domingo, 25 de abril de 2010

Meu amigo, o mosquito

Estou com dengue há cinco dias. Aproveito a liberdade de 45 minutos, uma hora, proporcionada pelo remédio, para escrever este texto. Deverá ser escrito em partes, até porque o vírus que me mantém em prisão domiciliar é disciplinado e pouco disposto a quebrar regras. Computador, somente para as coisas mais básicas, como justificar ausência no trabalho e ler algumas notícias.

A liberdade é restrita. O corpo agüenta um pouco de Tv, uma leiturinha de jornal, banho (não o de sol) e uma comida sem gosto. Quando o efeito do remédio termina, retorno à cama.

Antes de te pintar de vermelho, mesclando com o branco de sala de aula, o vírus provoca dores e febres. No começo, elas trabalham juntas, sem largar o paciente, para reafirmar quem manda durante a semana da dengue.



A doença te obriga a conviver consigo mesmo. Quando você não dorme, está deitado. Quando você deitado sem dormir, só te resta pensar. De olhos fechados, porque ardem. No começo, dá até vontade de fazer alguma avaliação – mania de professor – da vida, mas até a mente é controlada pelo vírus. Você dorme novamente.

Dormindo demais, sobram os sonhos. Não costumo me lembrar deles, mas, ao longo de cinco dias, recordo-me apenas de ter me tornado baterista da banda de rock Kiss. Meu amigo Edwar se tornara o vocalista. Explicações? A responsabilidade é da febre. Temos uma imagem a preservar. Antes ou depois do Kiss?

A dengue te torna um número. Era o 314 no hospital. Ali, você espera por horas e se torna um obsessivo por luminosos e pelo som único que avisa quando o número muda. Primeiro, a fila para dizer que está lá. Eu existo e tenho dengue. Depois, a fila para ser chamado pelo médico. Eu existo, tenho dengue e preciso de ajuda. Terceiro, a fila para fazer o hemograma. Eu existo, tenho dengue e preciso saber o tamanho do estrago.

Quando você é encaminhado para o soro, torna-se especialista: explica os sintomas para o paciente ao lado, fala dos próximos passos, dá seu relato a alguém que pegou a doença um dia depois de você.

Olhando para aqueles corpos moídos e rostos melancólicos na sala de espera do hospital, poderia dizer que percebo a minha insignificância frente aio mosquito. Não, percebo o quanto é canalha a postura do poder público de Santos (SP) diante da doença. Edwar, o amigo do Kiss, disse com sabedoria que a doença é pré-histórica. Não deveríamos estar submetidos a ela. A prevenção é pré-histórica, em sua fragilidade e ineficiência.



A proposta de uma lei que permita a invasão de residências seria ótima se a Prefeitura não fosse telhado de vidro. Propor uma lei como esta, após milhares de casos, soa canalha. É um ótimo balão de ensaio para transferir, no mínimo, uma parcela da culpa pelo descontrole da dengue.

A doença vai e volta há mais de dez anos e vemos somente duas posições. Quando a dengue recua, os méritos são da Prefeitura de Santos, que se vangloria de suas campanhas simplórias. Até os mutirões nos bairros ganharam papel secundário.

Quando a epidemia renasce, a culpa é sempre da população. Um representante da Prefeitura poderia se sentar na sala de espera lotada de qualquer hospital para perceber que muitos agentes jogam para a torcida. Ou para o mosquito. Ouvir os depoimentos dos doentes. Muitos conhecem agentes de saúde de ouvir falar.

Outros falam que parte dos agentes é negligente diante dos focos ou sequer entra nas moradias. Fazem duas ou três perguntas e correm para preencher planilhas. O mosquito, analfabeto, não as conhece e cumpre seu destino.

Estar com dengue nos faz pensar sobre o que nos cerca. Da seriedade ao bom humor. Sem entrar na pergunta inútil: aonde ou por que peguei a doença? Basta andar pela cidade.

De quebra, ganhei um furúnculo na panturrilha esquerda. Saio do médico e vou à benzedeira?

Até a próxima dose de Dipirona.

O zoológico dos políticos

Depois de sete anos, voltei ao Zoológico de São Paulo. Era uma excursão com alunos e professores de uma das universidades onde dou aulas. Em dia de sol, o lugar é bastante prazeroso, embora – no fundo – sinta-me estranho e culpado em ver os animais enjaulados.

Quando o grupo se dividiu, eu e minha filha ficamos com um casal de amigos, Osvaldo e Natalia. No meio do passeio, começamos a brincar que só faltava a espécie humana entre os animais, embora o próprio homem seja bastante criativo em matéria se amordaçar, prender, torturar. A lista de verbos sinônimos tem tamanho considerável.



De imediato, chegamos a uma sub-espécie do ser humano: os políticos. Osvaldo sugeriu, por exemplo, vários nomes que poderiam compor um acervo mais selvagem e letal do que os próprios bichos do Zoológico.

Como exercício de especulação, faço algumas sugestões para os engravatados – com ou sem mandato – escolherem adequadamente suas jaulas. Eles poderiam ocupar, de forma voluntária, o mesmo espaço dos atuais moradores do zoológico, caso houvesse uma fuga ou liberdade coletiva.

• Elefante – o típico burocrata paquidérmico. Tem peso na política, mas é lento para resolver problemas. A tromba ajuda a beliscar os agrados mais difíceis. Ignora os pequenos alimentos. Tudo funciona às toneladas.

• Abutre – finge nobreza pela pose. No fundo, age como lixeiro, pois se alimenta dos restos de outros animais. Não acha vantajoso o confronto. A paciência representa a maior virtude. A ordem é esperar sempre e mordiscar recursos pelas beiradas.

• Macacos – neste caso, quanto mais tempo no zoo, melhor. Os mais velhos conhecem os caminhos pelos galhos e são beneficiados pela longevidade. Por isso, ficam com os galhos – opa, gabinetes - mais altos da árvore.

• Águia – este político dá falsos sinais de inércia. Os olhos são cirúrgicos. Espreita uma oportunidade só, mas grande e definitiva. O voo certeiro faz o golpe.

• Tartarugas – pequenas e lentas, ainda assim eficientes. Ocupam escalões menores no zoológico. Sobrevivem dos pequenos benefícios de quem possui pequeno poder. Convivem no mesmo espaço com os jacarés. Lidam com a pequena burocracia, chata para os elefantes. São adeptas fanáticas da política “devagar e sempre”.

• Jacarés – protegem as tartarugas numa relação fisiológica e corporativista. Abocanham fatia maior de alimento, mas deixam um pouco para elas. Resistiram a séculos de evolução animal. Os jacarés se movem pouco, fingem-se de mortos e causam estragos se provocados por bichos de fora do sistema.

• Tucanos – grupo enorme que ocupa um viveiro exclusivo. Sempre em cima do poleiro, jamais escolhem um lado em definitivo. A plumagem dá impressão de sofisticação. São aves intelectuais. Emitem sons de difícil compreensão, justamente para aliar a imponência com a falta de vontade (política).

• Araras – são de várias cores. Parecidas com os tucanos no comportamento. Na prática, pensam quase do mesmo jeito, salvo exceções. No viveiro delas, as vermelhas ocupam o posto mais alto. Estas araras vivem cercadas de outras da mesma espécie, de cores variadas. Todas querem - não admitem ou não têm coragem - o lugar mais alto do viveiro.

• Ursos – chamam a atenção pela força. O tamanho é o símbolo do poder. Parecem amáveis, até fofinhos de tão simpáticos. Transformam-se em predadores selvagens quando alguém invade o espaço deles.

• Leão – o papel dele explica tudo. Manda, ordena, delega funções e se alimenta do resultado. O rei passa a maior parte do tempo na falsa preguiça enquanto planeja o que será feito na próxima caçada.

• Zebras – são indecisas por natureza. Vão do branco ao preto num instante. Jamais indicam de que lado estão. Preferem as duas canoas (ou listras). Dizem ser parente distante dos tucanos, apesar da ausência de semelhança física.

• Rinoceronte – enganam-se os que o consideram lento. Não gasta energia com pouca coisa. Diante de algo grande, avança em velocidade e atropela como um trator. O chifre pode apunhalar o adversário no coração ou pelas costas.

• Girafa – observa tudo do alto. Mete-se em quaisquer assuntos por causa do pescoço grande, que possibilita aproximação mesmo com o corpo à distância. É serena e disciplinada na hora da alimentação. Olha como se os fatos não tivessem nada a ver com ela.

