quarta-feira, 17 de março de 2010

O clássico e o moderno

O futebol é um exercício de inveja. Quando o nosso time se arrasta em campo e o adversário desfila no mesmo lugar, é o primeiro sentimento que aflora nas conversas de boteco, por exemplo. Se o torcedor valoriza o espetáculo, chama-se admiração. Caso contrário, desdenha os méritos ou exagera nos defeitos do outro.

O time do Santos é o alvo atual da inveja (ou admiração). A molecada da Vila Belmiro ressuscitou as comparações entre futebol e circo. O jogo de futebol merece ser comparado a lona e picadeiro? Muitas vezes, mas pela desorganização e pelos problemas provocados pelos cartolas, com perdão aos palhaços, trapezistas, malabaristas, o vendedor de pipoca ...

Um time merece ser comparado ao Cirque du Soleil? Raramente, salvo empolgações momentâneas que – desconfio – mais atrapalham do que ajudam a auto-estima de uma equipe. Apenas a História e os títulos permitem a saudade e o distanciamento que classificam as equipes como geniais.

No espetáculo, as estrelas parecem que caminham com holofotes nas costas. Certos atacantes, por exemplo. Mas eu sempre desconfiei de muitos protagonistas. Sempre desconfiei que eles alcançaram o estrelato por terem um coadjuvante capaz de controlar toda a engrenagem. Um coadjuvante que prefere as sombras atrás dos holofotes. Um coadjuvante que acelera o desabrochar das qualidades do ator principal.

Quando consigo detectar quem são estes “assessores de luxo”, eles se tornam o foco. Prefiro vê-los trabalhar. Tentar entender o todo, independente da luz da estrela, em particular. São os assessores que me levam aos estádios ou me fazem esperar uma partida diante da TV.

Paulo Henrique Ganso, do Santos, é o maior ícone dos coadjuvantes. Ganso, aos 20 anos, rompe com as leis da Física. Bagunça a relação espaço-tempo quando joga futebol. Este é o sujeito que – mesmo não torcendo para o Santos – me faz olhar e pensar sobre os Meninos da Vila. Por ele, enxergo o futebol como prazer individual em um universo coletivo.

Ganso (o apelido-ironia) mata a noção de tempo. Ele nos transporta aos anos 70, repletos de meias clássicos, que se moviam o necessário e levavam ao limite o princípio básico de quem corre é a bola. O meia do Santos poderia se encaixar entre os Meninos da Vila originais, de 1978. Ele é capaz de alterar a tática da equipe com a partida em andamento, controlando a velocidade do jogo e a de seus companheiros.

Controlar o ritmo torna a equipe dependente dele. Por enquanto, Ganso é um vício não diagnosticado pelos adversários, atordoados por outros jogadores. Mas ele é o termostato que, ausente, gera febre e paralisa a máquina. Quando presente, provoca calafrios nos que vestem outra camisa.

Ganso é um profeta da memória recente. Consegue antever o que muitos jamais enxergarão. Repete-se várias vezes em um mesmo jogo ao utilizar os mesmo movimentos para colocar os atacantes diante do goleiro. Repetição que os zagueiros teimam em não compreender ou lamentam em perceber quando a bola está dentro do gol.

Os grandes jogadores têm a petulância de ler o complexo como simples. Quem está distante, nota a repetição e, se estiver cego, considera a estratégia primitiva. Quem está perto, irrita-se por saber que será enganado pela obviedade inevitável.

Ganso é clássico por jogar na vertical, sem passes laterais aborrecidos, medrosos e inertes. O objetivo é se aproximar da grande área, levar a bola até o atacante sem precisar estar junto dela. No último clássico contra o Palmeiras, fez isso duas vezes, nos gols de Neymar e Madson.

Quando não é possível servir ao outro, o meia clássico sabe usar a canhota que diferencia a espécie, salvo exceções de santa majestade. No mesmo jogo, exigiu uma grande defesa do santo palmeirense em um tiro de fora da área. Os meias comuns ainda pensam que fazer gol é conduzir a bola até as traves, de corpo presente, como moleques que jogam gol-caixote nas praias, por exemplo. Aí, os verdadeiros gansos.

Ganso desnorteia a sensação e o controle do tempo por ser um meia dos anos 70 no futebol contemporâneo. A modernidade pulsa no jogador que não somente cria, mas também destrói quando a partida exige. Destrói para recriar. Para reconstruir. Jamais adepto da demolição estéril.

