sábado, 3 de abril de 2010

As velhas senhoras

Texto publicado no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição 783, 3 de abril, página 7.

A velha senhora balança, balança. E deverá cair! O tombo definitivo talvez tenha acontecido enquanto você inicia a leitura deste texto. As dores desta senhora, de origem européia, se tornaram cada vez mais agudas. A impressão é que ela padece de uma doença incurável, agravada por novas infecções. O diagnóstico não me parece preciso. Os problemas dela se multiplicam e não há tratamento capaz de levantá-la do chão.

O calvário dura, no mínimo, cinco anos. Primeiro, a casa foi alugada para uma série interminável de aventureiros. Gente sem parentesco com a velha senhora ou qualquer grau de afetividade. É uma relação de dinheiro, mesmo. Explorar a velhinha e, quando a família desconfiar, abandonar a casa.

As dívidas cresceram, a velhinha não deu conta dos credores e teve que apelar. Começou a se desfazer do patrimônio. Demitiu empregados, reduziu o padrão de vida até o ponto em que se viu sozinha dentro de um casarão onde coube milhares de pessoas em tempos de glória. Tempos em que poderia decorar a casa com fitas azuis, lembranças de viagens memoráveis ao exterior.



A velha senhora, a Briosa, vive a pior fase desde 14 homens a fundaram na rua Joaquim Távora, em novembro de 1917. Eles jamais poderiam imaginar, por exemplo, que a Portuguesa Santista chegaria às semifinais do Campeonato Paulista, como aconteceu em 2003. Foram duas derrotas para o São Paulo, 5 a 0 e 1 a 0. O time era comandado pelo mestre José Macia, o Pepe.

Sete anos depois, a Briosa se arrasta para evitar mais um rebaixamento. Mais um prego na cruz que pesa aos ombros. A velha portuguesa manteve-se viva ao vencer o Juventus, o moleque travesso, por 2 a 1. Neste domingo, precisa ganhar de outra velhinha, a de Taubaté, na casa dela. E torcer que adversários tropecem.

Se cair, a Portuguesa Santista estará na Quarta Divisão do Campeonato Paulista em 2011. Em 17 partidas este ano, apenas quatro vitórias. Quatro técnicos, que ficaram empregados, em média, de 15 a 20 dias cada. Trocas de comando que refletem uma nau portuguesa perdida no mar, sem ideia de onde aportar. A caravela vaza há anos; capitão e marinheiros insistem em recolher litros d´água com baldinho colorido de criança.

Se cair, a velha senhora encontrará uma companheira tão idosa quanto doente. As duas vão reinventar o clássico das praias. Acostumada a enfrentar o Santos, a Briosa vai chorar seus erros com a amiga espanhola, o Jabaquara.



O clássico entre portugueses e espanhóis seria o símbolo da decadência. As duas senhoras vão dividir as mágoas, os arrependimentos, a nostalgia e a distância de três anos que as separam do passado mais festivo, quando pisavam nos calos dos quatro grandes do Estado.

Portuguesa Santista e Jabaquara são como duas avós que se reúnem ao entardecer para tricotar e relembrar como era boa a vida na juventude. Como eram desejadas e admiradas. Às vezes, temidas. As senhoras se agarram às façanhas de uma época hoje embolorada nas fotografias. Elas lamentam a limitação de seus corpos, cheios de cicatrizes e pústulas de tratamentos mal sucedidos. Acreditaram nas promessas de vigaristas. A fragilidade dos moribundos que esperam pelo último sinal.

O Jabaquara tem mais experiência em rezar por milagres. Anseia pela compaixão de quem se sente confortável na posição de vítima. Já a senhora portuguesa seria novata no asilo do esquecimento. Olhar para o lado e saber o que a espera se sucumbir à imobilidade que as derrotas provocam. Como semelhança entre elas, o fato de que sentem o cheiro da morte no horizonte.

Para a velha portuguesa, novata na desgraça, a esperança de uma mudança em sete anos e meio, quando completará um século de vida. Sete anos e meio é tempo suficiente para curar as feridas, arrumar o casarão e se tornar aquela chata que chuta as canelas dos gigantes da elite. Colecionar ou escapar de um novo rebaixamento não diminui a culpa dos responsáveis.

Crédito das imagens: 1) Velha senhora frigindo ovos - Velasquez
2) Velha senhora lendo (retrato da mãe de Rembrandt) - Rembrandt

Um comentário:

VELOSO disse...

SEU BLOG É MUITO BOM ! VALEU !