• Anta – é a falsa burra. É associada à idiotice, mas sabe a hora de atacar. A imagem distorcida faz com que este animal seja mero coadjuvante no zoológico. Não ser lembrado é a melhor maneira de se esconder na multidão.

Todos estes bichos se alimentam de maneira parecida. Muda o nome da comida, o horário e o lugar das refeições. Uns comem verbas. Outros preferem recursos públicos. Há os que degustam por partes (ou comissão, como dizem os tratadores) e os que fingem comer.

Alguns destes animais são amistosos. Saem à luz do dia, sorriem para os visitantes em troca de comida rápida ou um agradinho fora da ração tradicional. Apertam mãos, distribuem abraços e beijinhos, de olho na recompensa, que pode imediata ou a cada quatro anos.

Os mais perigosos – e temerosos – se locomovem à noite, quando o zoológico está vazio. Amam as sombras, que permitem fazer o que querem, sem broncas dos tratadores, biólogos e veterinários. O zoo oferece passeios noturnos, com condições especiais. A direção do local tem consciência de que o visitante nunca poderá ficar sozinho no escuro, sob risco de ataque. À noite, a crueldade dos predadores é explícita.

Ao conversar sobre estas espécies, meu amigo Osvaldo sugeriu que, a título de prevenção, fosse pregada uma placa em cada jaula ou viveiro: NÃO JOGUE DINHEIRO AOS ANIMAIS!

A placa, se funcionar, poderia colocá-los em rota de extinção. Os “coitados” correriam o risco de morte por inanição. Ou apelariam para o canibalismo, como acontece em outros endereços onde eles transitam com liberdade?

Crédito da foto: Mariana Amarante e Almeida Batista

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Uma oração à inteligência

Caro professor,

Tomo a liberdade de te chamar pelo nome adotado por hábito pelos seus comandados. Espero que, assim, você preste um instante de atenção e se sensibilize pelo meu pedido. Reconheço que, em 11 de maio, você colocará ao público uma decisão maturada por semanas. Você sofrerá críticas, receberá elogios e será julgado pelos resultados no mês seguinte. Para muitos, você cometerá injustiças e só a vitória fará com elas sejam enterradas pelos microfones e páginas.

Professor, a Copa do Mundo é o lugar dos abençoados. Mas também o palco dos injustos. Muitos jogadores não deveriam estar ali. Chegaram ao Mundial por serem leais, por serem bem relacionados, pela ficha corrida que remonta a um passado de sucesso. E deixaram os melhores diante da TV e à espera de quatro anos.

A seleção brasileira é caixa de ressonância dos julgamentos públicos. As campanhas por convocações são comuns às vésperas da Copa. Todos pensam ter razão. Todos têm um time fantástico na cabeça. Todos conhecem a tática ideal para ganhar jogando bonito.

Felipão, gaúcho raçudo como você, suportou por meses o nome Romário até que ele desaparecesse a cada vitória na Ásia. Telê Santana, que montou a equipe de 1982, ouviu por meses o humorista Jô Soares pedir na TV:

- Bota ponta, Telê!

Mas sabemos também que, historicamente, duas ou três vagas são definidas pelo desempenho no semestre. Em 1990, Lazaroni carregou os vascaínos Tita e Bismarck, bons jogadores apenas. Em 1994, Parreira levou Viola e Ronaldo. Oito anos depois, Felipão convocou Kaká. Toda seleção carrega, além de novidades recentes, aqueles que serão o futuro, os titulares do mundial seguinte. Não falo do Tita nem do Viola, é claro.

Olha, você não sabe como é difícil um corintiano pedir Neymar e Ganso na lista de 11 de maio. Ganso é o reserva que Kaká necessita. E Neymar se encaixaria como quarto atacante. Até porque sabemos que você levará Robinho e Luis Fabiano. O resto tem cheiro de especulação apaixonada e sobrevive em meio a altos e baixos, aqui ou no exterior.

Aproveito também para orar pela presença de Diego, da Juventus (ITA). Honestamente, penso que ele joga mais do que Robinho e seria bela opção para o meio-campo. Suporta o ritmo do futebol europeu e poderia compor o setor pelos dois lados.

Como último pedido – sei que são muitos -, por que não Roberto Carlos? Salvo Michel Bastos, do Lyon (FRA), os demais candidatos não se encontram em boa fase. Na verdade, nunca encantaram. Roberto Carlos poderia ser reserva nesta defesa, que é nosso melhor setor. Experiência de três copas ajuda, não é, professor?

No caso do Roberto Carlos, você poderia olhar para si mesmo. Aquele time horroroso do Lazaroni foi chamado de Era Dunga, uma injustiça com alguém que passava e marcava com eficiência. Alguém que não poderia ser associado a um futebol desorganizado e sem alma.

Na copa seguinte, o senhor foi o capitão do tetra. Deu a volta nos críticos ou se vingou, como queira definir seus gestos. Pense com carinho nas sugestões. Elas pouco interferem nos seus conceitos, mas servem como colaboração na campanha às portas do Mundial.

Não se esqueça também de que a Copa do Mundo não é o lugar onde se faz justiça. Por que não contradizer a escrita e quebrar o tabu com a convocação dos melhores, e não os mais leais ou os bem relacionados? Reconheço que “os melhores” é demasiado subjetivo, mas dá para acertar na maioria dos nomes.

A história mostra que injustiças são cometidas a cada quatro anos na seleção. Em 1982, Telê não convocou Leão, o melhor goleiro que tínhamos. Isso ficou evidente na Espanha. Em 1990, Neto era o melhor jogador do país e ficou em casa. Quatro anos depois, Parreira ignorou Marcelinho Carioca. Em 1998, Romário talvez se recuperasse a tempo de nos ajudar na França.

Professor, não peque pela injustiça. Não se arrepende pelo que deixou de fazer. Você mesmo repete a frase “Futebol é momento” como se fosse um mantra. Seja coerente e leve os abençoados. São apenas sete partidas, se alcançarmos a final. Depois do Mundial, ou o senhor entra de vez para a história e silencia os críticos ou reacenderá os preconceitos contra você e cederá o trono a outro professor. Prefiro a primeira hipótese, por merecimento seu e por egoísmo de minha parte.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Um domingo de velório



A menina de sete anos presenciava o ritual pela primeira vez. Havia feito um pedido para que o pai a levasse lá. Queria testemunhar de perto tudo o que vira pela TV. Entrou no velório com ansiedade. Estava fascinada. Tinha polícia, bastante gente. Depois, fiquei sabendo que eram 616 presentes. Até vendiam água e pipoca. Sabia que o pai não recusaria o pedido de pipoca. Se o passeio ficasse chato, pegava emprestado o bloquinho e a caneta do pai. Ela poderia desenhar caso estivesse cansada da cerimônia.

O público estava desconfiado, ligeiramente tenso. O cheiro de esperança prevalecia, o que indicava a espera por um milagre. Quem sabe o caminho da ressurreição? Mas havia a dependência de outros endereços, de outras pessoas. Quando não é possível depender apenas de si, ainda que floresça o esforço único, aguarda-se pelo sobrenatural, apela-se para superstição, acendem-se velas de todas as cores.

A menina torce para o Santos, mas entendeu que tinha que emprestar a voz para a Portuguesa Santista. Berrou algumas vezes. Parou quando viu que não dava resultado. A Portuguesa Santista precisava vencer o Força, em casa, e rezar para derrotas de dois dos três concorrentes diretos: Itapirense, Batatais e Barueri. Nomes que jamais figuraram na história da Briosa, mas a tradição não era pré-requisito para o domingo passado. O fundo do poço não escolhe camisa. As manchas nascem para todos que insistem nos pecados.

O tempo nublado e a timidez dos torcedores eram sinais claros de um ar de velório, ao lado da Santa Casa de Santos. Não havia choro ou defunto à mostra. Somente lamentações diante de pior fase de uma vida. O rebaixamento para a quarta divisão do Campeonato Paulista soava nítido como os tambores e os gritos de uma parte pequena dos torcedores, sonhadores por dias melhores e pela aproximação de um passado de destaque. Qualquer curandeiro notaria a combinação dos sintomas. O sonho era a manifestação mais aguda de uma doença chamada utopia.

