terça-feira, 12 de janeiro de 2010

The Blues Brothers - a nostalgia da música

O filme estava lá, no meio de uma gôndola, à espera de alguém que o ressuscitasse. È como o velho roqueiro que ainda deseja uma dose de glória, para alimentar o físico e a vitalidade de tempos passados. Ou o filme aguardava um espectador em crise de nostalgia? Ou que fosse apaixonado por rock e blues. Ou estivesse com saudade de uma comédia com o compromisso básico do gênero: fazer rir!

Como eu me encaixava em todas as alternativas, peguei emprestado The Blues Brothers, aqui mal traduzido como Os Irmãos Cara de Pau. È retomar o eterno prazer do rock e do blues com certo grau de pureza, se é possível classificar assim este som que nos anestesia. A dose de entorpecente que o filme nos dá é daquelas que nos balançam por dentro e nos fazem perguntar: por que gosto deste gênero musical? Por que cutuca meus sentimentos, angústias e ansiedades?



The Blues Brothers é um misto de comédia e musical. Bom … alguns números musicais dentro de uma história engraçada. Simples, mas com piadas que jamais apelam para a escatologia ou o preconceito barato. O filme é como um bom rock: transgressor, livre e irônico com o conservador e o politicamente correto. Só para enumerar três qualidades!

O filme é dirigido por John Landis e co-escrito por Dan Aykroyd (Os Caça-fantasmas). Landis dirigiu vários filmes com Eddie Murphy nos anos 80 e 90, como Trocando as Bolas, Um príncipe em Nova Iorque e Um Tira da Pesada 3. E fez ainda um clássico do terror: Um Lobisomem Americano em Londres, de 1981.

Aykroyd e Landis contam uma história singela, que serve à música e aos músicos. Jake Blues – interpretado por John Belushi (falecido), no auge na forma – sai da cadeia depois de três anos, com USS 25 no bolso. Na porta da prisão, o irmão Elwood (Dan Akroyd) o espera em um ex-carro da polícia, adquirido em um leilão municipal. O blues móvel está em pedaços, mas tem motor competente, o que vale para ambos.



Jake e Elwood se vestem da mesma maneira: surrado terno preto, velho chapéu da mesma cor, camisa branca e gravata. Tirando o chapéu, os dois poderiam integrar a equipe de humoristas das segundas à noite, na Band.

No filme, os irmãos blues cumprem a promessa de visitar o orfanato onde cresceram, assim que Jake saísse da cadeia. A freira afirma que o local pode ser fechado por causa da dívida de US$ 5 mil em impostos. Jake resolve reunir a banda The Blues Brothers, que havia se dispersado após a prisão dele. Daí, a história segue, com a inclusão de grupos que acabam lesados pelos irmãos como uma banda cafona de country music, a polícia e os membros do partido nazista de Chicago, todos retratados em tom de picardia.

Os momentos e os personagens absurdos não incomodam. Ao contrário, são combustíveis para a sátira e a trilha sonora. O recheio é de sequências de ação, que nada devem – respeitando as diferenças tecnológicas – aos atuais filmes. No caso de The Blues Brothers, comprova-se que perseguições e batidas de carro são especialidades dos norte-americanos. As sequências são ágeis, tornam o absurdo crível e provocam o riso pela melodia da trilha.

As participações especiais são tão maravilhosas quanto discretas para o andamento do roteiro. Cada convidado com direito a uma música. Ray Charles é o dono da loja de instrumentos que vende equipamentos à banda. James Brown faz o pastor batista que ilumina o caminho para a reunião do grupo. Aretha Franklin é dona de restaurante e casada com um dos guitarristas. E o bluesman John Lee Hooker canta na rua, por uns trocados, em frente ao restaurante de Aretha.

O elenco de apoio também massageia a memória. O falecido comediante John Candy faz um policial. E Carrie Fisher, a princesa Léia (Star Wars), é a mulher que persegue Jake Blues. O filme teve uma sequência em 1998, mais fraca do que o original. Este, aliás, basta em si mesmo!



Ver The Blue Brothers é seguir por uma estrada de seguidas homenagens ao rock e ao blues. Ali, prega-se a paixão pela música, sem a venda da alma para o mercado, com tendências tão oportunistas quanto efêmeras. Ali, enxerga-se o cinema e o rock como linguagens à serviço da liberdade e da contestação, ainda que em formato satírico. O riso, por vezes, penetra mais nas entranhas do que um discurso professoral e moralista. Soa mais verdadeiro. Ali, percebe-se como a cultura negra impactou com profundidade a música pop dos Estados Unidos a partir do século XX.

The Blues Brothers é de 1980. Abre a década, e carrega a herança e os resquícios positivos das décadas anteriores. Para mim, uma sessão de saudade de rock, que poderia cometer o erro de classificar como “do meu tempo”. Mas sempre desconfiei desta expressão, que anseia nos matar em vida.

Depois, os clássicos ganham este título porque resistem às mudanças de humor da cultura, do tempo e do espaço. Os clássicos, como The Blues Brothers, ultrapassam o reconhecimento da análise e da crítica posteriores. Não conhecem os rótulos das gerações, dos guetos e das tendências.

A trilha sonora de The Blues Brothers é a contaminação gradual que começa com a batidinha de pé quando se está sentado no sofá, passa para o movimento de corpo e se alastra pelo desejo de ouvir o cd e – quem sabe? - dividir o filme com quem não o conhece ou o instalou em qualquer gaveta empoeirada das lembranças. È como um velho roqueiro que sobrevive à nova moda, pois a obra dele é maior do que os julgamentos de quem não o conhece como símbolo, como mensagem.


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Uma observação: para quem não conhece The Blues Brothers ou deseja relembrá-lo, há vários trechos disponíveis no You Tube. Basta digitar o nome do filme em inglês.

Um comentário:

Eduardo Cavalcanti disse...

Marcão, esse filme é tão bom que continua influente - basta ver o CQC, como vc bem lembrou. Não é um filme de rock, propriamente, mas de rhythm and blues. Mais que isso, é um grande e demolidor sketch do Saturday Night Live, onde o Belushi e o Aykroyd se graduaram. Nem precisa ter nostalgia por esse filme, porque ele é tão atual quanto sempre. Mostrei para os meus filhos e eles não viram como relíquia dos anos 80, mas como uma comédia contemporânea (o que eles acharam que era, na verdade). Do mesmo jeito que os filmes do Monty Python. Que, aliás, se vc me permite a sugestão, dariam outro ótimo post.