/516756.stm?veja-como-pele-falou-que-perdeu-a-virgindade]

É isso ai professor, bom texto, apesar que eu acho o Richarlyson gosta de aparecer, pois quando ele arrumou namorada, levou ela em TODOS os programas de televisão, coisa que não vejo nenhum outro atleta fazer, e quando terminaram ela pousou na playboy com a capa "a namorada do Richarlyson", coisa que também não vejo muito rotineira [e depois dela ele não arrumou mais nenhuma namorada]. Além da história do apliquê de cabelo e as milhares de entrevistas desnecessárias.

Abraços professor, Gregory, 1º ano PDMM, Turma B.

Juliano disse...

Eu penso que o Richarlyson deveria se manter mesmo de boca fechada e procurar se concentrar nas partidas, as vezes seu vigor físico faz ele ter expulsões e fez o São Paulo perder um jogo super fácil no ano passado contra o Botafogo do TAL de Jobson, aliás perder um ponto contra aquele time medíocre foi fatal para as pretensões do Tetra campeonato, ele pode ser elogiado pelo seu preparo físico e sua entrega dentro de campo, mas quando passou a ser convocado por Dunga ele deixou de ser o grande jogador de 2007 sendo premiado como um dos melhores em sua posição, naquele momento ninguém comentava suas preferências sexuais. Me falavam de tais jogadores e cantores tidos como homossexuais e soube em documentários por exemplo do Chacrinha onde as Chacretes falavam que estes comentados em cima eram "comilões".
Resumo se o Richarlyson voltar a jogar bola falar menos completar o meio de campo com o Rodrigo Souto e o Hernanes tendo liberdade de criar e executar jogadas o São Paulo seria um sério candidato a chegar as finais da Libertadores ou fazer boas campanhas no Brasileirão deste ano.