A partida elevava a dor e cultivava a humilhação. Cada chutão sem consciência testava o amor pela Briosa. A bola era a maior uma vítima do nervosismo, do medo, do gosto do fracasso e da qualidade mínima. A bola, coitada, parecia viajar mais tempo no ar do que permanecer grudada nos pés dos coadjuvantes. Protagonista não era um papel necessário. Quem assumiria a responsabilidade de alterar um destino desenhado há cinco anos e cumprido à risca até o momento?

Os goleiros, por exemplo, deveriam ser cobrados em R$ 10. O preço do ingresso, sem direito à meia-entrada. Mal sujaram o uniforme e assistiam passivos ao choque de pernas na intermediária do campo. Os atacantes da Portuguesa apanharam como se tivessem feito algo errado. Talvez punidos pela baixa produtividade ao longo do campeonato.

Nas arquibancadas, torcedores permaneciam sentados. Calados. Resignados. Ex-jogadores também estavam lá. Eles desmentiam os místicos e os historiadores. Nenhum deles poderia influenciar naquele ritual sofrido. Nem o capitão do time que subiu à Primeira Divisão, que permanecia discreto, quase no anonimato.

A Portuguesa Santista venceu por 1 a 0. Gol de pênalti. Talvez a maneira menos emocionante e óbvia de marcar. O otimista poderia dizer que o time cumpriu a obrigação. O pessimista também, com uma dose sutil de sarcasmo.

A Briosa morreu abraçada com o Força. Depois do jogo, uma combinação de suor, lama e alguma choradeira. Não me comovi. A bravura me pareceu reação de quem andava rumo à forca. Não senti alma que negasse a falta de planejamento e de qualidade de uma equipe composta – quase na totalidade – por andarilhos. Jogadores que pulam de estádio em estádio e seguem a vida melancólica das partidas sem glamour. Não tiveram o que havia no nome do adversário.



Ao lado do estádio, um circo, chamado O Mundo de Fantasia de Beto Pinheiro, ironizava o enterro simbólico. O nome do circo é genérico mesmo, assim como o futebol daquela manhã de domingo. A diferença é que o circo pode aguçar a fantasia e aliviar os males da alma, nem que seja por instantes. No estádio Ulrico Mursa, a tristeza de uma história atirada ao lixo, como um palhaço que perde o picadeiro, o prazer de rir e a própria identidade.

A menina de sete anos ainda cultiva a ingenuidade do universo infantil. Adorou o jogo! À tarde, a mãe perguntou se a menina assistiria a Santos e São Paulo pela TV. A resposta foi direta:

- Não vejo mais jogo pela televisão. É chato.

O mundo da imaginação, estampado nos desenhos do bloquinho, aliviou o tédio e alimentou o amor pelo futebol. A menina ficará adulta e poderá escolher melhor as companhias e os lugares para se divertir. Fico feliz que ela sequer notou que estava em uma cerimônia fúnebre. Não sou estraga-prazeres.

Observação: Este texto também foi publicado, em 18 de abril, no blog do escritor José Roberto Torero, no portal UOL.

sábado, 17 de abril de 2010

As meninas



Assisti, recentemente, à peça “As meninas”, em cartaz no Teatro Eva Herz, em São Paulo. O espetáculo machuca pela atualidade do texto, adaptado do romance de Lígia Fagundes Teles, de 1973, pela dramaturga Maria Adelaide Amaral. O texto engana por soar engraçado em certos momentos, mas o riso nasce nervoso diante dos conflitos vividos por três universitárias em um pensionato paulistano.

Na adaptação, as características temporais da trama – que se passa durante o regime militar – foram amenizadas para que a história das três universitárias pudesse resistir aos dias de hoje. O trio se completa nas angústias e nos desejos, todos individuais, mas dependentes da relação coletiva entre elas.

Lorena (Clarissa Rockenbach) é a herdeira de uma família quatrocentona, decadente e esfacelada após a morte do patriarca. Ana Clara (Luciana Brites) é candidata a modelo, o símbolo do consumo. Ela tem um noivo rico, mas sonha em viver ao lado de um traficante, que a afunda no consumo de drogas. E Lia (Silvia Lourenço) representa o idealismo do jovem, disposto a enfrentar a autoridade e mudar o mundo pelo senso de justiça.

A peça traz sólido elenco de apoio, nos papéis da mãe de Lorena, da freira do pensionato e do traficante. A montagem, com cenário composto por cadeiras, fortalece a ordem e a desordem do cotidiano das universitárias e aproveita o espaço reduzido do teatro para enclausurar o espectador nos dramas que refletem o pensamento do universitário contemporâneo.

“As meninas” segue em cartaz até 25 de abril, com apresentações aos sábados, às 18 horas, e aos domingos, às 17 horas. O Teatro Eva Herz é aconchegante, com capacidade para 100 pessoas. O teatro fica dentro da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, na avenida Paulista.

Crédito da foto: divulgação

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O jornalismo das pessoas comuns

Assisti, na noite de ontem, ao programa Profissão Repórter, que acompanhou os trabalhos de resgate e remoção de corpos no Rio de Janeiro e em Niterói, locais atingidos pelas chuvas, na semana passada. Esperei convicto que o trabalho dos repórteres fosse coerente com a história do programa: o olhar sensível e criterioso sobre as ações e reações de pessoas anônimas.

O Profissão Repórter é o programa que melhor faz jus ao nome na rede Globo. Hoje, é mais importante que o “pai” Globo Repórter, que se rendeu a temas que agradam a classe média urbana ou a documentários estrangeiros sobre “mundos exóticos”.



O “professor” Caco Barcellos trabalha com o apoio de jovens repórteres que, em conjunto, traduzem - por exemplos - a postura ética e técnica da profissão. Isso acontece em todas as etapas da construção da notícia, desde a escolha das pautas até a construção da narrativa, o que envolve a relação com as fontes e os caminhos escolhidos pela edição.

A obra final, no sentido mais amplo, representa certas características clássicas do jornalismo, que me parecem esquecidas ou ignoradas numa época em que se valoriza o show, os medidores de audiência e o merchandising. Estes três elementos simbolizam o flerte da reportagem com o consumo e o entretenimento.

Uma das características não se ensina nos bancos da universidade. Repórter precisa ser sensível. Não é se emocionar somente, mas entender os sentimentos do outro, normalmente em situações extremas, e se relacionar com delicadeza com a fonte.

A sensibilidade é um meio de aproximação para tornar concretos conceitos que soam lindos na teoria, como objetividade e imparcialidade. Jornalismo é subjetivo e parcial, para dizer o mínimo, muito diferente de ser tendencioso ou venal. O repórter é um sujeito que deve perseguir tais conceitos, mas adequá-los a um relacionamento sensível com a fonte – quando exposta sem desejar - e com o público.

O programa dá um ar de naturalidade para essas questões. È como se tais comportamentos fossem inerentes ao jornalismo contemporâneo. Infelizmente, a sensibilidade se perdeu em algum lugar onde prevalecem a exploração do outro e os repórteres-icebergs, que encaram os fatos como parte exclusiva do processo industrial. Muitos escravos da pauta ficaram cegos ao ponto de não notar a notícia que salta ao lado, desesperada para ser apurada e contada ao mundo.



No Profissão Repórter sobre as chuvas, uma das jornalistas tomou a decisão de parar de gravar e apenas conversar com uma das sobreviventes. A mulher perdeu o marido e tentava liberar o corpo dele no Instituto Médico Legal. Érika não dormia há dois dias e não se lembrava de ter conhecido a repórter no dia anterior. A jornalista decidiu que o diálogo era o melhor caminho naquele momento. Nada de exposição da dor.

Antes, a mesma repórter precisou se recompor diante de tantos corpos que brotavam em meio ao lamaçal. A postura humana, que deveria ser redundante, é louvável como retrato da tragédia que modifica todos os envolvidos. Ter sensibilidade é carregar dentro de si, como fator inevitável, um pedaço dos acontecimentos relatados. Repórter com sensibilidade nasceu assim; não pode ser formado, somente lapidado.

O programa também nos ensina quando resolve focalizar os dramas ou o cotidiano das pessoas comuns. Talvez seja, para mim, o maior mérito destes jornalistas. Afastar-se dos gabinetes, das declarações cínicas e redundantes de fontes viciadas, dispensar as pessoas que mal resistem aos holofotes e, acima de tudo, valorizar as histórias dos anônimos.