É um jogador europeu – na excelência dos termos – por retornar e ajudar o volante. No caso do Santos, Arouca é o carregador solitário do piano. Alguém tem que estar do outro lado para levantar o instrumento musical e movê-lo pelo gramado. Ganso é o auxiliar de carregador, sem queixas, sem cara feia. Somente um sujeito disciplinado.

Poucos times europeus têm este homem. Por aqui, no máximo, volantes que chegam à frente, e não o contrário. A consciência tática aos 20 anos só é adquirida pelos ordinários na fronteira dos 30. Barcelona, Real Madrid e Chelsea se encaixam no modelo.

Ver Ganso jogar me leva a três questões, sem respostas, imãs para exercícios de futurologia. Como são as dúvidas que nos levam adiante, vale o flerte com a especulação e passar pela experiência de viver a travessia. Chegar à outra margem é importância secundária.

Primeiro ponto: os admiradores da arte ficarão órfãos em breve, salvo atropelos de percurso? Paulo Henrique Ganso disputará o Campeonato Brasileiro por completo? Acompanharemos, com olhos de lupa, a evolução dele? Ou por telescópio apontado para a Europa?

Ganso tem somente 20 anos. Se o auge de um jogador ocorre entre 25 e 27 anos, o que ele ainda poderá fazer no futebol, provavelmente do outro lado do Atlântico? Manterá a discrição de um Rivaldo? Virará protagonista, como Zico?

E terceiro: será que Ganso repetirá o papel de injustiçado na Vila Belmiro? Injustiçado por ser alguém que abre mão dos holofotes pelo prazer de enfiar uma bola no meio de três zagueiros e ver o colega se consagrar na finalização. Injustiçado porque, dentro da lógica do futebol, o segundo na preferência é sinônimo de contracapa nos livros de História.

Ganso não pode repetir o papel que foi interpretado por Diego. O meia da Juventus, melhor estrangeiro do campeonato alemão e condutor da Velha Senhora, tem poucas chances de ir à Copa do Mundo. Robinho estará lá. Como será com Paulo Henrique quando ele estiver com 24 anos, com olhos para o Brasil-sede? Só pode haver um, ou precisamos de um técnico que leia o jogo a partir de seus papéis, e não de seus atores?

19 comentários:

Hudson Roati disse...

O Torero indicou... Muito bom.
Concordo com tudo. Apenas não colocaria em tão sábias palavras.

Anônimo disse...

Boa noite. Cheguei aqui por dica do Torero, que a publicou em seu blog conforme voce já deve saber. Permita dizer quão saboroso é o texto. Texto clássico, moderno e elegante como o Paulo Henrique.
Um pitaco: fez-me refletir que ficar fora da seleção do Dunga está parecendo láurea. Alex - o que está na Turquia, ex-Palmeiras, Cruzeiro - , Ronaldinho Gaúcho, Diego, Paulo Henrique...

Ass; Mauro Chazanas

Diego disse...

Que análise perfeita. Digna de um Juca Kfouri, de um Armando Nogueira, de um Tostão. Digna de um monstro do jornalismo esportivo brasileiro. Parabéns! Você sabe tudo de futebol, meu parceiro. Queria que todos fossem assim como você. Tanto nas palavras cuidadosamente pinçadas, quanto sensatez em se olhar um jogo de futebol, quanto na coerência da análise. ÓTIMO TEXTO!

Victor de Lucca disse...

Sem palavras para expressar tal preciosidade deste texto

Anônimo disse...

Um texto gostoso de ler... e a mais pura verdade sobre este magnífico jogador, que não prefere os holofotes.

Eloisa disse...

Nossa descreveu o PH Ganso com uma perfeiçao que acredito nem um santista de coraçao faria. Parabens pelo texto!!!
Realmente meia como ele hoje em dia esta raro.
Lamento nosso querido Diego não estar nessa seleçao, que poderia tb pq nao ter nosso Ganso.

Paulo Bia. disse...

Apenas para marcar presença. Depois de tão delicioso texto, dá-me vergonha o querer escrever.
Parabéns!

Marcelo disse...

Belo texto. Como o seu texto faz sentido, ainda mais depois da atuação do Ganso contra o Remo. Descrição perfeita! Parabéns!

felipe disse...

