sábado, 9 de janeiro de 2010

Avatar - a ditadura da forma

Quando houve a crise de 1929, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, o mundo econômico sentiu pela primeira vez o impacto internacional de um tropeço do capitalismo. Até então, as dores eram localizadas. Depois de 1929, os Estados Unidos passaram quatro anos duros, conhecidos como A Grande Depressão. O único segmento da economia norte-americana que se consolidou como indústria foi o cinema. Naquele momento, foram forjados os alicerces do que seria Hollywood.

A crise econômica que o mundo globalizado atravessa desde o final de 2008 apresenta semelhanças com o cenário de 1929, mas traz inúmeras diferenças. Como o objetivo não é destrinchar a história econômica recente, vale dizer que a indústria do entretenimento, principalmente cinema e video-games, vão muito bem, obrigado. Na hora da tristeza, entreter é o remédio de efeito imediato. Hollywood estima atingir o recorde de US$ 10 bilhões em 2009, apenas nos EUA e Canadá.

A indústria cinematográfica, antes de dar sinais de evolução por tendências, crava um marco. Indica um referencial para o próximo passo do setor. Em outras palavras: embora haja planejamento, um blockbuster precisa arrebentar com tabus para sinalizar o tipo de produção que deverá prevalecer pelos anos seguintes. Avatar, de James Cameron, é o sinal, a placa que aponta a estrada a ser trilhada pelo cinema industrial em um futuro próximo. É a tecnologia no controle de todas – e não mais em parte - as ações de cinema.



Avatar é um filme belíssimo! Visualmente, é uma obra-prima, que poderá servir – momento de evitar profecias – de marco para a linha visual das produções. As cores chocam numa sequência catártica de elementos visuais milimetricamente casados. Formas de vida, movimento, tem-se a impressão de sentir a textura da vegetação e dos animais na tela. E não falo do 3D.

O filme, que rendeu mais de US$ 1,1 bilhão no planeta, entorpece como se fôssemos crianças dentro de uma loja de brinquedos. São luzes, sombras, sons que servem como personagens e condutores de narrativa. Algumas formas de vida do planeta Pandora parecem reais. No fundo, inspiradas em espécies existentes, fato comum em produções de ficção científica.

James Cameron gastou US$ 400 milhões para produzir o filme. A bilheteria, no momento da produção deste texto, é a segunda da história. Avatar perde somente para Titanic (1997), do mesmo diretor.

No entanto, Avatar não está à frente de seu tempo, como deseja propagar a estratégia de marketing em torno do filme. É evidente que aparecem novidades tecnológicas, e aí se encerra a primeira tendência indicada pela produção. A produção de Cameron é fruto do momento contemporâneo, da supervalorização da forma, do pensamento sob efeito de sedativos e da construção de uma mitologia reciclada por meio de estratégias extra-filme.

O visual deslumbrante esmaga o conteúdo com a força dos custos financeiros que cercam a obra. Tudo está à serviço da imagem e da velocidade de propagação dela. Narrativa, diálogos, trama, personagens, conflitos, clímax, desfecho, todas as características do filme se rendem ao impacto das imagens.



O apelo mercadológico é outro ponto importante. O meio ambiente entrou de vez na pauta pública, mesmo que nas bocas e nos bolsos dos ambientalistas de boutique. O filme finge um diálogo com o público sobre o assunto. O produto ouve e devolve a mesma fala, numa ilusão de frases novas. É dizer a mesma coisa que o outro com palavras diferentes. E lucrar com a falsa sensação de avanço da indústria.

Na ditadura da forma, vale o discurso, esqueça a ação. No entretenimento, vale explorar o tema com delicadeza, sem tomar posição ou ser panfletário. Ideologia – que não seja a do Deus-mercado – atrapalha o desempenho de um blockbuster, claro. E o espectador engole a mensagem, mas sem pensar sobre ela.

O pano de fundo de Avatar é a temática ambiental, mas o filme não a assume como fio condutor. Os americanos tentam explorar Pandora, que possui uma fonte de energia inesgotável. Este metal salvaria a Terra, planeta inabitável pela própria ação do homem. No local, vivem os Navi'i, povo em sintonia com a natureza e guardião indireto do metal. Na prática, a batalha entre exploradores e primitivos.

Cameron, ao esconder de forma proposital o assunto, escreveu uma trama esquemática, previsível e de final óbvio, com sequência à vista. A história, que se torna secundária diante dos elementos visuais, é uma réplica de outros roteiros de ficção científica. Réplica redundante, sem o pudor de adaptar algumas coisas.

Avatar é uma metáfora de um filme tradicional de faroeste, se o espectador entender os brancos norte-americanos como expansionistas atrás do desenvolvimento e de um metal precioso. O povo de Na'vi – se mudarmos a cor azul para vermelho – ficariam perfeitos no papel de índios, vistos como primitivos, selvagens, místicos e sentimentalóides demais pelo branco explorador. Obviamente, o rótulo de selvagem se inverte conforme ficam expostas as intenções e comportamentos de ambos os lados. George Lucas afirmou, há 30 anos, que a saga de Star Wars era uma metáfora do faroeste americano.