A equipe de Caco Barcellos mostra como cada pessoa, dentro de seu microcosmo, é capaz de proporcionar relatos especiais, únicos e verdadeiros. O jornalismo-espetáculo faz o inverso quando transforma estes relatos em show ou mercadoria melodramática. Isso significa, em última instância, não ouvi-las.

Depois de nos ensinar a olhar, o programa mostra como repórteres devem ouvir. Fico com a percepção de que os repórteres compreendem ou sentem que o entrevistado tem algo a dizer. E isso não tem relação alguma com posicionamento social, cargos ou exercícios de poder. As pessoas comuns abrem suas vidas, muitas vezes, por necessidade, por abandono social. Falam para pedir socorro. Precisam de um microfone para desabafar suas experiências, quando ninguém as escuta, por negligência, preconceito ou estupidez.

Neste ponto, os jornalistas do Profissão Repórter exercitam uma postura além da busca obsessiva pelas aspas, pelas declarações bombásticas. Os relatos têm ligação entre si, ainda que em lugares e momentos diferentes. Cabe ao jornalista alinhavar as histórias como se fossem uma teia, com maturidade para avaliar que repórter conta e contextualiza acontecimentos, e não os protagoniza.

Outra lição do programa é praticar jornalismo como função social. Hoje, o jornalismo foi afetado em excesso por critérios de mercado, que cegam os profissionais diante da notícia. A relevância social do assunto é garantida se há a possibilidade de vendê-lo como atrativo de audiência.



Na equipe de Caco Barcellos, a escolha das pautas se prende, quase sempre, aos elementos que compõem as notícias. Falo de escolhas técnicas, que seguram o público pela qualidade da narrativa.

O jornalismo, na concepção clássica, está ligado à ideia de um olhar social sobre o mundo. Social no sentido de fornecer ao público elementos para que possa se situar diante dos acontecimentos. Penso que o espectador só consegue se situar se houver identificação com as informações. E a identificação ganha corpo com histórias do dia-a-dia, sem a contaminação pelo glamour, com seus artificialismos efêmeros.

O Profissão Repórter nos indica que o caminho para o jornalismo é contar histórias. Em parte, muitos repórteres perderam a ansiedade quando pressentem uma boa história. São os relatos que exemplificam os acontecimentos. Os personagens auxiliam na construção do contexto, que facilitará a relação entre os fatos.

O programa, quando opta por dar voz aos anônimos, desenha o jornalismo como sinônimo de reflexão individual e senso de coletividade. Cada história compõe o mosaico que nos permite iluminar a nossa própria história. É um exercício de auto-valorização, de forma que o sujeito se vê como parte do enredo, integrante da vida lá fora.

No final do programa sobre as chuvas no Rio, houve um diálogo entre um morador e o repórter Caco Barcellos. O morador pediu que o jornalista visitasse o bairro daqui seis meses para verificar como está o local, hoje ponto turístico e/ou palanque de promessas para políticos e demais candidatos enrustidos de plantão.

O morador disse a Caco que se tratava de um favor. O jornalista respondeu: - é nossa obrigação!

Em tempos de celebridades, polêmicas vazias, espetáculos de horror e marketing, a conversa poderia soar hipócrita para muitos jornalistas. São tantos os assuntos esquecidos pela imprensa que, por vezes, prefere-se a exposição exaustiva de um caso. E que não representa o todo.

Para mim, o diálogo entre morador e repórter soou verdadeiro, como uma aula que nenhum livro acadêmico consegue igualar.

terça-feira, 13 de abril de 2010

A greve que não aconteceu

A greve dos professores da rede estadual teve um mês de duração. A paralisação terminou na última quinta-feira, dia 8. Você percebeu a mudança na rotina, salvo os congestionamentos na avenida Paulista, em São Paulo? Não houve aulas? Escolas fechadas? Políticos pressionados com medidas de emergência para não mexer no ano letivo?

Para gozo governamental, a greve não sacudiu as escolas. O movimento grevista serviu como parâmetro para que se possa compreender os conflitos entre a Apeoesp, entidade sindical dos docentes, os próprios professores e o Governo do Estado. São choques diretos ou o cinismo da indiferença, mas ambos não abalam os problemas reais do sistema educacional. A vantagem é que permitem entender o posicionamento de cada um deste atores no episódio.

O governo Serra venceu a mobilização pelo cansaço e pelo esvaziamento natural depois de 30 dias, período em que a categoria apanhou de todos os lados. Não houve simpatia por parte da sociedade civil, despolitizada, intolerante e inerte diante das questões sociais. A imagem dos grevistas ficou arranhada com os protestos na avenida Paulista, que pioraram o trânsito da cidade e reforçaram a munição da Secretaria Estadual de Educação.

Em ano de eleição, mobilizar trabalhadores significa acionar, de maneira automática, uma parcela da imprensa abraçada com o poder. O abraço não é explícito, e se manifesta na cobertura jornalística tendenciosa, travestida de indignação em prol da cidadania. É uma cobertura que nasce para confundir o público; jamais fornecer a ele um contexto. Uma rede de rádio de São Paulo, por exemplo, veiculou uma matéria que classificava um dos protestos na Paulista como responsável por todo o congestionamento da capital. A reportagem ignorava outros problemas de engenharia de tráfego.

Infelizmente, a greve não funcionou e reforçou a linha ideológica que comanda a educação pública estadual há mais de uma década e meia. Em parte, a responsabilidade é do sindicato da categoria que, como muitas entidades, ainda não compreendeu que as batalhas mudaram. E as armas para vencê-las também. Não é mais o momento de um embate entre direita e esquerda ou um discurso repleto de termos que funcionariam em um curso de Ciência Política.

Na teoria, o texto é fantástico. Na prática, a ressonância é baixa e soa arcaica para muitos professores e observadores. Falta transmitir ao professor a sensação de que ele é ouvido, e não alvo de pregação. O movimento sindical também se afasta das suas bases quando veste o manto da política partidária. Assim fica fácil para o Governo Estadual abusar da redundância quando acusa de político o movimento. Toda greve é política, mas ganha a conotação ilusória de fator relevante e tira o foco da questão trabalhista.

Assumir a veia partidária coloca o sindicalismo à mercê do poder. Neste caso, os partidos que rodeiam o lulismo. No fundo, reforça-se a dúvida: a greve é político-partidária ou uma ação trabalhista efetiva? O ano eleitoral vira cortina de fumaça para as intenções reais.

A responsabilidade envolve ainda o professorado. Muitos docentes perderam ou nunca tiveram o sangue que une os descontentes. Há um conformismo generalizado que facilita o trabalho do modelo PSDB/PT de educação. O último reajuste da categoria aconteceu em 2005 e foi da ordem de 15%. Nos últimos cinco anos, aumento de 5%, somente em 2008. A inflação do período é de 22%. O bolso minguado não é mais motivo de protesto?

Outra parte dos professores concorda ou aceita de bom grado a política salarial do Governo Estadual, focada no pagamento de bônus por bom desempenho, entre outros agrados, medida que divide especialistas em educação. Uns falam em premiação por mérito. Outros classificam o bônus como critério fora de contexto. O debate estéril alimenta a paralisia.

A terceira parte dos docentes desistiu da luta, mas não da profissão. Procura espaço nas redes municipais ou privada, que pagam melhor e oferecem – em tese - melhores condições de trabalho. Ou outras condições igualmente frágeis de trabalho. O salário da rede estadual é o pior do mercado, na média.

Como professor universitário em curso de licenciatura, vejo muitos alunos com sangue nos olhos e vontade para entrar na sala de aula. Eles entendem a educação como mecanismo de transformação. Respiram idealismo. Seis meses, um ano depois, querem fazer outra coisa na vida. Desistem pelo cansaço, pelo estresse, pelo medo, pela decepção diante de um modelo falido de escola, que coloca o país entre os piores das nações em desenvolvimento.

Entrar em greve é um direito e, por vezes, uma necessidade. Os professores se encaixam nesta premissa. Mas esta paralisação não provocou cócegas na secretaria estadual. Enquanto os grevistas falavam em adesão de 63%, o Governo rebatia com o índice de 1%. O número não importa diante do fato: infelizmente, a rede estadual é a mesma de sempre, que rasteja em seu caminho repleto de buracos e desvios que terminam em becos sem saída.

