sábado, 13 de março de 2010

Espelho, espelho meu

Se o outro tem mais dinheiro, penso que ele me esnoba. Se o outro é mais pobre, julgo-o preguiçoso.

O outro sempre está acima do peso. É um obeso patológico. Quando o outro está mais magro, deve ser anoxérico ou sofrer de bulimia.

Se observo alguém mais bonito, devem ser as plásticas ou fulano é um rato de academia. Se vejo alguém mais feio, tenho misericórdia deste coitado.

Se uma pessoa começa a falar de política, rotulo este militante de chato. Se a pessoa nunca aborda o tema, enxergo um alienado. No fundo, ambos são extremos da alienação.

Quando termina o dia, reclamo para a pessoa mais próxima que estou cansado. Realizo muito numa carreira sempre em evolução. O outro também diz o mesmo, numa gravidade maior. Ilude-se – pobre diabo! - que o problema dele poderia ser pior.

Se o outro compra o que não posso ter, provavelmente ele financiou a mercadoria. Se compra algo mais barato, a mercadoria é brega, fora de moda.

Os mais velhos são exatamente velhos, ultrapassados. Os mais novos não sabem coisa alguma.

Os que compram mais do que eu são consumistas. Os que não compram não são cidadãos.

Os que concordam comigo são politicamente corretos. Os que discordam são baderneiros, subversivos.

Se o outro age de forma incompreensiva, enlouqueceu. Caso tenha atitudes previsíveis, perco o interesse.

Os ambientalistas são eco-chatos, a turma do “não”. Os amigos do concreto armado e do progresso são oportunistas.

Quem trabalha mais, é um workaholic, alguém sem ambiente em casa, sem vida social.
Quem trabalha menos, é um vagabundo, provável explorador de outra pessoa.

Se o sujeito tem mais tecnologia à disposição, é um nerd. Caso tenha equipamentos mais antigos, é um homem medieval.

Quem toma mais remédios do que eu é hipocondríaco. Quem toma menos omite seus problemas, ainda não os descobriu ou se sente mal porque quer.

Quem dialoga sempre, penso que me aborrece por falar demais. Quem prefere ouvir, soa como um sujeito vazio, desinformado ou sem algo a dizer.

Quem tem mais diplomas na parede são intelectuais arrogantes. Quem pouco freqüentou a escola não tem cultura.

Quem viu, leu ou consumiu mais produtos culturais são eruditos metidos e incompreensíveis. Os que não lêem, vêem ou consomem o que eu compro são ignorantes dignos de pena.

Se o outro se alimenta melhor, é um radical macrobiótico ou vegetariano, fruto de modismos. Se o outro come pior, é culpado por se entregar aos fast-foods do shopping center.

Eu sou a medida. A saída para a felicidade do outro nasce e morre em mim. A meta de minha vida sou eu mesmo. As referências começam e terminam no mesmo sujeito. Eu!!! Não sofro de narcisismo tampouco me considero egocêntrico. Apenas sou melhor do que o diferente. Sou o homem contemporâneo.

Um comentário:

Bruna disse...

A maior característica da modernidade é individualização das relações e dos sujeitos.

Olhamos pro nosso umbigo, não percebemos que procuramos a liberdade subjetiva.

Saída não há.