sábado, 27 de março de 2010

A visita do presidente da República

Se o IPHAN pudesse tombar uma pessoa, Mirian Nunes Ferreira seria patrimônio histórico do Museu do Café. A assistente-administrativa de 51 anos, uma década dedicada ao museu, é a funcionária mais antiga do lugar. Foi a segunda funcionária registrada. “A primeira foi uma faxineira, que ficou aqui apenas seis meses.”

Infelizmente, o visitante não conseguirá vê-la com freqüência. Tímida, Mirian é uma mulher simples, preocupada com a rotina de trabalho, que pouco transita pelos corredores, mas que vivenciou – com discrição - a trajetória do museu. Ela é a única remanescente da primeira equipe que mantinha o local.

Mirian vivia em São Paulo e se mudou para Santos em 1991, junto com os pais, em busca de uma vida mais saudável. Foi parar no museu por causa de um curso de espanhol, no Senac. “Uma das professoras participava da montagem do museu e me convidou para ajudar.” Mirian havia trabalhado, em São Paulo, na área financeira de uma indústria de fios e cabos elétricos.

Em dez anos de casa, a assistente-administrativa atendeu o público por somente seis meses. Foi logo no começo, quando o salão do pregão ainda ficava deserto nos finais de semana, e a entrada era livre. A cafeteria sequer existia. Com treinamento para monitoria, ela atendia os eventuais turistas nacionais e estrangeiros.

Em um final de tarde de sábado, Mirian Ferreira percebeu a entrada de um casal. “Os pais estavam com um filho de cinco anos, aproximadamente. Parecia que chegavam ao parque de diversões.” Como os visitantes não pediram um monitor, ela os deixou circular livremente.



Depois de alguns minutos, Mirian escutou um barulho vindo do salão do pregão. Os pais falavam alto e o menino estava sentado na cadeira do presidente, o que não é permitido. Ela decidiu conversar com os pais. Quando falou com o pai do garoto, ele reagiu com surpresa, como se o filho pudesse brincar sem controle pelo salão.

Mirian insistiu que não era permitido que o menino sentasse na cadeira do presidente. Ouviu do pai:

- Mas ele será o futuro presidente do Brasil!”

Mirian Ferreira tem uma relação de amor com salão do pregão. Costumava andar pelo mezanino, durante os intervalos, para relaxar e admirá-lo do alto. Hoje, pela correria diária, ela afirma – com resignação – que pouco transita pelo museu.
Nas lembranças dos visitantes, ela se diverte. Quem sabe, quando a assistente-administrativa estiver aposentada, a profecia se concretize e ela talvez reconheça o rosto daquele menino na rampa do Palácio do Planalto?

Crédito da foto: Luiz Nascimento

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