Ao perceber a ineficácia da categoria em alterar a paisagem, o Governo Estadual consegue manter e se vangloriar da política neoliberal de educação adotada nos anos 90. Modelo que valoriza os dados estatísticos, a padronização de conteúdos, a submissão ao mercado e aos processos de consumo, mascarados numa estrutura escolar repressora e excludente. Modelo que atende aos interesses de organismos internacionais e rechaça as particularidades da cultura local.

Se olharmos para esta última paralisação, o modelo venceu. Ou melhor, confirmou a vitória por nocaute. O professorado permanece conformado, desumanizado e inerte, como desejam os gestores públicos de educação.

Com o fracasso da greve, a reivindicação de 34,3% de reajuste salarial como reposição de perdas sumiu com o vento. O Governo bateu o pé, não negociou e não mexeu no bolso. As escolas revivem, depois de um mês, aquela aula de história recente, de conhecimento de todos. O conteúdo é oferecido pelo protagonista de sempre. Na teoria e na beleza dos textos pedagógicos, o nome dele é professor, sujeito que murmura queixas, exala cansaço e continua mal pago.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O jogador mais macho do Brasil

A mudança no comportamento da torcida do São Paulo atraiu a atenção novamente para o jogador Richarlyson, a partir de um velho problema extra-futebol. A sexualidade do atleta – na verdade, as teorias sobre o comportamento dele na vida privada, o que deve ficar bem claro – provocou um novo tipo de choque entre os torcedores.

A torcida Independente ficou exposta pela primeira vez no ano passado, quando Richarlyson fez o gol da vitória contra o Fluminense, além de ter arrebentado no jogo, em pleno Morumbi. Os membros da organizada ficaram calados, enquanto o restante dos torcedores gritava o nome do jogador. Na entrada em campo, Richarlyson era o único que não tinha o nome ovacionado nas arquibancadas. A imprensa descobriu, posteriormente, que se tratava de uma ordem expressa, e não um “sentimento coletivo natural”.

Agora, a torcida organizada resolveu abrir a boca para ofender o atleta. A mudança de postura gerou controvérsia com outros grupos de são-paulinos, em princípio, mais civilizados, que sairam em defesa do meio-campista.

Richarlyson está no clube há cinco anos, chegou à seleção brasileira, atuou em várias posições, tem o melhor preparo físico do elenco, jogou machucado, é elogiado pelos técnicos pela disciplina tática, nunca reclamou da reserva e ganhou vários títulos, entre eles o tricampeonato nacional e o mundial interclubes. O jogador de 27anos vestiu a camisa do São Paulo mais de 200 vezes.

Com esta história, ele seria tratado como ídolo em qualquer time. Mas escolheu praticar um esporte com características tribais, em um país homofóbico. Escolheu uma atividade profissional em que se torna figura pública. Nesta profissão, é hábito ter a vida privada e a vida pública misturadas pela mídia. Assim como é hábito que boatos se transformem em verdades absolutas e que ataques sejam recheados de preconceitos. A verdade não importa, mesmo que seja verdade, meia-verdade, ou mentira deslavada.

Richarlyson não tem conversado com a imprensa. É uma tentativa de se preservar, pois qualquer passo ou atitude ganha uma conotação sexual. Ou melhor: homossexual.

Honestamente, a vida privada dele não me interessa. Mas é difícil permanecer distante da avalanche de informações e fofocas que cercam a rotina dos jogadores de futebol. Se não há acontecimentos ou polêmicas fáceis em campo, o caminho é a devassa do cotidiano privado dos atletas. Mulheres, relacionamentos fracassados, baladas, muitas histórias em que o rumor é muito mais atraente e impactante do que o fato. A lista de jogadores é longa e alcança todas as cores.

A diferença é que, neste caso, Richarlyson está sozinho. Admiro a resistência do atleta em permanecer cinco anos no mesmo clube, ouvindo gracinhas nos estádios, ofensas de adversários, indelicadezas de dirigentes boçais. O atleta segue na contramão – na perspectiva dos que se ofendem com a presença dele – do principal valor que ronda o futebol. Este esporte é para macho!, dizem os machões. Seriam machos o suficiente para agüentar uma pressão como a que cerca o meio-campista do São Paulo?

Muitas mulheres que jogam são acusadas ou alvo de comentários velados sobre a própria sexualidade. Futebol e mulher é coisa de sapatão. Técnico de futebol engravatado, por exemplo, já insinuou que uma árbitra cometeu erros por ser mulher.

Comportamento sexual, que não seja a heterossexualidade, é tabu dentro e fora de campo. Futebol carrega como símbolos a virilidade e a macheza que beiram a imbecilidade e a cegueira da ignorância. Confundem-se, por exemplo, entradas mais duras com masculinidade. Ou apanhar calado como ato de macheza. O que seria, então, do jogador menos violento ou que não comete faltas?

O futebol, como negócio, sobrevive pela performance dos jogadores. Clube ou patrocinador só se importa se o desempenho profissional é afetado pela vida entre quatro paredes. Caso contrário, ambos passam a mão na cabeça do jogador para proteger o patrimônio. A partir disso, posso dizer que o são-paulino é um jogador admirável dentro de campo, não apenas pela capacidade profissional, mas pela decência com que encara este fardo destinado a ele.

Richarlyson virou um símbolo involuntário. Ele representa o choque de uma sociedade em mutação. Não sei se ele é homossexual, mas ele é mais um elemento que provoca a discussão sobre o assunto no Brasil. Há mudanças legislativas, políticas públicas, eventos culturais, abordagens – ainda tímidas – na mídia.

A mudança é, obviamente, lenta, com avanços e retrocessos. Mas não dá para ignorar o comportamento ambíguo de uma parcela considerável da sociedade brasileira. O que se sabe, por pesquisas, é que a postura se mostra contraditória. O preconceito do indivíduo é retraído na esfera pública e escancarado no círculo privado.

No estádio de futebol, é fácil colocar o preconceito para fora. O torcedor está em grupo. Ali, pode ser violento, se eximir de responsabilidade, expor a selvageria e a animalidade nos gritos e nos cantos. Na arquibancada, prevalece o grupo, por vezes institucionalizado numa torcida organizada, que mantém rituais onde se enaltece não apenas o clube, mas o machismo dos integrantes.

Richarlyson foi o escolhido. A história já o carimbou com um estigma, que seguirá vivo e feroz enquanto se mantiverem a intolerância, a discriminação e a violência derivada delas. Richarlyson carregará consigo as pedras atiradas por quem não tem coragem de aceitar a si mesmo ou a dignidade de entender quem supostamente pensa de outra maneira. Como é personalidade pública, terá que se calar perante os levianos e os irresponsáveis, vindos da arquibancada ou com os microfones e canetas nas mãos. Qualquer resposta ressuscita e fortalece a tortura.

A ironia se alojou na burrice que aparece atrelada à homofobia dos torcedores tricolores. O São Paulo é alvo de chacota por parte dos adversários pelo preconceito sexual, traduzido pela palavra bambis. Os torcedores, em atitude pouco inteligente, apenas reforçam o preconceito contra sua própria equipe – e indiretamente contra si próprios – quando discriminam um jogador do time.

Nos últimos anos, passei a acreditar que estádio de futebol representa um enorme laboratório humano. Ali, você pode observar os mais variados sentimentos em convivência ao longo de uma partida. Sujeitos que vão de um extremo ao outro em 90 minutos. Entre eles, mostrar o lado mais bestial e perverso do ser humano.

O estádio nos indica como caminhamos sob uma estrada de ilusão, em que nos julgamos, de forma soberba, seres civilizados, educados, suportes de valores nobres. O que os torcedores fazem com Richarlyson indica que estamos distantes de um processo de civilização. Apenas nos alimentamos do engano e da auto-referência.

Richarlyson é a prova de que muitos ainda não conseguem enxergar outra pessoa e respeitá-la, tolerar suas ações, sem engolir boatos ou reproduzir rótulos oriundos de leituras rasas. O mínimo de decência implica se colocar no lugar dele e avaliar as humilhações e a violência pela qual o jogador passa. Neste sentido, torcedores e jornalistas conseguem ser bestiais, animais incapazes de racionalizar o significado de humanidade.

Observação: O título deste texto foi retirado da revista Placar, que produziu excelente matéria sobre o jogador na edição de março de 2010.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Futebol e religião, irmãos na intolerância

Discutir futebol e religião implica em assumir o impasse entre os que debatem. Mais cedo ou mais tarde, prevalecem a fé (que merece o respeito da individualidade), os dogmas e os preconceitos. O episódio envolvendo os jogadores do Santos numa visita ao Lar Espírita Mensageiros da Luz indica que, quando se misturam as estações, cria-se um cenário de oportunismo e intolerância.