A narrativa não surpreende, assume a estrutura convencional, linear. È natural que Jake Sully (Sam Worthignton – O Exterminador do Futuro 4, na foto acima), o enviado para se infiltrar entre os azuis de três metros de altura, se sensibilize com a causa Na'vi e se conecte emocionalmente com a principal jovem do lugar.

Os demais personagens também seguem estereótipos tradicionais, como a cientista idealista e estudiosa dos Na'vi, interpretada por Segourney Weaver (Alien), e o coronel Quaritch, que respira guerra e sangue, vivido por Stephen Lang (Inimigos Públicos)(foto abaixo). Como em Titanic, alguns diálogos são primários, beiram a infantilidade e ressaltam os clichês.



É evidente que a ficção científica, calcada na perspectiva tecnológica para existir como gênero, jamais fale do futuro, e sim remexa nas vísceras do presente. Aí Avatar é perfeito, pois narra um problema contemporâneo, ainda que na retórica.

O filme de Cameron simboliza o retrato do momento mercadológico atual do cinema. Um blockbuster que arrebenta a porta das salas de cinema com um caminhão de dinheiro em marketing e distribuição. Um filme que desloca a concorrência, busca implantar o gosto único – apesar de fugaz - e se reforça com um pacote de quinquilharias para não ser esquecido. Com isso, forma seguidores fanáticos, adeptos do visual entorpecente quase paralisante.

Avatar carregará na bagagem estatuetas técnicas em quaisquer premiações que disputar, mas basta para tanto dinheiro investido? Basta pela lucratividade, e pouco importa que seja lembrado principalmente (ou somente?) pelos avanços tecnológicos. Duvido que seja comentado pelo roteiro, pelos personagens ou pelas atuações. Mas como fazer bom cinema ao abrir mão deles?

9 comentários:

Marcia Leite disse...

Marcus,

Comentário perfeito. Mesmo com um enredo batidíssimo, o filme é lindo e comovente!!Assisti com os meus sobrinhos na estreia e ou ver de novo hoje!Gostaria que você abordasse a preferência do herói pela vida do avatar. Na sua opinião: Fuga da realidade ou segunda chance ??

Digo isso, porque , no filme, o Jake era apenas o step genético do irmão gêmeo morto. Além disso,era deficiente físico,não intelectual, enfim, um estorvo para os padrões reais ( não representa minha opinião , apenas uma constatação ). Já no avatar, ele ressurge não só como um herói de corpo perfeito, mas como o líder de toda uma espécie e , ainda por cima, casa com a mocinha/princesa.
Assim eu também quero um avatar!!! Mas, daí tem que ter um príncipe. Adorei aquele dragãozinho voador!!
Beijo
Parabéns!

DanielBs disse...

Nossa.. Belo surpreendente texto.. Falastes tudo.. Não dá nem pra comentar por cima qualquer coisa.. discordar, ou "é isso mesmo"...

A única coisa que irei realmente rebater, não é o texto, mas sim o 2º lugar de AVATAR. AASsim como TITANIC, é dificil compreender isso. Senhor dos Anéis de longe é melhor, a história por si só é melhor... Mas claro, AVATAR surpreendeu a todos nós, por tudo.

Eu gostei demais do Filme, claro que a histórinha é aquela "POHONTAS" de sempre... Mas qual nao é? Só que até ai ser 2º Lugar... Até aceitavel.. Se o Senhor dos Anéis estivesse em 1º.

Opinião Pessoal? Pode ser... Mas se formos parar pra pensar... comparar a história em si... não tem comparação. Se formos comparar os efeitos visuais.. claro, AVATAR TA ANOS LUZ A FRENTE, até pq ele (assim como Matrix anos atrás) mudou o CONCEITO disso...

O Bom disso tudo... ? É q teremos oturos filmes inspirados em AVATAR.. só nao espero copia e NAO GOSTARIA DE SEQUENCIA... heehhehe

Abs.

Marcus Vinicius Batista disse...

Marcia, mais uma vez obrigado pelo comentário. Você já respondeu, de certa forma. A preferência pélo avatar também implica na prevalência da aparência. É uma vida muito mais glamourosa. E, para qualquer pessoa - ainda mais para quem vive da atividade física - perder a chance de andar é um fardo pesado demais. Beijo.

Gustavo disse...

Marcão!

Pelo que você descreveu, os efeitos da somatória de cores do filme nos espectadores são os mesmos que nos jovens que jogam, e se viciam, no jogo World Of Warcraft.

Assista District 9. Embora o filme não seja um clássico, acarreta numa sequencia de reflexões sobre a natureza humana.

Abs.

Deborah disse...

