sábado, 16 de janeiro de 2010

Os porcos clonados



Os avanços científicos nos permitem ver nas ruas – na mesma velocidade da dúvida e da surpresa – os resultados antes presos nos laboratórios. A popularização da ciência nos traz a convivência pacífica com certas novidades, que mudam nosso cotidiano sem que se perceba a chegada de um mundo novo.

As duas áreas com maiores possibilidades de impacto na vida humana, segundo os especialistas, são a genética e a neurociência. Combinadas, podem alcançar a cura de diversas doenças. Separadas, abrem o leque de perguntas e respostas para as questões elementares da vida.

Uma delas sempre me deixou intrigado: é possível gerar novas formas de vida com o cruzamento genético das pré-existentes? Exemplo: entre os animais, o foco foi a clonagem. Dos ratos à ovelha Dolly.

A questão é que a ciência se constitui de uma série de avanços e retrocessos. Uma experiência que não funcionou foi a clonagem de porcos. Como os cientistas ainda não detectaram os erros cometidos ao longo da pesquisa, as conseqüências da criação da nova espécie se mostraram imprevisíveis.

Com gastos exorbitantes, os laboratórios viram como solução o sacrifício de muitos destes animais. Outros foram parar no mercado negro e entraram no cotidiano dos seres humanos comuns, por extravagância, dinheiro ou bizarrice. E se multiplicaram. Eles são chamados de novos animais, pois a comunidade científica internacional não definiu o nome científico, quanto mais a denominação popular. Em certas cidades, receberam o apelido de porcos clonados.

Como seres domésticos, os porcos clonados se adaptaram a diversas comunidades de humanos. E, com o tempo, conseguiram adquirir alguns hábitos deste novo universo, sem abandonar suas raízes suínas.

Este ano, e ainda não terminamos o primeiro mês, me deparei com três deles, em situações diferentes. À distância, pude observá-los e perceber certo grau de selvageria capaz de me enojar. Confesso que tenho dificuldades de entendê-los. Não são porcos. Não são humanos. Os mutantes caem no limbo, na lixeira da história da ciência.



O primeiro dos porcos clonados saía de um carro. Andava apressado, irritado com qualquer problema sem maior importância, provavelmente. Irritar-se com questões pequenas da medíocre rotina diária é característica que vinga em alguns destes animais.

O porco entrou no prédio onde morava e retornou cinco minutos depois. Antes de entrar no carro modelo popular, retirou um papel de propaganda de farmácia do pára-brisa, fez uma bolinha de papel e a atirou no pé de uma árvore. Sabe-se que muitos porcos clonados têm dificuldades de entender o conceito de preservação da flora. Ainda mais quando há uma lixeira a um metro da mesma árvore transformada em depósito de papel. Da celulose á celulose, diria um ambientalista.

O segundo porco era mais sortudo. Seu dono tinha carro importado, daqueles com preço na casa de seis dígitos. O veículo, de cor preta, tinha os vidros filmados, o que me impedia de ver como era o chiqueiro em que o porco ficava.

Como notei que havia um porco lá dentro? Esperava para atravessar a avenida quando o semáforo mudou para vermelho e o tal carro preto parou. Em menos de cinco segundos, o porco – ou seu dono – conseguiu descer o vidro, atirar uma lata de cerveja no asfalto, e fechar a janela novamente. O carro saiu antes que pudesse identificar quantos porcos havia lá dentro.

O último porco que vi é o mais comum. Você pode não vê-lo sempre, mas tem que desviar do resultado. Esta mutação homosuína é capaz de controlar outros animais a ponto de passear com eles pelas ruas. Cachorros, principalmente. Neste caso, o porco clonado entende – quem sabe por traço genético? – que a rua é uma repetição de seu chiqueiro. Assim, permite que o cachorro – mero cumpridor de ordens – espalhe cocô pelas calçadas.

O porco-condutor é incapaz de recolher os dejetos. Estudos preliminares indicam que talvez ele não saiba puxar a coleira e carregar uma sacola plástica ao mesmo tempo. Os resultados desta disfunção genética parecem se multiplicar como coelhos – metáfora para mencionar alguém que não é desta história - pelas calçadas da cidade onde moro.



Santos, aliás, tem uma lei que prevê multa para o ser humano que deixar as fezes de seu cachorro na calçada. Ninguém foi multado até hoje. Por ingenuidade ou ironia, acredito que a falta de multas se deve ao fato de que os seres humanos recolhem as fezes com regularidade. A lei continua inócua, inclusive porque ela não vale para os porcos clonados.

Diante de centenas de episódios semelhantes aos relatados aqui, militantes de várias frentes sociais pretendem elaborar manifesto para que seja proibida qualquer relação entre porcos clonados e suínos. O primeiro passo é impedir que esta nova espécie seja chamada de porco.

Mas surgiu um problema: ninguém conseguiu pensar em sugestão de nome, o que perpetua o termo. É uma ofensa aos porcos originais, que sempre tiveram a decência de sujar somente seu próprio espaço, o chiqueiro.

Um comentário:

Marcia Leite disse...

Marcus,
Adorei as ilustrações!!Só você mesmo para esta façanha!!
De novo , parabéns!
beojo.
Marcia