Uma parte dos atletas, entre eles, Robinho, Neymar, Ganso e Fabio Costa, se recusou a entrar na entidade e preferiu ficar dentro do ônibus do clube. Acompanhei a história pela imprensa e, no primeiro momento, vendeu-se a versão de que os jogadores tomaram tal atitude para batucar e cantar. A acusação foi molecagem e insensibilidade com o próximo, pois o Lar atende 34 crianças com paralisia cerebral.

No dia seguinte, a verdade! Robinho afirmou, em entrevista coletiva, que o motivo foi religioso. Os jogadores teriam se recusado a visitar a entidade porque não são espíritas, mas evangélicos. A acusação passou de molecagem à intolerância e discriminação religiosa.

Futebol e religião, juntos na mesma sacola, caem na intolerância. Ambos, quando institucionalizados, transformam-se em redutos de preconceito, egocentrismo e violência. No futebol, quantos casos de agressões e mortes justificados por amor (ou outros sentimentos que levam este nome) em nome de clube ou de uma torcida organizada, por exemplo? Na história, quantos casos de indiferença, de ódio e dor que foram justificados em nome de Deus?



Futebol e religião, quando se misturam, conduzem à cegueira dos ingênuos ou dos fanáticos. Mas também são utilizados como arma de poder pelos que manipulam ou controlam. Os líderes, ao vestirem as roupas do oportunismo, podem enganar pelas intenções nobres. A questão por trás da casca da generosidade é empurrar a um resultado que louva e beneficia – de forma inevitável – a própria liderança.

Não se trata de aliviar a consciência. Isso pode até acontecer. Mas o alívio não é interno, introspectivo, individual, como deveria ser na espiritualidade (no sentido de transcendência, e não da religião espírita). Há a necessidade de dividir com o mundo, na busca obsessiva de reconhecimento, de valorização da imagem. A fé como peça de prateleira de supermercado.

Por que levar câmeras e jornalistas para mostrar uma ação de caridade? Mostrar que os Meninos da Vila são preocupados com isso? Os jogadores foram convocados para estar lá, tanto que muitos se recusaram a visitar as crianças quando souberam da natureza religiosa do Lar Mensageiros da Luz. O clube queria capitalizar com a visita? Foi uma proposta mercadológica, com origem na mentalidade corporativa que envolve atualmente o Santos? Vale somente o ganho institucional para o clube?

Os jogadores, mal orientados na primeira vez, perderam o rumo na sequência. O grupo que se recusou a conversar com as crianças simbolizou a intolerância e a hipocrisia que cerca as religiões, quando transformadas em instituições político-econômicas.

Fé e religião são questões diferentes. E jamais deveriam servir de ingredientes em um caldeirão cujo ingrediente principal é o futebol. Os jogadores do Santos que ficaram no ônibus têm o direito de seguir uma religião, como qualquer sujeito, mas – como figuras públicas – não podem demonstrar que entenderam errado os preceitos básicos dela.

Até onde consigo entender, todas as religiões pregam tolerância ao próximo, o amor, a solidariedade, a sensibilidade junto àquele que se encontra numa situação difícil. Estes valores ganham maior dimensão no período da Páscoa, que simboliza o sofrimento e a humildade do principal líder religioso da cristandade. Ele, aliás, não vestia camisa de time algum.

Quando disseram não à visita, os jogadores não enxergaram crianças com paralisia cerebral. Foram ingênuos ou fanáticos, pois associaram aqueles meninos e meninas a uma doutrina que eles mal conhecem. Por não conhecerem, não a compreenderam. E a associaram a algo ruim. Tão ruim ou pior que os problemas de saúde que perseguem àquelas crianças, ao ponto de virarem as costas para elas.

Será que a igreja (ou templo) destes jogadores – muitos de vida particular pouco religiosa, diga-se – defende perguntar antes a religião do outro para poder ou não ajudá-lo? E o clube, sedento de holofotes, não tem responsabilidade sobre garotos de 18, 20 anos? Ao invés de explorá-los como mercadorias, o Santos não deveria orientá-los como seres humanos em formação e expostos a grau incomum de pressão social?

Neste caso, a boa fé e a solidariedade acabaram substituídas durante o jogo de poder pela insensibilidade e pela intolerância. As únicas derrotadas foram as crianças, usadas e expostas no show de mídia ou no espetáculo da fé, ambos nocivos e preconceituosos. Melhor seria se a imaturidade fosse uma simples batucada dentro de um ônibus.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Bem-vinda, segunda mãe

Visitei a senhora no último final de semana. Não a via há quatro meses e me sinto envergonhado pela ausência. Deveria ter me esforçado mais e reduzido a zero a distância de 400 quilômetros. Confesso que meus problemas do dia-a-dia me mantiveram afastado dos seus problemas. Confortava-me a ideia de que a senhora estava bem acompanhada. Digo, acompanhada de forma adequada.

Confesso também que temia pela visita. Não sabia como a senhora estava, se me trataria como sempre, com carinho e sensibilidade. Estaria disposta a conversar? Estaria disposta a engatar certos assuntos que a deixavam apaixonada, indignada, vibrante, como a política miúda do Congresso Nacional e dos corredores de Brasília?

Não sabia como a senhora se encontrava após quatro meses. Provavelmente, a senhora seria outra mulher. Outra mãe. Outra pessoa. E eu também. Outro filho. Outro amigo. Em quatro meses, minha vida passou por várias mudanças, muitas delas significativas. Meu filho nasceu exatamente no início desta nova fase na vida da senhora.

Nós precisávamos organizar as coisas. Cada um a seu modo. Cada qual no próprio espaço. Cada um diante de circunstâncias adversas e relacionamentos sociais em mutação.

Só consegui me convencer de que a visita seria proveitosa, como um marco do novo período, quando percebi que a senhora jamais será a mesma pessoa. A senhora mudou de estação, abriu uma nova porta, pisou – obrigatoriamente – em uma nova estrada, onde não conhece os caminhos. Tenho certeza de que será uma viagem com obstáculos, com receios, ansiedades e medos. Mas também será uma jornada de auto-conhecimento, de subjetividade aflorada, de novas experimentações, de novos encontros, principalmente com as pessoas que a conhecem há décadas.

Gostaria de me incluir nesta lista. Conheço a senhora há 25 anos. Lembro-me, ainda moleque, daquela advogada que resolveu viver com três filhos numa casa enorme, linda, com uma piscina ao fundo, hoje desfigurada como loja de carros e estacionamento, em Santos.

A senhora, em tempos onde o preconceito explodia contra as mulheres sem marido, criou três sujeitos fabulosos, por quem mantenho amizade. São três pessoas corretas, lutadoras, que absorveram – à maneira individual – suas preocupações, seus valores, seu olhar sobre o mundo.

Os três são seu espelho, Dona Vera. Quando este espelho racha, as reações refletem, em momentos diferentes, seus sentimentos diante do desconhecido, do incômodo, do medo, da adversidade. Eles são a senhora. A senhora está neles. Inevitável e simples como uma amizade à moda antiga.

Assim como foi e é a mãe deles, penso que a senhora, com as idas e vindas da vida, é minha mãe também. Não sei se poderá ler esta confissão tardia, pois me disse que os olhos lacrimejam, o que impede a leitura. Mas um dos três poderá contar à senhora o que este texto traduz como sentimento.

Na verdade, esta confissão me soa redundante, porém necessária na conjuntura atual. Se a senhora considera minha filha Mariana como neta, pois se identificava como Vó Vera, nada mais justo que possa retribuir o carinho com o “título” de mãe.

Todos sabemos, lá no fundo, que a senhora não será aquela que conhecemos. Será melhor! Sempre acreditei na tese de que triste e amargo é o sujeito que bate no peito e clama com orgulho: - Fui sempre a mesma pessoa!

Mudar é inerente à vida. É a maturidade que chega e mata a inexperiência. É a velhice que nasce e limita a velocidade dos movimentos. É a sabedoria que se aproxima e nunca conseguimos detectar quando ela se encosta em nossas atitudes. É a história que se modifica e ganha ares de completude. É a felicidade que passa e não notamos que a tivemos em nossas mãos.