Lindo texto!
Concordo plenamente.
Não entendo dunga não levar um jogador da excelencia do Diego um meia de qualidade absurda.
Sou santista e a primeira coisa que reparo em uma jogada espetacular do neymar é que o Ganso quetinho no seu canto fez uma coisa muito mais incrivel e ainda tocou uma bola complicadissima no meio da zaga para o coompanheiro.
Na grande seleção de estrelas presisamos de de meias como esses que fazem o jogo funcionar.
Em uma leve conparação ao futebol americano precisamos de um quaterback na seleção,aquele cara que sabe fazer o ponto mas encontra a felicidade em em criar condições para o companheiro marcar.
Só espero que um dia os tecnicos da seleção acordem para a beleza e delicadeza do jogo desses genios.
Abraço
e mais uma vez lindo texto!

J Custer disse...

Procura dois vídeos, um de 78 e um do Ganso atual, duas jogadas, uma PB e outra colorida que dá pra faser a fusão do vídeo. Aí sim vc o verá como os meninos originais da vila junto com o Ganso. Quanto ao seu texto, cabe num almanaque. Em épocas de remakes cinematograficos e revivals musicais, surge um cara original de vez em quando, pelo menos no futebol.

milena carla disse...

Relamente...ganso é um MAESTRO.
SÓ PODIA SER DO MAIOR TIME DE TODOS OS TEMPOS.

SANTOS,SEMPRE SANTOS.

magda SANTISTA disse...

Relmente o ganso é um maestro.
Só podia ser do MAIOR TIME DE TODOS OS TEMPOS : SANTOS FC.

Jonilton disse...

MEU CARO FALAR A VERDADE NÃO O CONHECIA MAIS DEPOIS DO SEU TEXTO, NOTA-SE QUE VC ENTENDE TUDO DE FUTEBOL E DE MUITO MAIS FAZER COMENTÁRIOS SOBRE O QUE ESCREVEU É FAZER TEMPESTADE EM UM COPO D"ÁGUA O GANSO SE CONTINUA OXALÁ QUE CONTINUE EM BREVE SERÁ O JAGADOR MAIS IMPORTANTE DO PLANETA.

ABRAÇOS E VAMOS PESIXE.

Vladimir disse...

Parabens você é impar, não há comparações. A qualidade do texto é fantastica.

Belo disse...

Muito bem. Concordo em tudo. é um prazer sem tamanho ver o Paulo Henrique jogar. Classe. Muita classe. Me lembra o Clodoaldo, Giovanni e mais recentemento o Diego. É um gênio com a bola e ontem, no jogo com o Remo, ele roubou várias bolar. Sem nem sequer o jogador adversário perceber sua presença. É o jogador mais útil do Santos. Uma estrela de igual brilho ao do Nilamr, que tbém é um craque. O Santos está de parabéns porque este time não e obra do dinheiro. É obra de um garimpo feito por gente que entende, por craques do passado que entendem de futebol como ninguém e que sabem ver o futebol em garotos. Parabens pelo texto e parabens ao Santos e ao Paulo Henrique.

Andressa do Vale de Souza disse...

Magnífico texto, a altura do Paulo Henrique (Ganso), nossa realmente você o descreveu Perfeitamente !
Parabéns a você, realmente entende muito de futebol, o texto esta exelente , a altura do Magnífico Paulo Henrique !
Ass :Andressa do Vale *

sassarenks disse...

Belo texto! Infelizmente nesse país de m..., a inveja ainda é mais forte do que a admiração. Nesse país de m... é preferível ficar falando da lipo do Ronaldo do que da beleza do futebol do Paulo Henrique...

Vicente disse...

Muito bom o texto!

Só não acho boa a comparação com o Diego.
Na verdade, quando Robinho e ele surgiram, quase todos os comentaristas esportivos diziam que o Diego tinha mais potencial pq era muito mais completo.
Só começaram a colocar o Robinho um patamar acima depois da final com as pedaladas.

Ainda tem a diferença de que aquele time não chegava nem perto de ser tão badalado quanto esse antes dos títulos. Eu me lembro que no Santos x Palmeiras do Brasileiro de 2002 o Diego e o time todo foram vaiados na Vila.

RENE disse...

Magnífico texto. Conduziu o raciocínio como Ganso conduz a bola.
Parabéns.