quinta-feira, 1 de abril de 2010

A morte do farol


(foto de Marcos Piffer, feita em 1997)

Numa tarde qualquer de janeiro, eu e minha mãe conversávamos sobre uma crônica da jornalista Eliane Brum, publicada no site da revista Época. O texto se referia ao desejo da autora em não ser enterrada nos moldes convencionais. Ela discorria sobre rituais de morte e questionava a relação entre lembranças de pessoas próximas e o cemitério, suposto endereço eterno de um defunto.

Começamos a divagar sobre como gostaríamos de ser sepultados. Confesso que iniciei a conversa, quando deixei claro o que desejava: a doação dos órgãos, a cremação e as cinzas espalhadas no mar na orla da praia de Santos, especificamente entre o Aquário Municipal e o canal 6. Minha mãe pediu, rindo, que deixasse o desejo por escrito. Aqui está, Dona Zuleica e demais leitores desta coluna.

Aquela faixa de areia é meu canto preferido da cidade. Passei ali, pelo menos, 30 dos meus 35 anos. Naquele trecho, joguei futebol com a moçada da rua Roberto Sandall nos tradicionais clássicos contra a Trabulsi (rua Bassim Nagib Trabulsi, ao lado). Apanhei siris e um deles pegou carona no dedão do pé esquerdo certa tarde. Jogos de taco, vôlei e assim por diante.

Quando trabalhei em São Paulo, subia e descia a serra todos os dias. O cheiro de maresia ressuscitava minha origem. É ali que costumo levar minha filha para cavar um buraco até acharmos água ou ensinar a ela as primeiras rebatidas de frescobol.

Neste exercício de nostalgia, um ponto da paisagem sempre me fascinou. Aguçava a imaginação, estimulava a cautela e me relembrava os limites diante do mar. O farol, ponto de mergulho de muita gente até o começo desta década, desapareceu pelo descuido. Ainda está lá, como uma carcaça de si mesmo.

O farol não era uma mancha no desenho escuro da baía. Era um dos símbolos de aventura para muitos moleques, parte do cenário de infância dos anos 80.

O farol era um ponto de transgressão. Nadar até lá, subir pela corda, mergulhar e repetir o ritual até que a Capitania dos Portos aparecesse com o barco estraga-prazeres. Os marinheiros, coitados, não tinham mais paciência em recolher a molecada, passar aquele sabão e deixar na beira da praia. Às vezes, como castigo, o barco da Capitania largava muitos na altura do canal 1 ou canal 2 para que voltassem a pé para casa. Todos retornavam, ilesos, e com o sorriso de canto de boca.

Nunca nadei até lá. Admirava o farol à distância, sem saber exatamente o porquê. Sentia uma mistura de medo e de respeito pela imponência. O farol, em duas cores, realimentava o relacionamento apaixonado com o mar, de uma cultura pé na areia, menos enclausurada na pirotecnia eletrônica, mais conectada com o meio ambiente.

Considerado peça inútil para navegação, o farol se degradou pela ação do tempo, do mar e, indiretamente, por seus visitantes. Jamais foi considerado um ícone do patrimônio cultural da cidade. Quando o vejo, sinto que ele nos alerta como funciona a regra geral de conservação de locais públicos na Baixada Santista.

Recentemente, dezenas de pessoas nadaram até lá e abraçaram o farol. Temiam pelo pior. Temiam por uma morte indesejada. Gesto romântico, mas inócuo. O farol tem destino traçado, o da insignificância coletiva, o da ausência de vontade política de quem administra dinheiro público.

A ironia é que o farol revê o próprio esquecimento de maneira explícita, ali na areia. O primo rico, o farol colado ao canal 6, é o cinismo involuntário, limpo e com cores vivas.

O primo rico é estéril na paisagem da orla. Pode também ser abraçado e o merece pela importância. Mas jamais terá a sensação de propiciar um mergulho e testemunhar a satisfação de quem chega ao farol, o primo moribundo que habita o mar. Satisfação que imagino estar presente ao final da travessia que ainda não fiz.

Observação: Um texto interessante sobre o assunto está disponível no blog do fotógrafo Marcos Piffer

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