quarta-feira, 7 de abril de 2010

Futebol e religião, irmãos na intolerância

Discutir futebol e religião implica em assumir o impasse entre os que debatem. Mais cedo ou mais tarde, prevalecem a fé (que merece o respeito da individualidade), os dogmas e os preconceitos. O episódio envolvendo os jogadores do Santos numa visita ao Lar Espírita Mensageiros da Luz indica que, quando se misturam as estações, cria-se um cenário de oportunismo e intolerância.

Uma parte dos atletas, entre eles, Robinho, Neymar, Ganso e Fabio Costa, se recusou a entrar na entidade e preferiu ficar dentro do ônibus do clube. Acompanhei a história pela imprensa e, no primeiro momento, vendeu-se a versão de que os jogadores tomaram tal atitude para batucar e cantar. A acusação foi molecagem e insensibilidade com o próximo, pois o Lar atende 34 crianças com paralisia cerebral.

No dia seguinte, a verdade! Robinho afirmou, em entrevista coletiva, que o motivo foi religioso. Os jogadores teriam se recusado a visitar a entidade porque não são espíritas, mas evangélicos. A acusação passou de molecagem à intolerância e discriminação religiosa.

Futebol e religião, juntos na mesma sacola, caem na intolerância. Ambos, quando institucionalizados, transformam-se em redutos de preconceito, egocentrismo e violência. No futebol, quantos casos de agressões e mortes justificados por amor (ou outros sentimentos que levam este nome) em nome de clube ou de uma torcida organizada, por exemplo? Na história, quantos casos de indiferença, de ódio e dor que foram justificados em nome de Deus?



Futebol e religião, quando se misturam, conduzem à cegueira dos ingênuos ou dos fanáticos. Mas também são utilizados como arma de poder pelos que manipulam ou controlam. Os líderes, ao vestirem as roupas do oportunismo, podem enganar pelas intenções nobres. A questão por trás da casca da generosidade é empurrar a um resultado que louva e beneficia – de forma inevitável – a própria liderança.

Não se trata de aliviar a consciência. Isso pode até acontecer. Mas o alívio não é interno, introspectivo, individual, como deveria ser na espiritualidade (no sentido de transcendência, e não da religião espírita). Há a necessidade de dividir com o mundo, na busca obsessiva de reconhecimento, de valorização da imagem. A fé como peça de prateleira de supermercado.

Por que levar câmeras e jornalistas para mostrar uma ação de caridade? Mostrar que os Meninos da Vila são preocupados com isso? Os jogadores foram convocados para estar lá, tanto que muitos se recusaram a visitar as crianças quando souberam da natureza religiosa do Lar Mensageiros da Luz. O clube queria capitalizar com a visita? Foi uma proposta mercadológica, com origem na mentalidade corporativa que envolve atualmente o Santos? Vale somente o ganho institucional para o clube?

Os jogadores, mal orientados na primeira vez, perderam o rumo na sequência. O grupo que se recusou a conversar com as crianças simbolizou a intolerância e a hipocrisia que cerca as religiões, quando transformadas em instituições político-econômicas.

Fé e religião são questões diferentes. E jamais deveriam servir de ingredientes em um caldeirão cujo ingrediente principal é o futebol. Os jogadores do Santos que ficaram no ônibus têm o direito de seguir uma religião, como qualquer sujeito, mas – como figuras públicas – não podem demonstrar que entenderam errado os preceitos básicos dela.

Até onde consigo entender, todas as religiões pregam tolerância ao próximo, o amor, a solidariedade, a sensibilidade junto àquele que se encontra numa situação difícil. Estes valores ganham maior dimensão no período da Páscoa, que simboliza o sofrimento e a humildade do principal líder religioso da cristandade. Ele, aliás, não vestia camisa de time algum.

Quando disseram não à visita, os jogadores não enxergaram crianças com paralisia cerebral. Foram ingênuos ou fanáticos, pois associaram aqueles meninos e meninas a uma doutrina que eles mal conhecem. Por não conhecerem, não a compreenderam. E a associaram a algo ruim. Tão ruim ou pior que os problemas de saúde que perseguem àquelas crianças, ao ponto de virarem as costas para elas.

Será que a igreja (ou templo) destes jogadores – muitos de vida particular pouco religiosa, diga-se – defende perguntar antes a religião do outro para poder ou não ajudá-lo? E o clube, sedento de holofotes, não tem responsabilidade sobre garotos de 18, 20 anos? Ao invés de explorá-los como mercadorias, o Santos não deveria orientá-los como seres humanos em formação e expostos a grau incomum de pressão social?

Neste caso, a boa fé e a solidariedade acabaram substituídas durante o jogo de poder pela insensibilidade e pela intolerância. As únicas derrotadas foram as crianças, usadas e expostas no show de mídia ou no espetáculo da fé, ambos nocivos e preconceituosos. Melhor seria se a imaturidade fosse uma simples batucada dentro de um ônibus.

Um comentário:

anna weber \o\ disse...

Roberto Carlos e Ronaldinho.
Experiência é o que vale, não um moicano de 18 anos, que mal saiu das fraldas.
Nada de Neymar, que vai fazer xixi na calção qd se deparar com os monstros do futebol.
Neymar, deve ficar aqui e torcer como td bom brasileiro....
Quem sabe na próxima, e, por ele espera o Luxemburgo, hahaha....