segunda-feira, 5 de abril de 2010

Bem-vinda, segunda mãe

Visitei a senhora no último final de semana. Não a via há quatro meses e me sinto envergonhado pela ausência. Deveria ter me esforçado mais e reduzido a zero a distância de 400 quilômetros. Confesso que meus problemas do dia-a-dia me mantiveram afastado dos seus problemas. Confortava-me a ideia de que a senhora estava bem acompanhada. Digo, acompanhada de forma adequada.

Confesso também que temia pela visita. Não sabia como a senhora estava, se me trataria como sempre, com carinho e sensibilidade. Estaria disposta a conversar? Estaria disposta a engatar certos assuntos que a deixavam apaixonada, indignada, vibrante, como a política miúda do Congresso Nacional e dos corredores de Brasília?

Não sabia como a senhora se encontrava após quatro meses. Provavelmente, a senhora seria outra mulher. Outra mãe. Outra pessoa. E eu também. Outro filho. Outro amigo. Em quatro meses, minha vida passou por várias mudanças, muitas delas significativas. Meu filho nasceu exatamente no início desta nova fase na vida da senhora.

Nós precisávamos organizar as coisas. Cada um a seu modo. Cada qual no próprio espaço. Cada um diante de circunstâncias adversas e relacionamentos sociais em mutação.

Só consegui me convencer de que a visita seria proveitosa, como um marco do novo período, quando percebi que a senhora jamais será a mesma pessoa. A senhora mudou de estação, abriu uma nova porta, pisou – obrigatoriamente – em uma nova estrada, onde não conhece os caminhos. Tenho certeza de que será uma viagem com obstáculos, com receios, ansiedades e medos. Mas também será uma jornada de auto-conhecimento, de subjetividade aflorada, de novas experimentações, de novos encontros, principalmente com as pessoas que a conhecem há décadas.

Gostaria de me incluir nesta lista. Conheço a senhora há 25 anos. Lembro-me, ainda moleque, daquela advogada que resolveu viver com três filhos numa casa enorme, linda, com uma piscina ao fundo, hoje desfigurada como loja de carros e estacionamento, em Santos.

A senhora, em tempos onde o preconceito explodia contra as mulheres sem marido, criou três sujeitos fabulosos, por quem mantenho amizade. São três pessoas corretas, lutadoras, que absorveram – à maneira individual – suas preocupações, seus valores, seu olhar sobre o mundo.

Os três são seu espelho, Dona Vera. Quando este espelho racha, as reações refletem, em momentos diferentes, seus sentimentos diante do desconhecido, do incômodo, do medo, da adversidade. Eles são a senhora. A senhora está neles. Inevitável e simples como uma amizade à moda antiga.

Assim como foi e é a mãe deles, penso que a senhora, com as idas e vindas da vida, é minha mãe também. Não sei se poderá ler esta confissão tardia, pois me disse que os olhos lacrimejam, o que impede a leitura. Mas um dos três poderá contar à senhora o que este texto traduz como sentimento.

Na verdade, esta confissão me soa redundante, porém necessária na conjuntura atual. Se a senhora considera minha filha Mariana como neta, pois se identificava como Vó Vera, nada mais justo que possa retribuir o carinho com o “título” de mãe.

Todos sabemos, lá no fundo, que a senhora não será aquela que conhecemos. Será melhor! Sempre acreditei na tese de que triste e amargo é o sujeito que bate no peito e clama com orgulho: - Fui sempre a mesma pessoa!

Mudar é inerente à vida. É a maturidade que chega e mata a inexperiência. É a velhice que nasce e limita a velocidade dos movimentos. É a sabedoria que se aproxima e nunca conseguimos detectar quando ela se encosta em nossas atitudes. É a história que se modifica e ganha ares de completude. É a felicidade que passa e não notamos que a tivemos em nossas mãos.

A senhora mudou. E terá que se transformar ainda mais. Definitivamente, nos levará juntos. A adaptação, neste caso, virou sinônimo de coletividade. Estejamos preparados para segui-la e para entendê-la. É a nossa obrigação que simbolizará o ato de conduzi-la pelos dedos entrelaçados até o próximo instante. Este pacto foi selado há 25 anos, sem que percebêssemos.

Tive consciência de que a senhora sabe – mesmo com as adversidades que a cercam – que esta jornada a levará onde deseja aportar. Percebi, como a transparência que sempre te caracterizou, que os desvios deste caminho não serão páreo para alguém que não entregará os pontos diante do primeiro muro.

A senhora, Dona Vera, me explicou, com a sutileza e a serenidade dos sábios, para onde retornaria depois desta viagem. A clareza nas palavras – voltarei para este prédio! É onde quero ficar – representou mais do que um símbolo de lucidez. Significou um clarão de luz em período de escuridão extrema, individual, no canto de um quarto desconhecido, neutro, hospitalar.

A senhora, quando poucos desejavam realmente ouvi-la, pôde expressar o que deseja, não para o agora. A paciência fez com que compreendesse o novo cenário, o momento de adaptação em que, outra vez, se sacrifica pelo todo. E, por favor, se recuse a vestir a fantasia tentadora das vítimas. Elas se acomodam, se confortam e incomodam.

O tempo, como a senhora demonstrou, está diferente. Outro ritmo. Outra dinâmica. Outra engrenagem. Outra vivência. Tudo altera a contagem das horas. E extermina o imediatismo latente no passado. Talvez não consiga entender o novo tempo, mas não vejo necessidade para pressa na compreensão.

A senhora vai demonstrar que não prefere esperar respostas imediatas, sem sonhar com reconhecimento no dia de hoje. Quem sabe amanhã? Ou com a memória fixada no ontem e no anteontem? Até localizar o horário finito, a senhora já terá retornado de onde a mente a empurrou, de maneira temporária.

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