Oi Marcus,
Para mim o filme teve algo muito marcante. Há algo no filme que é visível e ao mesmo tempo sutil. É a questão de um resgate da nossa conexão com a natureza. A história pode ser uma releitura de faroeste, bandidos e mocinhos, mas acredito que definitivamente o ser humano começa a se reconectar com sua essência. Estamos interligados e interconectados a tudo e a todos.
Para mim esta é uma das mensagens mais importantes do filme, já que vivemos, ainda, num mundo que colocou durante muito tempo a natureza como um objeto a serviço do crescimento e nos afastou dos valores que realmente importam.
Gosto da ideia que ainda é possível resgatar essas conexões.
Vale conhecer o trabalho de alguns profissionais que buscam esse resgate como Walmir Cedotti (SP), Rosa Maria Viana (Goiania), Tkaynã (SP/Alagoas), João Signorelli (SP), Kaka Wera (SP) e tantos outros...Todos estes trabalham e trabalharam conosco na ACMD. Só para citar que podemos sair da telona e partir para ações que acontecem na prática.
Beijo,
Deborah

Marcus Vinicius Batista disse...

Gustavo, vou assistir ao District 9, definitivamente. Li textos a respeito e fiquei interessado. Temas como exclusão, xenofobia e intolerância aparecem em vários filmes recentes. Valeu pela dica!! Abraço!!

Marcus Vinicius Batista disse...

Deborah, muito obrigado pela mensagem. Conheço o Kaka Werá e suas ideias. Ele é uma pessoa demasiado interessante. Compreendo a ideia de conexão com a natureza e sei que muitos lutam para que isso aconteça. No entanto, é uma pena que ainda prevaleça a ideia de progresso, nascida no século XIX. Basta ver a política ambiental do atual governo federal. Discursos inflamados no exterior, progresso a qualquer custo dentro das fronteiras. Na cidade onde vivemos, ai de quem criticar a expansão imobiliária sem limites. Ninguém quer debater os problemas de infra-estrutura. Beijo.

Márcio disse...

Olá Marcão, tudo bem?

Gostei bastante do artigo, vi o filme e concordo com muitos dos seus argumentos sobre o filme.
No entanto, acho que o roteiro do filme traz aos espectadores boas referências, inclusive noções de história. Além da colonização, há no filme referências às últimas guerras promovidas pelos norte-americanos, principalmente esta última ofensiva contra o Iraque. Mesmo o filme tendo sido pensado antes desta guerra, é clara a crítica ao modo como o país invade outras culturas e as domina, com o propósito de reverter o balanço trimestral negativo da economia. Há também uma mensagem de respeito À religiosidade, referências à Arte da Guerra, e diversas outras críticas ao modo de vida que o ser humano está levando.
Sei que para muitos essas mensagens irão passar batidas, visto a beleza das cenas (confesso que chorei logo em uma das primeiras cenas, só pelo visual), e também acho que as continuações, sim, só servirão para dar lucros, já que há pouco a acrescentar de conteúdo ou mensagem.
Será este o futuro do cinema? Duvido. Acho que não há fórmula mágica, e os filmes com roteiros mais intimistas e atores e cenários "reais" ainda atraem muitos, como eu. Mas é uma alternativa válida, e digna de aplausos, mesmo com as críticas que também merece.

Christiano Flexa disse...

Pois é.... vamos lá. Pra não reclamar que não comento no blog! hahaha

Vi ontem o Avatar 3D. Assisti o filme direto, sem intervalo, na sessão das 22h e não senti. O visual do filme é impecável. As texturas, os movimentos, tanto dos Na'vi quanto da vegetação e dos animais, são absurdamente mais naturais do que qualquer coisa em CG que eu já tenha visto. Detalhe bobo, mas importante pra quem gosta desse tipo de coisa, é o movimento labial e a "realidade" dos dentes dos Na'vi.
Arrisco dizer que Avatar assume hoje o mesmo posto que Star Wars ocupou em sua época como avanço tecnológico para cinema.
Mas descontando tudo isso, o filme é mais um filme. A história não é ruim, mas também não oferece nada que já não tenhamos visto antes um milhão de vezes.
Podia ser melhor? Podia! O roteiro condiz com o avanço visual? Não, seria ótimo ver um avanço nas idéias tão grande quanto na tecnologia. Mas podia ser pior? DEFINITIVAMENTE!

Vejamos o lado de lá... James Cameron TINHA que fazer um filme vendável. Ele precisava introduzir a tecnologia, a "realidade" de Avatar, sem correr o risco de fracassar com o grande público. E, no fim das coisas, acho válido. Tem a lição de moral ambientalista, já batida, mas que tem seu valor..tem tudo o que um filme PRECISA ter pra dar certo. E deu.

Não vejo como se fazer sequências dele, e com certeza as que virão serão como os novos filmes de Star Wars, feitos para vender brinquedo. Mas hoje, Avatar cumpre seu papel.