quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O homem-viagra

O prédio fazia parte de um conjunto habitacional popular, daqueles erguidos com material de segunda e à toque de caixa para garantir a eleição do coronel da cidade. Bom … no pacote eleitoreiro entrava o sargento do bairro, policial-candidato à vereador.

Depois de cinco anos, a fachada do edifício estava desbotada, e o jardim da entrada carecia de manutenção. Na área interna, as paredes perderam a luminosidade da tinta original, completamente entregues às manchas de infiltração, de dedos sujos (de adultos, diga-se) e de fitas isolantes dos recados mal escritos e devidamente ignorados. Em muitos andares, as paredes estavam descascadas sem previsão de uma reforma, ao menos de emergência.

Foi ali que Paulo Roberto resolveu morar logo depois do casamento. A conta bancária não sustentaria uma prestação maior. As despesas da festa de casamento, do apartamento financiado e da vida cotidiana longe da casa dos pais faziam com que a rotina de representante de empresa farmacêutica fosse ainda mais puxada.

A esposa não podia trabalhar. Gravidez de risco. Paulo cuidava das finanças, com visitas a farmácias, mas principalmente aos consultórios médicos, onde se sentia no controle. Da timidez da sala de espera ao bom rebolado no consultório.

Era fácil convencer os médicos a adotarem e recomendarem certos remédios. Bastava uma composição de lábia, algumas piadas e, dependendo do sujeito, a promessa da viagem de final de ano para um resort paradisíaco, com tudo pago pelo laboratório. O passeio era para poucos, mas a fórmula de persuasão fora testada e aprovada, sem contra-indicações.

O terreno pantanoso era a própria residência. Na verdade, o prédio onde morava. Sentia-se em um asilo, pois a maioria dos moradores passara dos 65 anos. Ali, ao invés de clientes em potencial, via adversários. Adversários em fim de carreira.

Quer dizer: eles o viam como um forasteiro, como alguém que perturbaria a ordem tediosa da comunidade. Eram quatro andares, sete famílias, seis com idosos. O apartamento 32 foi desocupado na semana em que Paulo se mudou, pois o vizinho morrera na sexta parada cardíaca. Valia a discrição, mas ninguém deu falta.

A imagem do novo vizinho começou a mudar quando ele passou a exercitar a velha mania: fazer limpeza geral no apartamento e jogar muitas coisas fora. Mania porque despejava no lixo objetos em excelente estado, novos ou com defeitos quase imperceptíveis. Ele via como mudança de ares, mesmo que fosse apenas um jogo de pratos. A prática acontecia aos sábados à tarde ou aos domingos pela manhã. Dependia do nível da irritação por estar em casa.

Cada vez que descia com sacolas para o lixo, o alarme da vizinhança emitia um código silencioso. Bastava que fechasse a porta de casa, que os vizinhos desciam para remexer no lixo. Copos, pratos, talheres, quinquilharias para casa, tudo redecorava os demais apartamentos.

Numa destas faxinas, Paulo Roberto se livrou de dezenas de sacolas vazias – de qualidade, por sinal – do laboratório farmacêutico. Uma senhora as recolheu e aumentou os lucros do bazar da igreja do bairro. Cada sacola saiu a R$ 1. O logotipo em inglês passava fácil por griffe de shopping.

O lixo, transformado em decoração de última hora, serviu de passaporte para que Paulo Roberto fosse cumprimentado pelos outros moradores. Alguns até puxavam papo no hall do prédio. Numa ocasião, um vizinho comentou que estava com dificuldades no casamento. A idade não permitia mais aquele furor da madrugada.

Paulo achou intimidade demais. Ficou com esta história na cabeça por dias e concluiu: - Isso se resolve fácil.

Na semana seguinte, ao encontrar o mesmo senhor, deu a ele algumas pílulas azuis e recomendou: - Não tome mais do que uma! E cuidado com o coração.

Para Paulo, a gentileza saiu de graça, pois aquelas pílulas vinham da empresa como amostra e eram inúteis para ele. Para o vizinho, a retomada de uma vida que julgava enterrada.

A pílula fez mágica! Atendeu ao desejo, à maneira de cada um. Como a notícia se espalhou, a campainha do apartamento de Paulo passou a tocar nos horários mais impróprios: meia-noite, seis e meia da manhã de domingo. Uma vez, Paulo socorreu um vizinho há quatro da manhã do primeiro dia do ano. No Carnaval, antes de viajar, teve que deixar pílulas na caixa de correio.

Se quisesse, Paulo não precisava almoçar mais em casa. Bastava revezar a refeição nos demais apartamentos. Tinha que recusar convites para batizados, enterros, aniversários de netos, churrascos na área de serviço para garantir o final de semana com a esposa.

O representante de laboratório farmacêutico, sempre uma figura anônima nas salas de espera de consultórios, se sentia uma celebridade no prédio. A fama se espalhou pelo resto do conjunto. Não pagava mais pão e leite na padaria. Salvou o casamento do dono, além de colaborar para que ele tivesse uma amante 15 anos mais nova. Na banca e no açougue, pagava no fim do mês. Comprava fiado.

A pílula azul o transformou no curandeiro do local. E para a família toda. Eram remédios para dor de cabeça, aquele xarope para a tosse do moleque, a garantia de uma digestão tranquila depois da feijoada de sábado. O remedinho da pressão que custava uma fortuna! Dava até conselhos informais de prevenção a certas doenças. Indicava médicos de confiança e remédios em promoção.

No mês passado, recebeu um telefonema da empresa. O diretor regional informava que, devido a nova política de remanejamentos, Paulo Roberto seria transferido para o Vale do Ribeira. A mudança era para ontem. Lá, teria um salário maior e moraria numa casa com o aluguel pago pela firma. Um carro também ficaria livre para que rodasse pela região. A oferta irrecusável para o endereço pouco requisitado.

Paulo ficou sem rumo, mas acatou a mudança. Teria que pensar na carreira e não tinha proposta mais consistente. Como o filho nasceria em breve, conversou com a esposa. Mudaram-se na semana passada. Avisaram apenas os mais chegados, pois não desejavam festa de despedida.

No dia seguinte, a crise no prédio! Um recado deixado pelo síndico nas escadarias foi lido e comentado pela primeira vez. Paulo foi embora sem se despedir. O assunto do dia, pelo menos. Alguns até comentavam – a boca pequena – as possíveis teorias da mudança.

Os mais religiosos diziam ter perdido o anjo da guarda. Os sensatos lembravam as filas do sistema público, tortura que julgavam extinta por causa do vizinho-fornecedor. Os fiéis da pílula azul sabiam o que comprar e o ponto-de-venda, mas temiam ser descobertos por esposas e amantes ou desequilibrar o orçamento, já que não entravam na farmácia há tempos.

No Vale do Ribeira, Paulo Roberto não tinha um condomínio para conquistar. As casas em volta eram imóveis-dormitório de quem trabalhava em outras localidades. Depois das nove da noite, silêncio absoluto para uma nova (velha) vida obscura e anônima.

No prédio onde morou, todos se recolhiam mais cedo, em luto, mas também por não ter o que fazer durante a madrugada, exceto virar para o lado e adormecer. Para que tocar a campainha do vizinho a essa hora da noite?

Nenhum comentário: