segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Seis minutos

Ela levou seis minutos para fazer o que foi pedido. Ou melhor: o que foi dito a ela, porque fez à própria maneira. Depois, recebeu um abraço do pai e foi direta, como qualquer criança de sete anos:

- Pai, tô com fome! Quero pipoca!

Assim que esvaziou o saquinho, começou a contar detalhes do jogo. Ou melhor: falou de episódios específicos, sem organização cronológica, como se espera de todas as crianças desta idade. Citava nomes de colegas de time como se o pai tivesse intimidade com eles. Ou fosse parte da turma. O pai balançava a cabeça, sem duvidar de que uma interrupção naquele relato seria crime de pena capital.

Francamente, ninguém se lembrou do adversário ou do resultado. O pai, então, sabia o mínimo. Cumpriu a obrigação de ter as informações básicas como o nome da escola da filha. Exagero! Ah, ele sabia também que o time da filha foi goleado. Perguntou o placar para ela, que deu de ombros. Para que remoer certas dores que não foram sofridas? Aos sete anos, o que importa é jogar bola sem compromisso.

Aquele sábado à tarde era esperado há quase um mês. O time da escola faria a estréia em um torneio após seis meses apenas de treinos, duas vezes por semana. Houve um amistoso uma semana antes da estréia, mas a única jogadora da equipe não participou. Tinha outro compromisso inadiável, como um aniversário, com bolo, brinquedos, coxinhas, maravilhas e outras tentações para as crianças da primeira, segunda, terceira idade. A falta evitou traumas desnecessários, já que a equipe levou uma surra do adversário. Daquelas que derrubam técnico até de categoria juvenil.

O pai sabia que teria que correr da universidade para o local da partida sem qualquer distração, inclusive almoço. Um atraso, neste caso, soa imperdoável! Poderia perder o jogo, que não seria televisionado ou narrado em emissora de rádio. Nenhum site daria as informações minuto a minuto, e os jornais não dedicariam uma linha. O jogo valia a pena para um único tipo de torcida desorganizada: a dos pais.

Para o pai, hoje peladeiro de final de semana e que parou no funil do futebol profissional, a partida da filha era a mais importante, pelo menos dos últimos sete anos. Encerrou a aula no prazo – é professor – tomou um táxi e correu para o ginásio da Vila Belmiro.

Chegou antes da hora. O time se aquecia nas arquibancadas. Crianças de sete anos não se aquecem, na acepção técnica do esporte. Elas estavam aquecidas antes do treinador chamá-las, pois nenhuma esperaria sentada ou grudaria os olhos no jogo preliminar. Elas estavam juntas, entretidas em uma brincadeira de correr qualquer. Não havia nervosismo. Quem ficaria nervoso com algo que não precisa se preocupar em refletir ou planejar?

O professor conseguiu beijar a filha antes da equipe dela entrar em quadra. A menina estava assustada com o tamanho do espaço. A quadra era – chutando, com o perdão do trocadilho – quatro ou cinco vezes maior do que a área para o futebol na escola. Jogariam normalmente?

A menina começou no banco. Dois anos fazem muita diferença nesta etapa. A categoria era sub-9 – em outros tempos, mini-mirim -, e os adversários eram 15 centímetros maiores. Imagina a diferença de força. Ela era a única jogadora do time. Os demais eram meninos. Na outra equipe, outra garota solitária.

As duas foram alvo dos comentários dos corneteiros que estavam nas arquibancadas. Ainda mais na Vila Belmiro, em tempos de Marta, Cristiane e goleadas que o time masculino tenta reencontrar em futuro com cheiro de distância. Alguns adultos mais apressados, que consideram esporte o auge da competitividade, enxergavam, especulavam sobre o duelo das meninas. Os mais exagerados falavam em futuras Martas, sem ver as jogadoras. Se tivessem visto, não faria diferença.

A outra menina também ficaria no banco. Ambas entrariam no segundo tempo. Nesta idade, são três tempos de jogo. Os dois primeiros têm seis minutos; o último, o dobro.

A arma secreta de sete anos entrou na etapa combinada. O time perdia por 3 a 0. Não havia grandes chances de mudança no ritmo do placar. No final, a goleada não aconteceu em progressão geométrica, graças ao goleiro Vitor, pequeno milagreiro.

Nenhuma das meninas fez diferença no placar. Cobraram alguns laterais, acertaram passes e tentaram marcar os moleques. Mais correram do que pegaram na bola. A disciplina tática, expressão roubada dos medalhões soberbos do futebol profissional, não aconteceu como previsto. Ainda bem!

O duelo com a outra garota não aconteceu. Elas estavam em lugares diferentes da quadra, enorme para atletas daquela idade. Mas geraram comentários a cada vez que dominavam a bola. Nada digno de nota!

Assim que a partida terminou, a menina de sete anos saiu do banco e procurou a saída da quadra. Foi para o vestiário, como os demais colegas para ouvir palavras de incentivo do treinador. Palavras que serão esquecidas, mas que integram o ritual.

O time da escola tinha mais duas apresentações no torneio. Dez minutos depois, ela deixou o vestiário morrendo de fome e pediu uma pipoca ao pai.

Assistir a minha filha, em seu primeiro jogo, por seis minutos, é uma das experiências mais intensas que tive com ela. Não me preocupei com o resultado, assim como não me preocupo se ela vai seguir jogando bola. Ou praticando qualquer outro esporte.

Vê-la em quadra é vê-la viva. Vivendo! É vê-la dividindo uma experiência comigo e com os colegas, simultaneamente fascinante e profunda. Enquanto muitos gritavam orientações técnicas descoordenadas da arquibancada, apenas a incentivei. Sabia que ela não me escutaria, mas também tinha certeza de que acenaria durante o intervalo. Tenho convicção de que se sentia segura ao conferir a presença dos pais na arquibancada.

Fiquei ansioso como se estivesse na mesma condição de estreante. Emocionei- me ao observá-la pulsante atrás de uma bola. Descompromissada. Solta. Livre. Como toda criança. Como uma criança única.

Mariana talvez não se lembre com detalhes daquela tarde na Vila Belmiro. Adora futebol, torce para o Santos e continua no time da escola. Mas divide a atenção com o skate e a bicicleta. Como uma criança normal, varia as preferências. Encara tudo como a próxima brincadeira, sempre imprescindível, sempre inédita.

Para o pai dela, autor deste texto, a primeira partida é a lembrança marcada em ferro em brasa, assim como todas as outras ligadas à alguém que se ama no limite da dor. É sentimento indescritível que provoca a necessidade de ser posto para fora, como a transpiração em palavras. Palavras para ela, registrada em crônica.

3 comentários:

Marcia Leite disse...

Marcus,
Digo apenas, lindo!
Nâo consigo parar de chorar! rsr
Beijo

Pôxa, escreve um livro pra gente poder ter na cabeceira !bj

Érika Pereira disse...

Lindo! Simples assim, lindo!

Zuleica disse...

Marcus Vinicius,
Os filhos são caixinhas de surpresas a serem descobertas durante toda a vida.
Muitas vezes a jogada não é a que gostaríamos de ver, pois a bola não rola para a rede, mas em outras, a jogada nos emociona e traz a certeza de que sempre é melhor tê-los na equipe. Goooollll!!!