A senhora mudou. E terá que se transformar ainda mais. Definitivamente, nos levará juntos. A adaptação, neste caso, virou sinônimo de coletividade. Estejamos preparados para segui-la e para entendê-la. É a nossa obrigação que simbolizará o ato de conduzi-la pelos dedos entrelaçados até o próximo instante. Este pacto foi selado há 25 anos, sem que percebêssemos.

Tive consciência de que a senhora sabe – mesmo com as adversidades que a cercam – que esta jornada a levará onde deseja aportar. Percebi, como a transparência que sempre te caracterizou, que os desvios deste caminho não serão páreo para alguém que não entregará os pontos diante do primeiro muro.

A senhora, Dona Vera, me explicou, com a sutileza e a serenidade dos sábios, para onde retornaria depois desta viagem. A clareza nas palavras – voltarei para este prédio! É onde quero ficar – representou mais do que um símbolo de lucidez. Significou um clarão de luz em período de escuridão extrema, individual, no canto de um quarto desconhecido, neutro, hospitalar.

A senhora, quando poucos desejavam realmente ouvi-la, pôde expressar o que deseja, não para o agora. A paciência fez com que compreendesse o novo cenário, o momento de adaptação em que, outra vez, se sacrifica pelo todo. E, por favor, se recuse a vestir a fantasia tentadora das vítimas. Elas se acomodam, se confortam e incomodam.

O tempo, como a senhora demonstrou, está diferente. Outro ritmo. Outra dinâmica. Outra engrenagem. Outra vivência. Tudo altera a contagem das horas. E extermina o imediatismo latente no passado. Talvez não consiga entender o novo tempo, mas não vejo necessidade para pressa na compreensão.

A senhora vai demonstrar que não prefere esperar respostas imediatas, sem sonhar com reconhecimento no dia de hoje. Quem sabe amanhã? Ou com a memória fixada no ontem e no anteontem? Até localizar o horário finito, a senhora já terá retornado de onde a mente a empurrou, de maneira temporária.

A ponte dos que ficaram

Assisti duas vezes, em tempos recentes, ao documentário A Ponte, de Eric Steel. O diretor e sua equipe acompanharam, durante o ano, a movimentação de pessoas na Golden Gate, em São Francisco, nos Estados Unidos. A ponte é o local público onde mais acontecem suicídios no mundo. No período da gravação, entre 2004 e 2005, ocorreram 24 mortes. O recorde é de 500 mortes em um ano.

O filme é desconcertante, não apenas por discutir um tema considerado tabu na sociedade contemporânea. A Ponte é uma reflexão a partir daquelas pessoas que ficaram. A equipe de filmagem registrou vários suicídios. Houve também o testemunho de diversos salvamentos. Quando alguém se jogava na água, a equipe de produção do filme avisava a polícia pelo rádio e chegou a ajudar no resgate dos corpos.

A partir das imagens, o diretor e a equipe de produção procuraram familiares e amigos para que falassem sobre o assunto. Os depoimentos são mais chocantes e perturbadores do que os flagrantes das mortes.

Quem se joga da ponte cai a uma velocidade de 200 quilômetros por hora. O salto é feito a 69 metros de altura. A queda dura, em média, quatro segundos. A chance de sobrevivência beira zero.



A Golden Gate é o local público mais visitado do país. São oito milhões de visitantes por ano. A ponte é um ponto tradicional de romantismo, onde casais se reúnem para marcar casamentos ou celebrar datas de relacionamento. Um clássico cartão postal para turistas pelo tamanho e pelas lendas que o cercam.

Os entrevistados, em sua maioria, procuram uma explicação racional para a perda. Lutam para entender os reais motivos que as levaram à impotência diante da morte do outro. A morte que sempre surpreende, mesmo que anunciada, declarada, agendada. Todos trazem, em seus depoimentos, a demonstração de esperança de que o suicídio poderia ser evitado. Falam, muitas vezes, como se seus parentes e amigos estivessem vivos, para chegar a qualquer hora. Os verbos são conjugados no presente.

A raiva marca os que ficaram. Culpam-se por não poder ajudar, sentem-se inúteis por não agirem, queixam-se que o suicida não pediu auxílio no momento certo. Mas apontam direções diferentes para enumerar os responsáveis. Um rapaz que perdeu a irmã encontra respostas na religião. Para ele, a garota foi induzida à morte. Haveria um assassino, pois suicídio é inconcebível na doutrina que comunga. A doença dela, esquizofrenia, é ignorada pelo rapaz.

Uma moça, na casa dos 40 anos, culpa a ponte. Afirma que a Golden Gate é falsa promessa de romantismo. Ela serviria, de fato, para atrair pessoas em dificuldades, das mais variadas ordens.

Um depoimento comovente é o de um estudante universitário, o único que sobreviveu à queda no período das gravações. O rapaz é portador de Transtorno Bipolar, problema reconhecido pelo pai somente após a tentativa de suicídio. O estudante disse que se arrependeu no momento em que se jogou e ajeitou o corpo para cair de pé.

Ele ficou em coma e, por sorte, não sofreu seqüelas físicas. O estudante foi salvo por uma foca, que o fez boiar. As fraturas, na área abdominal, foram curadas durante o período de internação. No depoimento, o estudante explica como se sentia deslocado, alvo de indiferença das pessoas. Ele não encontrava diálogo, apenas repreensão e cobranças.

O filme não é um exercício de morbidez. O diretor Eric Steel (na foto abaixo) procura transmitir a tradução de sentimentos por meio das palavras do que aceitaram depor. Sem julgamentos, sem se posicionar, dentro das limitações da câmera. O objetivo é dar voz ao que sentem, ao que pensam, ao que tateiam como entendimento sobre a morte de uma pessoa próxima.



Um dos entrevistados ensina poesia, sabedoria e serenidade diante do inevitável. Trata-se de uma senhora, na casa dos 60 anos, que perdeu um amigo, Gene, com 26 anos. O rapaz, que aparece em vários momentos do filme, era o típico fã de rock pesado. Cabelos compridos, roupas pretas, um jovem que respirava cultura. Mas o rapaz – sem relação com os estereótipos simplistas - falava com freqüência em se matar. Sofreu com os relacionamentos amorosos fracassados. Perdeu a mãe, a única parente. Entrou em processo de auto-combustão.

Quando a senhora percebeu que não poderia corrigir a rota do amigo, disse a ele por telefone: - Ao decidir se matar, me ligue e se despeça. Coloque seu nome e endereço num papel e o proteja com saco plástico. Quero encontrar seu corpo!

Escuto sempre que o suicídio é um ato de fraqueza. Como se o suicida fosse um sujeito egoísta que, quando se mata, não pensa nos outros e no sofrimento que causará a eles. Um dos depoimentos no filme segue esta linha. Um dos amigos de Gene se sente magoado, traído pela morte dele. O amigo promete cobrar um pedido de desculpas quando encontrar Gene outra vez.

O respeito à atitude do outro deveria ser inerente numa situação-limite como o suicídio. Assim como é necessário compreender – e não julgar – as reações de quem sofre uma perda sem explicações. Todos os casos são únicos, indefiníveis ainda que pensemos em inúmeras variáveis. Pode-se, contudo, alimentar-se de suposições e teorias, as quais se transformam em ancoradouros.

Convivi com pessoas que tentaram se matar, mas não conseguiram. Usaram a tentativa como postura clara de quem pede apoio imediato. Nunca as julguei. È fundamental estar junto com a mão estendida.



O filme reforçou minha posição diante do tema. Penso que o suicídio é, acima de tudo, um ato de coragem. Um ato de doação, em certas circunstâncias, mesmo que aparente o descontrole emocional. Tenho a impressão, ao ver o filme, que muitos dos suicidas preferiram machucar a si em vez de ferir pessoas próximas, seja pela doença, seja pelo deslocamento de mundo. O suicida pode gritar por socorro, mas também pode emitir um grunhido surdo, voltado para o próprio interior, sem efeito, sem resposta, sem ressonância.

A questão é que, quem fica, tem o direito de tentar entender. È uma decisão louvável, parte do luto. Quem fica precisa se reposicionar, cobrir a perda, amenizar a falta. A Ponte é um documentário que jamais cultua a morte ou explora os parentes e amigos, embora o diretor seja acusado de promover sensacionalismo. O filme respeita o luto e transfere aos espectadores a responsabilidade de pensar ou relembrar o tema. Jamais ousou explicá-lo.

sábado, 3 de abril de 2010

As velhas senhoras

Texto publicado no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição 783, 3 de abril, página 7.

A velha senhora balança, balança. E deverá cair! O tombo definitivo talvez tenha acontecido enquanto você inicia a leitura deste texto. As dores desta senhora, de origem européia, se tornaram cada vez mais agudas. A impressão é que ela padece de uma doença incurável, agravada por novas infecções. O diagnóstico não me parece preciso. Os problemas dela se multiplicam e não há tratamento capaz de levantá-la do chão.

O calvário dura, no mínimo, cinco anos. Primeiro, a casa foi alugada para uma série interminável de aventureiros. Gente sem parentesco com a velha senhora ou qualquer grau de afetividade. É uma relação de dinheiro, mesmo. Explorar a velhinha e, quando a família desconfiar, abandonar a casa.

As dívidas cresceram, a velhinha não deu conta dos credores e teve que apelar. Começou a se desfazer do patrimônio. Demitiu empregados, reduziu o padrão de vida até o ponto em que se viu sozinha dentro de um casarão onde coube milhares de pessoas em tempos de glória. Tempos em que poderia decorar a casa com fitas azuis, lembranças de viagens memoráveis ao exterior.



A velha senhora, a Briosa, vive a pior fase desde 14 homens a fundaram na rua Joaquim Távora, em novembro de 1917. Eles jamais poderiam imaginar, por exemplo, que a Portuguesa Santista chegaria às semifinais do Campeonato Paulista, como aconteceu em 2003. Foram duas derrotas para o São Paulo, 5 a 0 e 1 a 0. O time era comandado pelo mestre José Macia, o Pepe.

Sete anos depois, a Briosa se arrasta para evitar mais um rebaixamento. Mais um prego na cruz que pesa aos ombros. A velha portuguesa manteve-se viva ao vencer o Juventus, o moleque travesso, por 2 a 1. Neste domingo, precisa ganhar de outra velhinha, a de Taubaté, na casa dela. E torcer que adversários tropecem.

Se cair, a Portuguesa Santista estará na Quarta Divisão do Campeonato Paulista em 2011. Em 17 partidas este ano, apenas quatro vitórias. Quatro técnicos, que ficaram empregados, em média, de 15 a 20 dias cada. Trocas de comando que refletem uma nau portuguesa perdida no mar, sem ideia de onde aportar. A caravela vaza há anos; capitão e marinheiros insistem em recolher litros d´água com baldinho colorido de criança.

Se cair, a velha senhora encontrará uma companheira tão idosa quanto doente. As duas vão reinventar o clássico das praias. Acostumada a enfrentar o Santos, a Briosa vai chorar seus erros com a amiga espanhola, o Jabaquara.



O clássico entre portugueses e espanhóis seria o símbolo da decadência. As duas senhoras vão dividir as mágoas, os arrependimentos, a nostalgia e a distância de três anos que as separam do passado mais festivo, quando pisavam nos calos dos quatro grandes do Estado.

Portuguesa Santista e Jabaquara são como duas avós que se reúnem ao entardecer para tricotar e relembrar como era boa a vida na juventude. Como eram desejadas e admiradas. Às vezes, temidas. As senhoras se agarram às façanhas de uma época hoje embolorada nas fotografias. Elas lamentam a limitação de seus corpos, cheios de cicatrizes e pústulas de tratamentos mal sucedidos. Acreditaram nas promessas de vigaristas. A fragilidade dos moribundos que esperam pelo último sinal.

O Jabaquara tem mais experiência em rezar por milagres. Anseia pela compaixão de quem se sente confortável na posição de vítima. Já a senhora portuguesa seria novata no asilo do esquecimento. Olhar para o lado e saber o que a espera se sucumbir à imobilidade que as derrotas provocam. Como semelhança entre elas, o fato de que sentem o cheiro da morte no horizonte.

Para a velha portuguesa, novata na desgraça, a esperança de uma mudança em sete anos e meio, quando completará um século de vida. Sete anos e meio é tempo suficiente para curar as feridas, arrumar o casarão e se tornar aquela chata que chuta as canelas dos gigantes da elite. Colecionar ou escapar de um novo rebaixamento não diminui a culpa dos responsáveis.

Crédito das imagens: 1) Velha senhora frigindo ovos - Velasquez
2) Velha senhora lendo (retrato da mãe de Rembrandt) - Rembrandt

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A morte do farol


(foto de Marcos Piffer, feita em 1997)

Numa tarde qualquer de janeiro, eu e minha mãe conversávamos sobre uma crônica da jornalista Eliane Brum, publicada no site da revista Época. O texto se referia ao desejo da autora em não ser enterrada nos moldes convencionais. Ela discorria sobre rituais de morte e questionava a relação entre lembranças de pessoas próximas e o cemitério, suposto endereço eterno de um defunto.

Começamos a divagar sobre como gostaríamos de ser sepultados. Confesso que iniciei a conversa, quando deixei claro o que desejava: a doação dos órgãos, a cremação e as cinzas espalhadas no mar na orla da praia de Santos, especificamente entre o Aquário Municipal e o canal 6. Minha mãe pediu, rindo, que deixasse o desejo por escrito. Aqui está, Dona Zuleica e demais leitores desta coluna.

Aquela faixa de areia é meu canto preferido da cidade. Passei ali, pelo menos, 30 dos meus 35 anos. Naquele trecho, joguei futebol com a moçada da rua Roberto Sandall nos tradicionais clássicos contra a Trabulsi (rua Bassim Nagib Trabulsi, ao lado). Apanhei siris e um deles pegou carona no dedão do pé esquerdo certa tarde. Jogos de taco, vôlei e assim por diante.

Quando trabalhei em São Paulo, subia e descia a serra todos os dias. O cheiro de maresia ressuscitava minha origem. É ali que costumo levar minha filha para cavar um buraco até acharmos água ou ensinar a ela as primeiras rebatidas de frescobol.

Neste exercício de nostalgia, um ponto da paisagem sempre me fascinou. Aguçava a imaginação, estimulava a cautela e me relembrava os limites diante do mar. O farol, ponto de mergulho de muita gente até o começo desta década, desapareceu pelo descuido. Ainda está lá, como uma carcaça de si mesmo.

O farol não era uma mancha no desenho escuro da baía. Era um dos símbolos de aventura para muitos moleques, parte do cenário de infância dos anos 80.

O farol era um ponto de transgressão. Nadar até lá, subir pela corda, mergulhar e repetir o ritual até que a Capitania dos Portos aparecesse com o barco estraga-prazeres. Os marinheiros, coitados, não tinham mais paciência em recolher a molecada, passar aquele sabão e deixar na beira da praia. Às vezes, como castigo, o barco da Capitania largava muitos na altura do canal 1 ou canal 2 para que voltassem a pé para casa. Todos retornavam, ilesos, e com o sorriso de canto de boca.

Nunca nadei até lá. Admirava o farol à distância, sem saber exatamente o porquê. Sentia uma mistura de medo e de respeito pela imponência. O farol, em duas cores, realimentava o relacionamento apaixonado com o mar, de uma cultura pé na areia, menos enclausurada na pirotecnia eletrônica, mais conectada com o meio ambiente.

Considerado peça inútil para navegação, o farol se degradou pela ação do tempo, do mar e, indiretamente, por seus visitantes. Jamais foi considerado um ícone do patrimônio cultural da cidade. Quando o vejo, sinto que ele nos alerta como funciona a regra geral de conservação de locais públicos na Baixada Santista.

Recentemente, dezenas de pessoas nadaram até lá e abraçaram o farol. Temiam pelo pior. Temiam por uma morte indesejada. Gesto romântico, mas inócuo. O farol tem destino traçado, o da insignificância coletiva, o da ausência de vontade política de quem administra dinheiro público.

A ironia é que o farol revê o próprio esquecimento de maneira explícita, ali na areia. O primo rico, o farol colado ao canal 6, é o cinismo involuntário, limpo e com cores vivas.

O primo rico é estéril na paisagem da orla. Pode também ser abraçado e o merece pela importância. Mas jamais terá a sensação de propiciar um mergulho e testemunhar a satisfação de quem chega ao farol, o primo moribundo que habita o mar. Satisfação que imagino estar presente ao final da travessia que ainda não fiz.

Observação: Um texto interessante sobre o assunto está disponível no blog do fotógrafo Marcos Piffer